O Nó da Legalização: O Brasil está pronto para debater a Cannabis?
Entre o potencial econômico do cânhamo e o impacto na saúde pública, o debate vai muito além do “prensado”
O Nó da Legalização: O Brasil está pronto para debater a Cannabis?

Entre o potencial econômico do cânhamo e o impacto na saúde pública, o debate vai muito além do “prensado”
“Caso a maconha fosse liberada hoje no Brasil, o que você faria?” perguntei a uma roda de pessoas atentas ao assunto. Alguns disseram que acenderiam um “baseado” e circulariam pelo cotidiano com mais tranquilidade; outros disseram que plantariam em suas próprias casas para consumo próprio, entre outras ideias que parecem inviáveis para a sociedade atual. E eu vou te explicar o porquê!
Do Medicinal ao Recreativo: O cenário atual no Brasil
A liberação do uso da maconha já acontece em alguns países, como Holanda, Alemanha e Canadá. Aqui no Brasil, ocorre apenas em partes. Ir ao médico alegando dores, insônia ou depressão, entre outras patologias, pode ser um caminho para ganhar a sua carteirinha de “posso usar”.
A Anvisa permitiu a prescrição de medicação à base de THC (princípio ativo da Cannabis sativa) para o tratamento dessas e de outras doenças. O que poucos sabem é que essa receita não é para qualquer maconha; trata-se do óleo mais conhecido como CBD (Canabidiol), no qual o nível de THC é baixíssimo (< 0,3%), causando apenas um leve “conforto” e, às vezes, sono, conforme relatam os usuários.
Você também pode ganhar na Justiça a autorização para plantar a sua própria mudinha. Diferentemente da maconha comercializada no tráfico (o famoso “prensado”), a planta cultivada adequadamente possui altos níveis de THC — o princípio ativo que causa aquele “bem-estar” que encanta os mais de 2 milhões de usuários pelo mundo (e esses números referem-se apenas aos usuários recreativos).
A Hipocrisia das Drogas Lícitas: O espelho do álcool e do vape
Pois bem, ter três drogas legalizadas no nosso cotidiano daria certo? Essa é a primeira pergunta que devemos fazer. O cigarro “normal” — digo isso porque o cigarro de maço tradicional está sendo substituído em massa por vapes (cigarros eletrônicos) — é muito consumido por jovens. Eles alegam que o vape não deixa cheiro ruim, mas ele mata tanto quanto o cigarro comum. Ele contém nicotina, causa dependência e a inalação de sua fumaça pode causar doenças cancerígenas vinculadas ao uso massivo do tabaco.
Depois, vem o álcool: a droga sociável. Ele está na TV, nas camisetas dos jogadores da seleção, na pizzaria. Enfim, está em qualquer lugar e mata, sozinho ou acompanhado, principalmente ao volante de veículos automotores. O álcool também está relacionado a grande parte dos casos de feminicídio, roubos e brigas; mas continua ali, no outdoor, com um(a) modelo bonitão/bonitona sorrindo com a cerveja.

Com essas duas drogas, nosso sistema de saúde já satura boa parte dos seus atendimentos devido a doenças, acidentes e traumas.
Com essas duas drogas, nosso sistema de saúde já satura boa parte dos seus atendimentos devido a doenças, acidentes e traumas.
Pé no Chão: Saúde mental e a ilusão do fim do tráfico
Agora, liberar a maconha assim, do dia para a noite (e, ao usar a expressão “liberar”, refiro-me ao uso indiscriminado), faria com que o cidadão pudesse sair fumando como se fuma um cigarro de nicotina.
Pontos a pensar: três drogas no nosso cotidiano não causariam um aumento gradativo em doenças relacionadas ao coração? O número de distúrbios mentais também sofreria um acréscimo. Não sejamos negacionistas: todos sabem que o uso exagerado e/ou compulsivo da maconha, principalmente entre jovens que estão com seus cérebros em formação, aumenta de 30% a 40% as chances de desenvolver depressão, esquizofrenia, entre outras doenças.
Muitos dizem que isso acabaria com o tráfico, diminuindo a violência nas fronteiras e as plantações onde, muitas vezes, encontram-se pessoas em situação análoga à escravidão. Eu não acho. O cigarro é liberado e existe tráfico e contrabando; basta ligar a televisão nos canais jornalísticos da tarde para ver notícias sobre isso.
O preconceito criado pela sociedade, que liga o uso de maconha ao sujeito vagabundo ou ladrão, está na boca da elite. Mesmo com a legalização, essas pessoas não mudariam de opinião. Pelo contrário: em uma entrevista de emprego, eles vão olhar suas redes sociais para ter a certeza de que você não é usuário ou simpatizante da “erva”.
O Caminho Regulatório: Economia, controle e a barreira política
Antes de legalizar, temos que adotar algumas atitudes e apresentar à sociedade os pontos que mostram os benefícios de sua abertura:
- Economia e Empregos: Nosso território tem um solo muito produtivo. Isso geraria muitos empregos, e não apenas no plantio, pois o cânhamo da planta é ótimo para a fabricação de tecidos resistentes. Para o Brasil, um país agroexportador, essa abertura impactaria positivamente a economia ao exportar para países que já aderiram ao uso.

- Modelos de Regulamentação: Um produto aceito é mais fácil de ser regulamentado. Se adotássemos modelos como o da Holanda, o usuário teria o direito de portar uma determinada quantidade e de fumar/comprar em locais específicos, como os coffee shops.
Avaliar o que está dando certo ou errado nesses países é a primeira etapa. A segunda é investir em um estudo sério sobre o impacto na saúde mental. Com a legalização, o Estado teria controle do que entra e sai. Assim, o usuário saberia exatamente o que está consumindo e poderia escolher, como se estivesse em um supermercado decidindo entre o arroz da marca X, Y ou Z.
Parece até conto de fadas, mas ter políticos envolvidos até os dentes com o tráfico e as milícias, infelizmente, afasta esse sonho.
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