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William Bill Bland — Revisionismo na Rússia: Trotsky contra os bolcheviques — Parte Dois: de 1914 à…

Uma documentação marxista-leninista da luta de Trotsky contra Lenin e o bolchevismo antes de 1917

Iglu Subversivo · 2026-06-10 21:50 · 0 claps · 127.0 min read
#revolução-russa #trotsky #lenin #revisionismo
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William Bill Bland — Revisionismo na Rússia: Trotsky contra os bolcheviques — Parte Dois: de 1914 à Revolução de Outubro

Uma documentação marxista-leninista da luta de Trotsky contra Lenin e o bolchevismo antes de 1917

Parte Um: William Bill Bland — Revisionismo na Rússia: Trotsky contra os bolcheviques — Parte Um: até 1914 | by Iglu Subversivo | Jun, 2026 | Medium

Nota editorial

O texto a seguir é uma tradução para o português de “Revisionism in Russia: Trotsky Against the Bolsheviks”, de Bill Bland.

A Primeira Guerra Imperialista

Em agosto de 1914, começou a Primeira Guerra Imperialista.

Quase desde o início, três tendências se manifestaram nos movimentos operários dos países beligerantes:

“No curso de dois anos e meio de guerra, o movimento socialista e operário internacional, em cada país, desenvolveu três tendências.

As três tendências são:

  1. Os social-chauvinistas, isto é, socialistas em palavras e chauvinistas na prática, pessoas favoráveis à ‘defesa nacional’ numa guerra imperialista… Essas pessoas são nossos inimigos de classe. Passaram para o lado da burguesia…
  2. A segunda tendência é a conhecida como ‘Centro’, composta por pessoas que vacilam entre os social-chauvinistas e os verdadeiros internacionalistas.

Todos os que pertencem ao ‘Centro’ juram que são marxistas e internacionalistas, que são favoráveis à paz, a exercer todo tipo de ‘pressão’ sobre os governos, a ‘exigir’ que seus próprios governos ‘averiguem’ a vontade do povo pela paz, que favorecem todo tipo de campanhas pela paz, que são por uma paz sem anexações etc., etc. — e pela paz com os social-chauvinistas.

O ‘Centro’ é pela ‘unidade’; o ‘Centro’ é contra a cisão.

O ‘Centro’ é um reino de frases pequeno-burguesas açucaradas, de internacionalismo em palavras e oportunismo covarde e bajulação dos social-chauvinistas na prática.

O fato é que o ‘Centro’ não prega a revolução; não conduz uma luta revolucionária consequente; e, para escapar dessa luta, recorre às desculpas ultramarxistas mais batidas…

  1. A terceira tendência, a dos verdadeiros internacionalistas, é representada mais de perto pela ‘Esquerda de Zimmerwald’…

Caracteriza-se principalmente por sua ruptura completa tanto com o social-chauvinismo quanto com o ‘centrismo’, e por sua guerra implacável contra seu próprio governo imperialista e contra sua própria burguesia imperialista.”

(V. I. Lenin: “As Tarefas do Proletariado em Nossa Revolução”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 6; Londres; 1946; p. 63, 64, 65–66).

“A Guerra e a Internacional”, de Trotsky

Com a eclosão da guerra, Trotsky foi forçado a deixar Viena e, durante dois meses, estabeleceu-se em Zurique, onde escreveu “A Guerra e a Internacional”, publicado em novembro no “Golos” (“A Voz”), jornal menchevique publicado em Paris.

Nessa obra, Trotsky apresentou a visão de que “o principal obstáculo ao desenvolvimento econômico” era a existência do Estado nacional:

“O velho Estado nacional… sobreviveu a si mesmo e é agora um obstáculo intolerável ao desenvolvimento econômico… A ‘pátria’ nacional ultrapassada e antiquada tornou-se o principal obstáculo ao desenvolvimento econômico… Os Estados nacionais tornaram-se um obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas.”

(L. Trotsky: Prefácio a “A Guerra e a Internacional”; Londres; 1971; p. vii, x, xii).

Assim, declarou Trotsky, o objetivo da classe trabalhadora deveria ser a criação de uns “Estados Unidos republicanos da Europa”:

“A tarefa do proletariado é criar uma pátria muito mais poderosa, com capacidade muito maior de resistência: os Estados Unidos republicanos da Europa.”

Lenin, a princípio, em apenas um documento, aceitou a palavra de ordem dos “Estados Unidos da Europa”:

“A palavra de ordem política imediata dos sociais-democratas da Europa deve ser a formação de Estados Unidos republicanos da Europa.”

(V. I. Lenin: “A Guerra e a Social-Democracia Russa”, em: “Obras Escolhidas”; Volume 5; Moscou; 1935; p. 129).

Em agosto de 1915, porém, os bolcheviques, por iniciativa de Lenin, haviam rejeitado decisivamente essa palavra de ordem. Em primeiro lugar, porque, sob a sociedade capitalista, ela só poderia ser reacionária:

“Do ponto de vista das condições econômicas do imperialismo… os Estados Unidos da Europa são, sob o capitalismo, ou impossíveis ou reacionários. Estados Unidos da Europa sob o capitalismo equivalem a um acordo para dividir as colônias. Sob o capitalismo, porém… nenhum outro princípio de divisão… é possível senão a força… A divisão não pode ocorrer senão ‘proporcionalmente à força’. E a força muda no curso do desenvolvimento econômico.

É claro que acordos temporários entre capitalistas e entre potências são possíveis. Nesse sentido, os Estados Unidos da Europa são possíveis como um acordo entre os capitalistas europeus… mas para quê? Apenas para o propósito de suprimir conjuntamente o socialismo na Europa, de proteger conjuntamente o saque colonial contra o Japão e a América… Sob o capitalismo, os Estados Unidos da Europa significariam a organização da reação para retardar o desenvolvimento mais rápido da América.”

(V. I. Lenin: “A Palavra de Ordem dos Estados Unidos da Europa”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 139, 140, 141).

E, em segundo lugar, porque, se considerada uma palavra de ordem socialista, sugeria que a vitória do socialismo só seria possível em escala europeia total:

“O desenvolvimento econômico e político desigual é uma lei absoluta do capitalismo. Daí que a vitória do socialismo seja possível, primeiro, em alguns ou mesmo em um só país capitalista.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 141).

Lenin conclui:

“É por essas razões, e depois de repetidos debates, que os editores do órgão central chegaram à conclusão de que a palavra de ordem dos Estados Unidos da Europa é incorreta.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 141).

Que Trotsky, de fato, ligava a palavra de ordem de “Estados Unidos da Europa” ao conceito, inerente à sua “teoria da revolução permanente”, de que a revolução proletária só poderia ser bem-sucedida em escala internacional, é demonstrado por sua resposta ao artigo de Lenin:

“O único argumento histórico mais ou menos concreto apresentado contra a palavra de ordem dos Estados Unidos da Europa foi formulado no ‘Sotsial-Demokrat’ suíço na seguinte sentença:

‘O desenvolvimento econômico e político desigual é uma lei absoluta do capitalismo’.

A partir disso, o ‘Sotsial-Demokrat’ tira a conclusão de que a vitória do socialismo é possível em um só país e que, portanto, não há razão para tornar a ditadura do proletariado em cada país separado dependente da formação dos Estados Unidos da Europa. Que o desenvolvimento capitalista em diferentes países é desigual é um argumento absolutamente incontestável. Mas essa desigualdade é, ela própria, extremamente desigual. O nível capitalista da Grã-Bretanha, da Áustria, da Alemanha ou da França não é idêntico. Mas, em comparação com a África e a Ásia, todos esses países representam a ‘Europa’ capitalista, que amadureceu para a revolução social. Que nenhum país, em sua luta, deve ‘esperar’ pelos outros é uma ideia elementar, que é útil e necessário reiterar para que a ideia de ação internacional simultânea não seja substituída pela ideia de inação internacional temporizante.

Sem esperar pelos outros, começamos e continuamos a luta nacionalmente, com plena confiança de que nossa iniciativa dará impulso à luta em outros países; mas, se isso não ocorrer, seria desesperançoso pensar — como a experiência histórica e considerações teóricas testemunham — que, por exemplo, uma Rússia revolucionária poderia resistir diante de uma Europa conservadora.”

(L. Trotsky: Artigo em “Nashe Slovo” [“Nossa Palavra”], n. 87; 12 de abril de 1916, citado em J. V. Stalin: “A Revolução de Outubro e a Tática dos Comunistas Russos”, em: “Obras”, Volume 6; Moscou; 1953; p. 390–391).

No outono de 1916, Lenin reiterou sua oposição à palavra de ordem trotskista dos Estados Unidos da Europa:

“Já em 1902, ele (isto é, o economista britânico John Hobson — Ed.) tinha uma excelente compreensão do significado e da importância de uns ‘Estados Unidos da Europa’ (seja dito em benefício de Trotsky, o kautskista!) e de tudo aquilo que agora está sendo encoberto pelos kautskistas hipócritas de vários países, a saber, que os oportunistas (social-chauvinistas) trabalham de mãos dadas com a burguesia imperialista precisamente no sentido de criar uma Europa imperialista sobre as costas da Ásia e da África.”

(V. I. Lenin: “O Imperialismo e a Cisão no Socialismo”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 11; Londres; 1943; p. 752).

Trotsky, porém, continuou, mesmo depois da Revolução Russa de Outubro de 1917, a sustentar que a construção do socialismo na Europa só era possível em uma base pan-europeia. No pós-escrito a uma coleção de artigos publicada em 1922 sob o título “Um Programa de Paz”, escreveu:

“A afirmação, reiterada várias vezes no ‘Programa de Paz’, de que uma revolução proletária não pode culminar vitoriosamente dentro dos limites nacionais talvez pareça a alguns leitores ter sido refutada pelos quase cinco anos de experiência de nossa República Soviética. Mas tal conclusão seria injustificada… Não chegamos, nem sequer começamos a chegar, à criação de uma sociedade socialista… O progresso real de uma economia socialista na Rússia se tornará possível somente depois da vitória do proletariado nos principais países europeus.”

(L. Trotsky: Pós-escrito a “Um Programa de Paz”, citado por J. V. Stalin: “O Desvio Social-Democrata em Nosso Partido”, em: “Obras”, Volume 8; Moscou; 1954; p. 271–272).

“Nossa Palavra”

Em novembro de 1914, Trotsky deixou a Suíça rumo a Paris, para assumir o posto de correspondente de guerra do jornal “Kievskaya Mysl” (“Pensamento de Kiev”), que apoiava o esforço de guerra do governo tsarista.

Estabelecido em Paris, ingressou na redação de “Golos” (“A Voz”), jornal publicado por um grupo de mencheviques chefiado por Yuli Martov, que, diferentemente da direção menchevique oficial, favorável ao esforço de guerra do governo tsarista, havia adotado uma atitude de oposição verbal à guerra sem procurar organizar uma luta revolucionária ativa contra o regime tsarista. “Golos” começara a ser publicado em setembro de 1914 e, quando foi suprimido pelo governo francês em janeiro de 1915, foi substituído por “Nashe Slovo” (“Nossa Palavra”), em cuja redação Trotsky continuou a atuar.

O principal organizador do jornal era Vladimir Antonov-Ovseenko (antigo oficial tsarista que, depois da Revolução de Outubro, tornou-se diretor da Administração Política do Exército Vermelho). Sua equipe em Paris incluía, além de Trotsky, Anatoly Lunacharsky (que mais tarde se tornou Comissário da Educação), David Ryazanov (mais tarde diretor do Instituto Marx-Engels), Solomon Lozovsky (mais tarde dirigente da Internacional Sindical Vermelha), Dmitri Manuilsky (mais tarde dirigente da Internacional Comunista), Grigori Sokolnikov (mais tarde Comissário das Finanças) e o historiador Mikhail Pokrovsky (mais tarde diretor dos Arquivos Estatais Soviéticos). Seus correspondentes estrangeiros incluíam Grigori Chicherin (mais tarde Comissário dos Assuntos Estrangeiros), Aleksandra Kollontai (mais tarde Comissária da Assistência Social), Karl Radek (mais tarde em posição dirigente na Internacional Comunista), Moisei Uritsky, Khristian Rakovsky (filho de um latifundiário búlgaro, mais tarde primeiro-ministro da Ucrânia Soviética), Ivan Maisky (mais tarde embaixador soviético na Grã-Bretanha) e o historiador anglo-russo Theodore Rothstein (mais tarde embaixador soviético na Pérsia).

1915–1916: As três tendências no movimento operário russo

As três tendências descritas em uma seção anterior eram representadas no movimento operário russo da seguinte forma:

1- A tendência social-chauvinista era representada por:

a) um grupo de mencheviques chefiado por Aleksandr Potresov, em torno da revista “Nasha Zarya” (“Nossa Aurora”), publicada em São Petersburgo. “Nasha Zarya” foi suprimida pelo governo tsarista em outubro de 1914, e seu lugar foi ocupado em janeiro de 1915 por “Nashe Dyelo” (“Nossa Causa”).

“Na Rússia, o núcleo fundamental do oportunismo, a liquidacionista ‘Nasha Zarya’, tornou-se o núcleo fundamental do chauvinismo.”

(V. I. Lenin: “O Colapso da Segunda Internacional”, em: “Obras Completas”, Volume 18; Londres; s.d.; p. 308).

b) um grupo de mencheviques chefiado por Grigori Plekhanov e Grigori Alexinsky, em torno da revista “Prizyv” (“O Chamado”), publicada em Paris.

“As principais teorias dos social-chauvinistas… são representadas por Plekhanov.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 282).

“Plekhanov afundou no nacionalismo, ocultando seu chauvinismo russo sob francofilia; o mesmo fez Alexinsky.”

(V. I. Lenin: “A Posição e as Tarefas da Internacional Socialista”, em: ibid.; p. 85–86).

2- A tendência “centrista” era representada por:

a) o “Comitê Organizador” menchevique, chefiado por Pavel Axelrod, que, em fevereiro de 1915, começou a publicação de “Izvestia” (“Notícias”), do Secretariado no Exterior do Comitê Organizador.

“Esta tendência centrista inclui… o partido do Comitê Organizador… e outros na Rússia.”

(V. I. Lenin: “As Tarefas do Proletariado em Nossa Revolução”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 6; Londres; 1935; p. 65).

“Tomem… o manifesto do C.O. (Comitê Organizador — Ed.)…

  1. O manifesto não contém uma única declaração que repudie em princípio a defesa nacional na guerra presente;
  2. não há absolutamente nada no manifesto que, em princípio, fosse inaceitável para os ‘defensistas’ ou social-chauvinistas;
  3. há várias declarações no manifesto que são completamente ‘idênticas’ ao ‘defensismo’: ‘O proletariado não pode permanecer indiferente à derrota iminente’; … ‘o proletariado tem interesse vital na autopreservação do país.’”

(V. I. Lenin: “O C.O. e a Fração Chkheidze Têm Política Própria?”, em: “Obras Completas”, Volume 19; Londres; 1942; p. 36, 37).

“Encobrir essa realidade política (isto é, o social-chauvinismo — Ed.) com frases de esquerda e uma ideologia quase social-democrata é o significado político real das… atividades do Comitê Organizador. No campo da ideologia: a palavra de ordem ‘nem vitória nem derrota’; no campo da prática: uma luta contra a ‘cisão’. Eis o programa prático… de ‘paz’ com o ‘Nashe Dyelo’ e Plekhanov.”

(V. I. Lenin: “O Estado de Coisas na Social-Democracia Russa”, em: “Obras Completas”, Volume 18; Londres; s.d.; p. 204).

b) a fração menchevique da Duma, chefiada por Nikolai Chkheidze.

“Esta tendência centrista inclui… Chkheidze e outros na Rússia.”

(V. I. Lenin: “As Tarefas do Proletariado em Nossa Revolução”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 6; Londres; 1946; p. 65).

“O grupo de Chkheidze limitou-se ao campo parlamentar. Não votou as dotações, pois isso teria provocado uma tempestade de indignação entre os trabalhadores… Tampouco protestou contra o social-chauvinismo.”

(V. I. Lenin: “Socialismo e Guerra”, em: ibid.; p. 240).

“Chkheidze usa as mesmas frases chauvinistas sobre o ‘perigo da derrota’, defende… ‘a luta pela paz’ etc., etc.”

(V. I. Lenin: “O C.O. e a Fração Chkheidze Têm Política Própria?”, em: “Obras Completas”, Volume 19; Londres; 1942; p. 39).

“(1) A fórmula ‘salvar o país’ empregada por Chkheidze não difere em nenhum aspecto material do defensismo;

(2) a fração Chkheidze nunca se opôs ao senhor Potresov e companhia…

(3) o fato decisivo: a fração nunca se opôs à participação nos Comitês das Indústrias de Guerra.”

(V. I. Lenin: “A Fração Chkheidze e seu Papel”, em: ibid.; p. 325).

“Encobrir essa realidade política (isto é, o social-chauvinismo — Ed.) com frases ‘de esquerda’ e uma ideologia quase social-democrata é o significado político real das atividades legais da fração Chkheidze.”

(V. I. Lenin: “O Estado de Coisas na Social-Democracia Russa”, em: “Obras Completas”, Volume 18; Londres; s.d.; p. 204).

c) o grupo chefiado por Trotsky, em torno de “Nashe Slovo”, cuja política será discutida nas próximas seções.

  1. A tendência revolucionária e internacional era representada pelo Comitê Central do Partido Operário Social-Democrata Russo, chefiado por Lenin.

As teses que Lenin apresentou em setembro de 1914, a partir de Berna (Suíça), por outro lado, conclamavam as classes trabalhadoras de todos os países beligerantes a opor-se ativamente à guerra e a procurar transformá-la em guerra civil contra “seus próprios” imperialistas.

“Transformar a atual guerra imperialista em guerra civil é a única palavra de ordem proletária correta.”

(V. I. Lenin: “A Guerra e a Social-Democracia Russa”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 130).

A palavra de ordem da “paz”: a primeira das duas palavras de ordem de Trotsky

A política apresentada por Trotsky nas páginas de “Nashe Slovo” em relação à guerra imperialista pode ser resumida em duas palavras de ordem.

A primeira era a de “luta revolucionária pela paz” ou “luta revolucionária contra a guerra”, chamada por Lenin de “palavra de ordem da paz”:

“Fraseólogos como Trotsky (ver n. 105 de ‘Nashe Slovo’) defendem, em oposição a nós, a palavra de ordem da paz.”

(V. I. Lenin: “A Palavra de Ordem da ‘Paz’ Avaliada”, em: “Obras Completas”, Volume 18; Londres; s.d.; p. 262).

“‘Luta revolucionária contra a guerra’… é um exemplo da fraseologia empolada com que Trotsky sempre justifica o oportunismo.”

(V. I. Lenin: “A Derrota de Seu Próprio Governo na Guerra Imperialista”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 142).

Lenin se opôs à palavra de ordem da “paz” durante toda a guerra:

“A palavra de ordem da paz é, a meu juízo, incorreta no momento presente. Esta é uma palavra de ordem de filisteu, de pregador. A palavra de ordem proletária deve ser guerra civil.”

(V. I. Lenin: Carta a A. G. Shlyapnikov, 17 de outubro de 1914, em: “Obras Completas”, Volume 18; s.d.; p. 75).

“A propaganda da paz no momento presente, se não for acompanhada de um chamado à ação revolucionária de massas, só é capaz de espalhar ilusões, de desmoralizar o proletariado ao imbuí-lo de crença no humanitarismo da burguesia e de transformá-lo em joguete nas mãos da diplomacia secreta dos países beligerantes. Em particular, a ideia de que uma chamada paz democrática é possível sem uma série de revoluções é profundamente equivocada.”

(V. I. Lenin: Conferência das Seções do POSDR no Exterior, em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 135).

“Aceitar a palavra de ordem da paz em si e repeti-la seria encorajar os ‘ares pomposos de fraseólogos impotentes (e, o que é pior, hipócritas)’; significaria enganar o povo com a ilusão de que os governos atuais, as classes dominantes atuais, são capazes, antes de serem… eliminados por uma série de revoluções, de conceder uma paz minimamente satisfatória para a democracia e para a classe trabalhadora. Nada é mais nocivo do que tal engano.”

(V. I. Lenin: “A Questão da Paz”, em: “Obras Completas”, Volume 18; Londres; s.d.; p. 266).

Em setembro de 1915, Trotsky levou adiante sua oposição à política leninista diante da guerra na Conferência Socialista Internacional de Zimmerwald (Suíça). A resolução bolchevique foi rejeitada pela maioria dos delegados, incluindo Trotsky. Como ele próprio expressa:

“Lenin estava na extrema esquerda da Conferência. Em muitas questões, esteve em minoria de um só, mesmo dentro da ala esquerda de Zimmerwald, à qual eu não pertencia formalmente.”

(L. Trotsky: “Minha Vida”; Nova York; 1970; p. 250).

Nessas circunstâncias, os bolcheviques concordaram em assinar um manifesto de compromisso redigido por Trotsky:

“A ala revolucionária, dirigida por Lenin, e a ala pacifista, que compreendia a maioria dos delegados, concordaram com dificuldade em um manifesto comum, cujo rascunho eu havia preparado.”

(L. Trotsky: ibid.; p. 250).

O ponto central desse manifesto era “a luta pela paz”:

“É necessário assumir essa luta pela paz, por uma paz sem anexações ou indenizações de guerra… É tarefa e dever dos socialistas dos países beligerantes assumir essa luta com toda força.”

(Manifesto da Conferência Socialista Internacional, Zimmerwald, citado em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 18; Londres; s.d.; p. 475).

Lenin comentou esse manifesto depois da conferência:

“Passando à ‘luta pela paz’… aqui também encontramos inconsequência, timidez, falha em dizer tudo que deveria ser dito… Ele não nomeia direta, aberta e claramente os métodos revolucionários de luta.”

(V. I. Lenin: “O Primeiro Passo”, em: “Obras Completas”, Volume 18; Londres; s.d.; p. 343).

“Nem vitória nem derrota”: a segunda palavra de ordem de Trotsky

Em segundo lugar, em oposição à declaração de Lenin de que a luta revolucionária contra “seus próprios” imperialistas em tempo de guerra era facilitada pela derrota militar de “seus próprios” imperialistas na guerra e, por sua vez, a facilitava, Trotsky apresentou a palavra de ordem “Nem vitória nem derrota!”:

“‘Bukvoyed’ (isto é, Ryazanov — Ed.) e Trotsky defendem a palavra de ordem ‘Nem vitória nem derrota!’”

(V. I. Lenin: “A Derrota de Seu Próprio Governo na Guerra Imperialista”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 145–146).

Em uma Carta Aberta dirigida aos bolcheviques em “Nashe Slovo”, no verão de 1915, Trotsky denunciou a política leninista de “derrotismo revolucionário” como:

“uma concessão injustificada e sem motivo à metodologia política do social-patriotismo, que substitui a luta revolucionária contra a guerra e as condições que a causam por aquilo que, nas condições presentes, é uma orientação extremamente arbitrária para o mal menor.”

(L. Trotsky: em “Nashe Slovo”, n. 105, citado em V. I. Lenin: “A Derrota de Seu Próprio Governo na Guerra Imperialista”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 142).

Lenin respondeu à Carta Aberta de Trotsky em agosto de 1915, em seu artigo “A Derrota do Próprio Governo na Guerra Imperialista”:

“Este é um exemplo da fraseologia empolada com que Trotsky sempre justifica o oportunismo.

Remendando-se com frases, Trotsky perdeu-se entre três pinheiros. Parece-lhe que desejar a derrota da Rússia significa desejar a vitória da Alemanha…

Para ajudar pessoas incapazes de pensar, a resolução de Berna deixou claro que, em todos os países imperialistas, o proletariado deve agora desejar a derrota de seu próprio governo. Bukvoyed e Trotsky preferiram esquivar-se dessa verdade… Se Bukvoyed e Trotsky tivessem pensado um pouco, teriam compreendido que adotam o ponto de vista de uma guerra de governos e da burguesia, isto é, que se curvam diante da ‘metodologia política do social-patriotismo’, para usar a linguagem afetada de Trotsky.

A revolução em tempo de guerra é guerra civil; e a transformação da guerra entre governos em guerra civil é, por um lado, facilitada pelos reveses militares (‘derrotas’) dos governos; por outro lado, é impossível esforçar-se realmente por tal transformação sem, com isso, facilitar a derrota.

A própria razão pela qual os chauvinistas… repudiam a ‘palavra de ordem’ da derrota é que apenas essa palavra de ordem implica um apelo consequente à ação revolucionária contra seu próprio governo em tempo de guerra. Sem tal ação, milhões de frases r-r-revolucionárias como guerra contra ‘a guerra e as condições’ etc. não valem um centavo…

Repudiar a palavra de ordem da ‘derrota’ significa reduzir as próprias ações revolucionárias a uma frase vazia ou à mera hipocrisia…

A palavra de ordem ‘Nem vitória nem derrota’… nada mais é do que uma paráfrase da palavra de ordem da ‘defesa da pátria’…

Sob exame mais atento, essa palavra de ordem se revela significar ‘paz civil’, renúncia à luta de classes pelas classes oprimidas em todos os países beligerantes, visto que a luta de classes é impossível sem… facilitar a derrota do próprio país. Aqueles que aceitam a palavra de ordem ‘Nem vitória nem derrota’ só podem ser hipocritamente favoráveis à luta de classes, a ‘romper a paz civil’; na prática, renunciam a uma política proletária independente porque subordinam o proletariado de todos os países beligerantes à tarefa absolutamente burguesa de proteger os governos imperialistas contra a derrota…

Aqueles que são favoráveis à palavra de ordem ‘Nem vitória nem derrota’ são, consciente ou inconscientemente, chauvinistas; no melhor dos casos, são pequeno-burgueses conciliadores; em todo caso, são inimigos da política proletária, partidários dos governos atuais, das classes dominantes atuais…

Aqueles que defendem a palavra de ordem ‘Nem vitória nem derrota’ estão, de fato, do lado da burguesia e dos oportunistas, pois ‘não acreditam’ na possibilidade de ação revolucionária internacional da classe trabalhadora contra seus próprios governos, e não desejam ajudar o desenvolvimento de tal ação que, embora não seja tarefa fácil, é verdade, é a única tarefa digna de um proletário, a única tarefa socialista.”

(V. I. Lenin: “A Derrota de Seu Próprio Governo na Guerra Imperialista”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 142–143, 145, 146–147).

Em abril de 1915, Rosa Luxemburgo, na prisão, escreveu, sob o pseudônimo “Junius”, uma brochura intitulada “A Crise da Social-Democracia Alemã”. Ela foi publicada um ano depois, em abril de 1916. Rosa Luxemburgo, como Trotsky, opunha-se à política leninista de “derrotismo revolucionário”:

“Qual deve ser a atitude prática da social-democracia na guerra presente? Deve ela declarar: uma vez que esta é uma guerra imperialista, uma vez que não desfrutamos em nosso país de qualquer autodeterminação socialista, sua existência ou inexistência não tem importância para nós, e nós a entregaremos ao inimigo? O fatalismo passivo nunca pode ser o papel de um partido revolucionário como a social-democracia…

Sim, os socialistas devem defender seu país em grandes crises históricas.”

