Aviso de catástrofe. Uma leitura benjaminiana de Cosmopolitismo e rêverie de Maria João Cantinho
Por João B. Ventura
Aviso de catástrofe. Uma leitura benjaminiana de Cosmopolitismo e rêverie de Maria João Cantinho
Por João B. Ventura

Num aforismo do Livro das Passagens escreve Walter Benjamin que “o traço é a aparição de uma proximidade, por mais longínquo esteja aquilo que o deixou. A aura é a aparição de algo longínquo, por mais próximo esteja aquilo que a evoca. No traço, apoderamo-nos da coisa; na aura, ela apodera-se de nós”. Noutro livro, também composto por ecos luminosos do passado, aforismos, imagens e alegorias, reflecte Sobre o conceito da História.
Traço, aura e história constituem as três categorias centrais do pensamento de Walter Benjamin que Maria João Cantinho examina em Cosmopolitismo e rêverie (livro que inaugura a colecção de ensaios da editora The Poets and Dragons Society), em 3 textos sobre o filósofo alemão, e que aplica também nos restantes 5 textos sobre Paul Celan, Hermann Broch, Lou Andréas-Salomé, passando por Derrida e Eduard Fuchs, e que, em tempos marcados por políticas de esquecimento e constelações de perigos que emergem do passado, ameaçando cobrir de ruínas de guerra o mundo que julgávamos estável, se revela de leitura obrigatória.
E é, precisamente, partindo de um eco benjaminino que lhe chega desde a tese II Sobre o conceito da História — “em torno de nós próprios plana um pouco o ar já respirado pelos defuntos” — que no primeiro ensaio, intitulado “Cosmopolitismo em Walter Benjamin: entre o apelo das rêverie e a experiência do choque”, que a autora dá voz ao pensamento sobre Benjamin, esclarecendo como os traços (Spuren, em alemão), os rastros, os vestígios, os sinais da experiência [Erfshrung] do homem pré-moderno se apagaram, dando lugar à vivência [Erlebnis] efémera do homem moderno, privado de experiência, e movimentando-se anonimamente no meio da multidão.
É neste contexto do apagamento dos traços e da perda da aura do homem no dealbar do século XIX, que a autora, combinando, com concisão precisa e numa linguagem elegante, as correspondências de significados da dialética benjaminiana, inscreve-traça a sua própria experiência de leitora-interprete de Walter Benjamin.
Perseguindo o seu rastro numa obra fragmentária, heterodoxa e inacabada, mas que se revela de uma extrema actualidade nestes tempos conturbados em que o “Anjo da História”, inspirado na figura alegórica do quadro “Angelus Novus” de Klee, que motiva a reflexão de Benjamin até ao final da sua vida, volta a cravar o seu olhar estarrecido sobre o mundo onde uma cadeia de eventos — guerras na Ucrânia e na Palestina, a natureza enlouquecida pela acção humana, a fome — prenunciam a catástrofe total futura, tal como na sua dimensão profética as teses Sobre o conceito da História prenunciaram a tragédia de Auschwitz, Maria João Cantinho, sem quaisquer concessões redutoras, antes com um rigor fundamentado num notável aparato bibliográfico, abrindo passagens para a recepção por um público não especialista de um pensamento que “escova a História a contrapelo” e que visa, sobretudo, a compreensão da história humana.

De caminho, a autora persegue a figura baudelairiana do flâneur perdido no meio da multidão na Paris cosmopolita, vivendo a experiência onírica das ruas e das passages mercantilizadas — as “fantasmagorias” descritas no Livro das Passagens para “desconstruir e reorganizar o mundo empírico e o mundo histórico” -, e que constitui a categoria-chave com que Benjamin traçou o retrato do século XIX, do seu próprio tempo e que nos permite fazer também o retrato do nosso tempo, perdida que foi a aura e abandonados como estamos à mera vivência fugidia.
Em coerência com a metáfora benjaminiana, vemos passar nos “labirintos de tinta que embebem de tinta as páginas do livro” as figuras e tipos alegóricos da poesia de Baudelaire, o trapeiro, o jogador, a prostituta, os marginais, os heróis negativos “desencantados que apresentam em si o rosto da história da modernidade enquanto catástrofe”. “O mundo de Baudelaire, assombrado pelo espectro do progresso histórico, em que as coisas se apresentam como ruínas”, e onde o flâneur melancólico, ao invés de se afundar na alienação, busca a “decifração infernal dos sinais” transfigurando a experiência vivida na imaginação poética que dá lastro à obra de Benjamin iluminada por Maria Cantinho.
No segundo e terceiro ensaios, Maria Cantinho analisa o conceito de revolução em Walter Benjamin, explicando a sua natureza híbrida enquanto síntese de um processo de tensão entre o messianismo judaico e materialismo histórico e reconstitui a leitura de Derrida das “Teses sobre o conceito de História”.
O livro reúne ainda ensaios sobre Paul Celan, Hermann Broch, Lou Andréa-Salomé e Eduard Fuchs. Perguntar-se-á o que liga Walter Benjamin a estes autores? Desde logo, o facto de terem a sua origem na Mitteleuropa e também a natureza filosófico-literária da suas obras.
E Walter Benjamin liga-se ainda a Paul Celan por ambos terem nascido “sob o signo de Saturno: o astro da revolução mais lenta, o planeta dos desvios e demoras…”, e isso ter determinado a tragédia das suas vidas, vítimas do nazismo. Liga-os também o facto de Benjamin escrever ensaios poeticamente e Celan escrever poesia ensaisticamente. “Celan que não sendo filósofo, mas sim poeta, convocou o pensamento de vários autores, que perfilham uma mesma constelação de pensadores”, aproximando-se de Benjamin ao apresentar alegoricamente a história na figura do extermínio judaico, escreve Maria Cantinho. Um e outro, anjos melancólicos, vivendo na solidão irredutível que os conduziu à “morte (…) um mestre que ve[io] da Alemanha”, conforme o verso alegórico de Celan.
E liga-se Hermann Broch a Benjamin e a Celan pelo niilismo, num jogo entre a realidade e o onírico que os liga também a Kafka. E Lou-Andrea-Salomé, a mulher por quem Nietzsche e Rilke se apaixonaram e desesperaram, como revela Cantinho, liga-se a todos pelo “esplendor do que foi a sua vida, guiada por uma liberdade radical”. Finalmente, liga-se Fuchs a Benjamin pelo gosto de ambos pelo coleccionismo e pelas consequências da reprodutibilidade da obra de arte.
Eis o que escreve Maria João Cantinho nos 8 ensaios de “Cosmopolitismo e Rêverie”. Um livro cuja leitura aproveita tanto a conhecedores dos autores estudados como a um público não académico, abrindo passagens para entrar na obra de Walter Benjamin e dos restantes autores.
Um livro benjaminiano que surge num momento onde a tragédia da guerra nos avisa sobre o perigo da catástrofe futura.
Um livro que corresponde ao que Walter Benjamin escreveu em Rua de sentido único: “o trabalho numa prosa de boa qualidade tem três níveis: um musical, o da composição, um arquitectónico, o da construção, e, finalmente, um têxtil, o da tecelagem”. Ora Cosmopolitismo e rêverie tem tudo isto.
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