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Maluf, o cigarro, e as diferenças históricas entre direita e esquerda

Já tem um certo tempo que os algoritmos da internet encontraram para mim um vídeo, acho que o ano é 1994, do então prefeito de São Paulo…

Carlos Eduardo de Freitas · 2024-09-10 13:30 · 0 claps · 5.5 min read
#esquerda-progressista #direita-e-esquerda #direita-conservadora #politica
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Maluf, o cigarro, e as diferenças históricas entre direita e esquerda

Já tem um certo tempo que os algoritmos da internet encontraram para mim um vídeo, acho que o ano é 1994, do então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, no programa Roda Viva. Resumindo bem resumidamente: o Roda Viva é um programa de entrevistas da TV Cultura, em um palco montado como um grande auditório, com o entrevistado ao centro e os jornalistas dispostos em círculo à sua volta. O entrevistado pode receber perguntas de todos os presentes e, para vê-los e ouvi-los melhor, pode girar a cadeira. A referência do nome é explícita à famosa canção de Chico Buarque, lançada durante a ditadura militar, e obviamente tem por premissa a liberdade de expressão, possibilitada pelo fim do regime (o programa foi lançado em 1986).

Nesse dia, Paulo Maluf, figura lendária da política brasileira (principalmente por maus motivos), iniciava sua entrevista respondendo sobre as razões que motivaram um decreto municipal, visionário para a época, que proibia fumar em restaurantes. Os jornalistas ao redor pareciam unânimes em atacar o prefeito — talvez não apenas pelo decreto, mas naquele momento específico era esse o assunto — , colocando em dúvida qualquer necessidade de uma decisão daquelas. Maluf, com sua modéstia característica (não é um elogio, é só uma referência ao modo dele de falar), enumera razões muito contundentes para o fato, sem que os jornalistas, furiosos em certa medida, apresentem algum vestígio de solidariedade com ele.

O que chama atenção da cena é saber que Maluf era naquele momento, e muito provavelmente sempre será, um representante do conservadorismo na política, mesmo que o partido do qual ela tenha feito parte a vida toda receba hoje ironicamente o nome de Progressistas (na época, Partido Progressista ou PP). Foi um dos expoentes da Aliança Renovadora Nacional (ARENA, partido da ditadura militar) e, desde a redemocratização do país, figurava sempre entre os favoritos para assumir novamente a prefeitura, o governo do estado e até mesmo a presidência. O episódio, quase folclórico, em que ele pede votos a Celso Pitta para a prefeitura de São Paulo, dizendo que, se este não fosse um bom prefeito, que nunca mais votassem nele, talvez tenha abalado a confiança quase cega do eleitorado, mas fato é que ainda permaneceu por muitos anos como um forte nome em qualquer pleito de que participasse.

Não sei exatamente qual era e qual é hoje a posição política de cada um dos jornalistas que ali estavam, mas não acho que isso faça diferença para a reflexão. A questão é que, naquele momento histórico, a defesa das liberdades individuais de forma irrestrita era uma pauta muito cara a todos os que eram contrários ao conservadorismo, notadamente quem estava à esquerda no espectro político. Lógico que ali vivíamos uma era de retorno às liberdades democráticas depois de um longo período de ditadura militar, mas o conservadorismo, como se entende, sempre esteve muito mais ligado às pautas da direita, e defender o oposto, nesse caso a liberdade de fumar em qualquer lugar, fazia o indivíduo ter ao menos um pé na esquerda, ou no progressismo, hoje execrado exatamente pela direita. Quão surpresos ficamos, então, de saber que os conservadores de hoje são mais partidários daqueles jornalistas defensores da liberdade individual irrestrita, enquanto os progressistas (eu, incluso) assistem atônitos ao vídeo, principalmente ao perceberem que concordam com Maluf.

Talvez ele estivesse, ao menos nesse assunto, à frente de seu tempo, afinal, ao longo dos anos, foi se fechando cada vez mais o cerco aos fumantes. Com o surgimento de leis municipais e estaduais (a primeira lei federal sobre o tema é de 1996) que proibiam fumar em locais específicos, culminando na proibição mais generalizada a diversos espaços, depois a proibição das propagandas na TV, a adoção de mensagens nas embalagens de cigarro sobre os riscos à saúde até o fim da propaganda também nos pontos de venda foi um longo caminho em que toda a sociedade se conscientizou. A porcentagem de fumantes na população brasileira diminuiu drasticamente, ainda que não tenha chegado a zero: fomos de 34,8% em 1989 para menos de 10% atualmente.

