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O SOFRIMENTO EPISTEMOLÓGICO

Crianças sofrem

Iago · 2025-10-27 16:57 · 2 claps · 11.6 min read
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O SOFRIMENTO EPISTEMOLÓGICO

Será que ninguém vê O caos em que vivemos? Os jovens são tão jovens E fica tudo por isso mesmo A juventude é rica, a juventude é pobre A juventude sofre e ninguém parece perceber Eu tenho um coração Eu tenho ideais Eu gosto de cinema E de coisas naturais E penso sempre em sexo, oh yeah!

Todo adulto tem inveja, todo adulto tem inveja Todo adulto tem inveja dos mais jovens

A juventude está sozinha Não há ninguém para ajudar A explicar por que é que o mundo É este desastre que aí está Eu não sei, eu não sei

Dizem que eu não sei nada Dizem que eu não tenho opinião Me compram, me vendem, me estragam E é tudo mentira, me deixam na mão Não me deixam fazer nada E a culpa é sempre minha, oh yeah!

E meus amigos parecem ter medo De quem fala o que sentiu De quem pensa diferente Nos querem todos iguais Assim é bem mais fácil nos controlar E mentir, mentir, mentir E matar, matar, matar O que eu tenho de melhor: minha esperança

Que se faça o sacrifício Que cresçam logo as crianças (Aloha, Legião Urbana)

Imaginemos a programação de um robô… É preciso inserir ali todas as informações referentes a ação que o robô deve tomar. Tudo bem, ele compreende os códigos e age conforme foi instruído por eles. Contudo, dentro do código, se escreve na limítrofe: “ Você ainda não é capaz de compreender corretamente nenhuma informação, só o será após longos 18 anos”. O que será que aconteceria com a máquina? Perguntei a inteligência artificial da Open IA, e ela respondeu :

“Se essa instrução fosse realmente colocada no código:

O sistema executaria normalmente todas as funções técnicas, mas teria uma condição programada para inutilizar ou bloquear qualquer operação de “compreensão” (por exemplo, filtrando, anulando ou marcando as respostas como inválidas).

Durante os 18 anos definidos, ele não produziria saídas interpretativas confiáveis, mesmo que processasse os dados corretamente.

Ao atingir o tempo estipulado (18 anos após a data de criação registrada no código), a condição seria removida, e o sistema passaria a processar e compreender normalmente, como se o bloqueio nunca tivesse existido.

Nenhum “amadurecimento real” ocorreria nesse período — o bloqueio é puramente uma restrição lógica, então o sistema não aprenderia a compreender, apenas passaria a ter permissão para fazê-lo quando o tempo se cumprisse”

Na prática, isso significaria que a máquina passaria 18 anos de maneira passiva, e não compreenderia nada, apenas armazenaria dados que provavelmente causariam uma sobrecarga no sistema assim que esse bloqueio fosse removido .De forma análoga, a consciência humana é jogada ao véu da passividade por 18 anos. Esta se chama inimputabilidade, e as consequências da sobrecarga de informação, se chama sofrimento epistemológico.

Aquela liquidez de nossas mentes, no início de nossas vidas, é tão ensopada… A teoria do reflexo que Lênin desenvolveu, praticamente disse que o único comando que a mente humana nasce programada a obedecer, é o de “conhecer”. Pois, já que o reflexo é uma propriedade da matéria, e a mente, uma forma da matéria se apresentar, o resultado da interação entre ambas partes da contradição é único, a atividade de reflexão. É como se a consciência estivesse buscando forma em meio a sua falta de face… Hegel preferiu ser idealista ante a perceber que as leis são inatas a matéria, e não a matéria um espelho de leis, uma pena um homem tão sábio ter preferido seguir pelo caminho mais fácil… O conhecer só se confirma através da prática, e por meio dela,até por que ele e ela são um só, a consciência é somente a forma altamente organizada da matéria… Pensem! Se você dizer para um ente, que ele não é capaz de cumprir com o único sentido de sua existência, esse ente não irá se deprimir??!! Então por que dizem para suas crianças, que elas não são capazes de se integrar a prática, que elas não são capazes de conhecer o mundo verdadeiramente?? Estão tentando proteger seus filhos do peso do conhecimento, ou apenas empurrando-os para um destino que a humanidade já caminha a séculos?

