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Comunidade e Mobilização Social

Um bate-papo com Danielle Abreu, Analista Técnica do Sebrae/MA e Coordenadora do Mobiliza Slz

ETC | UFMA · 2023-12-05 12:03 · 1 claps · 19.5 min read
#economia-criativa #comunicação #comunidade #mobilização-social #maranhão
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Comunidade e Mobilização Social

Um bate-papo com Danielle Abreu, Analista Técnica do Sebrae/MA e Coordenadora do Mobiliza Slz

Elber Abreu e Danielle Abreu

Danielle Abreu e Elber Abreu em entrevista no ETC HUB. FOTO: Raul Pontes

Danielle Abreu e Elber Abreu em entrevista no ETC HUB. FOTO: Raul Pontes

Sou Elber Abreu e desde 2021, venho estudando economia criativa com o objetivo de criar um Hub de Inovação para essa área em São Luís (MA) como parte da minha pesquisa no Mestrado Profissional em Comunicação da UFMA.

Em colaboração com o Grupo de Pesquisa ETC, meu objetivo é criar um produto comunicacional que não apenas aprofunde nosso entendimento sobre a Economia Criativa, mas também se traduza em uma ferramenta tangível para fortalecer esse ecossistema em São Luís. Neste contexto, tive a oportunidade de entrevistar Danielle Abreu, especialista em Gestão de Pequenos Negócios, Marketing e Gestão Empresarial, além de ser Design Thinker pela Echos. Atualmente, ela desempenha o papel de analista técnica no Sebrae/MA, sendo responsável pelo Mobiliza Slz e a gestão de inovação, startups e economia criativa.

A trajetória profissional de Danielle Abreu é marcada por uma rica combinação de conhecimentos em turismo, gestão de negócios e design thinking. Sua atuação como analista técnica no Sebrae/MA, especialmente na Coordenação Estadual de Transformação Digital e Produtividade, evidencia seu comprometimento com a promoção da inovação e o fomento à economia criativa. No epicentro da mobilização social, Danielle coordena o Movimento Mobiliza Slz, uma iniciativa que transcende as fronteiras convencionais ao conectar diversos setores da sociedade em prol do desenvolvimento local. A seguir, ela compartilha sua visão sobre mobilização social, construção de comunidades, inovação, empreendedorismo, economia e criatividade, oferecendo ideias valiosas para quem se interessa pela dinâmica área da Economia Criativa em São Luís (MA).

Confira um pouco desse bate-papo. Aproveite!

Dani, qual sua história? Como chegou aonde está hoje (pessoal e profissionalmente)?

É sempre um prazer colaborar com o grupo de pesquisa, nosso parceiro do Mobiliza desde o ano passado. Sou de São Luís, nascida e criada na Ilha; filha de mãe paraibana e pai maranhense. Tenho 37 anos, sou casada, tenho uma filha de 6 anos chamada Betina. Minha trajetória começou no próprio Sebrae há 16 anos, foi meu primeiro emprego e onde estou até hoje. Gosto muito do meu trabalho, pois a missão do Sebrae é algo que apaixona, você conseguir impactar a vida das pessoas através do empreendedorismo é muito nobre e eu gosto muito. Eu comecei no Sebrae na Unidade Regional de Barreirinhas, trabalhando com o projeto de Artesanato. Essa paixão pela economia criativa começou em 2007, com mulheres artesãs que trabalham com fibra de buriti em Barreirinhas e em Tutóia. Foi uma experiência incrível e meu primeiro contato com a internacionalização. Até então, (o artesanato) era algo muito regional, que acabou indo para outros espaços e outros países, o que foi muito marcante para mim. Trabalhei também na área do Turismo, que é a minha formação e então pude aplicar na prática o que a gente vê na Universidade, o que foi muito importante também. No Sebrae, a gente costuma brincar que trabalhamos com uma espécie de bomba atômica, com todo tipo de projeto e temos que estar aptos a fazer o gerenciamento deles, independente da área. Então, já trabalhei no Atendimento e fui para a Inovação. Meu primeiro contato com inovação foi em 2015; da inovação, parti para Economia Inovação. Recebi essa missão de reestruturar a estratégia de atuação do Sebrae Maranhão nessas áreas. Inicialmente, minha ideia foi atender públicos que o Sebrae nunca tinha atendido. Então, daí que a gente começou a procurar pessoas que trabalham com artes visuais, com games, enfim, com o universo criativo. E a gente trilhou por um outro viés que não era diretamente o da cultura, que a gente já tinha atendido nesse outro projeto. E aí houve uma espécie de explosão, porque muita gente nunca tinha entrado no Sebrae, pessoas que achavam que o Sebrae não era para eles, que não se enxergava como empreendedores, uma coisa que a gente percebe muito até hoje é que o empreendedor da economia criativa ainda tem alguns conflitos em relação a isso. A área onde eu estou até hoje, na área de inovação, eu também atuo com a frente de startups e com Ecossistemas Locais de Inovação. Então a gente tenta fazer uma orquestra de todas essas áreas, o que tem sido uma experiência muito boa.