Não se pode, claro, generalizar, mas é curioso notar como as mudanças sociais levam a uma espécie de “troca” de pautas entre os grupos políticos. Não que haja equivalência entre os temas, mas olhar para esse registro é o equivalente a pensar hoje numa figura autointitulada conservadora ali no centro da roda explicando por que liberou armas ou derrubou a obrigatoriedade de pais vacinarem os filhos para matriculá-los na escola, entre outras coisas. A pauta de defesa irrestrita das liberdades individuais se dá principalmente em torno da ideia conservadora de que a esquerda estaria querendo limitar a sociedade ao impedir as pessoas de escolher se querem ou não correr certos riscos, uma liberdade que não deveria sofrer interferência. Isso é uma troca de posição com o que a esquerda acreditava até bem pouco tempo atrás, por entender que a limitação da direita era direcionada ao indivíduo para impedi-lo de fazer escolhas que alterariam o sistema como um todo. Não quero aqui reduzir totalmente essas visões, mas em ambos está presente o ímpeto de combater o que é estranho às próprias ideias.

Aliás, a questão da ideologia é muito interessante. Porque a esquerda considera que a direita sempre esteve no poder e moldou a sociedade da forma como é hoje para atender a seus próprios interesses. E a direita pensa o mesmo: a esquerda sempre esteve no poder e está querendo acabar com as tradições construídas arduamente durante tanto tempo. Nesses casos, leia-se esquerda e direita como “pessoas comuns que defendem a esquerda e a direita”, porque o povão mesmo (identificando-se com um lado ou com o outro) nunca esteve no poder em lugar nenhum. Mas aqui quero falar apenas das diferenças de opinião, não comentar toda a estrutura social que leva a essas disputas.

Mais uma outra prova interessante que vejo está na mídia. Lembro-me bem de quando foi anunciada a reprise, no Vale a Pena Ver de Novo, da novela Laços de Família, em 2020. A reprise, como normalmente ocorre, é no período da tarde, e a novela foi exibida originalmente no horário das 21h lá nos (agora) longínquos anos de 2000–2001. Não havia um autoproclamado conservador na época da transmissão original que achasse a novela razoável, desciam a lenha para falar que era uma coisa apelativa, que só tinha cenas de nudez, sexo e tudo mais da depravação moral da sociedade.

Qual não foi a surpresa ao ver que os comentários de redes sociais sobre o anúncio da reprise da novela traziam somente comentários positivos e nostálgicos, na linha do “não se fazem mais novelas como antigamente”. Claro que há contextos e contextos. 2020 era o primeiro ano da pandemia de covid-19, que mesmo não tendo confinado todo mundo em casa acabou alterando a rotina de toda a sociedade. O sentimento de nostalgia talvez estivesse mais aflorado. Não sei nem mesmo se eram as mesmas pessoas que “mudaram de ideia” ao longo desses 20 anos, mas vale a pena refletir sobre a transformação das vozes ao longo desse tempo.

Há diversos outros exemplos e nem quero aqui estabelecer um tratado sociológico, apenas observar como a diferença entre direita e esquerda não pode ser resumida a uma questão de pautas a serem defendidas, afinal, a opinião sobre um tema não é moldada apenas pela percepção individual, mas por uma série de coisas que influenciam essa opinião. À direita e à esquerda vemos discursos que defendem “para ser de direita, tem que acreditar nisso; para ser de esquerda, tem que acreditar naquilo”, que muitas vezes desconsideram a complexidade da realidade em que o indivíduo se insere e como isso molda seu caráter. Se não apresentar as mesmas opiniões estritamente dentro de um checklist, podem confiscar sua carteirinha…

Não que não haja opiniões em comum entre militantes de cada lado (é isso que define, afinal, estar de um lado ou de outro), mas reduzir o debate unicamente a alguns poucos pontos e definir que uma pessoa deve ser e/ou não pode ser um ou outro é afastar as pessoas (aquelas que precisam trabalhar pra comer e se vestir) da possibilidade de discutir e aprender com esses temas, o que não permite a nós como sociedade conduzir a uma solução, quando necessário. Num país de níveis educacionais e resultados avaliativos ainda muito longe do ideal, é preciso justamente elevar o debate, levá-lo às periferias, a pessoas de todas as idades, gêneros, religiões, orientações sexuais etc. Não conseguiremos resolver nossos problemas se tratarmos sempre a política (não somente as eleições, mas as nossas relações do cotidiano) como um eterno tabu.


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