(R. Luxemburgo: “A Crise da Social-Democracia Alemã”, em: “Rosa Luxemburg Speaks”; Nova York; 1970; p. 311, 314).

E, como Trotsky, apresentou a palavra de ordem “Nem vitória nem derrota”:

“Aqui reside a grande culpa da social-democracia alemã… Era seu dever proclamar ao povo da Alemanha que, nesta guerra, vitória e derrota seriam igualmente fatais.”

(R. Luxemburgo: ibid.; p. 314).

Sugerindo que a defesa do país “contra a derrota” deveria ser conduzida sob a palavra de ordem à qual ela se opusera consistentemente como dirigente do Partido Social-Democrata do Reino da Polônia e Lituânia, a palavra de ordem da “autodeterminação nacional”:

“Em vez de cobrir esta guerra imperialista com um manto mentiroso de autodefesa nacional, a social-democracia deveria ter exigido seriamente o direito de autodeterminação nacional.”

(R. Luxemburgo: ibid.; p. 311–312).

Lenin respondeu à brochura de Rosa Luxemburgo em seu artigo “A Brochura de Junius”, publicado em agosto de 1916:

“Encontramos o mesmo erro nos argumentos de Junius sobre o que é melhor, vitória ou derrota. Sua conclusão é que ambas são igualmente ruins… Este não é o ponto de vista do proletariado revolucionário, mas do pequeno-burguês pacifista… Outro argumento falacioso apresentado por Junius está ligado à questão da defesa da pátria. Junius… cai no erro muito estranho de tentar arrastar um programa nacional para a atual guerra não nacional. Parece quase incrível, mas é verdade.

Ele propõe ‘opor’ à guerra imperialista um programa nacional.”

(V. I. Lenin: “A Brochura de Junius”; em: “Obras Completas”, Volume 19; Londres; 1942; p. 212, 207, 209).

É verdade que Rosa Luxemburgo, diferentemente dos social-chauvinistas abertos, apoiava o conceito de luta de classes contra o próprio governo durante a guerra, não, porém, em relação à palavra de ordem de “transformar a guerra imperialista em guerra civil”, mas como “a melhor defesa contra um inimigo estrangeiro”:

“Os séculos provaram que não o estado de sítio, mas a luta de classes implacável… é a melhor proteção e a melhor defesa contra um inimigo estrangeiro.”

(R. Luxemburgo: ibid.; p. 304).

Lenin comentou:

“Ao dizer que a luta de classes é o melhor meio de defesa contra a invasão, Junius aplicou a dialética marxista apenas pela metade, dando um passo no caminho correto e imediatamente se desviando dele… A guerra civil contra a burguesia também é uma forma de luta de classes, e somente essa forma de luta de classes teria salvado a Europa (toda a Europa, não apenas um país) do perigo de invasão.

Junius chegou muito perto da solução correta do problema e da palavra de ordem correta: guerra civil contra a burguesia pelo socialismo; mas, como se temesse dizer toda a verdade, voltou-se para a fantasia de uma ‘guerra nacional’ em 1914, 1915 e 1916…

Junius não se libertou completamente do ‘ambiente’ dos sociais-democratas alemães, mesmo dos esquerdistas, que têm medo de levar as palavras de ordem revolucionárias à sua conclusão lógica.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 210, 212).

A luta contra a autodeterminação nacional

O manifesto redigido por Trotsky, adotado pela Conferência Socialista Internacional em Zimmerwald (Suíça), em setembro de 1915, reconhecia o direito de autodeterminação das nações como um “princípio indestrutível”:

“O direito de autodeterminação das nações deve ser o princípio indestrutível no sistema de relações nacionais entre os povos.”

(Manifesto da Conferência Socialista Internacional em Zimmerwald, setembro de 1915, em: V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 18; Londres; s.d.; p. 475).

A delegação polonesa na conferência (composta por Karl Radek, Adolf Warski e Yakov Ganetsky) opôs-se ao reconhecimento do direito de autodeterminação das nações, mas apresentou uma declaração sobre a questão nacional que, de fato, reconhecia o direito de autodeterminação da Polônia, pois declarava que a classe trabalhadora internacional:

“romperá os grilhões da opressão nacional e abolirá todas as formas de dominação estrangeira, e assegurará ao povo polonês a possibilidade de desenvolvimento livre e multilateral como membro igual em uma Liga das Nações.”

(“Boletim do Comitê Socialista Internacional em Berna”, n. 2; 27 de setembro de 1915; p. 15).

Lenin comentou essa declaração:

“Não há diferença material entre esses postulados e o reconhecimento do direito das nações à autodeterminação, exceto que sua formulação política é ainda mais difusa e vaga do que a maioria dos programas e resoluções da Segunda Internacional. Qualquer tentativa de expressar essas ideias em fórmulas políticas precisas… provará de modo ainda mais impressionante o erro cometido pelos sociais-democratas poloneses ao repudiar a autodeterminação das nações.”

(V. I. Lenin: “A Revolução Socialista e o Direito das Nações à Autodeterminação”; em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 279–280).

Em outubro de 1915, Karl Radek, sob o pseudônimo “Parabellum”, escreveu um artigo no “Berner Tagwacht” (“Sentinela de Berna”) intitulado “Anexações e Social-Democracia”, no qual, em nome da direção do Partido Social-Democrata do Reino da Polônia e Lituânia, declarava:

“Somos contra as anexações.”

(K. Radek: “Anexações e Social-Democracia”, citado em V. I. Lenin: “O Proletariado Revolucionário e o Direito das Nações à Autodeterminação”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 282).

Mas denunciava a:

“luta pelo inexistente direito à autodeterminação.”

(K. Radek: ibid.; p. 282).

Lenin respondeu a Radek em novembro de 1915, em seu artigo “O Proletariado Revolucionário e o Direito das Nações à Autodeterminação”:

“Nossa ‘luta contra as anexações’ será sem sentido e nada assustadora para os social-patriotas se não declararmos que o socialista de uma nação opressora que não conduz propaganda, tanto em tempo de paz quanto em tempo de guerra, em favor da liberdade de separação das nações oprimidas não é socialista nem internacionalista, mas chauvinista.”

(V. I. Lenin: “O Proletariado Revolucionário e o Direito das Nações à Autodeterminação”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 287).

Em novembro de 1915, Nikolai Bukharin e Grigori Pyatakov enviaram ao Comitê Central do POSDR as teses “A Palavra de Ordem do Direito das Nações à Autodeterminação”, escritas por Bukharin. As teses concluíam:

“Não apoiamos em hipótese alguma o governo da grande potência que reprime a rebelião ou a explosão de indignação de uma nação oprimida; mas, ao mesmo tempo, nós mesmos não mobilizamos as forças proletárias sob a palavra de ordem ‘direito das nações à autodeterminação’. Nesse caso, nossa tarefa é mobilizar as forças do proletariado de ambas as nações (juntamente com outras) sob a palavra de ordem ‘guerra civil de classe pelo socialismo’, e conduzir propaganda contra a mobilização das forças sob a palavra de ordem ‘direito das nações à autodeterminação’.”

(N. Bukharin: “A Palavra de Ordem do Direito das Nações à Autodeterminação”, citado em V. I. Lenin: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 379–380).

Lenin respondeu às teses de Bukharin em março de 1916 com teses próprias, intituladas “A Revolução Socialista e o Direito das Nações à Autodeterminação”:

“O socialismo vitorioso deve realizar a democracia completa e, consequentemente, não apenas produzir a completa igualdade das nações, mas também efetivar o direito das nações oprimidas à autodeterminação, isto é, o direito à livre separação política. Partidos socialistas que deixem de provar por todas as suas atividades, agora, bem como durante a revolução e depois de sua vitória, que libertarão as nações escravizadas e estabelecerão relações com elas sobre a base da união livre — e união livre é uma frase mentirosa sem o direito de separação -, tais partidos cometem traição ao socialismo.”

(V. I. Lenin: “A Revolução Socialista e o Direito das Nações à Autodeterminação”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 267).

Rosa Luxemburgo, escrevendo sob o pseudônimo “Junius” na brochura “A Crise da Social-Democracia Alemã”, publicada em abril de 1916, declarou que guerras de libertação nacional eram impossíveis sob o imperialismo:

“No atual meio imperialista, não pode haver guerras de autodefesa nacional.”

(R. Luxemburgo: “A Crise da Social-Democracia Alemã”, em: “Rosa Luxemburg Speaks”; Nova York; 1970; p. 305).

Lenin comentou em “A Brochura de Junius”, publicada em agosto de 1916:

“Guerras nacionais travadas por países coloniais e semicoloniais são não apenas possíveis, mas inevitáveis na época do imperialismo.

Guerras nacionais não devem ser consideradas impossíveis na época do imperialismo nem mesmo na Europa.

O postulado de que ‘não pode haver mais guerras nacionais’ é obviamente falacioso na teoria… Mas essa falácia também é muito nociva no sentido político prático; ela dá origem à propaganda estúpida pelo ‘desarmamento’, como se nenhuma guerra além das guerras reacionárias fosse possível; ela é a causa da indiferença ainda mais estúpida e francamente reacionária diante dos movimentos nacionais. Tal indiferença se torna chauvinismo quando membros de ‘grandes’ nações europeias, isto é, nações que oprimem uma massa de pequenos povos e povos coloniais, declaram com ar erudito que ‘não pode haver mais guerras nacionais’.”

(V. I. Lenin: “A Brochura de Junius”, em: “Obras Completas”, Volume 19; Londres; 1942; p. 204, 205, 206).

Em agosto de 1916, Grigori Pyatakov escreveu, sob o pseudônimo “P. Kievsky”, um artigo intitulado “O Proletariado e o Direito das Nações à Autodeterminação”. Nesse artigo, que não foi publicado, Pyatakov denunciou a palavra de ordem do direito das nações à autodeterminação sob o argumento de que:

“essa reivindicação conduz diretamente ao social-patriotismo.”

(G. Pyatakov: “O Proletariado e o Direito das Nações à Autodeterminação”, citado em V. I. Lenin: “Uma Caricatura do Marxismo e o ‘Economismo Imperialista’”, em: “Obras Completas”, Volume 19; Londres; 1942; p. 216).

Lenin respondeu ao argumento de Pyatakov em um longo artigo, “Uma Caricatura do Marxismo e o ‘Economismo Imperialista’”, escrito em outubro de 1916, mas publicado apenas em 1924:

“Na atual guerra imperialista… frases sobre defesa da pátria são engano do povo, pois esta guerra não é uma guerra nacional. Em uma guerra verdadeiramente nacional, as palavras ‘defesa da pátria’ não são engano, e nós não nos opomos a tal guerra.”

(V. I. Lenin: “Uma Caricatura do Marxismo e o ‘Economismo Imperialista’”, em: ibid.; p. 217).

Pyatakov insistia:

“Com relação às colônias, limitamo-nos a uma palavra de ordem negativa, isto é… ‘Fora das colônias.’”

(G. Pyatakov: ibid.; p. 251).

E Lenin respondeu:

“Tanto o conteúdo político quanto o conteúdo econômico da palavra de ordem ‘Fora das colônias!’ equivalem a uma só coisa… apenas: liberdade de separação para as nações coloniais; liberdade de estabelecer um Estado separado.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 252).

A base teórica da oposição de Pyatakov à autodeterminação nacional resume-se em sua declaração de que:

“…a propaganda dualista é substituída pela ação monista da Internacional.”

(G. Pyatakov: ibid.; p. 241).

Ao que Lenin respondeu:

“A condição real dos trabalhadores das nações opressoras é a mesma que a dos trabalhadores das nações oprimidas do ponto de vista do problema nacional? Não, não é a mesma… Sendo esse o caso, o que se deve dizer da frase de P. Kievsky: a ação ‘monista’ da Internacional?

É uma frase vazia, sonora, e nada mais.

Para que a ação da Internacional, que na vida real consiste em trabalhadores divididos entre aqueles pertencentes a nações opressoras e aqueles pertencentes a nações oprimidas, seja uma ação monista, a propaganda deve ser conduzida diferentemente em cada caso.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 242–243).

Essa “propaganda dualista” já havia sido descrita por Lenin:

“Os sociais-democratas das nações opressoras devem exigir a liberdade de separação para as nações oprimidas… Os sociais-democratas das nações oprimidas, porém, devem colocar em primeiro plano a unidade e a fusão dos trabalhadores das nações oprimidas com os trabalhadores das nações opressoras.”

(V. I. Lenin: “O Proletariado Revolucionário e o Direito das Nações à Autodeterminação”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 284).

O resumo de Lenin sobre o artigo de Pyatakov foi devastador:

“P. Kievsky… fracassa totalmente em compreender o marxismo.

Kievsky não apresenta um único argumento correto. A única coisa correta em seu artigo, isto é, se não houver erros nos números, é a nota de rodapé em que cita algumas estatísticas sobre bancos.”

(V. I. Lenin: “Uma Caricatura do Marxismo e o ‘Economismo Imperialista’”, em: “Obras Completas”, Volume 19; Londres; 1942; p. 218, 262).

Nessa luta entre os defensores do direito de autodeterminação das nações e seus opositores, Trotsky adotou uma posição caracteristicamente centrista: apoio hipócrita à palavra de ordem, mas sem apoio a seu conteúdo essencial, o direito de separação:

“Trotsky… é de corpo e alma pela autodeterminação, mas também em seu caso trata-se de uma frase ociosa, pois ele não exige liberdade de separação para as nações oprimidas pela ‘pátria’ do socialista da nacionalidade dada.”

(V. I. Lenin: “O ‘Programa de Paz’”, em: “Obras Completas”, Volume 19; Londres; 1942; p. 66).

“Os kautskistas reconhecem hipocritamente a autodeterminação; na Rússia, este é o caminho seguido por Trotsky e Martov. Em palavras, ambos declaram que são favoráveis à autodeterminação, como Kautsky. Mas na prática? Trotsky se engaja em seu ecletismo costumeiro… A hipocrisia predominante permanece sem ser desmascarada…, a saber, a atitude a ser adotada em relação à nação que é oprimida pela ‘minha’ nação…

Um social-democrata russo que ‘reconhece’ a autodeterminação das nações… sem lutar pela liberdade de separação das nações oprimidas pelo tsarismo é, na realidade, um imperialista e um lacaio do tsarismo.

Quaisquer que sejam as intenções subjetivas ‘bem-intencionadas’ de Trotsky e Martov, eles, por suas evasivas, apoiam objetivamente o social-imperialismo russo.”

(V. I. Lenin: “O Balanço da Discussão sobre a Autodeterminação”, em: “Obras Completas”, Volume 19; Londres; 1942; p. 305).

O conciliacionismo de Trotsky

Lenin defendia firmemente a separação organizativa do internacionalismo revolucionário em relação tanto ao social-chauvinismo aberto quanto ao encoberto, isto é, centrista:

“Manter-se unido ao oportunismo no momento presente significa precisamente submeter a classe trabalhadora à ‘sua’ burguesia, fazer uma aliança com ela para a opressão de outras nações e para a luta pelos privilégios de uma grande nação; ao mesmo tempo, significa cindir o proletariado revolucionário de todos os países.”

(V. I. Lenin: “Socialismo e Guerra”, em: “Obras Completas”, Volume 18; Londres; s.d.; p. 230–231).

“Devemos declarar que a ideia de unidade com o Comitê Organizador é uma ilusão prejudicial à causa dos trabalhadores.”

(V. I. Lenin: “E Agora?”, em: ibid.; p. 109).

“Não seremos favoráveis à unidade com a fração de Chkheidze (como desejam tanto Trotsky quanto o Comitê Organizador, e Plekhanov e companhia…), pois isso significaria encobrir e defender o ‘Nashe Dyelo’.”

(V. I. Lenin: Carta a Aleksandra Kollontai, verão de 1915, em: ibid.; p. 208).

Em contraste com Lenin, Trotsky defendeu consistentemente a unidade daquilo que chamava de grupos “internacionalistas”, categoria que incluía os social-chauvinistas encobertos do Centro: o Comitê Organizador, a fração menchevique da Duma e o grupo em torno de Trotsky.

No início de 1915, “Nashe Slovo” dirigiu um apelo ao Comitê Central bolchevique e ao Comitê Organizador menchevique, propondo uma conferência de todos os grupos que adotavam uma “atitude negativa” diante do social-chauvinismo. Em sua resposta, datada de março de 1915, o Comitê Organizador disse:

“Para a conferência devem ser convidados os representantes no exterior de todos aqueles centros e grupos partidários que estiveram… presentes na Conferência de Bruxelas do Bureau Socialista Internacional antes da guerra.”

(Carta do Comitê Organizador, 12 de março de 1915, citada em V. I. Lenin: “A Questão da Unidade dos Internacionalistas”, em: “Obras Completas”, Volume 18; Londres; s.d.; p. 177).

Lenin comentou:

“Assim, o Comitê Organizador se recusa, por princípio, a conferenciar com os internacionalistas, uma vez que deseja conferenciar também com os social-patriotas (sabe-se que as políticas de Plekhanov e Alexinsky estiveram representadas em Bruxelas).

Não devemos conferenciar, diz ele, sem os social-patriotas; devemos conferenciar com eles!”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 177, 178).

Não obstante, Trotsky continuou seus esforços para produzir a unidade organizativa entre os bolcheviques e os social-chauvinistas encobertos do Centro. Em junho de 1915, Trotsky escreveu uma Carta Aberta aos editores da revista bolchevique “Kommunist”, publicada no n. 105 de “Nashe Slovo”, na qual dizia:

“Tenho orgulho da conduta de nossos membros da Duma (o grupo de Chkheidze); considero-os o agente mais importante da educação internacionalista do proletariado na Rússia e, por essa mesma razão, considero tarefa de todo social-democrata revolucionário estender-lhes todo apoio e elevar sua autoridade na Internacional.”

(L. Trotsky: Carta Aberta aos Editores de “Kommunist”, citada em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 18; Londres; s.d.; p. 435).

Lenin comentou o conciliacionismo sem princípios de Trotsky em vários artigos:

“Os elementos agrupados em torno de ‘Nashe Slovo’ vacilam entre a simpatia platônica pelo internacionalismo e uma tendência à unidade a qualquer preço com ‘Nasha Zarya’ e o Comitê Organizador.”

(V. I. Lenin: “Conferência das Seções do POSDR no Exterior”, em: “Obras Completas”, Volume 18; Londres; s.d.; p. 150).

“‘Nashe Slovo’… levanta uma revolta contra o social-nacionalismo enquanto permanece de joelhos diante dele, pois deixa de desmascarar os defensores mais perigosos da corrente burguesa (como Kautsky); não declara guerra ao oportunismo, mas, ao contrário, passa por ele em silêncio; não empreende, nem indica, quaisquer passos reais rumo à libertação do socialismo de seu vergonhoso cativeiro patriótico. Ao dizer que nem a unidade nem a cisão com aqueles que se uniram à burguesia são imperativas, ‘Nashe Slovo’ rende-se, na prática, aos oportunistas.”

(V. I. Lenin: “O Colapso do Internacionalismo Platônico”, em: ibid.; p. 183).

“Trotsky sempre discorda inteiramente dos social-chauvinistas em princípio, mas concorda com eles em tudo na prática.”

(V. I. Lenin: “O Estado de Coisas na Social-Democracia Russa”, em: ibid.; p. 205–206).

“Não seremos favoráveis à unidade com a fração de Chkheidze (como desejado… por Trotsky…), pois isso significaria encobrir e defender o ‘Nashe Dyelo’…

Roland-Holst, assim como Rakovsky… e também Trotsky, são todos, a meu juízo, os mais nocivos ‘kautskistas’, na medida em que todos, de uma forma ou de outra, são pela unidade com os oportunistas… todos embelezam o oportunismo, todos, cada um à sua maneira, promovem o ecletismo em vez do marxismo revolucionário.”

(V. I. Lenin: Cartas a Aleksandra Kollontai, verão de 1915, em: ibid.; p. 208, 209).

“Na Rússia, Trotsky… luta pela unidade com o grupo oportunista e chauvinista ‘Nasha Zarya’.”

(V. I. Lenin: “Socialismo e Guerra”, em: ibid.; p. 232).

“Martov e Trotsky, na Rússia, causam o maior dano ao movimento operário por sua insistência em uma unidade fictícia, dificultando assim a unificação iminente, já amadurecida, da oposição em todos os países e a criação da Terceira Internacional.”

(V. I. Lenin: “As Tarefas da Oposição na França”, em: “Obras Completas”, Volume 19; Londres; 1942; p. 32).

“Quais são nossas divergências com Trotsky?… Em resumo: ele é um kautskista, isto é, defende a unidade com os kautskistas na Internacional e com o grupo parlamentar de Chkheidze na Rússia. Somos absolutamente contra tal unidade.”

(V. I. Lenin: Carta a Henrietta Roland-Holst, 8 de março de 1916, em: “Obras Completas”, Volume 43; Moscou; 1969; p. 515–516).

“Que canalha é esse Trotsky: frases de esquerda e um bloco com a direita… Ele deve ser desmascarado.”

(V. I. Lenin: Carta a Aleksandra Kollontai, 17 de fevereiro de 1917, em: “Obras Completas”, Volume 35; Moscou; 1966; p. 285).

A defesa de Kamenev

Em novembro de 1915, onze membros dirigentes do Partido Operário Social-Democrata Russo, incluindo cinco deputados, foram presos em uma conferência perto de Petrogrado e acusados de serem membros de uma organização que visava à derrubada da ordem política existente.

Em seu julgamento, Lev Kamenev e dois dos deputados declararam, em sua defesa, que não aceitavam a política do Partido na medida em que ela ordenava aos membros trabalhar pela derrota da Rússia na guerra.

Lenin comentou:

“O julgamento da Fração Operária Social-Democrata Russa… provou, em primeiro lugar, que esse destacamento avançado da social-democracia revolucionária na Rússia não demonstrou firmeza suficiente no julgamento… Tentar demonstrar solidariedade com o social-patriota senhor Yordansky, como fez o camarada Rosenfeld (isto é, Kamenev — Ed.), ou apontar sua discordância com o Comitê Central, é um método incorreto; isso é inadmissível do ponto de vista da social-democracia revolucionária.”

(V. I. Lenin: “O Que Provou o Julgamento da Fração Operária Social-Democrata Russa?”, em: “Obras”, Volume 18; Moscou; s.d.; p. 151).

1916: A tentativa de introduzir ideias anarquistas no Partido

Em 1916, Nikolai Bukharin escreveu, sob o pseudônimo “Nota Bene”, um artigo intitulado “O Estado Imperialista Predatório” na revista “A Internacional da Juventude” (órgão do Bureau da Liga Internacional das Organizações da Juventude Socialista), no qual dizia:

“É bastante equivocado buscar a diferença entre socialistas e anarquistas no fato de que os primeiros são favoráveis ao Estado enquanto os últimos são contra ele. A verdadeira diferença é que a social-democracia revolucionária deseja organizar a produção social em novas linhas, centralizadas…, ao passo que a produção anarquista descentralizada significaria retrocesso… A social-democracia… deve agora, mais do que nunca, enfatizar sua hostilidade de princípio ao Estado.”

(N. Bukharin: “O Estado Imperialista Predatório”, citado em V. I. Lenin: “A Internacional da Juventude”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 5; Londres; 1935; p. 243, 244).

Ao que Lenin respondeu:

“Isto está errado. O autor levanta a questão da diferença na atitude de socialistas e anarquistas em relação ao Estado. Mas ele não responde a essa questão, e sim a outra: a diferença na atitude de socialistas e anarquistas em relação ao fundamento econômico da sociedade futura… Os socialistas são favoráveis a utilizar o Estado atual e suas instituições na luta pela emancipação da classe trabalhadora, e também insistem na necessidade de utilizar o Estado para a forma peculiar de transição do capitalismo ao socialismo. Essa forma transicional é a ditadura do proletariado, que também é um Estado.

Os anarquistas querem ‘abolir’ o Estado, ‘fazê-lo explodir’.

Os socialistas… sustentam que o Estado definhará.

A observação do camarada Nota Bene… sobre a ‘ideia de Estado’ é inteiramente confusa. É não marxista e não socialista.”

(V. I. Lenin: “A Internacional da Juventude”, em: ibid.; p. 243, 244).

Em abril de 1929, Stalin comentou:

“A conhecida controvérsia teórica que irrompeu em 1916 entre Lenin e Bukharin sobre a questão do Estado… é importante para revelar as pretensões desmedidas de Bukharin de ensinar Lenin, bem como as raízes de sua inconsistência teórica em questões tão importantes quanto a ditadura do proletariado… Bukharin caiu em um lamaçal semianarquista.

Na opinião de Bukharin, a classe trabalhadora deveria ser hostil, por princípio, ao Estado enquanto tal, incluindo o Estado da classe trabalhadora.”

(J. V. Stalin: “O Desvio de Direita no PCUS (b)”, em: “Leninismo”; Londres; 1942; p. 276, 277).

1916–1917: Trotsky vai para a América

Em setembro de 1916, as autoridades francesas, a pedido do governo tsarista, proibiram “Nashe Slovo” e deportaram Trotsky para a Espanha. Embora não tenha participado de qualquer atividade política na Espanha, depois de alguns dias foi preso pela polícia espanhola e, em dezembro, deportado para os Estados Unidos. Chegou a Nova York em janeiro de 1917.

O assassinato de Rasputin

Durante a guerra, grande influência foi exercida sobre o tsar e a tsarina pelo monge Grigori Rasputin. Em dezembro de 1916, um grupo de nobres, chefiado pelo grão-duque Dmitri Pavlovich, organizou o assassinato de Rasputin, acreditando que sua influência estava sendo usada contra o esforço de guerra.

1917: Trotsky na América

Em janeiro de 1917, Trotsky desembarcou em Nova York e juntou-se à equipe de uma revista russa ali publicada sob a editoria de Nikolai Bukharin e Aleksandra Kollontai, “Novy Mir” (“Novo Mundo”). Tipicamente, formou um bloco com os membros direitistas da equipe contra a esquerda:

“Trotsky chegou, e esse canalha imediatamente se juntou à ala direita de ‘Novy Mir’ contra os zimmerwaldistas de esquerda!! É isso!! Aí está Trotsky para vocês!! Sempre fiel a si mesmo: torce, trapaceia, posa de esquerda, ajuda a direita, enquanto pode.”

(V. I. Lenin: Carta a Inessa Armand, 19 de fevereiro de 1917, em: “Obras Completas”, Volume 35; Moscou; 1966; p. 288).