Quais são hoje as suas atribuições no Sebrae?

Eu atuo com projetos de Economia Criativa. Atualmente estamos com uma iniciativa, que vem desde 2018, que é o projeto Economia Criativa do Nordeste. Então nos nove estados do Nordeste, a gente executa as mesmas ações. Além disso, trabalhamos o atendimento ao público final, aos empreendedores, é um projeto que reúne todos os Sebrae do Nordeste. Buscamos capacitar os próprios gestores, prepará-los para uma atuação sinérgica, fazer mapeamentos e estudos, porque é uma área de atuação relativamente nova. E a gente precisa ter uma base, uma fundamentação e metodologias. Ao longo desse tempo, percebemos que boa parte das metodologias, entre aspas, de prateleira do Sebrae, não conversam com empreendedores da Economia Criativa. Esse público que quer ficar dentro de uma sala, quer uma solução mais flexível; então a gente vai tendo que fazer algumas adaptações para o perfil desse público, assim como para o público de startup também. Com isso, já desenvolvemos soluções mais próximas do público de startups e da Economia Criativa, estamos nessa caminhada, buscando casar as necessidades do público com o que a gente tem para oferecer, pois a forma de aprendizado é diferente e aí a gente vai testando muita coisa também; testa, não funciona, tenta de novo, refaz a metodologia, enxuga ou então distribui as horas (e o conteúdo) de uma forma diferente. E, nesse processo de testar, vamos aprimorando, ganhando aprendizados que nos permitem crescer e aprimorar a nossa atuação.

O que é o Mobiliza SLZ?

O Mobiliza SLZ é um grande movimento de fortalecimento do orgulho de ser ludovicense; de a gente conhecer e valorizar o que temos de melhor na nossa cidade. Estamos trilhando nessa onda há algum tempo com algumas marcas, influenciadores digitais, pessoas que estão trabalhando no sentido de mostrar o que tem de bacana aqui, e o Mobiliza vem para somar em relação a isso. A gente ouve muito as pessoas falarem mal da nossa cidade sem a conhecerem, de fato. “ — Ah! São Luís não tem nada para fazer!”. Eu fico louca quando eu escuto alguém dizendo isso. Por exemplo: esse final de semana, eu vou viajar e já listei a quantidade de eventos que vou perder. Tem mais de cinco eventos, todos no mesmo dia. Isso mostra que, em São Luís, tem sim, muita coisa acontecendo. Outra coisa que eu escuto muito é “ — Danielle, onde é que tu descobre esse tipo de coisa?” Gente, é só você ficar atento! Você tem que ficar ligado e perceber realmente que São Luís está mudando nesse cenário, tanto da cultura quanto da Economia Criativa.

Em 2023 aconteceu a 3ª edição do Mobiliza Slz, com diversas ações descentralizadas em toda cidade. Para saber mais confira o site: https://mobilizaslz.com.br/

Em 2023 aconteceu a 3ª edição do Mobiliza Slz, com diversas ações descentralizadas em toda cidade. Para saber mais confira o site: https://mobilizaslz.com.br/

E como é feito o Mobiliza? O que vocês fazem?