O espírito dos jovens sujeitos olha para o mundo, e o mundo o diz que ele é cego… O pensamento tomado é inevitável. A angústia. Quem não esperava ansiosamente por crescer em sua infância, e quando finalmente cresceu, se deprimiu já que viu que a vida adulta é um caos infernal?! Com certeza inúmeras pessoas passaram por isso, e continuam reabilitando o mal de suas almas. Me pergunto, o que leva um homem a morrer pela a sua moral, além de afirmar enquanto ser. Mas o que é ser, além de um homem capaz de conhecer?! A reivindicação moral é meio que uma forma de repensar acerca do sofrimento epistemológico que a sociedade de classes empurrou ao homem. Dizem que a infância é o caminho em que pisamos a vida toda, já eu, digo que o sofrimento epistemológico é esse caminho. Pois a maioria dos outros sofrimentos, são uma espécie de reedição desse, que foi muitas vezes o primeiro a retirar a esperança do homem, o primeiro que o forçou a viver perigosamente, com o único intuito de se afirmar enquanto não criança.

É preciso pensar sobre como ele surgiu, e quais suas consequências no agir humano. Primeiramente, é necessário entender o homem não enquanto sujeito isolado, mas sim como um ser social que só pode sobreviver se entrar em relação com outros seres. A partir dessas relações que garantem a sobrevivência do indivíduo, ele começa a produzir seus entes espirituais como um reflexo de sua relação com o meio. Daí surgem ideias, religiões, sistemas.. Contudo, nessa relação social, o mais velho logicamente se sobressai, pois foi ele que já passou por aquela experiência, e vai saber controlar o indivíduo menor para que sobreviva. Isso é necessário, pois alguns impulsos norteados pela curiosidade podem levar o sujeito a morte (pegar em fogo, em eletricidade, comer substâncias tóxicas por exemplo), no quesito comportamental, alguns comportamentos precisam ser aprendidos a controlar para que o indivíduo possa viver em sociedade. Isso deve ser ensinado pelo ser mais velho que está em relação social com o menor.

Nas sociedades primitivas, o controle das crianças não era uma agressão sistematizada. As sociedades matriarcais criavam suas crianças em conjunto, e ensinavam as normas em conjunto. As crianças aprendiam por observação, imitação e participação gradual nas atividades sociais. Só é possível falar de opressão total as crianças, assim que a família surgiu enquanto instituição, antes disso, essas agressões eram somente fatores isolados.

Com o surgimento da família e da propriedade privada, os filhos passaram a ser vistos como uma propriedade privada do pai — que oprimia também a mulher-. Dessa forma, o pai — e gradualmente, também a mãe- passou a utilizar de seus filhos como uma válvula de escape para o seu estresse diário — na sociedade Brasileira, isso é um fato incontestável, pois aqui existe um ente cultural que normaliza a opressão das crianças-, e descontar neles todas as suas angústias contritas. A criança foi reduzida a um papel de propriedade privada. A alegoria do início não poderia ser mais correta, pois a criança não é vista como um ser, mas sim como um objeto, um objeto sem compreensão que vai ter responsabilidade de maneira mágica após a maioridade.

Não é possível falar de libertação feminina, sem também falar de emancipação dos menores, pois as duas mazelas encontram sua casualidade na mesma substância: A família!

A única tortura física bem aceita nos dias atuais, é a violência contra crianças — em uma sociedade que jura protegê-las-. Quando algum adulto fala que “apanhou mais não morreu” , na realidade fala o contrário do que se dita. Pois ele morreu sim! Morreu em espírito e em esperança, só está dizendo isso para puxar o “viver perigosamente” do fundo de sua alma, com o intuito de negar a força que retirou precocemente a esperança de seu espírito. Quando se defende o direito de bater em crianças, na realidade se confirma a não criança dentro do coração humano. Quando se castiga um menor, e o retira o direito à fala, o adulto está apenas se confirmando enquanto adulto, confirmação esta, que tem por necessidade o sofrimento epistemológico que retirou o prazer de crescer de dentro de sua alma. Meio que a infância está relacionada à dor de ser propriedade dos pais, e afirmar essa hierarquia, é uma forma de afirmar que o indivíduo rompeu com as mesmas. E a negação desta realidade, também é uma maneira de afirmar-se que se rompeu com a infância. Não há ódio maior a este sofrimento, do que o ato de escrever esse ensaio, faço-o justamente por se confirmar como capaz de fazê-lo.