Em “Novy Mir”, Trotsky continuou a apresentar sua teoria da “revolução permanente”, argumentando que, caso a classe trabalhadora alemã não se levantasse junto com a classe trabalhadora russa, o governo operário de uma Rússia revolucionária deveria travar guerra contra a classe dominante alemã:

“Se a organização social-patriótica conservadora impedir a classe trabalhadora alemã de se levantar contra suas classes dominantes na próxima época, então, é claro, a classe trabalhadora russa defenderá sua revolução com armas nas mãos. O governo revolucionário dos trabalhadores travará guerra contra os Hohenzollern, conclamando o proletariado irmão da Alemanha a se levantar contra o inimigo comum.”

(L. Trotsky: Artigo em “Novy Mir”, 21 de março de 1917, citado em L. Trotsky: “História da Revolução Russa”; Volume 1; Londres; 1967; p. 438).

A “Revolução de Fevereiro”

Desde os primeiros dias de 1917, greves se espalharam pelas principais cidades da Rússia tsarista. Em 10 de março, elas haviam se desenvolvido, em Petrogrado, em uma greve geral política, com os trabalhadores em manifestação carregando palavras de ordem bolcheviques: “Abaixo o tsar!”, “Abaixo a guerra!” e “Pão!”.

O trabalho prático do Partido Bolchevique na Rússia naquele momento era dirigido pelo Birô do Comitê Central, chefiado por Vyacheslav Molotov. Em 11 de março, o Birô publicou um manifesto conclamando a uma insurreição armada contra o tsarismo e à formação de um Governo Provisório.

Em 12 de março, surgiu em Petrogrado um Soviete eleito de Deputados dos Trabalhadores, como comitê de ação para conduzir a insurreição, e, nos dias seguintes, sovietes foram estabelecidos em Moscou e em outras cidades. Em 13 de março, o Soviete de Petrogrado reviveu seu “Izvestia” (“Notícias”).

Quando o tsar ordenou às tropas que suprimissem o levante pela força, os soldados, em sua maioria camponeses uniformizados, recusaram-se a obedecer às ordens de seus oficiais e juntaram-se aos trabalhadores revolucionários, dando assim origem a uma aliança revolucionária de trabalhadores e camponeses. Os trabalhadores e soldados começaram então a desarmar a polícia e a armar-se com suas armas. Em 14 de março, o Soviete de Petrogrado foi ampliado para tornar-se um “Soviete de Deputados dos Trabalhadores e Soldados”.

Em 15 de março, o tsar Nicolau II abdicou.

A revolução de março de 1917, conhecida como “Revolução de Fevereiro” segundo o calendário antigo, foi realizada pelos trabalhadores e camponeses. Seu caráter era o de uma revolução democrático-burguesa dirigida contra a autocracia tsarista.

A formação do Governo Provisório

Assim que a classe capitalista percebeu que a revolução democrático-burguesa era inevitável, passou a manobrar em um esforço para minimizar seu alcance e, acima de tudo, impedir seu desenvolvimento em revolução socialista.

Em 12 de março, um dia depois de o tsar ter dissolvido a Quarta Duma de Estado, seus membros capitalistas liberais criaram um “Comitê Executivo da Duma Imperial”, chefiado pelo presidente da Duma, o latifundiário monarquista Mikhail Rodzyanko.

Em 15 de março, esse Comitê Executivo estabeleceu um “Governo Provisório”, chefiado pelo príncipe Georgi Lvov como primeiro-ministro e incluindo entre seus ministros Pavel Miliukov (dirigente dos constitucional-democratas) como ministro dos Negócios Estrangeiros, Aleksandr Guchkov (dirigente dos outubristas) como ministro da Guerra e Aleksandr Kerensky (proeminente socialista-revolucionário) como ministro da Justiça.

A classe capitalista esforçou-se durante alguns dias para salvar a monarquia, persuadindo o tsar a abdicar em favor de seu irmão Mikhail. Mas isso se revelou insustentável diante do sentimento popular contra a monarquia, e Mikhail abdicou no dia seguinte, 16 de março.

Os capitalistas voltaram então seus esforços para tentar transformar a Rússia em uma república parlamentar capitalista.

Em 17 de março, o novo governo publicou um manifesto “Aos Cidadãos”, expondo seu programa:

“1. Anistia completa e imediata para todos os delitos políticos e religiosos, incluindo atos terroristas, revoltas militares, insurreições agrárias etc.

  1. Liberdade de palavra, imprensa, reunião, associação, greve e extensão de todas as liberdades políticas às pessoas em serviço militar, dentro dos limites exigidos por considerações de necessidade técnica militar.

  2. Abolição de todas as restrições feudais de estamento e nacionais.

  3. Preparação imediata para a convocação de uma Assembleia Constituinte com base no sufrágio universal, igual, direto e secreto. Essa Assembleia Constituinte determinará a forma de Estado e a Constituição do país.

  4. Formação de uma milícia popular com oficiais eleitos subordinados aos órgãos de autogoverno local e substituindo a polícia.

  5. Eleições para os órgãos locais de autogoverno com base no sufrágio universal, igual, direto e secreto.

  6. As tropas que participaram do movimento revolucionário não devem ser desarmadas e devem permanecer em Petrogrado.

  7. Mantendo-se rígida disciplina militar em serviço, todos os obstáculos que impeçam os soldados de exercer os direitos públicos desfrutados pelos demais cidadãos devem ser eliminados.”

(Manifesto do Governo Provisório, 17 de março de 1917, citado em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 1; Londres; 1929; p. 348).

Lenin comentou:

“Em sua primeira proclamação ao povo (17 de março), o governo não disse uma palavra sobre a questão principal e básica do momento presente: a paz. Mantém secretos os tratados predatórios feitos pelo tsarismo com a Inglaterra, a França, a Itália, o Japão etc. Deseja ocultar do povo a verdade sobre seu programa de guerra e o fato de que é pela guerra, pela vitória sobre a Alemanha… O novo governo não pode dar pão ao povo. E nenhuma liberdade satisfará massas que sofrem de fome…

Todo o Manifesto do novo governo… inspira-me a maior desconfiança, pois consiste apenas em promessas e não põe em prática nenhuma das medidas mais essenciais que poderiam e deveriam ser plenamente realizadas agora mesmo.”

(V. I. Lenin: Teses de 17 de março de 1917, em: ibid.; p. 24, 25).

O papel do Soviete de Petrogrado

Embora houvesse um grande elemento espontâneo na “Revolução de Fevereiro”, os bolcheviques desempenharam um papel dirigente no próprio levante. Apesar disso, na maioria dos casos, a maioria dos membros dos sovietes e de seus Comitês Executivos era composta por mencheviques e socialistas-revolucionários; os bolcheviques, no período seguinte à “Revolução de Fevereiro”, eram uma pequena minoria na maioria dos sovietes, incluindo os de Petrogrado e Moscou.

Vários fatores foram responsáveis por essa situação: a classe trabalhadora industrial havia sido diluída durante a guerra por grandes contingentes de camponeses vindos das aldeias, enquanto dirigentes bolcheviques como Lenin e Stalin estavam no exílio.

Como resultado disso, em 18 de março, o Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado publicou uma proclamação conclamando os trabalhadores a apoiarem o Governo Provisório capitalista. Lenin comentou:

“A proclamação emitida pelo Soviete de Deputados dos Trabalhadores… é um documento notabilíssimo. Ela prova que o proletariado de Petrogrado, ao menos no momento em que emitiu sua proclamação, estava sob a influência preponderante dos políticos pequeno-burgueses.

A proclamação declara que todo democrata deve ‘apoiar’ o novo governo e que o Soviete de Deputados dos Trabalhadores solicita e autoriza Kerensky a participar do Governo Provisório… Esses passos são um exemplo clássico de traição à causa da revolução e à causa do proletariado.”

(V. I. Lenin: “Cartas de Longe”, em: ibid.; p. 41, 42).

Ao mesmo tempo, o Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado estabeleceu uma “Comissão de Contato”, chefiada por Aleksandr Skobelev, cujo objetivo oficial era manter contato com o Governo Provisório e “controlá-lo”.

Lenin resumiu a situação política resultante da Revolução de Fevereiro nas seguintes palavras:

“A primeira etapa da revolução…, devido à insuficiente consciência de classe e organização do proletariado, levou à tomada do poder pela burguesia.”

(V. I. Lenin: “As Tarefas do Proletariado na Presente Revolução”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 6; Londres; 1946; p. 22).

A linha política do Partido em março de 1917

A vitória da “Revolução de Fevereiro” criou uma nova situação política na Rússia, que exigia uma nova linha política por parte do Partido Operário Social-Democrata Russo.

Como Stalin expressou em novembro de 1924:

“Esta foi a maior virada na história da Rússia e uma virada sem precedentes na história de nosso Partido. A velha plataforma pré-revolucionária de derrubada direta do governo era clara e definida, mas já não era adequada às novas condições de luta… Sob as novas condições da luta, o Partido teve de adotar uma nova orientação. O Partido (sua maioria) tateou seu caminho em direção a essa nova orientação.”

(J. V. Stalin: “Trotskismo ou Leninismo?”, em: “Obras”, Volume 6; Moscou; 1953; p. 347, 348).

No momento da “Revolução de Fevereiro”, o Birô do Comitê Central do POSDR, sediado em Petrogrado, era dirigido por Vyacheslav Molotov.

Em 18 de março de 1917, o Birô publicou, em nome do Comitê Central, um manifesto a “Todos os Cidadãos da Rússia”, conclamando à formação de um Governo Revolucionário Provisório.

“Cidadãos! As fortalezas do tsarismo russo… caíram… É tarefa da classe trabalhadora e do exército revolucionário criar um Governo Revolucionário Provisório que deverá chefiar a nova ordem republicana agora em processo de nascimento.

O Governo Revolucionário Provisório deve assumir a tarefa de criar leis temporárias que defendam todos os direitos e liberdades do povo, confiscar as terras dos mosteiros e dos latifundiários, as terras da Coroa e dos apanágios, introduzir a jornada de trabalho de oito horas e convocar uma Assembleia Constituinte com base no sufrágio universal, direto e igual, sem discriminação de sexo, nacionalidade ou religião, e com voto secreto.

O Governo Revolucionário Provisório deve assumir a tarefa de garantir provisões para a população e para o exército; para esse propósito, deve confiscar todos os estoques preparados pelo antigo governo e pelas municipalidades…

É tarefa do povo e de seu governo revolucionário suprimir todas as conspirações contrarrevolucionárias contra o povo.

É tarefa imediata e urgente do Governo Revolucionário Provisório estabelecer relações com o proletariado dos países beligerantes com o propósito de… pôr fim à carnificina sangrenta da guerra imposta aos povos escravizados contra sua vontade.

Os trabalhadores das oficinas e fábricas, bem como as tropas insurgentes, devem eleger imediatamente seus representantes para o Governo Revolucionário Provisório…

Avante sob a bandeira vermelha da revolução!

Viva a República Democrática!

Viva a classe trabalhadora revolucionária!

Viva o povo revolucionário e o exército insurgente!”

(Manifesto do CC do POSDR, 18 de março de 1917, citado em V. I. Lenin: “Obras Completas”; Volume 20, Livro 2; Londres; 1929; p. 378–379).

O manifesto foi publicado no primeiro número do “Pravda”, que reapareceu no mesmo dia.

Entre os bolcheviques libertados do exílio na Sibéria pela “Revolução de Fevereiro” estavam Josef Stalin e Lev Kamenev, ambos retornando a Petrogrado. Kamenev entrou para o conselho editorial do “Pravda” em 23 de março; Stalin, dois dias depois, em 28 de março.

Kamenev imediatamente sustentou uma linha chauvinista sobre a guerra, afirmando, como os dirigentes mencheviques, que, com a vitória da “Revolução de Fevereiro”, a classe trabalhadora deveria adotar uma posição de “defensismo revolucionário”. Escreveu no “Pravda” de 28 de março:

“Os soldados, os camponeses e os trabalhadores da Rússia que foram à guerra obedecendo ao chamado do tsar agora derrubado… libertaram-se; as bandeiras do tsar foram substituídas pelas bandeiras vermelhas da revolução!…

Quando um exército enfrenta outro exército, seria a política mais absurda propor que um deles depusesse as armas e voltasse para casa. Esta… seria uma política de escravidão que um povo livre repudiaria com desprezo. Não, manteremos firmemente nossos postos, responderemos bala com bala e projétil com projétil…

Um soldado ou oficial revolucionário, tendo derrubado o jugo do tsarismo, não abandonará uma trincheira para deixá-la a um soldado ou oficial alemão que não reuniu coragem para derrubar o jugo de seu próprio governo. Não devemos permitir qualquer desorganização das forças militares da revolução!…

A Rússia está ligada por alianças à Inglaterra, à França e a outros países. Não pode agir nas questões da paz sem eles.”

(L. Kamenev: “Sem Diplomacia Secreta”, citado em “Obras Completas”, Volume 20, Livro 2; Londres; 1929; p. 379, 380).

Stalin rejeitou essa política de “defensismo revolucionário” chauvinista. Escreveu no “Pravda” no dia seguinte, 29 de março:

“A guerra atual é uma guerra imperialista. Seu objetivo principal é a tomada (anexação) de territórios estrangeiros, principalmente agrários, por Estados capitalisticamente desenvolvidos…

Seria deplorável se a democracia revolucionária russa, que foi capaz de derrubar o odiado regime tsarista, sucumbisse ao falso alarme levantado pela burguesia imperialista.”

(J. V. Stalin: “A Guerra”, em: “Obras”; Volume 3; Moscou; 1953; p. 5, 7).

A maioria do Birô, chefiada por Stalin e Molotov, via corretamente o Governo Provisório como um órgão da classe capitalista, e os sovietes como o embrião de um Governo Provisório. Uma resolução do Birô publicada no “Pravda” em 8 de abril declarou:

“O Governo Provisório, constituído pelas classes burguesas moderadas da sociedade e associado por interesses ao capital anglo-francês, é incapaz de resolver os problemas levantados pela revolução. Sua resistência à posterior extensão e aprofundamento da revolução está sendo paralisada apenas pelo crescimento das próprias forças revolucionárias e por sua organização. Seu centro de agrupamento devem ser os Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados nas cidades e os Sovietes de Deputados dos Camponeses e Trabalhadores Agrícolas no campo, como embrião de um governo revolucionário, preparado, no curso ulterior do desenvolvimento, em um momento definido da revolução, para estabelecer o pleno poder do proletariado em aliança com a democracia revolucionária.”

(Resolução do Birô do CC do POSDR, citada em N. Popov: “Esboço da História do Partido Comunista da União Soviética”, Parte 1; Londres; s.d.; p. 353–354).

Contudo, ao “tatear” em direção a uma linha política correta na nova situação, a maioria do Birô cometeu um erro tático. Em vez de apresentar a palavra de ordem clara “Todo o poder aos sovietes!”, adotou uma política de “pressionar o Governo Provisório” para que realizasse ações que, como órgão da classe capitalista, era incapaz de realizar:

“A solução é exercer pressão sobre o Governo Provisório para fazê-lo declarar seu consentimento em iniciar imediatamente negociações de paz.

Os trabalhadores, soldados e camponeses devem organizar reuniões e manifestações e exigir que o Governo Provisório se pronuncie aberta e publicamente em um esforço para induzir todas as potências beligerantes a iniciar imediatamente negociações de paz, com base no reconhecimento do direito das nações à autodeterminação.”

(J. V. Stalin: ibid.; p. 8).

Sobre isso, Lenin comentou de modo direto no dia seguinte a seu retorno à Rússia:

“O ‘Pravda’ exige que o governo renuncie às anexações. Exigir que um governo de capitalistas renuncie às anexações é disparate.”

(V. I. Lenin: Discurso em uma reunião dos membros bolcheviques da Conferência de Toda a Rússia dos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados, 17 de abril de 1917, em: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 1; Londres; 1929; p. 98).

Essa linha tática incorreta correspondia estreitamente à linha tática de Kamenev, que disse:

“Nossa palavra de ordem é: pressão sobre o Governo Provisório com o objetivo de forçá-lo, aberta e imediatamente, diante da democracia mundial, a apresentar uma tentativa de induzir todos os países beligerantes a iniciar imediatamente negociações sobre os meios de pôr fim à Guerra Mundial.”

(L. Kamenev: “Sem Diplomacia Secreta”, citado em V. I. Lenin: “Obras Completas”; Volume 20, Livro 2; Londres; 1929; p. 380).

O próprio Stalin analisou essa política tática equivocada em novembro de 1924:

“O Partido (sua maioria) tateou seu caminho em direção a essa nova orientação. Adotou a política de pressão sobre o Governo Provisório através dos sovietes na questão da paz e não se atreveu a avançar imediatamente da velha palavra de ordem da ditadura do proletariado e do campesinato para a nova palavra de ordem do poder aos sovietes. O objetivo dessa política intermediária era permitir que os sovietes discernissem a verdadeira natureza imperialista do Governo Provisório com base nas questões concretas da paz e, desse modo, arrancar os sovietes do Governo Provisório. Mas esta era uma posição profundamente equivocada, pois produzia ilusões pacifistas, levava água ao moinho do defensismo e dificultava a educação revolucionária das massas. Naquele tempo, compartilhei essa posição equivocada com os camaradas do Partido e a abandonei plenamente apenas em meados de abril, quando me associei às teses de Lenin.”

(J. V. Stalin: “Trotskismo ou Leninismo”, em: “Obras”, Volume 3; Moscou; 1953; p. 348).

Lenin retorna à Rússia

Assim que a “Revolução de Fevereiro” eclodiu, Lenin iniciou tentativas de retornar à Rússia. Os governos das potências aliadas recusaram-lhe permissão para viajar através de seus países, mas finalmente, como resultado de negociações entre Fritz Platten, secretário do Partido Socialista Suíço, e o governo alemão, 32 emigrados políticos russos, 19 dos quais eram bolcheviques, entre eles Lenin, foram autorizados a atravessar a Alemanha em um vagão ferroviário selado, ao qual foram concedidos direitos extraterritoriais. O governo alemão, naturalmente, calculava que o retorno desses revolucionários à Rússia seria prejudicial ao esforço de guerra russo.

Lenin chegou a Petrogrado na noite de 16 de abril e foi saudado por uma multidão entusiasmada de trabalhadores e soldados.

No dia seguinte, relatou ao Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado as circunstâncias de sua viagem através da Alemanha.

As “Teses de Abril” de Lenin

Mais tarde, em 17 de abril, Lenin falou em uma reunião dos delegados bolcheviques à Conferência dos Sovietes, apresentando suas teses sobre a nova situação na Rússia após a “Revolução de Fevereiro”: as “Teses de Abril”. Os pontos principais dessas teses eram os seguintes:

  1. A “Revolução de Fevereiro” produziu a ditadura democrático-revolucionária da classe trabalhadora e do campesinato sob a forma dos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados.

“O Soviete de Deputados dos Trabalhadores e Soldados: aqui vocês têm a ‘ditadura democrático-revolucionária do proletariado e do campesinato’ já realizada na vida.”

(V. I. Lenin: “Cartas sobre a Tática”, em: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 1; Londres; 1929; p. 120).

  1. Mas, ao lado dos Sovietes, surgiu da “Revolução de Fevereiro” o Governo Provisório, representante dos interesses da classe capitalista.

“O Governo Provisório de Lvov e companhia é uma ditadura… baseada… na tomada do poder pela força, realizada por uma classe definida, a saber, a burguesia.”

(V. I. Lenin: “As Tarefas do Proletariado em Nossa Revolução”, em: ibid.; p. 133).

  1. Assim, da “Revolução de Fevereiro” surgiu uma condição temporária de duplo poder, de dois governos rivais.

“O que tornou nossa revolução tão extraordinariamente única foi o fato de ela ter estabelecido o duplo poder… Em que consiste o duplo poder? No fato de que, ao lado do Governo Provisório, o governo da burguesia, desenvolveu-se outro governo, ainda fraco, embrionário, mas indubitavelmente real e em crescimento: os Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados.”

(V. I. Lenin: “Sobre o Duplo Poder”, em: ibid.; p. 115).

“Não há a menor dúvida de que tal combinação não pode durar muito. Não pode haver dois poderes em um Estado. Um deles está destinado a reduzir-se a nada, e toda a burguesia russa já está empregando todas as suas energias, em toda parte e de todos os modos possíveis, no esforço de enfraquecer, afastar e reduzir a nada o Soviete de Deputados dos Trabalhadores e Soldados, a fim de criar um único poder para a burguesia.”

(V. I. Lenin: “As Tarefas do Proletariado em Nossa Revolução”, em: ibid.; p. 133).

  1. Apesar de sua fraqueza, é a ditadura democrática da classe trabalhadora e do campesinato, o governo soviético embrionário, que, no presente, possui a única maquinaria efetiva de força, sob a forma dos trabalhadores armados e dos soldados revolucionários.

“Em Petrogrado, o poder está de fato nas mãos dos trabalhadores e soldados; o novo governo não usa violência contra eles, e não pode fazê-lo porque não há polícia, não há exército separado do povo, não há funcionalismo onipotente colocado acima do povo.”

(V. I. Lenin: “Cartas sobre a Tática”, em: ibid.; p. 121).

  1. Não obstante, os dirigentes dos Sovietes estão colocando essa maquinaria de força à disposição do Governo Provisório e procurando liquidar a ditadura democrática da classe trabalhadora e do campesinato.

“Por acordos diretos com o Governo Provisório burguês e por uma série de concessões efetivas a este último, o poder soviético entregou e está entregando sua posição à burguesia.”

(V. I. Lenin: “Sobre o Duplo Poder”, em: ibid.; p. 116).

  1. Isso foi possível por causa da insuficiente consciência de classe e organização dos trabalhadores e camponeses, influenciados pela pressão ideológica pequeno-burguesa:

“A razão (isto é, da entrega do poder à classe capitalista — Ed.) está na falta de organização e de consciência de classe entre os trabalhadores e camponeses.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 116).

“A Rússia está agora em estado de ebulição. Milhões de pessoas, politicamente adormecidas durante dez anos, politicamente esmagadas pela terrível pressão do tsarismo e do trabalho escravo para latifundiários e fabricantes, despertaram e se lançaram à política. Quem são esses milhões de pessoas? Em sua maioria, pequenos proprietários, pequeno-burgueses… Uma gigantesca onda pequeno-burguesa varreu tudo, sobrepujou o proletariado consciente não apenas numericamente, mas também ideologicamente.”

(V. I. Lenin: “As Tarefas do Proletariado em Nossa Revolução”, em: ibid.; p. 132).

  1. Depois da “Revolução de Fevereiro”, a guerra continua sendo uma guerra imperialista, e o esforço do Governo Provisório continua sendo reacionário, esforço que o Partido deve continuar a combater.

“Sob o novo governo de Lvov e companhia, devido à natureza capitalista desse governo, a guerra, da parte da Rússia, continua sendo uma guerra imperialista predatória.”

(V. I. Lenin: Discurso em uma reunião dos membros bolcheviques da Conferência de Toda a Rússia dos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados, 17 de abril de 1917, em: ibid.; p. 95).

  1. O Partido não deve, portanto, fazer a menor concessão ao “defensismo revolucionário” e deve dissociar-se de todos aqueles que fomentam o “defensismo revolucionário”.

“Em nossa atitude diante da guerra, não se deve fazer a menor concessão ao ‘defensismo revolucionário’.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 95).

  1. O Governo Provisório capitalista é incapaz de resolver os problemas sociais fundamentais dos trabalhadores e dos camponeses pobres.

“O governo dos outubristas e cadetes, dos Guchkovs e Miliukovs, não poderia dar nem paz, nem pão, nem liberdade, mesmo que fosse sincero em seu desejo de fazê-lo.”

(V. I. Lenin: “Cartas de Longe”, em: ibid.; p. 34).

  1. Portanto, a revolução deve ser conduzida adiante para uma nova etapa pela classe trabalhadora em aliança com o campesinato pobre, e dirigindo-o.

“A situação presente na Rússia… representa a transição da primeira etapa da revolução… para sua segunda etapa, que deve colocar o poder nas mãos do proletariado e das camadas mais pobres do campesinato.”

(V. I. Lenin: Discurso em uma reunião dos membros bolcheviques da Conferência de Toda a Rússia dos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados, 17 de abril de 1917, em: ibid.; p. 97).

  1. O Governo Provisório precisa ser derrubado, mas não pode ser derrubado no presente momento.

“O Governo Provisório… deve ser derrubado, pois é um governo oligárquico, burguês, e não um governo popular… ele não pode ser derrubado agora; … em geral, ele não pode ser ‘derrubado’ por nenhum método comum, pois se apoia no ‘suporte’ dado à burguesia pelo segundo governo, o Soviete de Deputados dos Trabalhadores, que é o único governo revolucionário possível, que expressa diretamente o pensamento e a vontade da maioria dos trabalhadores e camponeses.”

(V. I. Lenin: “Sobre o Duplo Poder”, em: ibid.; p. 116–117).

  1. O próximo passo da revolução é, portanto, convencer a classe trabalhadora e o campesinato pobre a libertarem os Sovietes da dominação dos elementos pequeno-burgueses conciliadores e transformá-los em seus órgãos de poder.

“Qualquer um que, neste momento, imediata e irrevogavelmente, separe os elementos proletários dos Sovietes… dos elementos pequeno-burgueses, dá uma expressão correta aos interesses do movimento.”

(V. I. Lenin: “Cartas sobre a Tática”, em: ibid.; p. 126).

“Deve-se explicar às massas que o Soviete de Deputados dos Trabalhadores é a única forma possível de governo revolucionário e que, portanto, nossa tarefa, enquanto esse governo se submeter à influência da burguesia, é apresentar uma análise paciente, sistemática e persistente de seus erros e de sua tática, uma análise especialmente adaptada às necessidades práticas das massas.

Enquanto estamos em minoria, realizamos o trabalho de crítica e de desmascaramento dos erros, defendendo o tempo todo a necessidade de transferir todo o poder de Estado aos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores.”

(V. I. Lenin: Discurso em uma reunião dos membros bolcheviques da Conferência de Toda a Rússia dos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados, 17 de abril de 1917, em: ibid.; p. 99).

  1. Enquanto os Sovietes controlarem uma maquinaria efetiva de força e o Governo Provisório não, esse processo de transferência de todo o poder aos Sovietes poderá ser realizado pacificamente.

“A essência da situação (isto é, de 12 de março a 17 de julho de 1917 — Ed.) era que as armas estavam nas mãos do povo e que nenhuma coerção era exercida sobre o povo de fora. Foi isso que abriu e assegurou uma via pacífica para o desenvolvimento da revolução. A palavra de ordem ‘Todo o poder aos Sovietes’ era uma palavra de ordem para o desenvolvimento pacífico da revolução, possível entre 12 de março e 17 de julho.”

(V. I. Lenin: “Sobre as Palavras de Ordem”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 6; Londres; 1946; p. 167–168).