Então, isso está mudando. No início, a gente fez uma mobilização ativa. Ativamos a ‘cara de pau’ e fomos conversar com as pessoas, convidando, mobilizando, querendo conduzir um movimento aqui na cidade em prol do Empreendedorismo, do Turismo, da Cultura, da Economia Criativa. A gente chegava para o empreendedor e perguntava: — “você quer participar junto conosco, não precisa pagar nada, você organiza uma atividade, mostra o que você sabe fazer. Quer estar junto?”. Quero! Foi assim no começo. Hoje, alguns ainda tem dificuldade de entender como é que funciona. E a gente percebe, já na terceira edição, que as pessoas estão começando a compreender o que é o Mobiliza e como o movimento impacta a cidade. “Ah!, mas eu tenho que organizar um evento?”. Não necessariamente, você pode fazer uma mostra do que você já faz de costume, oficinas, palestras, uma exposição com coisas que você já tem, sem precisar de grandes investimentos financeiros. Ah!, e o Sebrae vai organizar atividade por mim? Não, as atividades são independentes, cada um faz a sua, o nosso papel é dar visibilidade a isso, mostrando o que aquele empreendedor está fazendo, para que ele não fique só ali naquele grupo, naquele isolamento que a gente costuma ver. A partir de agora, na terceira edição, a gente já não teve que fazer tanto essa busca, as pessoas começaram a vir para o Mobiliza espontaneamente; esse ano, tivemos uma virada de chave pra gente, porque as pessoas, os criativos, estão começando a exercer a via da mobilização, de fato.

Em 2022, durante a segunda edição do Mobiliza SLZ, o ETC marcou presença realizando a oficina: Impulsionando a Economia Solidária através das plataformas digitais, voltadas prioritariamente às artesãs do CRESOL MA(Centro de Referência Estadual de Economia Solidária do Maranhão).

Em 2022, durante a segunda edição do Mobiliza SLZ, o ETC marcou presença realizando a oficina: Impulsionando a Economia Solidária através das plataformas digitais, voltadas prioritariamente às artesãs do CRESOL MA(Centro de Referência Estadual de Economia Solidária do Maranhão).

Quais são os desafios enfrentados pelo Mobiliza SLZ?

Tem um desafio que se repete desde a primeira edição, que é isso do entendimento (sobre o próprio movimento). Muita gente acha que o Mobiliza ou o Sebrae vão aportar recursos, dar dinheiro para as atividades acontecerem. Tem muita gente que se pergunta assim: “Mas qual é a vantagem para mim? O que eu ganho com isso?” O ganho de imagem, de visibilidade, o fato de estar atrelado a outras marcas, isso tem um valor intangível imenso. Isso está em muitos depoimentos que a gente escutou repetidamente agora nessa terceira edição. “Ah!, eu recebi um público na minha empresa que nunca tinha ouvido falar do meu negócio e agora conhece”. Tem um depoimento muito bacana da Doc Brown Cafeteria (um café, mas ele trabalha de uma forma diferenciada, com degustações, com itens especiais de café). Ele conta que ouviu muito: “Olha, eu não conhecia o teu café. Há tempos que eu procurava algum lugar que eu pudesse degustar um café, que eu não fosse só consumir e ir embora e eu fiquei sabendo do teu café por conta do Mobiliza”. Temos vários depoimentos que escutamos bem parecidos com esse. Então, isso para gente, demonstra que o propósito (do Mobiliza) está sendo alcançado!

Qual a sua percepção sobre essa cobrança do aporte financeiro pelos empreendedores?

Eu acho que é uma quebra de perfil, de mentalidade, um modelo novo. A gente teve uma inspiração em um movimento muito parecido, que é o Floripa Conecta, foi dessa fonte que a gente bebeu e eu tive um momento com o gestor do Floripa Conecta, que veio para cá conhecer o Mobiliza e me disse que lá é a mesma coisa. Então, não é um perfil específico daqui de São Luís e entendo que é a mentalidade mesmo para irmos mudando, de que um evento, uma atividade para acontecer, não precisa ter um patrocínio, necessariamente.