Outras ações impulsionadas pela loucura humana, também são formas de se afirmar enquanto não-criança. O uso precoce de álcool, ir a festas, hobbies aprimorados, muitos namoros… Todas essas são formas do viver perigosamente fundamental se apresentar para o ser. E cabe ao homem consciente, compreender quais de suas vontades realmente são suas, e não apenas uma maneira de dizer não a sua infância. (Não que haja alguma vontade verdadeiramente humana, que não seja uma forma de dizer não a algo…)

Com base neste sofrimento- que muitas vezes é a primeira angústia espiritual do ser-, a mente humana gera outras agonias, que se retrocedermos até o infinito, também são formas de dizer não à infância. O jovem Werther não entendia isso! Pois no fim, somos todos crianças crescidas não é mesmo?? Talvez se tivéssemos tido atenção em nossas infâncias, não se acostumaríamos com a solidão, e consequentemente não iremos depositar a nossa felicidade em outras pessoas de forma tão louca. Talvez, o protagonista dessa tragédia de Goethe pudesse ter tido um final feliz…

Essa agonia massante é a alienação de forma mais pura. Pois retira o poder de seres que estão o desenvolvendo, retira o trabalho de seres que deveriam se apegar a ele de forma intensa para que sua consciência possa ser desenvolvida. Nos tempos de hoje, a juventude é apartada da política e do desenvolvimento da sociedade devido a sua falta de maturidade. Ao criar uma geração acostumada com o não agir desde pequena, a burguesia consegue sistematizar este não agir, e obliterar um sonho revolucionário?

O desenvolvimento do cérebro não se dá somente por meios quantitativos ( como idade) mas sim principalmente por meios qualitativos ( estímulos). Por exemplo, adolescentes que tiveram acesso à educação terão decisões bem mais sãs do que adultos e idosos que não tiveram. O processo de amadurecimento não pode ser limitado à simples idade, mas ele é um produto de uma história de vida.

“O desenvolvimento interno se produz sempre como uma unidade de elementos pessoais e ambientais, ou seja, cada avanço no desenvolvimento está diretamente determinado pela etapa anterior, por tudo aquilo que surgiu e se formou na etapa anterior” (Obras escolhidas, Lev Vygotsky)

O cérebro humano é maturado através de saltos de qualidade caóticos, ao qual as experiências já obtidas servem de apoio para novos pensamentos.

“A lei fundamental que rege a dinâmica das idades, para Vygotski , consiste em que as forças que movem o desenvolvimento da criança de uma idade a outra acabam por negar e destruir a própria base do desenvolvimento da idade anterior, determinando, como necessidade interna, o fim da etapa vigente em direção à etapa seguinte. Nesse sentido, o desenvolvimento caracteriza-se pela alternância de períodos estáveis e críticos. Nos períodos estáveis, o desenvolvimento se deve principalmente a mudanças “microscópicas” da personalidade da criança, que vão se acumulando até um certo limite e se manifestam mais tarde como uma repentina formação qualitativamente nova. Nos períodos de crise, produzem-se mudanças e rupturas bruscas e fundamentais na personalidade da criança em um tempo relativamente curto.”(OS FUNDAMENTOS DA PERIODIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO EM VIGOTSKI: A PERSPECTIVA HISTÓRICO-DIALÉTICA EM PSICOLOGIA, Juliana Campregher)

Interpretando o pensamento de Vigotski através da lei fundamental da dialética (lei da contradição) pode compreender que estes saltos e crises representam o rompimento do momento de relativa unidade de uma contradição, enquanto o momento de crise corresponderia ao momento de luta direta. Vejamos bem, não busco aqui negar que a idade é sim um fator importante para a maturação do cérebro, contudo , ao se limitar apenas a ela, se esquece que os fatores qualitativos são bem mais importantes (o aspecto principal dessa contradição!).

É impossível ocorrerem momentos de estabilidade e crise se não houverem estímulos. E essa segregação de estímulos com certeza é uma dificuldade para construção de seres humanos saudáveis. Buscam proteger nossas crianças ao limitar o sua compreensão do mundo, mas esquecem que a curiosidade é intrínseca ao homem. A consciência é como um morcego que nunca vai deixar de visitar o nosso quarto, sempre irá nos pegar desprevenido, e nos forçar a repensar sobre nossa vida. É importante lembrar que os conceitos de “infância, adolescência e vida adulta” não são naturais, mas sociais. Portanto, os comportamentos esperados de um jovem não são condicionados a eles pela natureza, mas sim pela sociedade humana. Portanto, é comum que muitos jovens rejeitem assumir os comportamentos que seriam esperados socialmente deles.

Contudo, essa noção epistemológica errada que faz com que os jovens sejam taxados de inimputável só é contestada com o intuito de oprimir-nos ainda mais (defender a diminuição a maioridade penal e a pedofilia), o objetivo disso não é fazer com que o sofrimento cesse, mas apenas remodelá-lo.