  1. Assim, a antiga palavra de ordem “transformar a guerra imperialista em guerra civil” é, por ora, incorreta:

“Defendemos a transformação da guerra imperialista em guerra civil. Estamos voltando atrás? Mas a primeira guerra civil na Rússia terminou…

Neste período de transição, enquanto a força armada está nas mãos dos soldados, enquanto Miliukov e Guchkov não recorreram à violência, essa guerra civil, no que nos diz respeito, transforma-se em propaganda de classe pacífica, prolongada e paciente. Descartamos essa palavra de ordem por enquanto, mas apenas por enquanto.”

(V. I. Lenin: “Relatório sobre a Situação Atual”, em: ibid.; p. 95, 96).

  1. O objetivo da transferência de todo o poder aos Sovietes é estabelecer uma República Soviética Russa, um Estado da classe trabalhadora e do campesinato.

“Não uma república parlamentar, pois retornar a ela a partir dos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores seria um passo para trás, mas uma república dos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores, Trabalhadores Agrícolas e Camponeses por todo o país, de baixo a cima.”

(V. I. Lenin: Discurso em uma reunião dos membros bolcheviques da Conferência de Toda a Rússia dos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados, 17 de abril de 1917, em: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 1; Londres; 1929; p. 99).

  1. A formação dessa República Soviética será um grande passo na direção do socialismo; contudo, seu programa imediato não será a introdução do socialismo, mas o estabelecimento do controle dos Sovietes sobre a produção e a distribuição:

“Os Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados devem tomar o poder não com o propósito de construir uma república burguesa comum, nem com o propósito de introduzir imediatamente o socialismo. Este último não poderia ser realizado…

Eles devem tomar o poder a fim de dar os primeiros passos concretos rumo à introdução do socialismo.”

(V. I. Lenin: Relatório sobre a Situação Política, 7ª Conferência do POSDR, em: ibid.; p. 283).

“Não a ‘introdução’ do socialismo como tarefa imediata, mas a colocação imediata do Soviete de Deputados dos Trabalhadores no controle da produção social e da distribuição dos bens.”

(V. I. Lenin: Discurso em uma reunião dos membros bolcheviques da Conferência de Toda a Rússia dos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados, 17 de abril de 1917, em: ibid.; p. 101).

Juntamente com:

“Abolição da polícia, do exército e da burocracia.

Todos os oficiais devem ser eleitos e sujeitos à revogação a qualquer momento; seus salários não devem exceder o salário médio de um trabalhador competente…

Confisco de todas as terras privadas.

Nacionalização de todas as terras do país e administração dessas terras pelos Sovietes locais de Deputados dos Trabalhadores Agrícolas e Camponeses. Organização separada de Sovietes de Deputados dos camponeses mais pobres. Criação de estabelecimentos agrícolas-modelo a partir das grandes propriedades…

Fusão imediata de todos os bancos do país em um banco nacional geral, sobre o qual o Soviete de Deputados dos Trabalhadores deve ter controle.”

(V. I. Lenin: “Sobre as Tarefas do Proletariado na Presente Revolução”, em: ibid.; p. 108).

  1. O termo “social-democrata” foi tão desmoralizado pelos social-chauvinistas que o Partido Operário Social-Democrata Russo deveria mudar seu nome para Partido Comunista Russo.

“Devemos nos chamar Partido Comunista, exatamente como Marx e Engels se chamavam comunistas…

A maioria… dos dirigentes social-democratas está traindo o socialismo…

As massas estão distraídas, perplexas, enganadas por seus dirigentes…

Devemos ajudar e favorecer esse engano mantendo o velho e desgastado nome do partido, que está tão apodrecido quanto a Segunda Internacional?…

É mais do que hora de tirar a camisa suja, é mais do que hora de vestir roupa limpa.”

(V. I. Lenin: “As Tarefas do Proletariado em Nossa Revolução”, em: ibid.; p. 154, 156, 157).

  1. A “Internacional de Zimmerwald” já se desintegrou como resultado de seu centrismo persistente; o Partido deve retirar-se dela, exceto para fins de informação, e fundar uma nova Terceira Internacional revolucionária.

“A principal falha da Internacional de Zimmerwald, a causa de sua desintegração, pois, do ponto de vista político e ideológico, ela já se desintegrou, foi sua vacilação, sua indecisão, quando se tratou da questão prática mais importante e decisiva de romper completamente com os social-chauvinistas e com a velha Internacional social-chauvinista…

Devemos romper imediatamente com essa Internacional. Devemos permanecer em Zimmerwald apenas para recolher informações.

Somos precisamente nós que devemos fundar, agora mesmo, sem demora, uma nova Internacional proletária revolucionária.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 151, 152).

Em resumo, Lenin sustentava que, politicamente, a “Revolução de Fevereiro” fora uma revolução democrático-burguesa que transferira o poder da autocracia tsarista para o duplo poder da ditadura democrática da classe trabalhadora e do campesinato, sob a forma dos Sovietes, e da classe capitalista, sob a forma do Governo Provisório. Politicamente, portanto, a “Revolução de Fevereiro” representava a conclusão da revolução democrático-burguesa:

“Antes da Revolução de Março de 1917, o poder de Estado na Rússia estava nas mãos de uma velha classe, a saber, a classe feudal dos nobres latifundiários, chefiada por Nicolau Romanov.

Depois dessa revolução, o poder de Estado está nas mãos de outra classe, uma nova, a saber, a burguesia…

A passagem do poder de Estado de uma classe a outra é o primeiro, o principal, o princípio básico de uma revolução, tanto no sentido estritamente científico quanto no sentido prático desse termo.

Nessa medida, a revolução burguesa, ou democrático-burguesa, na Rússia está concluída.

Mas, neste ponto, ouvimos o ruído de objetores, que prontamente se chamam ‘velhos bolcheviques’: não sustentamos sempre, dizem eles, que uma revolução democrático-burguesa só culmina em uma ‘ditadura revolucionária do proletariado e do campesinato’?…

O Soviete de Deputados dos Trabalhadores e Soldados: aqui vocês têm a ‘ditadura democrático-revolucionária do proletariado e do campesinato’ já realizada na vida.”

(V. I. Lenin: “Cartas sobre a Tática”, em: ibid.; p. 119, 120).

Econômica e socialmente, porém, particularmente no que se refere à revolução agrária, isto é, à transferência da terra para o campesinato trabalhador, a “Revolução de Fevereiro” não completou a revolução democrático-burguesa. Econômica e socialmente, a revolução democrático-burguesa não foi completada até a “Revolução de Outubro”, cujo conteúdo político foi proletário-socialista.

“A revolução agrária, que é uma fase da revolução democrático-burguesa, está concluída? Pelo contrário, não é um fato que ela ainda não está concluída?”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 119–120).

“O conteúdo democrático-burguês da revolução significa purgar as relações sociais, sistemas e instituições do país do medievalismo, da servidão, do feudalismo…

Resolvemos os problemas (isto é, problemas econômicos e sociais — Ed.) da revolução democrático-burguesa de passagem, como um ‘subproduto’ do principal e verdadeiro trabalho proletário-revolucionário socialista.”

(V. I. Lenin: “O Quarto Aniversário da Revolução de Outubro”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 6; Londres; 1946; p. 501, 503).

Lenin sustentava, assim, que a estratégia e a tática bolcheviques relativas à primeira etapa democrático-burguesa do processo revolucionário na Rússia haviam sido confirmadas pela “Revolução de Fevereiro”, mas de uma forma “mais multicolorida” do que se poderia ter antecipado:

“As palavras de ordem e ideias dos bolcheviques foram em geral confirmadas pela história; mas, quanto à situação concreta, as coisas revelaram-se diferentes, mais originais, mais únicas, mais multicoloridas do que qualquer um poderia ter previsto.”

(V. I. Lenin: “Cartas sobre a Tática”, em: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 1; Londres; 1929; p. 120).

Trotsky e o “rearmamento ideológico” do Partido Bolchevique

Depois da “Revolução de Outubro”, surgiu naturalmente entre os discípulos de Trotsky a questão de como a revolução socialista na Rússia havia sido realizada de acordo com uma linha política apresentada por Lenin, que se opusera consistentemente à teoria trotskista da “revolução permanente”.

A resposta de Trotsky foi simples, embora completamente mítica: em maio de 1917, o Partido Bolchevique, por iniciativa de Lenin, teria se “rearmado” ideologicamente ao aceitar a teoria trotskista da “revolução permanente”; assim, a história teria “confirmado” a correção da teoria trotskista da “revolução permanente”:

“O bolchevismo, sob a direção de Lenin (embora não sem luta interna), realizou seu rearmamento ideológico nessa questão importantíssima na primavera de 1917, isto é, antes da tomada do poder.”

(L. Trotsky: Nota em “O Ano de 1905” [janeiro de 1922], citada em L. Trotsky: “A Revolução Permanente”; Nova York; 1970; p. 236).

“Precisamente no período entre 9 de janeiro e a greve de outubro (em 1905 — Ed.), o autor formou aquelas opiniões que posteriormente receberam o nome de ‘teoria da revolução permanente’…

Essa avaliação foi confirmada como completamente correta, embora após um intervalo de doze anos.”

(L. Trotsky: Prefácio a “O Ano de 1905” [janeiro de 1922], citado em L. Trotsky: ibid.; p. 235).

“De modo nenhum considero que, em minhas divergências com os bolcheviques, eu estivesse errado em todos os pontos…

Considero que minha avaliação das forças motrizes da revolução foi absolutamente correta…

Meus artigos polêmicos contra os mencheviques e os bolcheviques… dedicados a uma análise das forças internas da revolução e de suas perspectivas… eu poderia republicar mesmo agora sem emendas, pois coincidem plena e completamente com a posição de nosso Partido a partir de 1917.”

(L. Trotsky: Carta a N. S. Olminsky, dezembro de 1921, citada em N. S. Olminsky: Prefácio a “Lenin sobre Trotsky” [1925], citado em J. V. Stalin: Resposta à Discussão sobre o Relatório “O Desvio Social-Democrata em Nosso Partido”, 15ª Conferência do PCUS (b), 3 de novembro de 1926, em: “Obras”, Volume 3; Moscou; 1954; p. 349–350).

Na realidade, é claro, Lenin teve o cuidado de se dissociar da teoria trotskista da “revolução permanente” depois de seu retorno à Rússia em abril de 1917:

“Trotskismo: ‘Sem tsar, mas um governo dos trabalhadores’. Isto certamente está errado.”

(V. I. Lenin: Relatório sobre a Situação Política, Conferência da Cidade de Petrogrado do POSDR, 27 de abril de 1917, em: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 1; Londres; 1929; p. 207).

“Se tivéssemos dito: ‘Sem tsar, mas ditadura do proletariado’, isso teria significado saltar por cima da pequena burguesia.”

(V. I. Lenin: Observações Finais em Conexão com o Relatório sobre a Situação Política, 7ª Conferência do POSDR, 7 de maio de 1917, em: ibid.; p. 287).

Lenin não apresentou em abril de 1917 a estratégia de avanço direto para a ditadura da classe trabalhadora, em aliança com o campesinato pobre, como uma estratégia corrigida para a realização da revolução democrático-burguesa.

Ao contrário, a revolução democrático-burguesa, como primeira etapa do processo revolucionário na Rússia, já havia sido realizada politicamente na “Revolução de Fevereiro”. A estratégia de avanço direto para a ditadura da classe trabalhadora, em aliança com o campesinato pobre, foi apresentada como uma nova estratégia para a nova situação posterior à “Revolução de Fevereiro”, uma nova estratégia para a segunda etapa do processo revolucionário.

Como Lenin expressou em suas “Teses de Abril”:

“A situação presente na Rússia… representa uma transição da primeira etapa da revolução para sua segunda etapa, que deve colocar o poder nas mãos do proletariado e das camadas mais pobres do campesinato.”

(V. I. Lenin: Discurso em uma reunião dos membros bolcheviques da Conferência de Toda a Rússia dos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados, 17 de abril de 1917, em: ibid.; p. 97).

O mito de Trotsky, segundo o qual Lenin teria apresentado em abril de 1917 uma estratégia “corrigida” para a realização da revolução democrático-burguesa semelhante à incorporada na teoria trotskista da “revolução permanente”, baseia-se na negação do fato de que a “Revolução de Fevereiro” constituiu, politicamente, uma revolução democrático-burguesa.

Em sua “História da Revolução Russa”, Trotsky admite esse fato:

“A insurreição triunfou. Mas a quem entregou o poder arrancado da monarquia? Chegamos aqui ao problema central da Revolução de Fevereiro. Por que e como o poder foi parar nas mãos da burguesia liberal?”

(L. Trotsky: “História da Revolução Russa”, Volume 1; Londres; 1967; p. 155).

Mas em “A Revolução Permanente”, Trotsky confunde deliberadamente a revolução político-democrático-burguesa de março com as transformações econômico-sociais democrático-burguesas que se seguiram à revolução de novembro, a fim de apresentar esta última como uma “revolução democrático-burguesa” que resultou na ditadura do proletariado:

“A revolução democrático-burguesa foi realizada durante o primeiro período depois de Outubro… Mas, como sabemos, ela não foi realizada na forma de uma ditadura democrática (isto é, da classe trabalhadora e do campesinato — Ed.), mas na forma da ditadura do proletariado… As duas linhas, a ‘permanente’ e a de Lenin… foram completamente fundidas pela Revolução de Outubro.”

(L. Trotsky: “A Revolução Permanente”; Nova York; 1970; p. 229, 234).

Em novembro de 1926, Stalin foi justificadamente sarcástico diante da afirmação de Trotsky de que, em maio de 1917, o Partido teria se “rearmado” com a teoria trotskista da “revolução permanente”:

“Trotsky não pode deixar de saber que Lenin combateu a teoria da revolução permanente até o fim de sua vida. Mas isso não incomoda Trotsky.

Acontece… que a teoria da revolução permanente ‘coincidiu plena e completamente com a posição de nosso Partido a partir de 1917’…

Mas… como a teoria da revolução permanente de Trotsky poderia ter coincidido com a posição de nosso Partido se é sabido que nosso Partido, na pessoa de Lenin, combateu essa teoria o tempo todo?…

Ou nosso Partido não tinha uma teoria própria e foi depois compelido pelo curso dos acontecimentos a aceitar a teoria da revolução permanente de Trotsky; ou tinha uma teoria própria, mas essa teoria foi imperceptivelmente desalojada pela teoria da revolução permanente de Trotsky ‘a partir de 1917’…

Certamente os bolcheviques tinham alguma teoria, alguma avaliação da revolução, alguma avaliação de suas forças motrizes etc.?…

O que aconteceu com o leninismo, com a teoria do bolchevismo, com a avaliação bolchevique de nossa revolução e de suas forças motrizes etc.?…

E assim, era uma vez pessoas conhecidas como bolcheviques, que de algum modo conseguiram, ‘a partir’ de 1903, ‘soldar’ um partido, mas que não tinham teoria revolucionária. Então foram à deriva e à deriva, ‘a partir’ de 1903, até que, de algum modo, conseguiram chegar ao ano de 1917. Então, tendo avistado Trotsky com sua teoria da ‘revolução permanente’, decidiram ‘rearmar-se’ e, ‘tendo se rearmado’, perderam os últimos restos de leninismo, da teoria da revolução de Lenin, produzindo assim a ‘plena coincidência’ da teoria da revolução permanente com a ‘posição’ de nosso Partido.

Esta é uma fábula muito interessante, camaradas. É, se quiserem, um dos esplêndidos truques de prestidigitação que se pode ver no circo. Mas isto não é um circo; é uma conferência de nosso Partido. E, afinal, tampouco contratamos Trotsky como artista de circo.”

(J. V. Stalin: Resposta à Discussão sobre o Relatório “O Desvio Social-Democrata em Nosso Partido”, 15ª Conferência do PCUS (b), 3 de novembro de 1926, em: “Obras”, Volume 3; Moscou; 1954; p. 350, 351, 353–354).

A oposição às teses de Lenin

Dentro do Partido, a principal oposição às “Teses de Abril” de Lenin foi liderada pelo cunhado de Trotsky, Lev Kamenev.

Em 21 de abril de 1917, Kamenev publicou no “Pravda” um artigo intitulado “Nossas Divergências”, no qual denunciava a “opinião pessoal” de Lenin como “inaceitável”, sob o argumento de que ele estaria defendendo uma revolução socialista imediata antes que a revolução democrático-burguesa tivesse sido completada.

“Na edição de ontem do ‘Pravda’, o camarada Lenin publicou suas ‘teses’. Elas representam a opinião pessoal do camarada Lenin… A política do ‘Pravda’ foi claramente formulada nas resoluções preparadas pelo Birô do Comitê Central…

Enquanto não houver novas decisões do Comitê Central e da Conferência de Toda a Rússia de nosso Partido, essas resoluções continuam sendo nossa plataforma, que defenderemos… contra a crítica do camarada Lenin…

Quanto à linha geral do camarada Lenin, ela nos parece inaceitável na medida em que parte do pressuposto de que a revolução democrático-burguesa foi completada e se apoia na transformação imediata dessa revolução em revolução socialista…

Em uma ampla discussão, esperamos fazer prevalecer nosso ponto de vista como o único possível para a social-democracia revolucionária, na medida em que ela deseja ser e deve permanecer até o fim o único partido das massas revolucionárias do proletariado, sem se transformar em um grupo de propagandistas comunistas.”

(L. Kamenev: “Nossas Divergências”; citado em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 1; Londres; 1929; p. 380–381).

Lenin respondeu:

“Há dois grandes erros aqui.

  1. A questão de uma ‘revolução democrático-burguesa completada’ é formulada de modo errado…

A realidade nos mostra tanto a passagem do poder para as mãos da burguesia, uma revolução democrático-burguesa ‘completada’ do tipo comum, quanto, ao lado do governo efetivo, a existência de um governo paralelo, que representa a ‘ditadura democrático-revolucionária do proletariado e do campesinato’…

Essa realidade está abrangida pela velha fórmula bolchevique do camarada Kamenev, segundo a qual ‘a revolução democrático-burguesa não está completada’?

Não, a fórmula… está morta…

Todo aquele que se orienta em sua atividade pela simples fórmula ‘a revolução democrático-burguesa não está completada’ garante, por assim dizer, a certeza de que a pequena burguesia é independente da burguesia…

Ao fazer isso, entrega-se imediatamente, de modo impotente, à pequena burguesia…

O erro cometido pelo camarada Kamenev é que, em 1917, ele vê apenas o passado da ditadura democrático-revolucionária do proletariado e do campesinato. Na realidade, porém, seu futuro já começou, pois os interesses e a política dos assalariados e dos pequenos proprietários já seguiram linhas diferentes…

Isso me leva ao segundo erro nas observações do camarada Kamenev citadas acima. Ele me censura, dizendo que minha linha ‘se apoia’ na transformação imediata dessa revolução democrático-burguesa em revolução socialista.

Isso não é verdade…

Declareei em linguagem clara que, nesse aspecto, apoio-me apenas na explicação ‘paciente’ (é necessário ser paciente para produzir uma mudança que possa ser realizada ‘imediatamente’?).”

(V. I. Lenin: “Cartas sobre a Tática”, em: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 1; Londres; 1929; p. 125, 126, 127).

Um grupo de oposição no Comitê da Cidade de Moscou, chefiado por Aleksei Rykov e Viktor Nogin, opôs-se à base das teses de Lenin sob o argumento de que a Rússia era industrialmente pouco desenvolvida demais para a construção socialista.

Lenin respondeu:

“O camarada Rykov diz que o socialismo deve vir primeiro de outros países com maior desenvolvimento industrial. Mas isso não é assim. É difícil dizer quem começará e quem terminará. Isso não é marxismo, mas uma paródia do marxismo.”

(V. I. Lenin: Observações Finais em Conexão com o Relatório sobre a Situação Política, 7ª Conferência do POSDR, 7 de maio de 1917, em: ibid.; p. 287).

Outro grupo de membros do Partido, incluindo I. P. Goldenberg, V. Bazarov, B. V. Avilov e Y. N. Steklov, deixou completamente o Partido Bolchevique em protesto contra as teses de Lenin e fundou o jornal “Novaya Zhizn” (“Nova Vida”), que apoiava a unificação dos bolcheviques, mencheviques e “novazhiznistas” em um único partido baseado na concepção abertamente menchevique de que a revolução socialista “deve ser precedida por um período mais ou menos prolongado de capitalismo”.

Na Conferência da Cidade de Petrogrado do Partido, realizada de 27 de abril a 5 de maio de 1917, foi aprovada uma resolução em apoio à linha política estabelecida nas “Teses de Abril” de Lenin.

Os “Dias de Abril”

Em 1º de maio de 1917, 18 de abril pelo calendário antigo, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Pavel Miliukov, enviou uma nota aos governos aliados enfatizando a determinação do Governo Provisório de levar a guerra a uma conclusão vitoriosa e de permanecer leal aos tratados do governo tsarista com os Aliados.

“As declarações do Governo Provisório naturalmente não podem oferecer a menor razão para supor que a transformação realizada resultará em enfraquecimento do papel da Rússia na luta comum dos Aliados. Muito pelo contrário. O esforço de todo o povo para levar a Guerra Mundial a uma vitória decisiva apenas se fortaleceu… Naturalmente, o Governo Provisório… ao proteger os direitos de nossa pátria, manterá fielmente as obrigações que assumimos perante nossos aliados… O governo está agora, como antes, firmemente convencido de que a guerra presente será concluída vitoriosamente em pleno acordo com os Aliados.”

(Governo Provisório, Ministério dos Negócios Estrangeiros: Nota aos Governos Aliados de 1º de maio de 1917, citada em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 1; Londres; 1929; p. 371).

A publicação da nota dentro da Rússia deu origem a manifestações de massa em Petrogrado ao longo dos quatro dias seguintes, nas quais soldados armados desempenharam papel destacado, tentando por vezes ocupar edifícios públicos. Entre os manifestantes, as palavras de ordem “Abaixo Miliukov!” e “Abaixo Guchkov!” eram levantadas por toda parte.

O Comitê Central do Partido estava preocupado com a possibilidade de que esse movimento espontâneo se desenvolvesse em linhas insurrecionais que, na situação existente, só poderiam prejudicar o movimento revolucionário. Em 4 de maio, portanto, adotou uma resolução redigida por Lenin, conclamando todos os membros do Partido a fazerem todo esforço para manter as manifestações pacíficas:

“Os agitadores e oradores do Partido devem refutar as mentiras desprezíveis de que ameaçamos com guerra civil… No momento presente, quando os capitalistas e seu governo não podem nem ousam usar violência contra as massas… qualquer pensamento de guerra civil é ingênuo, sem sentido, monstruoso…

Todos os agitadores do Partido, nas fábricas, nos regimentos, nas ruas etc., devem defender essas posições e essa proposta (isto é, a retirada do apoio dos Sovietes ao Governo Provisório — Ed.) por meio de discussões pacíficas e manifestações pacíficas, bem como reuniões em toda parte.”

(V. I. Lenin: Resolução do CC do POSDR, 4 de maio de 1917, em: ibid.; p. 245, 246).

Essas manifestações se revelaram suficientes para forçar a renúncia de Guchkov ao cargo de ministro da Guerra, em 13 de maio, e de Miliukov ao cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, em 15 de maio.

Em 14 de maio, o Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado votou a favor de um Governo Provisório de coalizão, no qual os partidos menchevique e socialista-revolucionário seriam formalmente representados.

O Primeiro Governo Provisório de Coalizão surgiu em 18 de maio, com o príncipe Georgi Lvov continuando como primeiro-ministro. Aleksandr Tereshchenko substituiu Miliukov como ministro dos Negócios Estrangeiros; Aleksandr Kerensky e Viktor Chernov, dos socialistas-revolucionários, tornaram-se respectivamente ministro da Guerra e ministro da Agricultura; Aleksandr Skobelev e Irakli Tsereteli, dos mencheviques, tornaram-se respectivamente ministro do Trabalho e ministro dos Correios e Telégrafos.

No mês seguinte, Lenin comentou a entrada formal dos mencheviques e socialistas-revolucionários no Governo Provisório:

“A entrada de Tsereteli, Chernov e companhia no gabinete mudou apenas em grau insignificante a forma do pacto entre o Soviete de Petrogrado e o governo dos capitalistas…

Dia após dia torna-se cada vez mais claro que Tsereteli, Chernov e companhia são simplesmente reféns dos capitalistas, tornaram-se os lados dos capitalistas que estão de fato sufocando a revolução; Kerensky caiu ao ponto de usar violência contra as massas… O Gabinete de Coalizão representa apenas um período de transição no desenvolvimento das contradições fundamentais de classe em nossa revolução… Isso não pode durar muito.”

(V. I. Lenin: Pós-escrito à brochura “As Tarefas do Proletariado em Nossa Revolução”, em: ibid.; p. 159, 160).

A Sétima Conferência do POSDR

A Sétima Conferência do Partido Operário Social-Democrata Russo, a “Conferência de Abril”, realizou-se em Petrogrado de 7 a 12 de maio de 1917, com a presença de 133 delegados com direito a voto, representando 80.000 membros do Partido.

O Relatório sobre a Situação Política foi apresentado por Lenin, e a oposição à linha política de Lenin foi liderada por Lev Kamenev e Aleksei Rykov.

Kamenev dirigiu seu principal ataque contra a palavra de ordem “Abaixo o Governo Provisório!”, insinuando que esta era uma palavra de ordem leninista, quando, na realidade, havia sido apresentada durante os “Dias de Abril” pelo Comitê de Petrogrado do Partido, em violação à linha do Comitê Central. No lugar dessa palavra de ordem, incorreta naquele momento, Kamenev insistia que o Partido deveria apresentar a reivindicação completamente irrealista de controle do Governo Provisório pelos Sovietes.

Lenin respondeu:

“Dizemos que a palavra de ordem ‘Abaixo o Governo Provisório’ é uma palavra de ordem aventureira. É por isso que defendemos manifestações pacíficas… O Comitê de Petrogrado, porém, virou um pouco à esquerda. Em um caso desse tipo, tal passo foi um grave crime.

Agora, quanto ao controle… O camarada Kamenev… vê o controle como um ato político… Não aceitamos o controle… O Governo Provisório deve ser derrubado, mas não agora, e não do modo comum.”

(V. I. Lenin: Observações Finais em Conexão com o Relatório sobre a Situação Política, 7ª Conferência do POSDR, 7 de maio de 1917, em: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 1; Londres; 1929; p. 285–286, 287).

Rykov se opôs à linha política de Lenin sob o argumento de que a Rússia era industrialmente pouco desenvolvida demais para avançar rumo a uma revolução socialista.

Lenin respondeu:

“O camarada Rykov… diz que o socialismo deve vir primeiro de outros países com maior desenvolvimento industrial. Mas isso não é assim. É difícil dizer quem começará e quem terminará. Isso não é marxismo, mas uma paródia do marxismo.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 287).

