PocketFab, Embraer e a arte de escolher o tamanho certo.
Por que a iniciativa da USP em microeletrônica não tenta competir com gigantes globais — e por que isso pode ser exatamente o seu maior…
PocketFab, Embraer e a arte de escolher o tamanho certo.
Por que a iniciativa da USP em microeletrônica não tenta competir com gigantes globais — e por que isso pode ser exatamente o seu maior acerto.
Por Bira Costa & ChatGPT

PocketFabs como microcervejarias digitais: não é preciso ser gigante para ser bom o suficiente.
Em um mundo em que a microeletrônica costuma ser discutida quase exclusivamente em termos de 5 nanômetros, inteligência artificial e data centers colossais, a Universidade de São Paulo anunciou algo que parece ir deliberadamente na direção oposta: a PocketFab, uma fábrica portátil de chips, com vocação para ensino, prototipagem e produção de pequena escala.
À primeira vista, a iniciativa pode soar modesta — quase tímida — diante da concentração extrema da indústria global de semicondutores. Mas talvez o erro esteja justamente aí: avaliá-la com a régua errada.
Durante décadas, o Brasil ocupou uma posição confortável — e ao mesmo tempo frágil — no ecossistema global de tecnologia: a de consumidor sofisticado, mas produtor marginal. Importamos computadores, celulares, equipamentos industriais, sistemas automotivos e, sobretudo, semicondutores. Pouco se discutia, fora dos círculos acadêmicos, o fato de que quase toda a inteligência eletrônica que sustenta a vida moderna no país vinha de fora.
É nesse contexto que o anúncio recente feito pela Universidade de São Paulo sobre a PocketFab merece atenção cuidadosa. Não entusiasmo automático, nem ceticismo reflexo. Atenção.
Porque, talvez, estejamos diante de um raro exercício de ambição calibrada — algo que o Brasil já fez antes, com sucesso, em outras áreas tecnológicas.
O falso dilema dos chips “avançados”
A indústria global de semicondutores vive hoje uma concentração extrema. Na fronteira tecnológica — processos de 5 nm, 4 nm e abaixo — o número de fabricantes reais cabe nos dedos de uma mão. A TSMC domina esse segmento, seguida à distância por Samsung e Intel. Empresas como NVIDIA, AMD ou Qualcomm projetam chips extraordinários, mas não os fabricam: dependem dessas poucas foundries.
Esse cenário cria uma narrativa sedutora, porém enganosa: a de que sem chips ultrassofisticados, não há relevância tecnológica. É uma narrativa conveniente para quem está no topo da cadeia — e paralisante para quem está fora.
O problema é que ela ignora um dado essencial: a maioria esmagadora da computação que sustenta o mundo não exige chips de última geração.
Os chips “simples” que movem o mundo
Aqui é necessário um ajuste semântico fundamental. Quando falamos de chips “simples”, as aspas não são um detalhe estilístico — são uma necessidade conceitual.
Esses chips não são simples no sentido trivial. São fruto de engenharia sofisticada, rigorosa e altamente especializada. O que eles não são é excessivamente densos, caros ou voltados para processamento massivo de dados.
Os chips “simples” estão em:
- eletrodomésticos;
- sensores industriais;
- equipamentos médicos (de marcapassos a monitores portáteis);
- infraestrutura elétrica (smart grids, inversores);
- sistemas automotivos (ABS, airbags, injeção eletrônica);
- automação urbana e industrial (PLCs, atuadores, controladores).
Eles operam, em geral, em nós tecnológicos maduros — 180 nm, 130 nm, 90 nm, 65 nm — e priorizam:
- confiabilidade extrema em ambientes hostis;
- previsibilidade temporal (determinismo);
- robustez térmica e elétrica;
- baixo custo unitário;
- longevidade de décadas.
Em outras palavras: eles resolvem problemas reais, em escala real.
Sem exagero, algo entre 80 % e 90 % das aplicações de microeletrônica no mundo se enquadra nesse perfil. Esse é o território natural de iniciativas como a PocketFab: circuitos analógicos e de potência, sensores integrados, microcontroladores robustos e ASICs para nichos específicos.
Um olhar histórico ajuda a colocar tudo em perspectiva
Um dos grandes pontos de inflexão da computação — o Intel 80386 — operava com cerca de 275 mil transistores, em tecnologia de 1 500 nanômetros. Ainda assim, viabilizou multitarefa, sistemas operacionais complexos e aplicações que redefiniram o uso do computador pessoal.
Hoje, muitos chips “simples” usados na indústria automobilística ou em automação possuem milhões de transistores, consomem menos energia e são incomparavelmente mais eficientes — mesmo estando longe da fronteira dos nanômetros.