O Floripa Conecta são vários eventos, que acontecem em diferentes pontos da cidade de Florianopolis- SC durante o mês de agosto com o intuito de aproximar produtores, artistas, gestores, empresas e entidades do setor público e privado e está na sua terceira edição.

O Floripa Conecta são vários eventos, que acontecem em diferentes pontos da cidade de Florianopolis- SC durante o mês de agosto com o intuito de aproximar produtores, artistas, gestores, empresas e entidades do setor público e privado e está na sua terceira edição.

Podemos dizer que o Mobiliza SLZ é uma comunidade?

Eu acho que a partir de agora, da terceira edição, como eu falei, está sendo uma mudança de mentalidade, uma virada de chave. Eu acho que sim. Relutamos muito no começo em fazer um grupo de WhatsApp, porque a insegurança era muito forte no sentido de cobrarem da gente coisas que o Mobiliza não ia oferecer, como aportar recurso, de a gente (Sebrae) não investir financeiramente, não dar estrutura. Todo ano, essas perguntas se repetem e não está no nosso planejamento fazer isso. Este ano, resolvemos fazer um grupo de WhatsApp para tentar organizar o processo de comunicação, porque a quantidade de eventos cresceu muito e, na prática, está funcionando muito como uma comunidade; os criativos começam a se apoiar entre eles e já percebemos um número de colaborações, de collabs começando a surgir a partir de agora. Estamos mapeando isso, anotando, porque também são resultado interessantes. Por exemplo: o Samba de Rua juntou com o encontro de Brechós, e passaram a fazer juntos; isso não surgiu do Mobiliza, mas eles se conheceram no movimento; a Cozinha Ancestral, por exemplo, abriu as portas para receber feiras criativas. Vamos começar o primeiro semestre do ano que vem, que é período de chuva, com essa alternativa; não tem como feira criativa a céu aberto no período chuvoso; e com isso, já vai ter um lugar para os criativos fazerem as atividades. Então, como se vê, esses “matches” começam a acontecer com certa naturalidade.

Como o Mobiliza contribui para o antirracismo, igualdade de gênero e degradações ao meio ambiente?

A gente está se planejando e organizando para cada vez mais chegar a esses temas; mas é uma caminhada, uma jornada. Desde o ano passado, começamos a fazer a ligação dessas ações com os ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU); são seis ODS que a gente consegue atingir com a realização do Mobiliza. A questão de gênero, já fizemos esse estudo e a maioria, assim, arrebatadora é de mulheres, muitas feiras criativas, muitas empreendedoras tomam a frente desses eventos, das atividades. Nos próprios grupos culturais, a gente percebe surgirem lideranças femininas. Acho que é uma crescente. Na, vivemos algumas ações relacionadas à luta antirracista, porque o Mobiliza aconteceu no mês de novembro; então, aproveitamos o gancho dentro da programação; não foi intencional na época, mas fez muito sentido. Estamos nessa crescente também na questão de acessibilidade, incentivando que os empreendedores prestem atenção nesses temas; temos também os intérpretes de libras nos locais dos eventos tornando-os mais acessíveis. Então, de modo geral, estamos tentado incentivar tudo isso (esse comportamento e entendimento).

Existe uma preocupação dos empreendedores sobre esses pontos?

Ainda varia bastante. Alguns já levam isso como premissa, como ponto de partida. Agora, outros a gente tem que incentivar e também o próprio Sebrae está começando agora a dar os primeiros passos. No planejamento de 2024, foi inserido um programa nacional chamado Plural, em que trabalhamos para começa a adaptar tanto o corpo técnico, quanto as nossas soluções e os nossos atendimentos, a todo tipo de pluralidade. Então, isso está começando a efervescer mais dentro da instituição agora.

O que falta para potencializarmos a Economia Criativa local?