Por maioria, o congresso aprovou uma série de resoluções endossando a linha leninista.

A linha política leninista sobre a questão nacional em particular, segundo a qual o Partido deve defender o direito das nações oprimidas à autodeterminação até a separação, foi apresentada no Relatório sobre a Questão Nacional, feito por Stalin. Essa palavra de ordem foi combatida por Felix Dzerzhinsky e Yuri Pyatakov, este último exigindo:

“O único método efetivo de resolvê-la (isto é, a questão nacional — Ed.) é o método de uma revolução socialista sob a palavra de ordem ‘Abaixo as fronteiras’, pois somente assim se pode liquidar o imperialismo, esse novo fator que conduz ao aguçamento da opressão nacional.

Considerando que (1) ‘o direito das nações à autodeterminação’… é uma mera frase sem qualquer significado definido; …

e considerando que (2) essa frase é interpretada como significando muito mais do que se pensa nas fileiras da social-democracia revolucionária…

a Conferência… considera que o parágrafo 9 de nosso programa (isto é, apoio ao direito das nações à autodeterminação — Ed.) deve ser eliminado.”

(Y. Pyatakov: Resolução sobre a Questão Nacional submetida à 7ª Conferência do POSDR; citada em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 2; Londres; 1929; p. 411, 412).

Lenin respondeu:

“Desde 1903, quando nosso Partido adotou seu programa, temos encontrado a oposição desesperada dos poloneses… E a posição da Social-Democracia Polonesa é hoje um erro tão estranho e monstruoso quanto era então. Essas pessoas desejam reduzir a posição de nosso Partido à dos chauvinistas…

Na Rússia, devemos enfatizar o direito de separação das nações submetidas, enquanto na Polônia devemos enfatizar o direito de tais nações à união. O direito à união implica o direito à separação…

O ponto de vista do camarada Pyatakov é uma repetição do ponto de vista de Rosa Luxemburgo… Teoricamente, ele é contra o direito de separação… O que o camarada Pyatakov diz é uma confusão incrível… Quando alguém diz que a questão nacional foi resolvida, está falando da Europa Ocidental. O camarada Pyatakov aplica isso onde não cabe, à Europa Oriental, e nos vemos em uma posição ridícula…

O camarada Pyatakov simplesmente rejeita nossa palavra de ordem. O método de realizar uma revolução socialista sob a palavra de ordem ‘Abaixo as fronteiras’ é um absurdo completo… Sustentamos que o Estado é necessário, e a existência de um Estado pressupõe fronteiras. Mesmo os Sovietes são confrontados com a questão das fronteiras… O que significa ‘Abaixo as fronteiras’? Isto é o começo da anarquia…

Quem não aceita esse ponto de vista é um anexionista, um chauvinista.”

(V. I. Lenin: Discurso sobre a Questão Nacional, 7ª Conferência do POSDR, em: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 1; Londres; 1929; p. 310, 312, 313, 314).

A conferência discutiu a questão da participação do Partido na terceira e última “Conferência de Zimmerwald”, prevista para ocorrer em Estocolmo, Suécia, em maio de 1917, mas depois adiada para setembro.

Em suas “Teses de Abril”, Lenin já havia exigido uma ruptura com a “Internacional de Zimmerwald”, propondo que o Partido permanecesse nela apenas para fins de informação. Na conferência, porém, essa política foi combatida por um corpo considerável de delegados chefiado por Grigori Zinoviev, que propôs:

“Nosso partido permanece no bloco de Zimmerwald com o objetivo de defender ali a tática da Ala Esquerda de Zimmerwald… A conferência decide participar da conferência internacional dos zimmerwaldistas marcada para 31 de maio e autoriza o Comitê Central a organizar uma delegação a essa conferência.”

(Resolução sobre “A Situação na Internacional e as Tarefas do POSDR”, 7ª Conferência do POSDR, citada em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 2; Londres; 1929; p. 407).

A resolução de Zinoviev foi aprovada pela conferência contra a oposição de Lenin, que descreveu a tática de Zinoviev como:

“…ultraoportunista e perniciosa.”

(V. I. Lenin: Discurso na 7ª Conferência do POSDR, citado em “História do Partido Comunista da União Soviética (Bolcheviques)”; Moscou; 1941; p. 189).

A conferência também discutiu a questão da participação do Partido em uma “conferência socialista internacional” para discutir “termos de paz”, igualmente prevista para Estocolmo em maio. Em 6 de maio, o social-democrata dinamarquês Frederik Borgbjerg dirigiu-se pessoalmente ao Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado sobre a “Conferência de Estocolmo”. Os mencheviques e socialistas-revolucionários haviam aceitado o convite para participar da conferência; os bolcheviques haviam rejeitado o convite.

A questão foi colocada na pauta da conferência a pedido de Viktor Nogin, que propôs que uma delegação bolchevique comparecesse à “Conferência de Estocolmo”.

Lenin respondeu:

“Não posso concordar com o camarada Nogin… Por trás de toda essa comédia de um pretenso congresso socialista estão, na realidade, as manobras políticas do imperialismo alemão. Os capitalistas alemães usam os social-chauvinistas alemães para convidar os social-chauvinistas de todos os países à conferência, porque querem enganar as massas trabalhadoras… Borgbjerg é agente do governo alemão… Devemos desmascarar toda essa comédia da conferência socialista, desmascarar todos esses congressos como comédias destinadas a encobrir os acordos feitos pelos diplomatas pelas costas das massas.”

(V. I. Lenin: Discurso sobre a Convocação Proposta de uma Conferência Socialista Internacional, 7ª Conferência do POSDR, 8 de maio de 1917, em: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 1; Londres; 1929; p. 287, 288, 290).

A conferência adotou uma resolução nessa linha.

A conferência adotou uma série de resoluções de acordo com a linha política de Lenin:

“Sobre a Guerra”;

“Sobre a Atitude em Relação ao Governo Provisório”;

“Sobre a Questão Agrária”;

“Sobre um Gabinete de Coalizão”;

“Sobre a Unificação dos Internacionalistas contra o Bloco Defensista Pequeno-Burguês”;

“Sobre a Situação Política Atual”;

e “Sobre os Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados”.

A Conferência elegeu um novo Comitê Central, composto por Lenin, Stalin, Kamenev, Zinoviev, Milyutin, Nogin, Sverdlov, Smilga e Fedorov, e o instruiu a atualizar o programa do Partido adotado em 1903.

O Primeiro Congresso dos Sovietes

O Primeiro Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes realizou-se em Petrogrado de 16 de junho a 6 de julho de 1917. Dos 790 delegados, apenas 103, isto é, 13%, eram bolcheviques, e o congresso foi dominado pelos mencheviques e socialistas-revolucionários. O congresso, contra a oposição bolchevique, adotou resoluções favoráveis a:

participação no Governo Provisório;

“defesa da pátria” na guerra imperialista;

a ofensiva militar na frente exigida pelas potências aliadas;

e o empréstimo de guerra, o “Empréstimo da Liberdade”.

Em 21 de junho, o Comitê Central do POSDR decidiu convocar uma manifestação pacífica para 23 de junho, sob as palavras de ordem: “Abaixo os ministros capitalistas!” e “Todo o poder aos Sovietes!”. O Congresso dos Sovietes, por iniciativa dos mencheviques e socialistas-revolucionários, adotou imediatamente uma resolução proibindo a manifestação sob o pretexto de que:

“Sabemos que os contrarrevolucionários ocultos estão se preparando para tirar proveito de sua manifestação.”

(Resolução do Primeiro Congresso dos Sovietes, 21 de junho de 1917, citada por V. I. Lenin: “Rumores Inquietantes”, em: “Obras Completas”, Volume 20, Livro 2; Londres; 1929; p. 41).

Nas primeiras horas da manhã de 22 de junho, o Comitê Central, por iniciativa de Lenin, cancelou a manifestação planejada.

Em 24 de junho, Lenin explicou as razões dessa decisão a uma reunião do Comitê de Petrogrado do Partido:

“A insatisfação da maioria dos camaradas com o cancelamento da manifestação é bastante legítima, mas o Comitê Central não poderia agir de outro modo por duas razões. Primeiro, recebemos uma proibição formal de todas as manifestações de nosso governo semioficial; segundo, uma razão plausível foi dada para essa proibição…

Mesmo na guerra comum, às vezes acontece que, por razões estratégicas, é necessário adiar uma ofensiva marcada para certa data…

Era absolutamente necessário cancelarmos nossos preparativos. Isso foi provado pelos acontecimentos subsequentes.”

(V. I. Lenin: Discurso na Sessão do Comitê de Petrogrado do POSDR, 24 de junho de 1917, em: ibid.; p. 245).

Os “acontecimentos subsequentes” a que Lenin se referia foram a realização, mais cedo no mesmo dia, de uma sessão conjunta do Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado, do Presidium do Congresso dos Sovietes e dos comitês das frações dos partidos representados no Congresso.

Irakli Tsereteli, ministro menchevique dos Correios e Telégrafos no Governo Provisório, denunciou a manifestação bolchevique planejada para 23 de junho como “um complô para derrubar o Governo Provisório pela força”; exigiu que os bolcheviques fossem expulsos dos Sovietes e que as armas nas mãos dos trabalhadores lhes fossem tomadas.

Os delegados bolcheviques abandonaram o congresso em protesto contra o discurso de Tsereteli e emitiram uma declaração na qual afirmavam:

“Não renunciamos, por um só momento, em favor de uma maioria hostil do Soviete, ao nosso direito de utilizar independente e livremente todas as liberdades com o propósito de mobilizar as massas trabalhadoras sob a bandeira de nosso partido proletário de classe…

O que está planejado é o desarmamento da vanguarda revolucionária, uma medida à qual a contrarrevolução burguesa sempre recorreu…

O cidadão Tsereteli e aqueles que o dirigem dificilmente ignoram o fato de que jamais, na história, as massas trabalhadoras entregaram sem luta as armas que receberam das mãos da revolução. Consequentemente, a burguesia governante e seus ministros ‘socialistas’ estão provocando a guerra civil… e estão conscientes do que fazem…

Expomos diante do Congresso de Toda a Rússia e das massas do povo… esse ataque contra a revolução que agora está sendo preparado…

A revolução atravessa um momento de supremo perigo. Conclamamos os trabalhadores a serem firmes e vigilantes.”

(Declaração da Fração Bolchevique ao Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes, 24 de junho de 1917, citada em V. I. Lenin: ibid.; p. 416).

Contudo, a pressão da base obrigou os dirigentes mencheviques e socialistas-revolucionários do Soviete, em 25 de junho, a convocar uma manifestação para 1º de julho em nome do Congresso dos Sovietes. Cerca de 400.000 trabalhadores e soldados participaram da manifestação em Petrogrado nesse dia e, para horror dos dirigentes conciliadores dos Sovietes, 90% dos cartazes traziam as palavras de ordem apresentadas pelos bolcheviques: “Abaixo os dez ministros capitalistas!” e “Todo o poder aos Sovietes!”.

O Congresso elegeu um Comitê Executivo Central e o instruiu a convocar um novo congresso dentro de três meses.

Trotsky retorna à Rússia

Quando a notícia da “Revolução de Fevereiro” chegou à América, Trotsky fez preparativos imediatos para retornar à Rússia. Partindo de Nova York em um navio norueguês no fim de março, foi retirado do navio em Halifax, Canadá, pela polícia naval britânica e confinado por um mês em um campo de internação para prisioneiros de guerra alemães em Amherst.

No fim de abril, foi libertado da internação e retomou sua viagem. Desembarcando na Noruega, cruzou a Escandinávia e chegou a Petrogrado em 17 de maio de 1917.

Foi quase imediatamente ao Instituto Smolny, antigo colégio privado para meninas que agora era a sede do Soviete de Petrogrado. Em vista de seu papel dirigente no Soviete de 1905, foi nomeado membro associado do Executivo do Soviete, sem direito a voto.

Ingressou em um grupo chamado “Organização Interdistrital” (Mezhrayontsi), fundado em 1913 e para cujas publicações havia contribuído do exterior. A Organização Interdistrital era um grupo centrista, que se orgulhava de não ser nem bolchevique nem menchevique, e sua influência limitava-se a alguns distritos operários de Petrogrado. No início do verão de 1917, seus principais membros incluíam Anatoly Lunacharsky, David Ryazanov, Dmitri Manuilsky, Mikhail Pokrovsky, Adolf Joffe e Lev Karakhan.

Agora Trotsky assumiu papel dirigente na organização e na fundação de seu órgão, “Vperyod” (“Avante”).

Segundo Trotsky:

“Quem viveu o ano de 1917 como membro do núcleo central dos bolcheviques sabe que nunca houve sequer um indício de qualquer divergência entre Lenin e eu desde o primeiro dia…

Desde os primeiros dias de minha chegada, declarei… que estava pronto para ingressar imediatamente na organização bolchevique, em vista da ausência de quaisquer divergências, mas que era necessário decidir a questão do modo mais rápido possível de atrair a organização ‘Mezhrayontsi’ para dentro do partido…

Entre os membros da organização ‘Mezhrayontsi’, havia elementos que tentavam impedir a fusão, apresentando esta ou aquela condição etc.”

(L. Trotsky: “A Escola Stalinista de Falsificação”; Nova York; 1972; p. 5, 6).

Segundo Lenin, porém, o próprio Trotsky era precisamente um dos “elementos que tentavam impedir a fusão”.

Em 23 de maio, realizou-se uma reunião entre representantes dos bolcheviques, incluindo Lenin, e representantes da Organização Interdistrital, incluindo Trotsky, para explorar a possibilidade de fusão.

Como coloca o biógrafo de Trotsky:

“Na reunião de 23 de maio, ele (isto é, Lenin — Ed.) pediu a Trotsky e aos amigos de Trotsky que ingressassem imediatamente no Partido Bolchevique. Ofereceu-lhes posições nos órgãos dirigentes e na redação do ‘Pravda’. Não lhes impôs condições. Não pediu que Trotsky renunciasse a qualquer coisa de seu passado; nem sequer mencionou antigas controvérsias…

Trotsky teria de estar muito mais livre de orgulho do que estava para aceitar imediatamente as propostas de Lenin. Ele e seus amigos não deveriam ser solicitados a se chamarem bolcheviques… Deveriam dar as mãos em um novo partido, com um novo nome, em um congresso conjunto de suas organizações.”

(I. Deutscher: “O Profeta Armado: Trotsky; 1879–1921”; Londres; 1970; p. 257–258).

As próprias notas de Lenin sobre a reunião dizem:

“Trotsky (que tomou a palavra fora de ordem imediatamente depois de mim)…

Não posso me chamar bolchevique…

Não se pode exigir de nós o reconhecimento do bolchevismo…

O antigo nome fracional é indesejável.”

(V. I. Lenin: “Leninskii Sbornik” [“Coletânea Lenin”], Volume 4; Moscou; 1925; p. 303).

A reunião, portanto, terminou sem chegar a qualquer acordo.

Somente em agosto, três meses antes da Revolução de Outubro, a Organização Interdistrital ingressou no Partido Bolchevique, enquanto Trotsky estava na prisão.

A renúncia dos ministros cadetes

Em 16 de julho de 1917, os ministros pertencentes ao Partido Constitucional-Democrata, os “cadetes”, renunciaram ao governo.

Lenin assinalou que:

“…ao saírem, eles dizem: apresentamos um ultimato… Ficar sem os cadetes, afirmam, significa ficar sem a ‘ajuda’ do capital mundial anglo-americano.”

(V. I. Lenin: “Com o Que Podiam Contar os Cadetes ao Deixar o Gabinete?”, em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 16).

O efeito desse ultimato foi confrontar os ministros mencheviques no Governo Provisório com a escolha entre participar da tentativa de repressão da classe trabalhadora e do campesinato pobre ou aliar-se à classe trabalhadora e ao campesinato revolucionários, algo que toda sua concepção política os faria temer:

“Ou suprimir tal classe pela força, como os cadetes vêm pregando desde 19 de maio, ou entregar-se à sua direção… Os Tseretelis e Chernovs, pensam eles, não farão isso, não ousarão. ‘Eles cederão a nós’…

O cálculo está correto.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 15, 16).

Os “Dias de Julho”

A renúncia dos ministros cadetes ao governo, em 16 de julho, estimulou no dia seguinte manifestações de massa de trabalhadores e soldados armados diante da sede do Soviete de Petrogrado, sob as palavras de ordem “Todo o poder aos Sovietes”.

Na noite de 17 de julho, uma resolução bolchevique no Comitê Executivo Central de Toda a Rússia dos Sovietes, conclamando à transferência de todo o poder aos Sovietes, foi rejeitada.

No dia seguinte, 18 de julho, o “Pravda” publicou um apelo dos bolcheviques conclamando ao fim das manifestações:

“Na crise política presente, nosso objetivo foi alcançado. Decidimos, portanto, encerrar a manifestação. Que todos, pacificamente e de modo organizado, encerrem a greve e a manifestação.”

(Proclamação do CC do POSDR, 18 de julho de 1917, citada em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 2; Londres; s.d.; p. 300).

Mais tarde, em setembro de 1917, Lenin analisou as razões pelas quais teria sido incorreto tentar transformar a manifestação armada dos “Dias de Julho” em insurreição:

“Em 16–17 de julho… ainda faltavam as condições objetivas para uma insurreição vitoriosa.

  1. Ainda não tínhamos atrás de nós a classe que é a vanguarda da revolução. Ainda não tínhamos a maioria entre os trabalhadores e soldados das capitais…
  2. Naquele momento não havia um ascenso revolucionário geral do povo…
  3. Naquele momento não havia vacilações em escala política séria e geral entre nossos inimigos e entre a pequena burguesia indecisa…
  4. É por isso que uma insurreição em 16–17 de julho teria sido um erro; não teríamos mantido o poder nem física nem politicamente…

Antes do caso Kornilov, o exército e as províncias poderiam e teriam marchado contra Petrogrado.”

(V. I. Lenin: “Marxismo e Insurreição”, em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 225–226).

A ordem de prisão contra Lenin

Em 18 de julho de 1917, o jornal “Zhivoye Slovo” (“Palavra Viva”) publicou uma declaração de Grigori Alexinsky afirmando possuir provas documentais de que Lenin era “um espião a soldo do imperialismo alemão”. No mesmo dia, cadetes militares depredaram a gráfica e a redação do “Pravda”, impedindo a publicação da resposta de Lenin à calúnia.

Em 19 de julho, tropas do governo ocuparam a sede do Comitê Central do Partido, e o governo emitiu uma ordem de prisão contra Lenin, Zinoviev e Kamenev.

Um movimento exigindo que Lenin se entregasse à ordem de prisão foi liderado por Trotsky.

Como expressa Isaac Deutscher, biógrafo simpático a Trotsky:

“Lenin… decidiu que não se deixaria aprisionar, mas passaria à clandestinidade… Trotsky via a situação como menos grave e a decisão de Lenin lhe parecia infeliz… pensava que Lenin tinha todo interesse em apresentar seu histórico diante do público, e que desse modo poderia servir melhor à sua causa do que pela fuga, que apenas acrescentaria aparências adversas pelas quais as pessoas poderiam julgá-lo.”

(I. Deutscher: “O Profeta Armado: Trotsky: 1879–1921”; Londres; 1970; p. 274).

A essa exigência, Lenin respondeu:

“Camaradas que cedem à ‘atmosfera soviética’ inclinam-se frequentemente a comparecer aos tribunais.

Aqueles que estão mais próximos das massas trabalhadoras parecem inclinar-se a não comparecer…

O tribunal é um órgão de poder…

O poder ativo é a ditadura militar. Sob tais condições, é ridículo até falar de ‘tribunais’. Não se trata de ‘tribunais’, mas de um episódio da guerra civil. É isso que os favoráveis ao comparecimento perante os tribunais infelizmente não querem compreender…

Não um julgamento, mas uma campanha de perseguição contra os internacionalistas: é disso que as autoridades precisam… Que os internacionalistas trabalhem na clandestinidade tanto quanto estiver em seu poder, mas que não cometam a tolice de comparecer voluntariamente aos tribunais.”

(V. I. Lenin: “A Questão do Comparecimento dos Dirigentes Bolcheviques perante os Tribunais”, em: ibid.; p. 34, 35).

O ponto de vista bolchevique sobre a atitude a ser adotada diante do mandado de prisão emitido contra os dirigentes bolcheviques foi apresentado por Stalin no Sexto Congresso do Partido, em agosto:

“Não há garantia de que, se eles comparecerem, não serão submetidos a violência brutal. Se o tribunal fosse organizado democraticamente e se fosse dada uma garantia de que não haveria violência, a questão seria outra.”

(J. V. Stalin: Discurso em Resposta à Discussão sobre o Relatório do Comitê Central, 6º Congresso do POSDR, em: “Obras”, Volume 3; Moscou; 1953; p. 182).

Sentindo que sua reputação política sofria porque nenhum mandado havia sido emitido contra ele próprio, Trotsky escreveu uma Carta Aberta ao Governo Provisório, pleiteando que ele também fosse passível de prisão:

“Em 23 de julho, quatro dias depois de Lenin passar à clandestinidade, Trotsky dirigiu, portanto, a seguinte Carta Aberta ao Governo Provisório:

‘Cidadãos Ministros:

Vocês não podem ter fundamentos lógicos para me excluir do efeito do decreto em virtude do qual Lenin, Zinoviev e Kamenev estão sujeitos à prisão… Vocês não podem ter razão para duvidar de que sou um adversário tão irreconciliável da política geral do Governo Provisório quanto os camaradas acima mencionados.’”

(I. Deutscher: ibid.; p. 276–277).

O Governo Provisório atendeu a Trotsky prendendo-o em 5 de agosto e encarcerando-o na prisão de Kresty, da qual foi libertado sob fiança em 17 de setembro.

A nova situação política após os “Dias de Julho”

Em 20 de julho de 1917, o príncipe Lvov renunciou ao cargo de primeiro-ministro do Governo Provisório e, no dia seguinte, seu lugar foi ocupado por Aleksandr Kerensky, socialista-revolucionário.

Em 22 de julho, o Comitê Executivo Central de Toda a Rússia dos Sovietes, contra a oposição bolchevique, adotou uma resolução de confiança no Governo Provisório como governo de defesa da revolução.

Nesse momento, Lenin analisou a nova situação política posterior aos “Dias de Julho” da seguinte forma:

  1. Como resultado da traição dos dirigentes mencheviques e socialistas-revolucionários, o duplo poder havia deixado de existir; o poder estatal efetivo passara às mãos de uma ditadura militar da classe capitalista contrarrevolucionária:

“A contrarrevolução se organizou e se consolidou, e de fato tomou o poder de Estado em suas mãos… Os dirigentes dos Sovietes, bem como dos partidos socialista-revolucionário e menchevique, com Tsereteli e Chernov à frente, traíram definitivamente a causa da revolução ao colocá-la nas mãos dos contrarrevolucionários e ao transformarem a si mesmos, seus partidos e os Sovietes em folhas de figueira da contrarrevolução… Ao sancionarem o desarmamento dos trabalhadores e dos regimentos revolucionários, privaram-se de todo poder real.”

(V. I. Lenin: “A Situação Política”, em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 36–37).

“A virada de 17 de julho consistiu precisamente no fato de que, depois dela, a situação objetiva mudou bruscamente. O estado flutuante do poder cessou, tendo o poder passado, em um ponto decisivo, às mãos da contrarrevolução… Depois de 17 de julho, a burguesia contrarrevolucionária, de mãos dadas com os monarquistas e os Cem-Negros, atrelou a si os socialistas-revolucionários e mencheviques pequeno-burgueses, em parte intimidando-os, e entregou o poder estatal efetivo… às mãos de uma camarilha militar.”

(V. I. Lenin: “Sobre as Palavras de Ordem”, em: ibid.; p. 44–45).

  1. Assim, já não existia a possibilidade de desenvolvimento pacífico da revolução pela conquista de uma maioria para o socialismo revolucionário nos Sovietes:

“A luta pela passagem do poder aos Sovietes no devido tempo terminou. O curso pacífico de desenvolvimento foi tornado impossível…

No presente, o poder já não pode ser tomado pacificamente. Ele só pode ser obtido depois de uma vitória em uma luta decisiva contra os verdadeiros detentores do poder no momento presente, a saber, a camarilha militar… Esse poder deve ser derrubado.”

(V. I. Lenin: “Sobre as Palavras de Ordem”, em: ibid.; p. 44, 45–46, 47).

  1. Assim, a palavra de ordem “Todo o poder aos Sovietes”, que era correta no período em que era possível o desenvolvimento pacífico da revolução, já não era correta e deveria ser abandonada:

“A palavra de ordem da passagem de todo o poder aos Sovietes era uma palavra de ordem de desenvolvimento pacífico da revolução, possível em abril, maio, junho e até 18–22 de julho, isto é, até o momento em que o poder efetivo passou às mãos da ditadura militar. Agora essa palavra de ordem já não é correta.”

(V. I. Lenin: “A Situação Política”, em: ibid.; p. 37).

“Essa palavra de ordem seria um engano ao povo. Espalharia entre ele a ilusão de que, para tomar o poder, os Sovietes, mesmo agora, apenas teriam de desejar ou decretar isso.”

(V. I. Lenin: “Sobre as Palavras de Ordem”, em: ibid.; p. 45).

  1. Mesmo que se desse às palavras de ordem um claro conteúdo revolucionário, seria incorreto chamar por “Todo o poder aos Sovietes!”, porque, após a derrubada da ditadura militar capitalista, o poder não passaria aos atuais Sovietes impotentes e traidores, mas a Sovietes revolucionários que ainda não existiam:

“Sovietes podem e devem aparecer nessa nova revolução, mas não os Sovietes atuais, não órgãos de compromisso com a burguesia, e sim órgãos de uma luta revolucionária contra ela…

Os Sovietes atuais… assemelham-se a um rebanho de ovelhas levado ao matadouro, balindo lastimosamente quando colocado sob a faca… A palavra de ordem da passagem do poder aos Sovietes poderia ser entendida como um chamado ‘simples’ para que o poder passe às mãos dos Sovietes atuais, e dizer isso, apelar por isso, significaria no presente enganar o povo. Nada é mais perigoso do que o engano.”

(V. I. Lenin: “Sobre as Palavras de Ordem”, em: ibid.; p. 49).

O Segundo Governo Provisório de Coalizão

Em 25 de julho de 1917, Kerensky publicou um decreto reintroduzindo a pena capital na frente e, três dias depois, ordenou a supressão do “Pravda” e de outros jornais bolcheviques.

Em 29 de julho, o general Lavr Kornilov foi nomeado comandante-chefe do Exército, substituindo o general Aleksei Brusilov.

Em 31 de julho, Kerensky publicou um decreto dissolvendo o Sejm finlandês, o Parlamento, que em 19 de julho havia aprovado uma lei de autonomia da Finlândia.