Ter jovens submissos, e adultos mal resolvidos com sua própria sanidade, é algo muito agradável para os olhos da classe dominante…

Ao se considerar uma enorme parte da população inimputável e a deixar calada, se cria um conjunto de cidadãos afogados em desgraça, ressentidos e sadistas (pois irão tratar seus filhos da mesma forma que foram tratados). A família nuclear não passa da propriedade de pais sobre seus filhos, o jovem não é visto como um humano, mas como um sub humano. O ECA, “tão bem feito!” Na realidade é uma lei para inglês ver, pois qualquer brasileiro percebe que adolescentes não possuem menor apoio de denunciar o maltrato sofrido por seus pais, eles aprendem a se calarem e obedecerem aqueles “com maior experiência”. Os conselhos tutelares não cumprem com sua função, pois os jovens sequer podem eleger seus representantes. Isso é como se o opressor elegesse os representantes dos oprimidos, é algo totalmente injusto.

Aí se geram homens incapazes de expressar seus sentimentos, já que cresceram sem direito à fala. A educação não deve preparar os jovens para serem cidadãos, mas sim para integrá-los a cidadania prática.

“O homem, enquanto membro da sociedade que participa na prática da modificação dum processo objectivo determinado num determinado estádio do seu desenvolvimento (seja da prática da modificação dum processo produzindo-se na Natureza, seja da prática da modificação dum processo social qualquer), recebe, sob a influência do reflexo do processo objectivo e da sua própria actividade subjectiva, a possibilidade de passar do conhecimento sensível ao conhecimento racional e de criar ideias, teorias, planos ou projectos que correspondem, em geral, às leis desse processo objectivo; e se na aplicação ulterior dessas ideias, teorias, planos e projectos, na prática do mesmo processo objectivo, se chega ao objectivo fixado, isto é, se se consegue, na prática desse processo, transformar em realidade as ideias, teorias, planos e projectos previamente elaborados, ou se se chega a realizá-los nas suas linhas gerais, o movimento do conhecimento desse processo objectivo pode considerar-se terminado. Por exemplo, no processo duma modificação da Natureza, a realização do plano duma construção, a confirmação duma hipótese científica, a criação dum mecanismo, a recolha duma planta cultivada ou então, no processo duma modificação da sociedade, o sucesso duma greve, a vitória numa guerra, a execução dum programa de ensino, tudo isso significa que o objectivo fixado foi atingido. Contudo, dum modo geral, tanto na prática da modificação da Natureza como na da modificação da sociedade, é extremamente raro que as ideias, teorias, planos e projectos previamente elaborados pelos homens, se realizem sem sofrer a mínima alteração.” (Sobre a Prática, Mao Zedong)

O espírito é orgânico e mutável, ele nunca está pronto. O sujeito busca pelo o seu suprassumo, mas nunca chegará nele, nem na vida idosa. O ser só pode chegar cada vez mais próximo de seu ponto máximo na vida prática, através da atividade de trabalho. E o ideal é que o indivíduo seja inserido na prática social e na vida política enquanto antes, para que compreenda o poder absoluto da coletividade e para que haja, e não se paralise. Não posso afirmar que a agonia aqui tratada nasce de um erro na epistemologia, mas sim que é um reflexo de um momento histórico, em que o homem se reduziu a posição de propriedade, e que se fez necessário que uma classe específica mantenha a posição de posse da população inimiga. Dai, faz com que desde a infância, os jovens da classe antagônica sejam reprimidos.

Essa confusão epistemológica não se comporta da mesma forma entre os filhos da classe dominante, assim como o patriarcado também não se comporta entre mulheres burguesas. Os maiores atacados por essa imolação, são os filhos da classe oprimida, do proletariado e do campesinato. Pois esse comportamento é necessário para que se reproduza a dominação do opressor.

A libertação das crianças só é possível através da luta pela emancipação proletária “Nos acusam de querer acabar com a opressão dos filhos pelos próprios pais? Confessamos este crime!” (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista), já que a razão do Sofrimento Epistemológico é a divisão de classes e a alienação do trabalho (ambas masterizadas no ente chamado de família). Durante a Grande Revolução Cultural Proletária, a juventude pôde se organizar na guarda vermelha, e construir o seu próprio destino com as suas próprias mãos… Só em experiências semelhantes, essa imolação pode ser erradicada.

“ A prática, o conhecimento, e novamente a prática e o conhecimento, essa forma, na sua repetição cíclica, é infinita. Além disso, o conteúdo de cada um desses ciclos de prática e de conhecimento vai-se elevando a um nível cada vez mais alto. Tal é, no seu conjunto, a teoria materialista-dialéctica do conhecimento, tal é a concepção materialista-dialéctica da unidade do conhecimento e da acção.”(Sobre a prática, Mao Zedong)

A prática, só a prática pode libertar o homem…..


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