Esse é um conceito ainda novo, relativamente novo. Começamos a ouvir falar sobre Economia Criativa há pouquíssimo tempo; dentro do próprio Sebrae também, estamos tentando, cada vez mais, fazer essas conexões com as outras áreas também, fortalecer o conceito e, principalmente, o impacto econômico e financeiro na economia dos países. Tem aqueles dados clássicos da Firjan, do Itaú Cultural, que a Economia Criativa gera quase 3% do PIB nacional, que gera mais empregos do que a indústria automobilística. Então, é sobre isso que a gente precisa começar a falar, mas temos que ter mais dados sobre esse universo, o que ainda é uma lacuna, porque há muita informalidade na Economia Criativa. Trata-se de um gargalo também para nós no Sebrae, que tentamos suprir fazendo pesquisas, mapeamentos. Agora, por exemplo, estamos na expectativa pelo trabalho que a prefeitura de São Luís está fazendo do mapeamento de Economia Criativa (já apresentado). O outro desafio é a própria pessoa se enxergar como empreendedor, como dono de negócio. Isso ainda é muito difícil, pois o empreendedor se pergunta: “- como é que eu vou responder a um mapeamento, seu eu nem sou empreendedor?”. É sim, você faz suas peças, canta suas músicas, produz arte. E, sendo assim, você é empreendedor. Tudo isso, a gente espera ir melhorando ao longo do tempo. Outro aspecto é passarmos a ter novamente políticas públicas específicas para a Economia Criativa e a cultura, né? Agora, a Lei Paulo Gustavo, a Lei Aldir Blanc II, trouxeram momentos de otimismo, no sentido de termos mais investimentos na área.

Quais são as estratégias adotadas para que essas pessoas se reconheçam dentro da Economia Criativa?

Estamos indo aos pouquinhos, conversando e escutando muito, algo que a gente exercita diariamente na Economia Criativa (o processo de escuta, o porquê de o empreendedor não se reconhecer como tal). Isso é muito importante. Recentemente, acho que em uma discussão no grupo de WhatsApp, uma pessoa falou assim; “- Mas, para eu fazer parte da Economia Criativa eu tenho que gerar valor econômico? E os saberes que são intangíveis; a cultura, a ancestralidade, saber que essa técnica veio do meu bisavô, do tataravô, isso não tem preço”. Fiquei me perguntando, ele tem razão! Isso tem sentido e isso realmente não há como você botar um preço, um valor econômico nisso. Essa são questões ainda intangíveis que a gente tem; mas como eu te falei, indo aos pouquinhos, escutando bastante, a gente está tentando e testando agora uma abordagem por territórios; as pessoas se enxergarem enquanto um território criativo, uma puxando a outra e também está ajudando na questão da formalização, porque sem a formalização é muito difícil você ter dados.

O que é inovação para você e como exemplificaria?

Com a Inovação, também temos um desafio no Sebrae, que é desmistificar o conceito de inovação, separar do conceito de tecnologia. A meu ver, inovação é você fazer coisas de uma forma mais barata, mais rápida e mais diferenciada do que já existe. Então, quando você cria um aplicativo, você otimiza tempo e recurso. Para mim, inovação é isso, mas não necessariamente ligado à tecnologia. Eu posso inovar nos meus processos, na minha forma de trabalhar dentro da minha empresa. Se eu crio um processo diferente que vai deixar meu trabalho mais fácil, eu estou inovando. Então, é isso. Um conceito totalmente fora, mais simples, e fora da tecnologia.

Por que você acha que as pessoas remetem inovação à tecnologia de transformação digital?

Acho que é fruto de preconceito mesmo. Você pensar em tecnologia, em robô, em inteligência artificial, você pensar em máquinas… Você tem as tecnologias sociais, a tecnologia ancestral, que não tem nem como copiar. Você tem a propriedade intelectual. Hoje a gente estava conversando sobre uma oficina de bordados. Gente, aquilo ali é tecnologia na veia, fruto de um saber, que é bem difícil de transmitir.

O que é futuro para você?

Para mim, para a cidade… Eu tenho muita esperança de ver São Luís, uma cidade, primeiro com o título, Cidade Criativa da Unesco; é um sonho a partir do Mobiliza SLZ; temos todas as ferramentas na mão, ainda falta aquele clique para mostrar isso. Eu sou da área do Turismo e me deixa triste ver São Luís como uma cidade de passagem, focada apenas no Centro Histórico; às vezes só uma passagem para ir para os Lençóis Maranhenses; então, o futuro eu vejo as pessoas vindo para São Luís e passando uma semana, dez dias, com a cidade tendo uma programação para todo esse período. Temos capacidade para isso, temos potencial e coisas para fazer, não tenho dúvidas. Então, é o futuro que eu enxergo para a cidade, para a atividade do Turismo e da Economia Criativa também.