Em 6 de agosto, formou-se o segundo Governo Provisório de Coalizão, com Aleksandr Kerensky como primeiro-ministro e ministro da Guerra, incluindo ministros dos cadetes, dos mencheviques e dos socialistas-revolucionários.

Lenin comentou a formação do novo governo da seguinte forma:

“Que o Partido proclame alta e claramente ao povo toda a verdade: que estamos experimentando os começos do bonapartismo; que o ‘novo’ governo é apenas uma tela para ocultar os cadetes contrarrevolucionários e a camarilha militar que têm o poder em suas mãos; que o povo não obterá paz, os camponeses não obterão a terra, os trabalhadores não obterão a jornada de oito horas, os famintos não obterão pão, sem a completa liquidação da contrarrevolução.”

(V. I. Lenin: “O Começo do Bonapartismo”, em “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 78–79).

O Sexto Congresso do Partido

O Sexto Congresso do POSDR realizou-se secretamente em Petrogrado de 8 a 16 de agosto de 1917, com a presença de 157 delegados com direito a voto, representando 40.000 membros.

Na ausência de Lenin, tanto o Relatório do Comitê Central quanto o Relatório sobre a Situação Política foram apresentados por Stalin. Neste último, Stalin disse:

“Alguns camaradas dizem que, uma vez que o capitalismo é pouco desenvolvido em nosso país, seria utópico levantar a questão de uma revolução socialista… Seria pedantismo grosseiro exigir que a Rússia ‘espere’ pelas transformações socialistas até que a Europa ‘comece’. O país que ‘começa’ é aquele que tem maiores oportunidades… A derrubada da ditadura da burguesia imperialista: esta deve ser a palavra de ordem imediata do Partido.

O período pacífico da revolução terminou. Começou um período de choques e explosões…

A característica do momento é que as medidas contrarrevolucionárias estão sendo implementadas por intermédio de ‘socialistas’. É somente porque criou essa tela que a contrarrevolução pode continuar existindo por mais um ou dois meses. Mas, como as forças da revolução estão se desenvolvendo, explosões necessariamente ocorrerão, e chegará o momento em que os trabalhadores se levantarão e agruparão em torno de si as camadas mais pobres do campesinato, erguerão a bandeira da revolução operária e inaugurarão uma era de revolução socialista na Europa.”

(J. V. Stalin: Relatório sobre a Situação Política, Sexto Congresso do POSDR, em: “Obras”, Volume 3; Moscou; 1953; p. 185, 186, 189, 190).

Nikolai Bukharin apresentou, na discussão sobre o Relatório da Situação Política, uma teoria do desenvolvimento ulterior da revolução baseada na teoria trotskista da “revolução permanente”. Bukharin sustentava que a revolução, em seu desenvolvimento ulterior, consistiria em duas fases: a primeira fase seria essencialmente uma revolução camponesa; a segunda fase seria a de uma revolução da classe trabalhadora na qual o camponês não seria aliado da classe trabalhadora, e na qual o único aliado da classe trabalhadora russa seria a classe trabalhadora da Europa Ocidental, isto é:

“A primeira fase, com a participação do campesinato ansioso por obter terra; a segunda fase, depois que o campesinato saciado tiver se afastado, a fase da revolução proletária, quando o proletariado russo será apoiado apenas por elementos proletários e pelo proletariado da Europa Ocidental.”

(N. Bukharin: Discurso no 6º Congresso do POSDR, citado em N. Popov: “Esboço da História do Partido Comunista da União Soviética”, Parte 1; Londres; s.d.; p. 383).

Stalin combateu a teoria de Bukharin como “mal pensada” e “fundamentalmente errada”:

“Qual é a perspectiva apresentada por Bukharin? Sua análise é fundamentalmente errada. Em sua opinião, na primeira etapa estamos nos movendo rumo a uma revolução camponesa. Mas ela está destinada a concorrer, a coincidir com uma revolução operária. Não pode ser que a classe trabalhadora, que constitui a vanguarda da revolução, não lute ao mesmo tempo por suas próprias reivindicações. Portanto, considero que o esquema de Bukharin não foi devidamente pensado.

A segunda etapa, segundo Bukharin, será uma revolução proletária apoiada pela Europa Ocidental, sem os camponeses, que terão recebido terra e estarão satisfeitos. Mas contra quem essa revolução seria dirigida? O esquema de fancaria de Bukharin não fornece resposta a essa questão.”

(J. V. Stalin: Resposta à Discussão sobre o Relatório da Situação Política, 6º Congresso do POSDR, em: ibid.; p. 196).

Evgeni Preobrazhensky propôs uma emenda à resolução do congresso sobre a situação política, emenda também baseada em um aspecto da teoria trotskista da “revolução permanente”. Propôs que a tomada do poder fosse empreendida:

“Com o propósito de dirigi-lo rumo à paz e, no caso de uma revolução proletária no Ocidente, rumo ao socialismo.”

(E. Preobrazhensky: Emenda à Resolução sobre a Situação Política, 6º Congresso do POSDR, citada em N. Popov: ibid.; p. 381).

Stalin combateu fortemente essa emenda:

“Sou contra tal emenda. Não está excluída a possibilidade de que a Rússia seja o país que abrirá o caminho para o socialismo… Devemos descartar a ideia antiquada de que apenas a Europa pode nos mostrar o caminho.”

(J. V. Stalin: Resposta a Preobrazhensky sobre a cláusula 9 da resolução “Sobre a Situação Política”, 6º Congresso do POSDR, em: ibid.; p. 199, 200).

A emenda de Preobrazhensky foi rejeitada, e a resolução adotada pelo congresso declarou:

“A palavra de ordem correta no momento presente só pode ser a liquidação completa da ditadura da burguesia contrarrevolucionária. Somente o proletariado revolucionário, desde que apoiado pelo campesinato mais pobre, é forte o suficiente para cumprir essa tarefa…

A tarefa dessas classes revolucionárias será então tensionar todos os esforços para tomar o poder de Estado em suas próprias mãos e dirigi-lo, em aliança com o proletariado revolucionário dos países avançados, rumo à paz e à reconstrução socialista da sociedade.”

(Resolução sobre a Situação Política, 6º Congresso do POSDR, citada em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 2; Londres; s.d.; p. 304).

O congresso aprovou uma resolução sobre a situação econômica, cujos pontos principais eram o confisco das propriedades fundiárias, a nacionalização da terra, a nacionalização dos bancos e das grandes empresas industriais, e o controle operário sobre a produção e a distribuição.

Aprovou também resoluções sobre o movimento sindical e sobre as ligas juvenis, estabelecendo como objetivo que o Partido conquistasse a influência dirigente em todos esses organismos. Endossou também a decisão de Lenin de não comparecer ao julgamento:

“Considerando que os métodos atuais de perseguição pela polícia e pelo serviço secreto e as atividades do promotor público estão restabelecendo as práticas do regime de Shcheglovitov… e sentindo que, sob tais condições, não há absolutamente nenhuma garantia nem da imparcialidade do procedimento judicial nem mesmo da segurança elementar daqueles convocados perante o tribunal.”

(Resolução sobre o Não Comparecimento de Lenin ao Tribunal, 6º Congresso do POSDR, citada em V. I. Lenin: ibid.; p. 312).

O congresso também adotou novas Regras do Partido, baseadas nos princípios do centralismo democrático, e admitiu os Mezhrayontsi, a Organização Interdistrital, no Partido. Desse modo, Trotsky, como membro da Organização Interdistrital, tornou-se membro do Partido Bolchevique enquanto estava na prisão, menos de três meses antes da “Revolução de Outubro”.

Por fim, o congresso publicou um Manifesto a todos os trabalhadores, soldados e camponeses da Rússia, que terminava:

“Firmemente, corajosamente e calmamente, sem ceder às provocações, reúnam forças e formem colunas de combate! Sob a bandeira do Partido, proletários e soldados! Sob nossa bandeira, oprimidos das aldeias!

Viva o proletariado revolucionário!

Viva a aliança dos trabalhadores e camponeses!

Abaixo a contrarrevolução e sua ‘Conferência de Moscou’!

Viva a revolução operária mundial!

Viva o socialismo!

Viva o Partido Operário Social-Democrata Russo (Bolcheviques)!”

(Manifesto do Partido Operário Social-Democrata Russo, Sexto Congresso, citado em ibid.; p. 316–317).

A “Conferência de Estocolmo”

Como foi dito, a 7ª Conferência do Partido, em maio, havia resolvido que o Partido não deveria participar da “conferência socialista internacional” em Estocolmo, originalmente prevista para maio, mas adiada para o outono, e sim desmascará-la como uma manobra dos social-chauvinistas alemães.

Em 19 de agosto, porém, Lev Kamenev disse no Comitê Executivo Central dos Sovietes:

“Agora, quando nossa revolução recuou para a segunda linha de trincheiras, é apropriado apoiar essa conferência. Agora, quando a Conferência de Estocolmo se tornou a bandeira da luta do proletariado contra o imperialismo… naturalmente devemos apoiá-la.”

(L. Kamenev: Discurso ao CEC, 19 de agosto de 1917, citado em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 290).

Lenin denunciou com indignação a declaração de Kamenev:

“Que direito tinha o camarada Kamenev de esquecer que há uma decisão do Comitê Central do Partido contra a participação em Estocolmo? Se essa decisão não foi revogada por um congresso ou por uma nova decisão do Comitê Central, ela é lei para o Partido…

Kamenev não apenas não tinha o direito de fazer esse discurso, como… violou diretamente a decisão do Partido; falou diretamente contra o Partido… Kamenev… não mencionou que a Conferência de Estocolmo incluirá social-imperialistas, que é vergonhoso para um social-democrata revolucionário ter qualquer coisa a ver com tais pessoas… Ir conferenciar com social-imperialistas, com ministros, com auxiliares de carrascos na Rússia: isto é uma vergonha e uma traição…

Não uma bandeira revolucionária, mas uma bandeira de acordos, compromissos, perdão ao social-imperialismo, negociações de banqueiros sobre a divisão das anexações: esta é a bandeira que realmente começa a tremular sobre Estocolmo…

Decidimos construir a Terceira Internacional. Devemos realizar isso apesar de todas as dificuldades. Nem um passo atrás rumo a acordos com social-imperialistas e renegados do socialismo.”

(V. I. Lenin: “Sobre o Discurso de Kamenev no Comitê Executivo Central a respeito da Conferência de Estocolmo”, em: ibid.; p. 94, 95, 96).

No mês seguinte, Lenin voltou a atacar a Conferência de Estocolmo:

“A Conferência de Estocolmo… fracassou. Seu fracasso foi causado pelo fato de que os imperialistas anglo-franceses atualmente não querem conduzir negociações de paz, enquanto os imperialistas alemães querem…

A Conferência de Estocolmo, como se sabe, foi convocada e é apoiada por pessoas que apoiam seus governos…

O ‘Novaya Zhizn’ engana os trabalhadores quando os imbui de confiança nos social-chauvinistas…

Nós, por outro lado, nos afastamos da comédia encenada em Estocolmo pelos social-chauvinistas e entre os social-chauvinistas, a fim de abrir os olhos das massas, expressar seus interesses, chamá-las à revolução… a uma luta baseada em princípios e a uma ruptura completa com o social-chauvinismo…

A Conferência de Estocolmo, mesmo que ocorra, o que é muito improvável, será uma tentativa dos imperialistas alemães de sondar o terreno quanto à viabilidade de certa troca de anexações.”

(V. I. Lenin: “Sobre a Conferência de Estocolmo”, em: ibid.; p. 121, 123, 124, 125).

De fato, a “Conferência de Estocolmo” nunca ocorreu, devido à recusa dos governos britânico e francês de permitir que seus social-chauvinistas comparecessem.

A Conferência Estatal de Moscou

Por iniciativa de Aleksandr Kerensky, uma “Conferência Estatal” foi realizada no Teatro Bolshoi, em Moscou, de 25 a 28 de agosto de 1917. A conferência foi dominada por representantes dos latifundiários e da burguesia, incluindo vários generais destacados, com uma minoria de representantes soviéticos na forma de mencheviques e socialistas-revolucionários. O Soviete de Petrogrado e os Sovietes provinciais não foram convidados a enviar delegados.

A conferência foi aberta por Kerensky, que declarou que as tarefas fundamentais do Governo Provisório eram a continuação da guerra, a restauração da ordem no exército e no país, e a organização de um poder estável.

O discurso principal foi feito pelo general Lavr Kornilov, comandante-chefe das Forças Armadas, enquanto o general Aleksei Kaledin, falando em nome dos cossacos do Don, apresentou o seguinte programa:

  1. política proibida no exército;
  2. todos os Sovietes e comitês do Exército abolidos;
  3. a Declaração dos Direitos dos Soldados abolida;
  4. autoridade plena restaurada aos oficiais.

Antes da abertura da conferência, Stalin a caracterizara da seguinte forma:

“A contrarrevolução precisa de um parlamento próprio, de um centro próprio; e está criando-o…

A conferência a ser convocada em Moscou em 25 de agosto inevitavelmente será transformada em órgão de conspiração contrarrevolucionária contra os trabalhadores… contra os camponeses… e contra os soldados… em órgão de conspiração camuflado pela ‘conversa socialista’ dos socialistas-revolucionários e mencheviques, que apoiam a conferência.”

(J. V. Stalin: “Contra a Conferência de Moscou”, em: “Obras”, Volume 3; Moscou; 1953, p. 208, 209).

Uma resolução do Comitê Central do POSDR, publicada em 21 de agosto, conclamou todas as organizações do Partido:

“Primeiro, a desmascarar a conferência convocada em Moscou como órgão da conspiração da burguesia contrarrevolucionária contra a revolução; segundo, a desmascarar a política contrarrevolucionária dos socialistas-revolucionários e mencheviques que apoiam essa conferência; terceiro, a organizar protestos de massa de trabalhadores, camponeses e soldados contra a conferência.”

(Resolução do CC do POSDR sobre a Conferência de Moscou, citada em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 2; Londres; s.d.; p. 318).

O Conselho Sindical de Moscou, sob direção bolchevique, convocou uma bem-sucedida greve geral de um dia na cidade em protesto contra a convocação da conferência.

A revolta de Kornilov

Em 3 de setembro, Riga, a capital letã, foi entregue aos exércitos alemães.

Uma poderosa campanha foi então lançada em todos os meios de comunicação controlados pela classe capitalista contrarrevolucionária, atribuindo a queda de Riga à desmoralização dos soldados produzida pela propaganda e agitação bolcheviques.

Os bolcheviques responderam que essa não era a razão da queda de Riga, mas que a cidade havia sido deliberadamente entregue aos exércitos alemães a fim de fornecer um pretexto para uma conspiração contrarrevolucionária:

“Depois da Conferência de Moscou veio a entrega de Riga e a exigência de medidas repressivas… A contrarrevolução precisava de uma ‘conspiração bolchevique’ para abrir caminho a Kornilov… Os oficiais superiores contrarrevolucionários do Exército entregaram… Riga em agosto a fim de explorar as ‘derrotas’ na frente para alcançar o triunfo ‘completo’ da contrarrevolução.”

(J. V. Stalin: “Exigimos!”, em: “Obras”, Volume 3; Moscou; 1953; p. 277, 278).

Em 5 de setembro, ocorreram negociações no quartel-general do Exército, na frente, entre o comandante-chefe general Lavr Kornilov e Boris Savinkov, vice-ministro da Guerra no Governo Provisório, nas quais, por instruções de Kerensky, Savinkov solicitou a Kornilov que enviasse unidades do Exército a Petrogrado:

“Por instruções do primeiro-ministro, solicitei a você (Kornilov) que enviasse o Corpo de Cavalaria para assegurar o estabelecimento da lei marcial em Petrogrado e a supressão de qualquer tentativa de revolta.”

(B. Savinkov: Declaração citada em J. V. Stalin: “A Conspiração contra a Revolução”, em: ibid.; p. 367).

Em 7 de setembro, o general Kornilov ordenou que um corpo do Exército, alguns destacamentos cossacos e a chamada “Divisão Selvagem” marchassem sobre Petrogrado. As ordens dadas ao comandante dessa força, o general Krymov, eram ocupar a cidade, desarmar as unidades da guarnição de Petrogrado que se uniram ao movimento bolchevique, desarmar a população de Petrogrado e dispersar os Sovietes.

“Ocupar a cidade, desarmar as unidades da guarnição de Petrogrado que se uniram ao movimento bolchevique, desarmar a população de Petrogrado e dispersar os Sovietes… Após a execução dessa missão, o general Krymov deveria enviar uma brigada reforçada com artilharia para Oranienbaum, que, ao chegar, deveria conclamar a guarnição de Kronstadt a desmontar a fortaleza e atravessar para o continente.”

(L. Kornilov: Memorando Explicativo, citado em J. V. Stalin: ibid.; p. 367).

O objetivo do golpe militar era estabelecer um governo ditatorial chefiado por Kornilov, com a participação de Aleksandr Kerensky como vice-presidente, Boris Savinkov, general Mikhail Alekseev e almirante Aleksandr Kolchak (ibid.; p. 370).

Como Stalin comentou depois:

“Um pacto foi concluído (isto é, entre o Governo Provisório e o general Kornilov — Ed.) para organizar uma conspiração contra os bolcheviques, isto é, contra a classe trabalhadora, contra o exército revolucionário e o campesinato. Foi um pacto de conspiração contra a revolução!

Foi isso que dissemos desde o primeiro dia da revolta de Kornilov.”

(J. V. Stalin: “Comentários”, em: ibid.; p. 350).

“O Governo Kerensky não apenas conhecia esse plano diabólico, como também participou de sua elaboração e, junto com Kornilov, preparava-se para executá-lo… O ‘caso Kornilov’ não foi uma ‘revolta’ contra o Governo Provisório… mas uma conspiração regular contra a revolução, uma conspiração organizada e cuidadosamente planejada…

Seus organizadores e instigadores eram os elementos contrarrevolucionários entre os generais, representantes do Partido Cadete, representantes dos ‘homens públicos’ em Moscou, os membros mais ‘iniciados’ do Governo Provisório e, por último, mas não menos importante, certos representantes de certas embaixadas… Kornilov tinha o apoio da burguesia imperialista russa e da burguesia imperialista britânica e francesa.”

(J. V. Stalin: “A Conspiração contra a Revolução”, em: ibid.; p. 367, 373, 379).

Em 8 de setembro, uma “exigência” foi enviada a Kerensky em nome de Kornilov, exigindo que o primeiro entregasse poderes ditatoriais ao general. No mesmo dia, os ministros “cadetes” renunciaram ao Governo Provisório.

No dia seguinte, Kerensky, obrigado por razões políticas a manter secreta sua participação na conspiração, publicou um “apelo” à população por “resistência” a Kornilov e nomeou Savinkov governador-geral de Petrogrado sob estado de sítio.

Em 10 de setembro, por iniciativa dos bolcheviques, foi criado na capital um amplo Comitê de Luta contra a Contrarrevolução. Destacamentos de trabalhadores armados, os “Guardas Vermelhos”, foram formados para a defesa da cidade, e agitadores, em sua maioria soldados bolcheviques, foram enviados para encontrar as tropas em avanço. O trabalho desses agitadores, nas circunstâncias existentes, revelou-se tão bem-sucedido que, em 12 de setembro, praticamente todos os soldados rasos haviam desertado Kornilov.

A linha política apresentada por Lenin em relação à “revolta” de Kornilov consistia em organizar a luta ativa contra o inimigo principal, as forças de Kornilov, enquanto se conduzia uma campanha de desmascaramento do governo Kerensky:

“Lutaremos, estamos lutando contra Kornilov, assim como as tropas de Kerensky fazem, mas não apoiamos Kerensky. Ao contrário, desmascaramos sua fraqueza. Aí está a diferença…

Estamos mudando a forma de nossa luta contra Kerensky… Não derrubaremos Kerensky agora mesmo; abordaremos a tarefa de lutar contra ele de modo diferente, a saber, apontaremos ao povo, que luta contra Kornilov, a fraqueza e a vacilação de Kerensky.”

(V. I. Lenin: “Carta ao Comitê Central do Partido Operário Social-Democrata Russo”, 12 de setembro de 1917, em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 137, 138).

Em 14 de setembro, o general Krymov cometeu suicídio e, por iniciativa de Kerensky, um governo de cinco homens chamado “Diretório” foi criado como novo Governo Provisório.

Como Stalin comentou:

“Um Diretório era a forma política com a qual a ‘ditadura coletiva’ Kornilov-Kerensky deveria ter sido revestida.

Agora deve estar claro para todos que, ao criar um Diretório após o fracasso da ‘revolta’ de Kornilov, Kerensky estava estabelecendo essa mesma ditadura de Kornilov por outros meios.”

(J. V. Stalin: “A Conspiração contra a Revolução”, em: ibid.; p. 370).

A revolta de Kornilov, juntamente com a luta completamente bem-sucedida conduzida pelos bolcheviques contra ela, deu grande impulso ao desenvolvimento das forças revolucionárias socialistas.

“A revolta de Kornilov foi uma tentativa contra a própria vida da revolução. Isso é indiscutível. Mas, ao tentar matar a revolução e ao pôr em movimento todas as forças da sociedade, ela, por um lado, deu impulso à revolução, estimulou-a a maior atividade e organização, e, por outro lado, revelou a verdadeira natureza das classes e partidos, arrancou a máscara de seus rostos e nos deu um vislumbre de suas verdadeiras fisionomias.

Devemos à revolta de Kornilov o fato de que os Sovietes quase mortos na retaguarda e os Comitês na frente imediatamente reviveram e se tornaram ativos.

É fato que até mesmo o ‘Diretório’ de cinco homens estabelecido por Kerensky teve de dispensar representantes oficiais dos cadetes.”

(J. V. Stalin: “A Ruptura com os Cadetes”, em: ibid.; p. 296, 297).

A situação política após a “revolta” de Kornilov

Como resultado do colapso da “revolta” de Kornilov, o Governo Provisório encontrou-se, por um momento, praticamente sem qualquer maquinaria estatal de força à sua disposição. Nessas circunstâncias, Lenin declarou, em 14 de setembro, que por um curto período, talvez apenas alguns dias, a revolução poderia avançar pacificamente pela formação, sob a palavra de ordem revivida de “Todo o poder aos Sovietes”, de um governo soviético menchevique e socialista-revolucionário.

“Chegou agora uma virada tão brusca e original na revolução russa que nós, como partido, podemos oferecer um compromisso voluntário; é verdade, não à burguesia, nosso inimigo de classe direto e principal, mas a nossos adversários mais próximos, os partidos democráticos pequeno-burgueses ‘governantes’, os socialistas-revolucionários e mencheviques…

O compromisso de nossa parte é nosso retorno à reivindicação anterior a julho de todo o poder aos Sovietes, um governo de socialistas-revolucionários e mencheviques responsável perante os Sovietes.

Agora, e somente agora, talvez apenas por alguns dias ou por uma ou duas semanas, tal governo poderia ser criado e estabelecido de modo perfeitamente pacífico. Com toda probabilidade, ele poderia assegurar uma marcha pacífica de toda a Revolução Russa para frente e chances excepcionalmente boas de grandes avanços do movimento mundial rumo à paz e à vitória do socialismo.

Somente em nome desse desenvolvimento pacífico da revolução, uma possibilidade extremamente rara na história e extremamente valiosa…, podem e devem os bolcheviques, partidários de uma revolução mundial, partidários dos métodos revolucionários, concordar com tal compromisso, em minha opinião.

O compromisso consistiria no fato de que os bolcheviques… se absteriam de apresentar imediatamente a reivindicação da passagem do poder ao proletariado e aos camponeses mais pobres, dos métodos revolucionários de luta pela realização dessa reivindicação. A condição evidente… seria a plena liberdade de propaganda e a convocação da Assembleia Constituinte sem qualquer nova postergação.”

(V. I. Lenin: “Sobre os Compromissos”, em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 153–154).

Dois dias depois, em 16 de setembro, Lenin concluiu que o tempo em que um desenvolvimento pacífico da revolução ainda poderia ocorrer provavelmente já havia passado:

“Talvez aqueles poucos dias durante os quais um desenvolvimento pacífico ainda era possível já tenham passado. Sim, ao que tudo indica, já passaram.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 157).

Com a derrota da “revolta” de Kornilov, a situação política mudou rapidamente, como foi dito.

O incidente expôs completamente o caráter contrarrevolucionário do Governo Provisório e dos dirigentes mencheviques e socialistas-revolucionários. As massas de trabalhadores e camponeses passaram esmagadoramente para o lado dos bolcheviques. Uma seção dos mencheviques, os chamados “internacionalistas”, e uma seção dos socialistas-revolucionários, os chamados “socialistas-revolucionários de esquerda”, separaram-se dos dirigentes abertamente contrarrevolucionários e formaram um bloco prático com os bolcheviques.

O incidente também produziu grande revitalização dos Sovietes e sua bolchevização. Em 13 de setembro, o Soviete de Petrogrado adotou uma resolução revolucionária; o Soviete de Moscou seguiu o exemplo em 18 de setembro. Nessas circunstâncias, o Partido reviveu a palavra de ordem “Todo o poder aos Sovietes!”:

“‘Todo o poder aos Sovietes!’ — tal é a palavra de ordem do novo movimento.”

(J. V. Stalin: “Todo o Poder aos Sovietes!”, em: “Obras”, Volume 2; Moscou; 1953; p. 320).

Em 22 de setembro, o Presidium menchevique e socialista-revolucionário do Soviete de Petrogrado, chefiado por Nikolai Chkheidze, renunciou e, em 24 de setembro, Trotsky foi eleito presidente do Soviete de Petrogrado.

A “representação proporcional” de Trotsky

Em seu discurso presidencial ao Soviete de Petrogrado em 24 de setembro, Trotsky disse:

“Conduziremos o trabalho do Soviete de Petrogrado em um espírito de legalidade e de plena liberdade para todos os partidos. A mão do Presidium jamais se prestará à supressão de uma minoria.”

(L. Trotsky: Discurso Presidencial ao Soviete de Petrogrado, 24 de setembro de 1917, citado em I. Deutscher: “O Profeta Armado: Trotsky: 1879–1921”; Londres; 1970; p. 287).

Assim, em nome da “proteção dos direitos das minorias” sob a “representação proporcional”, por iniciativa de Trotsky os mencheviques e socialistas-revolucionários, agora minoria no Soviete, foram reconduzidos ao Presidium.

“Apesar das objeções de Lenin, todos os partidos foram representados no novo Presidium do Soviete em proporção à sua força.”

(I. Deutscher: ibid.; p. 287).

Lenin denunciou com indignação:

“erros tão flagrantes dos bolcheviques como conceder assentos aos mencheviques no Presidium dos Sovietes etc.”

(V. I. Lenin: “A Crise Amadureceu”, em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 278).