A lição é clara: potência computacional relevante nasce da adequação entre problema, arquitetura e processo, não apenas da miniaturização extrema.
PocketFab: menos sobre escala, mais sobre ecossistema
Vista sob essa luz, a PocketFab deixa de parecer pequena e passa a se revelar como o que provavelmente é: uma infraestrutura de formação, experimentação e produção distribuída.
Trata-se essencialmente de um laboratório fabril de semicondutores, capaz de executar etapas críticas — fotolitografia, dopagem, deposição de metais, testes. Seu principal produto imediato não é o chip, mas o engenheiro que já tocou no processo fabril.
Não há, até agora, dados públicos sobre custos, volumes ou certificações. Isso não invalida o projeto. Apenas o posiciona corretamente: não como foundry de massa, mas como núcleo gerador de competência prática.
É a ponte entre o projeto teórico e a realidade física.
Microcervejarias, Ambev — e a importância de lembrar quem somos
A analogia com microcervejarias é esclarecedora, desde que feita com cuidado.
A Ambev é uma multinacional brasileira, altamente eficiente e globalizada. Não é “o outro” distante — é um exemplo nacional de sucesso em escala planetária.
As microcervejarias não existem para destroná-la, mas para diversificar, formar conhecimento, criar cultura produtiva e inovar fora da lógica da escala extrema.
Pensar as PocketFabs como microcervejarias da microeletrônica é reconhecer que conhecimento estratégico se dissemina melhor quando é praticado, não apenas centralizado.
Embraer: o exemplo brasileiro que desmonta o complexo de inferioridade
Há, porém, uma analogia ainda mais precisa: a Embraer.
A Embraer não compete com Airbus nem com Boeing em aviões de grande porte. Nunca precisou.
Ao escolher o nicho de aviões regionais e médios, tornou-se líder global. Desenvolveu engenharia de ponta e reconhecimento internacional sem tentar ser tudo para todos.
A produção de chips “intermediários” pode muito bem ser, para o Brasil, o que os jatos regionais foram para a Embraer. A PocketFab é a semente dessa possibilidade — formando as pessoas que poderão, um dia, operar e expandir uma indústria assim.
Microeletrônica como a medicina brasileira
O Brasil não lidera todas as fronteiras biomédicas, mas possui hospitais de ponta, profissionais altamente qualificados e inserção internacional respeitada. Isso foi construído com formação prática e infraestrutura distribuída.
A PocketFab é, nesse sentido, o hospital-escola do engenheiro de microeletrônica.
Os desafios no caminho do tamanho certo
Reconhecer o potencial não é romantizar o caminho. Os desafios são reais:
- Cadeia global de insumos sensível e geopolitizada;
- Economia de escala agressiva;
- Necessidade de demanda interna consistente;
- O vale da morte entre academia e indústria.
A PocketFab não resolve esses problemas. Mas, ao formar quem os entende na prática, cria a base indispensável para enfrentá-los.
Conclusão: escolher o tamanho certo é um ato de maturidade
A PocketFab não pretende resolver tudo — e isso é exatamente o que a torna interessante.
Seu legado pode não ser um chip revolucionário, mas uma geração de engenheiros sem medo da fábrica, capazes de dialogar de igual para igual com os gigantes globais.
Se der certo, não será porque competimos no jogo dos outros. Será porque, como a Embraer, as microcervejarias e a medicina brasileira, aprendemos a escolher o tamanho certo da ambição.
A pergunta que fica é simples — e incômoda: estamos prontos para receber e amplificar o sinal que a academia começa a emitir? Ou continuaremos esperando que a inovação chegue sempre embalada em contêineres?
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Sobre o autor
Meu nome é Ubirajara Costa. Sou brasileiro, casado, pai de menino e aposentado da área de informática após 35 anos de carreira. Moro em uma casa de dois andares em Campinas, uma cidade universitária — e, ultimamente, uma verdadeira fornalha — no interior de São Paulo, Brasil.
Divido meu tempo entre os passeios com nossa Golden, Amora; a leitura do jornal Estadão; o estudo de francês — esse idioma de sonoridade inebriante que um dia falarei decentemente, je le jure! — ; programar em Python, para não enferrujar; e bater papo com meus “amiguinhos”: as IAs generativas.
Foram eles, aliás, que me incentivaram a mergulhar no fascinante mundo dos blogs.
E, como bom apreciador de Jack Daniel’s com Coca Zero, a todos os amigos puristas que torcem o nariz ou protestam, eu digo, simplesmente: “Keep Walking!” 😎
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