Para chegarmos nesse futuro, o que a gente precisa fazer?

Eu acho que unir esforços, parar de pensar em concorrência, e adotar o próprio lema do Mobiliza SLZ, pensando em conectar para transformar. Precisamos deixar de trabalhar de forma isolada e unir esforços mesmo; unir recursos e estimular pessoas a estarem juntas com esse mesmo propósito, o que eu acho que a gente ainda precisa despertar um pouquinho mais; ter mais mãos e mentes juntas, trabalhando no mesmo horizonte.

Hoje, existe alguma ação efetiva para que vocês estejam nesses espaços, transmitindo isso, nessa questão da formalização, ou ainda são propostas?

A gente fomenta, incentiva dentro de todos os projetos em que o Sebrae atua, não só na Economia Criativa; estimulamos, além da formalização, por exemplo, a gente ajuda na parte de o associativismo e o cooperativismo; agora mesmo, temos três iniciativas querendo nascer de associações ou cooperativas, que é uma forma de organização. Esse é um dos carros-chefes do Atendimento do Sebrae, atuar na formalização, que barra muito a burocracia, custos; a gente percebe também que tem algumas atividades econômicas não estão traduzidas no CNPJ. Isso, vemos muito no cenário dos games, por exemplo. Eu sou desenvolvedora, eu não tenho nenhum CNAE, nenhuma classificação que me identifique, como MEI, por exemplo. Então, esse é um gargalo que a gente percebe muito claro. Temos a área de Políticas Públicas do Sebrae, que hoje está trabalhando nesse sentido. Este ano, especificamente, a gente imergiu na questão da Lei Paulo Gustavo, ajudando aí as prefeituras a aderirem. Escutamos algumas prefeituras em depoimentos tristes, relatando, por exemplo: “Mas eu não vou aderir à lei, pois no meu município, não tem cultura”. Meu Deus do céu! Onde tem gente, tem cultura. Nós fizemos um papel de formiguinha, que ajudou muito nessa grande mobilização. Foi uma grande mobilização, junto com o comitê estadual da Lei Paulo Gustavo, com a iniciativa privada, que deu certo. Conseguimos 100% de adesão dos municípios aqui no Maranhão. Não quero escutar que não temos cultura nos municípios. Esse é um trabalho de formiguinha mesmo, essa questão da mobilização para formalização. Um desafio, realmente!

Em relação às metodologias aplicadas no atendimento aos empreendedores, o que foi que vocês perceberam que não deu certo? Quando vocês perceberam e como vocês resolveram?

O que a gente percebe, isso ainda é presente, principalmente quando são metodologias e soluções que o Sebrae tem, que exigem muito tempo. Por exemplo, cursos de 40 horas, que já vemos que não funciona, não funciona mesmo. O que funciona muito, que a gente tem percebido, são ações mais curtas em que você coloca a mão na massa. Cito como exemplo, uma mentoria na área de Finanças, que durou três horas, com o consultor dando conceitos de uma forma muito leve, aliada à ilustração com exemplos práticos, foi essa palavra que usada quando nos deram esse feedback: “Olha, nunca tinha visto Finanças de uma forma tão rica, com exemplos, com ilustrações mesmo!”. Depois dessa parte conceitual, veio a etapa mão na massa, fazendo ali com o facilitador, com o consultor, ajudando. Então, percebemos que isso funciona melhor, fazer ações mais de mão na massa, pois as ações que as pessoas vão ficar sentadas, assistindo o professor falando lá na frente, para gente não tem feito sentido. A gente tem um caso de sucesso de metodologias, uma parceria de 2019 com o Conselho Britânico, uma metodologia chamada Dice Fellowship, executada em cinco países e desenvolvida no Paquistão; eram cinco países em desenvolvimento e uma metodologia de seis módulos, que acontecia nos finais de semana, com um espaçamento entre os módulos; levávamos mentores, pessoas do mercado para darem depoimentos, por exemplo; então coisas mais curtas assim, faz muito sentido e o pessoal tem gostado. Infelizmente, não pudemos dar continuidade, porque o Conselho Britânico retirou a metodologia de sua estratégia de trabalho. A gente percebe até mesmo uma certa aversão a outra questão. O pessoal trabalhou Design Thinking, e os participantes falavam: “ai, meu Deus, nomes em inglês, não quero”… Mas assim (com a metodologia), eles trabalharam sem perceber que era uma metodologia de design thinking, e foram fazendo, naturalmente. Sim, funciona! Linguagem, tempo e formas de fazer. Com a mão na massa, a gente já percebeu que funciona bem!