Lenin conclama à insurreição

No fim de setembro, Lenin escreveu ao Comitê Central, ao Comitê de Petrogrado e ao Comitê de Moscou do Partido, exigindo a preparação imediata de uma insurreição revolucionária:

“Tendo obtido a maioria nos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados de ambas as capitais, os bolcheviques podem e devem tomar o poder em suas mãos… A maioria do povo está conosco… Por que os bolcheviques devem assumir o poder agora mesmo? Porque a iminente entrega de Petrogrado tornará nossas chances cem vezes piores… O que nos preocupa não é o ‘dia’ da insurreição…

O que importa é que devemos tornar a tarefa clara para o Partido, colocar na ordem do dia a insurreição armada em Petrogrado e Moscou, incluindo suas regiões…

Não há aparelho? Há um aparelho: os Sovietes e as organizações democráticas… É precisamente agora que oferecer a paz ao povo significa vencer.

Assumam o poder imediatamente em Moscou e em Petrogrado… venceremos de modo absoluto e inquestionável.”

(V. I. Lenin: “Os Bolcheviques Devem Assumir o Poder”, em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 221, 222, 223).

Um ou dois dias depois, Lenin seguiu a carta acima com uma nova carta ao Comitê Central:

“Temos atrás de nós a maioria de uma classe que é a vanguarda da revolução, a vanguarda do povo, e que é capaz de arrastar as massas consigo.

Temos atrás de nós a maioria do povo…

Temos a posição vantajosa de um partido que conhece perfeitamente seu caminho…

A vitória está assegurada para nós, pois o povo está agora muito próximo do desespero, e estamos mostrando a todo o povo uma saída segura…

Temos diante de nós todos os pré-requisitos objetivos para uma insurreição bem-sucedida…

A demora é impossível. A revolução está perecendo.

Tendo colocado a questão dessa forma, tendo concentrado toda a nossa fração nas fábricas e nos quartéis, estimaremos corretamente o melhor momento para iniciar a insurreição.

E, para tratar a insurreição à maneira marxista, isto é, como uma arte, devemos ao mesmo tempo, sem perder um único momento, organizar o estado-maior dos destacamentos insurrecionais; designar as forças; deslocar os regimentos leais para os pontos mais importantes; cercar o Teatro Aleksandrinsky; ocupar a Fortaleza de Pedro e Paulo; prender o Estado-Maior e o governo; mover contra os cadetes militares, a Divisão Selvagem etc. destacamentos que preferirão morrer a permitir que o inimigo avance para o centro da cidade; devemos mobilizar os trabalhadores armados, chamá-los para uma última batalha desesperada, ocupar imediatamente as estações telegráficas e telefônicas, instalar nosso estado-maior da insurreição na estação telefônica central, conectá-lo por fio com todas as fábricas, os regimentos, os pontos de combate armado etc.”

(V. I. Lenin: “Marxismo e Insurreição”, em: ibid.; p. 226, 227, 228–229).

A reunião do Comitê Central de 28 de outubro

As duas cartas de Lenin discutidas na seção anterior foram debatidas em uma reunião do Comitê Central do Partido em 28 de outubro.

O Comitê adotou uma atitude hesitante diante da exigência de Lenin de que a insurreição fosse colocada imediatamente na ordem do dia. A moção de Stalin, segundo a qual as cartas deveriam ser enviadas às organizações mais importantes para discussão, foi adiada para a reunião seguinte. A moção de Kamenev, segundo a qual:

“O Comitê Central, tendo considerado as cartas de Lenin, rejeita as proposições práticas nelas contidas.”

(Atas do CC do POSDR, 28 de setembro de 1917, citadas em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 300).

foi, porém, rejeitada.

A questão da Conferência de Zimmerwald

A Sétima Conferência do POSDR, em maio de 1917, havia decidido a favor da representação do Partido na Terceira Conferência de Zimmerwald, em Estocolmo, planejada para o fim de maio, mas adiada para setembro.

Em setembro, Lenin pressionou pela posição de que a decisão de continuar participando da “podre Zimmerwald” havia sido um erro, e insistiu que a delegação do Partido não deveria participar da conferência, mas convocar uma conferência dos zimmerwaldistas de esquerda, sem os centristas:

“Agora está perfeitamente claro que foi um erro não sair dela (isto é, de Zimmerwald — Ed.)… Devemos sair de Zimmerwald imediatamente… Ao sairmos da podre Zimmerwald, devemos decidir imediatamente, na sessão plenária de 16 de setembro de 1917, convocar uma conferência dos esquerdistas.”

(V. I. Lenin: “Sobre a Questão de Zimmerwald”; em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 150).

A “Conferência Democrática”

De 27 de setembro a 5 de outubro de 1917, o Governo Provisório convocou uma “Conferência Democrática” no Teatro Aleksandrinsky, em Petrogrado. Seu objetivo era tentar fornecer uma base de apoio ao governo na nova situação posterior à derrota da “revolta” de Kornilov.

Ela era, evidentemente, completamente não representativa. Como Lenin assinalou:

“A Conferência Democrática não representa a maioria do povo revolucionário, mas apenas a camada superior pequeno-burguesa conciliadora.”

(V. I. Lenin: “Os Bolcheviques Devem Assumir o Poder”, em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 221).

Os bolcheviques estiveram representados na conferência e, em 1º de outubro, apresentaram uma longa declaração conclamando à formação de um governo soviético revolucionário com o seguinte programa:

“1. A abolição da propriedade privada da terra dos latifundiários sem indenização e sua transferência à administração dos comitês camponeses…

  1. A introdução do controle operário tanto sobre a produção quanto sobre a distribuição em escala nacional, a centralização bancária, o controle sobre os bancos e a nacionalização das indústrias mais importantes, como petróleo, carvão e metais; serviço universal do trabalho; medidas imediatas para desmobilizar a indústria; e organização do abastecimento do campo com produtos industriais a preços fixos. Tributação implacável das grandes acumulações de capital e propriedades, e confisco dos lucros de guerra, com o objetivo de salvar o país da ruína econômica.
  2. Declaração de nulidade dos acordos secretos e oferta imediata de uma paz democrática universal a todos os povos das nações beligerantes.
  3. Salvaguarda do direito de todas as nacionalidades que habitam a Rússia à autodeterminação. Abolição imediata de todas as medidas repressivas contra a Finlândia e a Ucrânia.”

(Declaração da Fração Bolchevique na Conferência Democrática, citada em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 2; Londres; s.d.; p. 321–322).

E exigindo as seguintes medidas imediatas:

“1. Cessação de todas as repressões dirigidas contra a classe trabalhadora e suas organizações. Abolição da pena capital na frente e restabelecimento da plena liberdade de agitação e de todas as organizações democráticas no interior do Exército. Expurgo do Exército de elementos contrarrevolucionários.

  1. Comissários e outros funcionários devem ser eleitos pelas organizações locais.
  2. Armamento geral dos trabalhadores e organização de uma Guarda Vermelha.
  3. Dissolução do Conselho de Estado e da Duma de Estado. Convocação imediata da Assembleia Constituinte.
  4. Abolição de todos os privilégios dos estamentos, da nobreza etc.; completa igualdade de direitos para todos os cidadãos.
  5. Introdução da jornada de oito horas e de um sistema abrangente de seguro social.”

(Ibid.; p. 322).

Depois de repetidas votações inconclusivas, a conferência declarou-se a favor de um governo de coalizão, mas sem participação dos cadetes. Kerensky, porém, recusou-se a cumprir a decisão da conferência que ele próprio havia organizado e, em 8 de outubro, formou um novo governo de coalizão que incluía vários membros individuais do Partido Cadete.

O ato mais importante da conferência foi criar um “Conselho Provisório da República”, conhecido como “Pré-Parlamento”, por meio do qual a classe capitalista pretendia desviar os trabalhadores e camponeses pobres politicamente menos desenvolvidos do caminho da revolução para o caminho da democracia parlamentar. O Pré-Parlamento pretendia substituir os Sovietes.

Em um artigo publicado em 7 de outubro, dois dias depois do fim da conferência, Lenin a resumiu da seguinte forma:

“Nos Sovietes, os socialistas-revolucionários e mencheviques perderam sua maioria. Portanto, tiveram de recorrer a uma fraude: violar sua promessa de convocar um novo congresso dos Sovietes depois de três meses; … montar uma Conferência ‘Democrática’… Os dirigentes estão se apoiando em uma minoria, em desafio aos princípios da democracia. Daí a inevitabilidade de suas fraudes.”

(V. I. Lenin: “Heróis ou Fraudadores”; em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 244, 245).

O boicote ao Pré-Parlamento

Já no último dia da “Conferência Democrática”, 5 de outubro, Lenin havia se convencido de que, diante do desenvolvimento da revolução, fora um erro os bolcheviques participarem dessa “fraude hedionda”:

“Quanto mais se reflete sobre o significado da chamada Conferência Democrática…, mais firmemente se fica convencido de que nosso Partido cometeu um erro ao participar dela… Uma nova revolução está obviamente crescendo no país, uma revolução… do proletariado e da maioria dos camponeses, do campesinato mais pobre, contra a burguesia, contra sua aliada, o capital financeiro anglo-francês, contra seu aparelho governamental chefiado pelo bonapartista Kerensky. Deveríamos ter boicotado a Conferência Democrática; todos erramos ao não fazê-lo.”

(V. I. Lenin: “Do Diário de um Publicista”, em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 249, 253).

Com base nisso, Lenin passou a lutar por uma política de boicote à nova fraude, o Pré-Parlamento:

“Este pré-parlamento… é, em substância, uma fraude bonapartista… A tática de participação no pré-parlamento é incorreta. Ela não corresponde à correlação objetiva das classes, às condições objetivas do momento… Devemos boicotar o pré-parlamento. Devemos deixá-lo e ir aos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores, Soldados e Camponeses, aos sindicatos, às massas em geral… Devemos dar-lhes uma palavra de ordem correta e clara: dispersar a quadrilha bonapartista de Kerensky com seu pré-parlamento falsificado.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 252–253).

Entretanto, antes que a carta de Lenin tivesse sido recebida, em 3 de outubro o Comitê Central do Partido convocara uma reunião ampliada do Comitê Central, incluindo membros do Comitê de Petrogrado e os delegados bolcheviques à Conferência Democrática. Stalin e Trotsky relataram a favor do boicote ao Pré-Parlamento, enquanto Lev Kamenev e Viktor Nogin relataram a favor da participação, sendo apoiados por David Ryazanov e Aleksei Rykov. A conferência adotou uma resolução favorável à participação por 77 votos contra 50.

Em 6 de outubro, Lenin exigiu a reversão dessa decisão:

“Trotsky foi pelo boicote. Bravo, camarada Trotsky!

O boicotismo foi derrotado na fração dos bolcheviques que compareceram à Conferência Democrática.

Viva o boicote!

Não podemos e não devemos nos reconciliar com a participação sob nenhuma condição.

Devemos a todo custo esforçar-nos para que a questão do boicote seja resolvida no pleno do Comitê Central e em um congresso extraordinário do Partido…

Não há a menor dúvida de que no ‘topo’ de nosso Partido observamos vacilações que podem tornar-se ruinosas, pois a luta está se desenvolvendo.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 254).

O Comitê Central do Partido, de fato, convocou um Congresso do Partido para 30 de outubro de 1917. Em suas teses destinadas a esse congresso, Lenin escreveu:

“A participação de nosso Partido no ‘pré-parlamento’… é um erro evidente e um desvio do caminho proletário-revolucionário…

Quando a revolução está assim ascendendo, ir a um parlamento de mentira, fabricado para enganar o povo, significa facilitar esse engano, tornar mais difícil a preparação da revolução…

O Congresso do Partido, portanto, deve retirar os membros de nosso Partido do pré-parlamento e declarar boicote contra ele.”

(V. I. Lenin: “Teses… para uma Resolução e Instruções aos Eleitos para o Congresso do Partido”, em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 2; Londres; s.d.; p. 61).

Contudo, a convocação do congresso se mostrou desnecessária e foi cancelada pelo Comitê Central. Em 18 de outubro, o Comitê Central adotou uma resolução para boicotar o pré-parlamento, contra apenas um voto divergente. O divergente, Lev Kamenev, pediu que uma declaração sua fosse anexada à ata da reunião:

“Penso que sua decisão de retirar-se já da primeira sessão do ‘Soviete da República Russa’ predetermina a tática do Partido durante o próximo período em uma direção que pessoalmente considero bastante perigosa para o Partido.”

(L. Kamenev: Declaração ao CC do POSDR, 18 de outubro de 1917, citada em V. I. Lenin: “Obras Completas”; Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 302).

No dia de abertura do Pré-Parlamento, 20 de outubro, Trotsky leu uma declaração em nome dos bolcheviques:

“Nós, a fração dos sociais-democratas bolcheviques, declaramos: com este governo de traidores do povo e com este conselho de conivência contrarrevolucionária, nada temos em comum. Não desejamos encobrir, direta ou indiretamente, nem mesmo por um único dia, a obra que está sendo realizada por trás da tela oficial e que é fatal ao povo…

Ao nos retirarmos do Conselho Provisório, apelamos à vigilância e à coragem dos trabalhadores, soldados e camponeses de toda a Rússia.

Apelamos ao povo.

Todo o poder aos Sovietes!

Toda a terra ao povo!

Viva a paz imediata, honrosa e democrática!

Viva a Assembleia Constituinte!”

(Declaração da Fração Bolchevique lida no Pré-Parlamento, 20 de outubro de 1917, citada em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 2; Londres; s.d.; p. 324).

Os bolcheviques, então, abandonaram o Pré-Parlamento.

A reunião do Comitê Central de 23 de outubro

Dois dias depois de os bolcheviques abandonarem o Pré-Parlamento, realizou-se, em 23 de outubro, a famosa sessão do Comitê Central do Partido Social-Democrata Russo na qual foi tomada a decisão de lançar a insurreição.

Doze dos vinte e um membros do CC estavam presentes, incluindo Lenin disfarçado com peruca e óculos.

A ata da reunião registrou apenas os pontos principais da declaração de Lenin:

“Lenin afirma que, desde o início de setembro, certa indiferença em relação à questão foi observada. Diz que isso é inadmissível, se levantamos seriamente a palavra de ordem da tomada do poder pelos Sovietes. Portanto, já é hora de voltar a atenção para o lado técnico da questão. Muito tempo foi obviamente perdido.

Não obstante, a questão é muito urgente e o momento decisivo está próximo…

O absenteísmo e a indiferença das massas podem ser explicados pelo fato de que as massas estão cansadas de palavras e resoluções.

A maioria está agora conosco. Politicamente, a situação amadureceu inteiramente para a transferência do poder.”

(Atas do Comitê Central do POSDR, 23 de outubro de 1917, citadas em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 2; Londres; s.d.; p. 106).

Lenin então apresentou uma resolução que terminava:

“Reconhecendo, assim, que uma insurreição armada é inevitável e que o momento está perfeitamente maduro, o Comitê Central propõe a todas as organizações do Partido que ajam em conformidade e discutam e decidam, deste ponto de vista, todas as questões práticas.”

(Resolução do Comitê Central do POSDR, 23 de outubro de 1917, citada em: ibid.; p. 107).

A resolução foi aprovada por dez votos contra dois, sendo os divergentes Grigori Zinoviev e Lev Kamenev.

A campanha de Kamenev e Zinoviev contra a decisão do Comitê Central sobre a insurreição

Em 24 de outubro, Lev Kamenev e Grigori Zinoviev enviaram um memorando conjunto às principais organizações do Partido atacando a decisão do Comitê Central do dia anterior de lançar uma insurreição:

“O Congresso dos Sovietes foi convocado para 2 de novembro… Deve tornar-se o centro da consolidação, em torno dos Sovietes, de todas as organizações proletárias e semiproletárias… Ainda não há uma conexão organizativa firme entre essas organizações e os Sovietes… Mas tal conexão é, em qualquer caso, uma condição preliminar para a realização efetiva da palavra de ordem ‘Todo o poder aos Sovietes’…

Sob essas condições, seria uma grave inverdade histórica formular a questão da transferência do poder às mãos do partido proletário nos termos: agora ou nunca.

Não. O partido do proletariado crescerá… E há apenas uma maneira pela qual o partido proletário pode interromper seus sucessos: se, nas condições presentes, assumir a iniciativa de uma insurreição e, assim, expor os proletários aos golpes de toda a contrarrevolução consolidada, apoiada pela democracia pequeno-burguesa.

Contra essa política perniciosa, erguemos nossas vozes em advertência.”

(G. Zinoviev e L. Kamenev: Declaração às Organizações do Partido, 24 de outubro de 1917, citada em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 2; Londres; s.d.; p. 332).

Alguns dias depois, a declaração foi distribuída em forma de panfleto em Petrogrado.

O “constitucionalismo soviético” de Trotsky

A oposição de Trotsky ao chamado de Lenin à insurreição foi mais sutil do que a de Kamenev e Zinoviev.

Enquanto estes últimos se opunham abertamente às exigências de Lenin por preparativos imediatos para a insurreição, Trotsky apoiava essas exigências em palavras. Insistia, porém, em nome do “constitucionalismo soviético”, que o chamado efetivo à insurreição deveria ser emitido não pelo Soviete de Petrogrado e certamente não pelo Partido, mas pelo Segundo Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes.

Como expressa Isaac Deutscher, biógrafo simpático a Trotsky:

“Trotsky abordava o problema a partir de seu novo ponto de observação como presidente do Soviete de Petrogrado. Concordava com Lenin sobre as chances e a urgência da insurreição. Mas discordava dele quanto ao método, especialmente quanto à ideia de que o Partido deveria encenar a insurreição em seu próprio nome e sob sua própria responsabilidade. Levava menos a sério do que Lenin a ameaça de uma contrarrevolução imediata. Diferentemente de Lenin, confiava que a pressão da maioria bolchevique nos Sovietes não permitiria ao velho Executivo Central adiar por muito mais tempo o Congresso de Toda a Rússia…

Lenin… recusava-se a deixar a insurreição esperar até que o Congresso se reunisse, porque estava convencido de que o Executivo menchevique adiaria o Congresso para as calendas gregas, e que a insurreição nunca ocorreria, pois seria antecipada por uma contrarrevolução bem-sucedida…

A diferença entre Lenin e Trotsky centrava-se em saber se o levante em si deveria ser concebido nos termos do constitucionalismo soviético. O risco tático inerente à atitude de Trotsky era que ela impunha certos atrasos a todo o plano de ação…

Lenin… via a atitude de Trotsky em relação à insurreição com inquietação e mesmo suspeita. Perguntava-se se, ao insistir que o levante deveria ser vinculado ao Congresso dos Sovietes, Trotsky não estava ganhando tempo e adiando a ação até que fosse tarde demais. Se esse fosse o caso, então Trotsky teria sido, do ponto de vista de Lenin, um opositor ainda mais perigoso do que Kamenev e Zinoviev, cuja atitude tinha ao menos o mérito negativo de ser inequívoca e de contradizer frontalmente toda a tendência da política bolchevique. A atitude de Trotsky, ao contrário, parecia decorrer da política do Partido e, portanto, carregava mais convicção entre os bolcheviques; o Comitê Central, de fato, inclinava-se a adotá-la. Em suas cartas, Lenin, portanto, às vezes combatia a visão de Trotsky quase tão fortemente quanto as de Zinoviev e Kamenev, sem, porém, mencionar Trotsky pelo nome. Esperar o levante até o Congresso dos Sovietes, escreveu, era tão traidor quanto esperar que Kerensky convocasse a Assembleia Constituinte, como Zinoviev e Kamenev queriam fazer.”

(I. Deutscher: “O Profeta Armado: Trotsky: 1879–1921”; Londres; 1970; p. 290–291, 294–295).

As objeções de Lenin à linha de Trotsky nessa questão eram duplas.

Em primeiro lugar, ela significaria um atraso perigoso na convocação da insurreição.

Em segundo lugar, uma vez que a convocação do Segundo Congresso dos Sovietes estava constitucionalmente nas mãos do Comitê Executivo Central (CEC), eleito no Primeiro Congresso dos Sovietes em junho e dominado por mencheviques e socialistas-revolucionários, isso significaria permitir que contrarrevolucionários, e não o partido revolucionário de vanguarda, “fixassem a data da insurreição”, ou até a adiassem indefinidamente.

Nesse contexto, deve-se lembrar que o Primeiro Congresso dos Sovietes havia instruído o CEC a convocar um novo congresso “dentro de três meses”, isto é, não mais tarde que setembro. O CEC, porém, temendo justificadamente que os bolcheviques tivessem maioria no congresso, violou essa instrução. Somente sob a extrema pressão dos bolcheviques no momento da Conferência Democrática o CEC concordou relutantemente em convocar o congresso para 2 de novembro. Em 31 de outubro, porém, adiou o congresso para 7 de novembro.

Lenin via a linha de Trotsky como “idiotice absoluta” ou “traição completa”, deixando a questão em aberto, e a atacou continuamente até o próprio momento da insurreição.

Em 10 de outubro:

“A situação política geral causa-me grande ansiedade… O governo tem um exército e está se preparando sistematicamente.

E o que fazemos? Apenas aprovamos resoluções. Perdemos tempo. Fixamos ‘datas’ (2 de novembro, o Congresso dos Sovietes; não é ridículo adiar tanto? Não é ridículo confiar nisso?).”

(V. I. Lenin: Carta a I. T. Smilga, 10 de outubro de 1917; em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 265).

Em 12 de outubro:

“Sim, os dirigentes do Comitê Executivo Central seguem uma tática cuja única lógica é a defesa da burguesia e dos latifundiários. E não há a menor dúvida de que os bolcheviques, se se deixassem apanhar na armadilha das ilusões constitucionais, da ‘fé’ no Congresso dos Sovietes… da ‘espera’ pelo Congresso dos Sovietes etc., provariam ser miseráveis traidores da causa proletária…

A crise amadureceu. Todo o futuro da Revolução Russa está em jogo. Toda a honra do Partido Bolchevique está em questão… Devemos… admitir a verdade: em nosso Comitê Central e no topo de nosso Partido há uma tendência favorável a esperar o Congresso dos Sovietes, contra a tomada imediata do poder, contra uma insurreição imediata. Devemos superar essa tendência ou opinião.

Do contrário, os bolcheviques se cobririam de vergonha para sempre; seriam reduzidos a nada como partido. Pois perder tal momento e ‘esperar’ o Congresso dos Sovietes é ou idiotice absoluta ou traição completa… ‘Esperar’ o Congresso dos Sovietes é idiotice absoluta, pois significa perder semanas, enquanto semanas e mesmo dias agora decidem tudo… ‘Esperar’ o Congresso dos Sovietes é idiotice, pois o Congresso nada dará, nada pode dar!…

Primeiro vençam Kerensky, depois convoquem o Congresso.

A vitória da insurreição está agora assegurada aos bolcheviques… se não ‘esperarmos’ o Congresso dos Sovietes… Abster-se de tomar o poder no presente, ‘esperar’, ‘tagarelar’ no Comitê Central, limitar-nos… a ‘lutar pelo Congresso’ significa arruinar a revolução.”

(V. I. Lenin: “A Crise Amadureceu”, em: ibid.; p. 275, 276, 277, 278).

Somente quando Lenin tomou a medida extrema de renunciar ao Comitê Central para lutar por sua linha nos órgãos inferiores do Partido, em 12 de outubro, é que a maioria aceitou a linha de Lenin nessa questão:

“Sou obrigado a apresentar minha renúncia ao Comitê Central, o que faço por meio desta, reservando-me a liberdade de propaganda nas fileiras inferiores do Partido e no Congresso do Partido.

Pois é minha convicção mais profunda que, se ‘esperarmos’ o Congresso dos Sovietes e deixarmos passar o momento presente, arruinaremos a revolução.”

(V. I. Lenin: ibid.; p. 278).

Embora Lenin tenha retirado sua renúncia quando o Comitê Central votou pelo boicote ao Pré-Parlamento, Trotsky continuou a lutar por sua linha e Lenin continuou a lutar contra ela.

Em 16–20 de outubro:

“Os acontecimentos indicam nossa tarefa com tanta clareza que a hesitação, na verdade, torna-se um crime… ‘Esperar’ sob tais condições é um crime.

Os bolcheviques não têm o direito de esperar o Congresso dos Sovietes; devem tomar o poder imediatamente.

Esperar o Congresso dos Sovietes significa jogar um jogo infantil de formalidade, um jogo vergonhoso de formalidade; significa trair a revolução.”

(V. I. Lenin: Carta ao Comitê Central, ao Comitê de Moscou, ao Comitê de Petrogrado e aos membros bolcheviques dos Sovietes de Petrogrado e Moscou, 16–20 de outubro de 1917; em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 2; Londres; s.d.; p. 69).

Em 21 de outubro:

“Não devemos esperar o Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes, que o Comitê Executivo Central pode adiar até novembro; não devemos tardar…

Perto de Petrogrado e em Petrogrado: é aí que esta insurreição pode e deve ser decidida e realizada… tão rapidamente quanto possível… Demora significa morte.”

(V. I. Lenin: Carta aos Camaradas Bolcheviques que Participam do Congresso Regional dos Sovietes da Região Norte, 21 de outubro de 1917, em: ibid.; p. 91).

Em 6 de novembro, isto é, na véspera da insurreição:

“A situação é extremamente crítica. Está claro como o dia que adiar agora a insurreição realmente significa morte.

Com todas as minhas forças, desejo persuadir os camaradas de que agora tudo pende por um fio, de que na ordem do dia estão questões que não são resolvidas por conferências, por congressos, nem mesmo por Congressos dos Sovietes, mas apenas… pela luta das massas armadas.

A ofensiva burguesa dos kornilovistas, a remoção de Verkhovsky, mostram que não devemos esperar. Devemos, a qualquer preço, nesta tarde, esta noite, prender os ministros, depois de desarmar, ou derrotar se oferecerem resistência, os cadetes militares etc.

Não devemos esperar! Podemos perder tudo!… A história não perdoará a demora de revolucionários que poderiam ser vitoriosos hoje, e certamente serão vitoriosos hoje, enquanto arriscam perder muito amanhã, arriscam perder tudo.

Se tomarmos o poder hoje, nós o tomaremos não contra os Sovietes, mas por eles.

Seria um desastre ou formalismo esperar a votação incerta de 7 de novembro. O povo tem o direito e o dever de decidir tais questões não por votação, mas pela força…

O governo está cambaleando. Devemos desferir-lhe o golpe de morte a qualquer custo. Adiar a ação equivale à morte.”

(V. I. Lenin: Carta aos Membros do Comitê Central, 6 de novembro de 1917, em: ibid.; p. 144–145).

Mais tarde, Trotsky julgou conveniente negar a acusação de que teria procurado acomodar a insurreição ao Segundo Congresso dos Sovietes:

“Procuraríamos em vão, entre as atas ou entre quaisquer memórias, qualquer indicação de uma proposta de Trotsky de ‘acomodar necessariamente a insurreição ao Segundo Congresso dos Sovietes’.”