O que significa trabalhar em Territórios Criativos?

É uma visão abrangente; o território pode ser um hub. Aqui, por exemplo, é um Território Criativo, a UFMA em si é um território criativo; então, são recortes territoriais que nos permitem trabalhar com as pessoas que estão nesses territórios, de uma forma que elas se enxerguem primeiro como empreendedoras e depois o território ser essa área delimitada, com um diferencial em relação à Economia Criativa. Aqui em São Luís, escolhemos cinco territórios para modelar — Cidade Operária, Liberdade, Coroadinho, Região Itaqui-Bacanga e um recorte do Centro, abrangendo a rua João Gualberto e as imediações da Rua da Palma; um pequeno recorte, onde estamos aplicando a metodologia. No que que ela consiste? Incialmente, em fazer esse processo de mobilização de pessoas, envolvendo-as e, a partir de demandas dessas pessoas e do território, criamos um plano de ação e um plano de governança, para depois o Sebrae entrar como mediador do processo até que essas pessoas levem esse território sozinhas.

Já vemos resultados lá na Cidade Operária. Tem uns que estão mais avançados, como Cidade Operária e outros onde o trabalho anda um pouco mais lento; temos, por exemplo, na Liberdade, uma série de instituições atuando no território; assim como Itaqui-Bacanga. Então, cada um em seu momento deles. Por exemplo, a Cidade Operária a liderança lá é Elivânia Estrela; onde Elivânia está, as pessoas que trabalham com a Economia Criativa dentro desse estão juntas; Na Liberdade, tem Nadir Cruz, do Boi da Floresta; tem Cláudia, do Boi de Leonardo, tem a Nicinha, do movimento do Hip Hop; esse grupo vai falando com pessoas, tem umas que dão atenção e outras que não; mas quando olham os grupos começando a se reunir, já vem, vem junto; Tem a Feira do Quilombo da Liberdade. A Feira se inscreveu no Mobiliza para participar da Feira de Empreendedorismo do Quilombo da Liberdade. Ai, eu perguntei para a consultora: “ ela está participando do Território Criativo da Liberdade? Ela disse: “ mais ou menos, já chamei várias vezes”… E eu então disse: “Olha, se tu quiser participar do Mobiliza, vamos participar junto do Território Criativo, porque a gente dá outra roupagem, outra visibilidade para vocês, além da feira. A feira é composta por muitas empreendedoras, e essas mulheres precisam estar participando de outras ações mais contínuas, então vamos para o Território Criativo também”. E isso funcionou. A empreendedora aderiu! Então é trabalho de formiguinha mesmo.

Como funciona a periodicidade dos encontros? É uma consultora para todos os territórios? Como funciona a distribuição do tempo de trabalho entre os territórios?

Depende muito da agenda do grupo; tem época, por exemplo, acho que no período de São João, a Liberdade sinalizou: “Olha, agora não dá!” E ficou um pouquinho atrasado, mas aí depois avançou. Mas é assim mesmo; foi uma tentativa. A gente tinha a meta de um (território; e a gente tentou logo com cinco, e os cinco estão andando. Está dando certo!

Voltando ao Mobiliza, por que a questão da estrutura e essas coisas que as pessoas estão reivindicando não está no planejamento de vocês?

Primeiro por conta do recurso mesmo. E segundo, que a gente não quer que fique essa relação só de dinheiro. Assim, o primeiro slide de apresentação do Mobiliza fala que é um movimento feito da cidade para a cidade. Então, as pessoas têm que botar a mão na massa. Eu costumo dizer que o Sebrae é um mobilizador, é quem idealizou, quem está impulsionando, mas os protagonistas são os empreendedores. Então, se a gente começa a aportar recurso, fica aquela relação de dependência e de dizer que o Mobiliza é do Sebrae. Não, não é! Tanto é que a marca do Sebrae nem aparece. A gente, às vezes é muito questionado em relação a isso. “Ah!, mas é o Mobiliza do Sebrae?” Não, a gente está nesse momento aportando mais recursos, mas a ideia é que a cidade tome conta. Então, a gente não quis gerar essa expectativa de manter uma relação, assim, de patrocínio ou de injeção de recursos, de dinheiro. É algo que a gente, desde o começo fala muito.

Então, em uma perspectiva de futuro, vocês vislumbram um momento em que o Sebrae sairá de cena e o Mobiliza acontecerá de forma autónoma?

Sim, sim! É nosso intuito, principalmente, de ter mais parceiros colocando recursos na iniciativa. Grandes empresas, instituições, o próprio Sistema S já participa desde o começo com o Sebrae. Mas, a gente gostaria de ter uma presença maior junto, de mais instituições, executando ações também; gostaríamos de envolver mais gente e mais entes como prefeitura, governo do Estado, porque percebemos que as pessoas ainda não enxergam essa participação. E tem também a visão: eu quero estar junto, mas não sei como; ou essa ideia: “Ah!, o Sebrae é dono, como é que eu vou entrar junto? Então, estamos trabalhado essa visão de futuro muito nesse sentido mais abrangente, de que é da cidade toda, é algo coletivo, colaborativo, em que podemos estar juntos, mas não estamos ditando as regras. Então, a todo momento eu tenho falado bastante, que temos que ouvi-los, ouvir os parceiros e ampliar o escopo de adesão. Tem surgido algumas ideias, depois que acabou (a terceira edição do Mobiliza). Eu sugeri ouvir os criativos primeiro, pois eles que são os protagonistas, que botam a mão na massa e que gastam recurso para estarem conosco. Então, eles precisam ser a voz a ser ouvida.

Uma das nossas hipóteses de pesquisa é a criação de um Hub de Inovação em Economia Criativa e queríamos saber a tua visão sobre essa iniciativa?

Eu acho perfeito. Hub é um espaço, um local, um ambiente, seja presencial ou digital, onde essas iniciativas se conectam. Então, como eu falei, este ano a gente começa a perceber esses cliques entre eles, essas primeiras conexões. Então, se a gente tivesse esse ambiente propício para isso seria incrível. E a gente estimular também, já estou me incluindo no Hub, porque o que eu percebo também no dia a dia com eles (os criativos) é que talvez eles não enxerguem essas possibilidades de conexões. Mas elas existem e devem ser exploradas.

Deixe uma mensagem final sobre o cenário da Economia Criativa.

Sim, nosso anseio, nosso propósito é que essas pessoas se enxerguem cada vez mais como empreendedoras, como parte dessa grande cadeia econômica que é a Economia Criativa. A Economia Criativa são todas as atividades que têm como base a criatividade, o capital intelectual, a cultura, no final gerando valor econômico. Então, você movimentando a economia, vivendo daquela atividade, é o que a gente mais espera. A gente percebe no artesanato, por exemplo, muita gente trabalhando como uma segunda fonte de renda. E a ideia é que seja a primeira. Então, é o que a gente tem incentivado realmente é que as pessoas empreendem na Economia Criativa.

E pra você que chegou até aqui, o nosso muito obrigado! Vamos continuar explorando esse tema na nossa reunião de estudo aberta no dia 13/12 a partir das 18h30 no ETC HUB e você também pode participar, é só se inscrever através do nosso formulário e chegar junto.

Acompanhe também o nosso trabalho nas outras plataformas digitais, teremos conteúdos inéditos nas próximas semanas: instagram e twitter.

Até breve!


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