(L. Trotsky: “História da Revolução Russa”, Volume 3; Londres; 1967; p. 332).

Em outro lugar da mesma obra, porém, Trotsky deixa bastante clara sua própria posição naquele momento. Relata sua declaração “em nome do Soviete de Petrogrado”, em 1º de novembro:

“Declaro, em nome do Soviete, que nenhuma ação armada foi decidida por nós… O Soviete de Petrogrado proporá ao Congresso dos Sovietes que tome o poder.”

(L. Trotsky: Discurso ao Soviete de Petrogrado, 1º de novembro de 1917; citado em L. Trotsky: ibid.; p. 102, 103).

E comenta:

“O Soviete era suficientemente poderoso para anunciar abertamente seu programa de revolução estatal e até fixar a data.”

(L. Trotsky: ibid.; p. 103).

Trotsky também relata seu discurso em uma sessão de emergência do Soviete de Petrogrado em 6 de novembro de 1917, o dia anterior ao início da insurreição:

“Um conflito armado hoje ou amanhã não está incluído em nosso plano, no limiar do Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes. Pensamos que o Congresso realizará nossa palavra de ordem com maior poder e autoridade.”

(L. Trotsky: Discurso no Soviete de Petrogrado, 6 de novembro de 1917, citado em L. Trotsky: ibid.; p. 331–332).

Stalin se referiu posteriormente ao:

“erro cometido pelo Soviete de Petrogrado ao fixar e anunciar abertamente a data da insurreição (7 de novembro).”

(J. V. Stalin: “Trotskismo ou Leninismo?”, em: “Obras”, Volume 6; Moscou; 1953; p. 362).

Ao que Trotsky respondeu:

“Onde, quando e por qual lado o Soviete publicou no exterior a data da insurreição?”

(L. Trotsky: ibid.; p. 333).

E responde a si mesmo:

“Não foi a insurreição, mas a abertura do Congresso dos Sovietes, que foi fixada pública e antecipadamente para o dia 7… ‘Decorria da lógica das coisas’, escrevemos posteriormente, ‘que marcássemos a insurreição para 7 de novembro’… No segundo aniversário da revolução, o autor deste livro, referindo-se, no sentido que acabamos de explicar, ao fato de que ‘a insurreição de Outubro foi, por assim dizer, marcada de antemão para uma data definida, 7 de novembro, e foi realizada exatamente nessa data’, acrescentou: ‘Procuraríamos em vão na história outro exemplo de uma insurreição acomodada de antemão pelo curso das coisas a uma data definida.’”

(L. Trotsky: ibid.; p. 333–334).

Assim, Trotsky admitia aqui a justeza do comentário de Lenin:

“‘Convocar’ o Congresso dos Sovietes para 2 de novembro, a fim de decidir sobre a tomada do poder: há alguma diferença entre isso e uma insurreição estupidamente ‘marcada’?”

(V. I. Lenin: “A Crise Amadureceu”, em: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 1; Londres; s.d.; p. 277).

Segundo Trotsky, o plano original de Lenin para a insurreição, ao qual ele teria aderido até 6 de novembro, era que ela fosse convocada “em nome do Partido” e endossada pelo Congresso dos Sovietes quando este se reunisse.

O plano de Lenin, diz ele:

“pressupunha que a preparação e a consumação da revolução deveriam ser realizadas por canais partidários e em nome do Partido, e depois o selo da sanção seria colocado sobre a vitória pelo Congresso dos Sovietes.”

(L. Trotsky: “Lições de Outubro”; Londres; 1971; p. 45).

“Nas primeiras semanas, ele (isto é, Lenin — Ed.) era decididamente favorável à iniciativa independente do Partido.”

(L. Trotsky: “História da Revolução Russa”, Volume 3; Londres; 1967; p. 265–266).

E Trotsky reclama, por exemplo, da resolução redigida por Lenin que também foi aprovada pelo Comitê Central em sua reunião de 23 de outubro:

“A tarefa da insurreição ele apresentou diretamente como tarefa do Partido. A difícil tarefa de harmonizar sua preparação com os Sovietes ainda não é tocada. O Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes não recebe uma palavra.”

(L. Trotsky: ibid.; p. 143).

Trotsky “gentilmente” atribui as “avaliações erradas” de Lenin a sua ausência de Petrogrado:

“Lenin, que não estava em Petrogrado, não podia avaliar todo o significado desse fato (isto é, a invalidação, pelo Soviete de Petrogrado, da ordem de Kerensky transferindo dois terços da guarnição para a frente — Ed.)… O conselho de Lenin… decorria precisamente do fato de que, em seu refúgio clandestino, ele não tinha oportunidade de avaliar a virada radical.”

(L. Trotsky: “Lições de Outubro”; Londres; 1971; p. 47–48).

“O isolamento de Lenin… privou-o da possibilidade de fazer avaliações oportunas de fatores episódicos e mudanças temporárias… Se Lenin estivesse em Petrogrado e tivesse levado adiante, no início de outubro, sua decisão a favor de uma insurreição imediata sem referência ao Congresso dos Sovietes, ele sem dúvida poderia ter dado à execução de seu próprio plano uma moldura política que reduziria ao mínimo seus traços desvantajosos. Mas é ao menos igualmente provável que, nesse caso, ele próprio teria se aproximado do plano efetivamente realizado.”

(L. Trotsky: “História da Revolução Russa”, Volume 3; Londres; 1967; p. 327–328).

Na realidade, o plano básico de Lenin era que a insurreição fosse planejada, cronometrada e dirigida pelo Partido, por meio do Soviete de Petrogrado ou do Soviete de Moscou, ambos agora dirigidos pelo Partido, mas não por meio do Segundo Congresso dos Sovietes, cuja convocação dependia do Comitê Executivo Central dirigido por mencheviques e socialistas-revolucionários. Como comenta Stalin:

“Segundo Trotsky, parece que a visão de Lenin era que o Partido deveria tomar o poder em Outubro ‘independentemente’ dos Sovietes e pelas costas dos Sovietes.

Mais tarde, ao criticar essa bobagem que atribui a Lenin, Trotsky ‘faz piruetas’ e finalmente pronuncia a seguinte declaração condescendente:

‘Isso teria sido um erro.’

Trotsky está aqui proferindo uma falsidade sobre Lenin; está deturpando as opiniões de Lenin sobre o papel dos Sovietes na insurreição. Uma pilha de documentos pode ser citada para mostrar que Lenin propunha que o poder fosse tomado por meio dos Sovietes, seja o de Petrogrado, seja o de Moscou, e não pelas costas dos Sovietes.”

(J. V. Stalin: “Trotskismo ou Leninismo?”, em: “Obras”, Volume 6; Moscou; 1953; p. 359–360).

O mito de Trotsky prossegue dizendo que o Comitê Central “rejeitou o plano de Lenin para a insurreição” e “adotou o plano de Trotsky”, segundo o qual a insurreição deveria ser convocada pelo Segundo Congresso dos Sovietes. Somente na noite de 6 de novembro, segundo Trotsky, Lenin teria se convencido da “incorreção” de seu “plano conspirativo”:

“O Comitê Central não adotou essa proposta (isto é, a de Lenin — Ed.); a insurreição foi conduzida por canais soviéticos.”

(L. Trotsky: “Lições de Outubro”; Londres; 1971; p. 45).

“Quando ele (isto é, Lenin — Ed.) chegou ao Smolny (isto é, na noite de 6 de novembro, véspera da insurreição — Ed.)… compreendi que só naquele momento ele havia finalmente se reconciliado com o fato de que havíamos recusado a tomada do poder por meio de um plano conspirativo.”

(L. Trotsky: “História da Revolução Russa”, Volume 3; Londres; 1967; p. 345).

Como Stalin assinala, porém, o Comitê Central do Partido não adotou o plano de Trotsky segundo o qual a insurreição deveria ser convocada pelo Segundo Congresso dos Sovietes. Na verdade, a insurreição já havia sido realizada antes da reunião do Congresso.

“Lenin propôs que o poder fosse tomado antes de 7 de novembro por duas razões.

Primeiro, porque os contrarrevolucionários poderiam entregar Petrogrado (isto é, aos exércitos alemães — Ed.) a qualquer momento, o que teria drenado o sangue da insurreição em desenvolvimento.

Segundo, porque o erro cometido pelo Soviete de Petrogrado ao fixar e anunciar abertamente o dia da insurreição (7 de novembro) não poderia ser corrigido de outro modo senão lançando efetivamente a insurreição antes da data legal fixada para ela. O fato é que Lenin considerava a insurreição uma arte, e não podia deixar de saber que o inimigo, informado da data da insurreição em razão do descuido do Soviete de Petrogrado, certamente tentaria preparar-se para esse dia.

Consequentemente, era necessário antecipar-se ao inimigo, isto é, lançar sem falta a insurreição antes da data legal. Esta é a principal explicação para a paixão com que Lenin, em suas cartas, fustigou aqueles que faziam da data, 7 de novembro, um fetiche. Os acontecimentos mostram que Lenin estava absolutamente correto. É bem sabido que a insurreição foi lançada antes do Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes. É bem sabido que o poder foi efetivamente tomado antes da abertura do Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes, e foi tomado não pelo Congresso dos Sovietes, mas pelo Soviete de Petrogrado, pelo Comitê Militar Revolucionário. O Congresso dos Sovietes apenas recebeu o poder do Soviete de Petrogrado. É por isso que os longos argumentos de Trotsky sobre a importância da legalidade soviética estão completamente fora de propósito.”

(J. V. Stalin: ibid.; p. 362).

A reunião ampliada do Comitê Central de 29 de outubro

Em 29 de outubro de 1917, realizou-se uma sessão ampliada do Comitê Central do POSDR, da qual participaram representantes do Comitê de Petrogrado, do Comitê Regional de Petrogrado, da Organização Militar, da Fração Bolchevique do Soviete de Petrogrado, dos sindicatos e dos comitês de fábrica.

Lenin relatou a reunião do Comitê Central de 23 de outubro e leu a resolução sobre a insurreição adotada naquela reunião.

Representantes então relataram a situação existente em seus setores particulares.

Na discussão sobre a situação presente, a resolução foi fortemente combatida por Lev Kamenev e Grigori Zinoviev.

Kamenev disse:

“Esta resolução… mostra como não realizar uma insurreição: durante esta semana nada foi feito…

Os resultados da semana indicam que não há fatores favoráveis a um levante… Não temos aparelho para uma insurreição; nossos inimigos têm um aparelho muito mais forte, e ele provavelmente se fortaleceu ainda mais durante esta semana… Ao nos prepararmos para a Assembleia Constituinte, não estamos de modo algum entrando no caminho do parlamentarismo… Duas táticas estão lutando aqui: a tática da conspiração e a tática da confiança nas forças motrizes da Revolução Russa.”

(L. Kamenev: Discurso na reunião ampliada do CC do POSDR, 29 de outubro de 1917; em: Atas, citado em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 2; Londres; s.d.; p. 337).

Zinoviev disse:

“A Assembleia Constituinte ocorrerá em uma atmosfera revolucionária no mais alto grau. Enquanto isso, fortaleceremos nossas forças. Não está eliminada a possibilidade de que nós, junto com os socialistas-revolucionários de esquerda, sejamos maioria ali… Não temos o direito de arriscar, de apostar tudo em uma única carta…

Se o congresso ocorrer no dia 2, devemos propor que ele não se dissolva até que a Assembleia Constituinte se reúna. Deve haver uma tática defensiva, de espera… É necessário reconsiderar, se possível, a resolução do CC… Devemos dizer definitivamente a nós mesmos que não planejamos uma insurreição nos próximos cinco anos.”

(G. Zinoviev: Discurso na reunião ampliada do CC do POSDR, 29 de outubro de 1917, em: ibid.; p. 336, 337).

Stalin falou firmemente a favor da confirmação da resolução do Comitê Central de 23 de outubro, e isso foi finalmente feito por 19 votos contra 2, sendo novamente Kamenev e Zinoviev os votos divergentes.

O Comitê Central então continuou reunido sozinho e criou um Centro Militar do Comitê Central composto por Stalin, Sverdlov, Bubnov, Dzerzhinsky e Uritsky.

Depois de concluída a reunião, Kamenev enviou uma carta ao Comitê Central apresentando sua renúncia:

“Não podendo apoiar o ponto de vista expresso nas últimas decisões do CC que definem o caráter de seu trabalho, e considerando que essa posição conduz o partido do proletariado à derrota, peço ao CC que reconheça que não sou mais membro do CC.”

(L. Kamenev: Carta ao CC do POSDR, 29 de outubro de 1917, citada em V. I. Lenin: ibid.; p. 260).

O Congresso dos Sovietes da Região Norte

De 24 a 26 de outubro de 1917, realizou-se em Petrogrado o Congresso dos Sovietes de Deputados dos Trabalhadores e Soldados da Região Norte. Como a esmagadora maioria dos delegados era composta por bolcheviques e socialistas-revolucionários de esquerda, o Comitê Executivo Central dos Sovietes, ainda dominado por mencheviques e socialistas-revolucionários de direita, declarou o congresso não oficial, e a pequena fração menchevique declarou-se presente “apenas para fins de informação”.

O congresso declarou-se a favor da transferência imediata do poder aos Sovietes, da transferência imediata da terra aos camponeses, de uma oferta imediata de paz e da convocação da Assembleia Constituinte na data marcada.

Em 29–30 de outubro, Lenin escreveu uma longa “Carta aos Camaradas”, na qual refutava ponto por ponto os argumentos de Kamenev e Zinoviev contra o lançamento imediato de uma insurreição.

Em 31 de outubro, Kamenev, em nome de Zinoviev e dele próprio, publicou uma declaração no jornal “Novaya Zhizn” (“Nova Vida”), na qual afirmava que se sentiam obrigados:

“a declarar-se contra qualquer tentativa de tomar a iniciativa de uma insurreição armada que estaria condenada à derrota e que teria o efeito mais perigoso sobre o Partido, o proletariado e o destino da revolução. Apostar tudo na carta de uma insurreição nos próximos dias equivaleria a dar um passo de desespero.”

(L. Kamenev: “L. Kamenev sobre a Insurreição”, em “Novaya Zhizn”, 31 de outubro de 1917, citado em V. I. Lenin: ibid.; p. 261).

Lenin trovejou imediatamente contra a traição dos “fura-greves da Revolução”:

“Na véspera do dia crítico… dois ‘bolcheviques destacados’ atacam uma decisão não publicada do centro do Partido na imprensa não partidária, em um jornal que, no que diz respeito a esse problema dado, caminha de mãos dadas com a burguesia contra o partido dos trabalhadores…

Lutarei com todas as minhas forças, tanto no Comitê Central quanto no congresso, para expulsar ambos do Partido.

Não posso julgar de longe quanto dano foi causado à causa pela ação fura-greve na imprensa não partidária. Sem dúvida, foi causado um dano prático muito grande. Para remediar a situação, é necessário, antes de tudo, restabelecer a unidade da frente bolchevique excluindo os fura-greves.”

(V. I. Lenin: Carta aos Membros do Partido Bolchevique, 31 de outubro de 1917, em: ibid.; p. 129–130, 131).

No dia seguinte, escreveu ao Comitê Central do Partido:

“Um Partido que se respeita não pode tolerar fura-greves e fura-greves em seu meio. Isso é óbvio. Quanto mais pensamos na aparição de Zinoviev e Kamenev na imprensa não partidária, mais óbvio se torna que sua ação contém todos os elementos de uma ação fura-greve.

Não podemos refutar a mentira mexeriqueira de Zinoviev e Kamenev sem causar ainda mais dano à causa. Aí reside a baixeza sem limites, a absoluta traição dessas duas pessoas: diante dos capitalistas, traíram os planos dos grevistas. Pois, se ficarmos calados na imprensa, todos adivinharão como estão as coisas…

Pode e deve haver apenas uma resposta a isso: uma decisão imediata do Comitê Central dizendo que:

‘Reconhecendo na aparição de Zinoviev e Kamenev na imprensa não partidária todos os elementos de uma ação fura-greve, o Comitê Central expulsa ambos do Partido’…

Quanto mais ‘destacados’ os fura-greves, mais imperativo é puni-los imediatamente com a expulsão.”

(V. I. Lenin: Carta ao Comitê Central do POSDR, 1º de novembro de 1917; em: ibid.; p. 133, 135, 136).

A reunião do Comitê Central de 2 de novembro

Em sua reunião de 2 de novembro, o Comitê Central aceitou a renúncia de Kamenev do CC. Adotou uma resolução segundo a qual:

“nenhum membro do CC terá o direito de falar contra as decisões adotadas pelo CC.”

(Atas da reunião do CC do POSDR, 2 de novembro de 1917, citadas em V. I. Lenin: “Obras Completas”, Volume 21, Livro 2; Londres; s.d.; p. 261).

E uma resolução mais específica impondo:

“a Kamenev e Zinoviev a obrigação de não fazer quaisquer declarações contra as decisões do CC e a linha de trabalho por ele traçada.”

(Ibid.; p. 261).

A insurreição

Em 5 de novembro, o Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado nomeou comissários para todos os destacamentos militares sob seu comando. No mesmo dia, a Fortaleza de Pedro e Paulo, o último obstáculo importante à insurreição, declarou-se pelo Soviete de Petrogrado.

Na manhã cedo de 6 de novembro, o Governo Provisório tentou lançar uma contraofensiva contra as forças revolucionárias, emitindo ordens para a prisão dos membros do Comitê Militar Revolucionário e para a supressão do órgão central dos bolcheviques, “Rabochy Put” (“Caminho Operário”).

Por volta das 10 horas da manhã, destacamentos de Guardas Vermelhos haviam colocado uma guarda na gráfica e na redação do jornal, e às 11 horas o jornal saiu com um chamado à derrubada imediata do Governo Provisório.

No fim da noite de 6 de novembro, Lenin chegou ao Smolny, que, como sede tanto do Soviete de Petrogrado quanto do Partido Bolchevique, havia se tornado o centro dirigente da insurreição. Durante toda a noite, soldados e trabalhadores revolucionários vieram ao Smolny e foram armados com armas fornecidas por unidades do Exército a partir dos arsenais da cidade.

Desde a madrugada de 7 de novembro, tropas revolucionárias e Guardas Vermelhos ocuparam as estações ferroviárias de Petrogrado, os correios, os telégrafos, as centrais telefônicas, os edifícios governamentais e o Banco do Estado. O Pré-Parlamento foi dispersado. O cruzador “Aurora”, controlado por marinheiros revolucionários, apontou seus canhões para o Palácio de Inverno, o único território restante ao Governo Provisório.

Durante o dia, o Comitê Militar Revolucionário emitiu um manifesto, “Aos Cidadãos da Rússia”, redigido por Lenin:

“O Governo Provisório foi derrubado. O poder de Estado passou às mãos do órgão do Soviete de Deputados dos Trabalhadores e Soldados de Petrogrado, o Comitê Militar Revolucionário, que está à frente do proletariado e da guarnição de Petrogrado.

A causa pela qual o povo lutou, a proposta imediata de uma paz democrática, a abolição da propriedade fundiária dos latifundiários, o controle operário sobre a produção e a criação de um governo soviético, está assegurada.

Viva a revolução dos trabalhadores, soldados e camponeses!”

(V. I. Lenin: “Manifesto do Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado”, 7 de novembro de 1917, em V. I. Lenin e J. V. Stalin: “1917: Escritos e Discursos Selecionados”; Moscou; 1938; p. 613).

Em um aspecto, o manifesto foi ligeiramente prematuro, pois somente na noite de 7 de novembro os trabalhadores, soldados e marinheiros revolucionários tomaram de assalto o Palácio de Inverno e prenderam os membros do Governo Provisório que não haviam fugido. Kerensky havia escapado mais cedo naquele dia de carro, acompanhado por um carro da Embaixada dos Estados Unidos ostentando a bandeira norte-americana.

Às 23 horas de 7 de novembro, o Segundo Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes foi aberto no Smolny.

Como Stalin assinala:

“É bem sabido que a insurreição foi lançada antes do Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes. É bem sabido que o poder foi efetivamente tomado antes da abertura do Congresso de Toda a Rússia dos Sovietes, e foi tomado não pelo Congresso dos Sovietes, mas pelo Soviete de Petrogrado, pelo Comitê Militar Revolucionário. O Congresso dos Sovietes apenas recebeu o poder do Soviete de Petrogrado.”

(J. V. Stalin: “Trotskismo ou Leninismo?”, em: “Obras”, Volume 6; Moscou; 1953; p. 362).

O papel de Trotsky na Revolução de Outubro

Como Stalin assinala, Trotsky, como presidente do Soviete de Petrogrado e de seu Comitê Militar Revolucionário, desempenhou um papel importante na “Revolução de Outubro”:

“Estou longe de negar o papel indubitavelmente importante de Trotsky na insurreição… Não se pode negar que Trotsky lutou bem no período de Outubro… Mas Trotsky não foi o único que lutou bem no período de Outubro. Até pessoas como os socialistas-revolucionários de esquerda, que então estavam lado a lado com os bolcheviques, também lutaram bem.”

(J. V. Stalin: “Trotskismo ou Leninismo?”, em: “Obras”, Volume 6; Moscou; 1953; p. 342, 344).

Em seu mito sobre a “Revolução de Outubro”, porém, Trotsky se preocupou em subestimar o papel dirigente do Partido na revolução, em subestimar o papel de Lenin, cujas táticas para a insurreição, segundo ele, eram incorretas, e em superestimar o papel do Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado e de si mesmo como presidente desse Comitê.

Assim, Trotsky cita com aprovação evidente uma das primeiras edições das “Obras Completas” de Lenin, na qual os editores dizem em uma nota sobre Trotsky:

“Depois que o Soviete de Petrogrado se tornou bolchevique, ele foi eleito seu presidente e, nessa qualidade, organizou e dirigiu a insurreição de 7 de novembro.”

(Citado por L. Trotsky: “História da Revolução Russa”, Volume 3; Londres; 1967; p. 344).

A emenda dessa avaliação, alega Trotsky, deve-se ao fato de que:

“A revisão burocrática da história do Partido e da revolução está ocorrendo sob a supervisão direta de Stalin.”

(L. Trotsky: ibid.; p. 343).

Stalin certamente negou o “papel especial” de Trotsky na “Revolução de Outubro” reivindicado por Trotsky e seus apoiadores:

“Os trotskistas estão espalhando vigorosamente rumores de que Trotsky inspirou e foi o único dirigente da insurreição de Outubro… O próprio Trotsky, ao evitar sistematicamente mencionar o Partido, o Comitê Central e o Comitê de Petrogrado do Partido, ao nada dizer sobre o papel dirigente dessas organizações na insurreição e ao se empurrar vigorosamente para a frente como a figura central da insurreição de Outubro, ajuda, voluntária ou involuntariamente, a espalhar os rumores sobre o papel especial que supostamente desempenhou na insurreição…

Devo dizer, porém, que Trotsky não desempenhou nenhum papel especial na insurreição de Outubro, nem poderia fazê-lo; sendo presidente do Soviete de Petrogrado, ele apenas executou a vontade dos órgãos apropriados do Partido, que dirigiam cada passo dado por Trotsky.

Em 29 de outubro, em uma reunião do Comitê Central do Partido, foi eleito um centro prático para a direção organizativa da insurreição. Quem foi eleito para esse centro?

Os cinco seguintes: Sverdlov, Stalin, Dzerzhinsky, Bubnov, Uritsky.

As funções desse centro prático: dirigir todos os órgãos práticos da insurreição em conformidade com as diretivas do Comitê Central. Assim, como veem, algo ‘terrível’ aconteceu na reunião do Comitê Central, isto é, ‘estranhamente’, o ‘inspirador’, a ‘figura principal’, o ‘único dirigente’ da insurreição, Trotsky, não foi eleito para o centro prático, chamado a dirigir a insurreição… E, no entanto, falando estritamente, não há nada de estranho nisso, pois nem no Partido nem na insurreição de Outubro Trotsky desempenhou qualquer papel especial, nem poderia desempenhá-lo, pois era um homem relativamente novo em nosso Partido no período de Outubro… Ele, como todos os trabalhadores responsáveis, apenas executou a vontade do Comitê Central e de seus órgãos… Essa conversa sobre o papel especial de Trotsky é uma lenda espalhada por mexeriqueiros ‘partidários’ prestativos.

Isso, naturalmente, não significa que a insurreição de Outubro não teve seu inspirador. Ela teve, sim, seu inspirador e dirigente, mas este foi Lenin, e ninguém além de Lenin, o mesmo Lenin cujas resoluções o Comitê Central adotou ao decidir a questão da insurreição, o mesmo Lenin que, ao contrário do que Trotsky diz, não foi impedido por estar escondido de ser o verdadeiro inspirador da insurreição…

Que espécie de ‘história’ de Outubro é essa que começa e termina com tentativas de desacreditar o principal dirigente da insurreição de Outubro, de desacreditar o Partido que organizou e realizou a insurreição? Trotsky, por meio de seus pronunciamentos literários, está fazendo outra, mais uma, tentativa de criar as condições para substituir o leninismo pelo trotskismo.”

(J. V. Stalin: “Trotskismo ou Leninismo?”, em: “Obras”, Volume 6; Moscou; 1953; p. 341–343, 363, 364).

Trotsky, em sua resposta, confirma a acusação de Stalin de que está preocupado em subestimar o papel dirigente do Partido na insurreição. Admite que o “centro prático” do Comitê Central foi criado:

“por sugestão de Lenin.”

(L. Trotsky: “História da Revolução Russa”, Volume 3; Londres; 1967; p. 339).

Mas nega que ele, ou qualquer outro órgão partidário, tenha guiado a insurreição. A insurreição, declara ele, foi guiada exclusivamente pelo Comitê Revolucionário do Soviete de Petrogrado, com Trotsky como seu presidente:

“O Comitê Militar Revolucionário, desde o momento de seu nascimento, teve a direção direta não apenas da guarnição, mas também da Guarda Vermelha… Não restou lugar para qualquer outro centro dirigente… Havia apenas um centro revolucionário, aquele ligado ao Soviete, isto é, o Comitê Militar Revolucionário.”

(L. Trotsky: ibid.; p. 340, 341).

O caráter da “Revolução de Outubro”

Lenin caracterizou a “Revolução de Outubro” como uma revolução proletário-socialista em seu conteúdo principal, político, pois por meio dela a classe trabalhadora, em aliança com o campesinato e dirigindo-o, tomou o poder político da classe capitalista. Mas caracterizou-a como uma revolução democrático-burguesa em seu conteúdo econômico, pois completou as tarefas revolucionárias democrático-burguesas que a “Revolução de Fevereiro” não havia realizado.

“O objetivo imediato e direto da revolução na Rússia era um objetivo democrático-burguês, a saber, destruir os resquícios do medievalismo e aboli-los completamente… Levamos a revolução democrático-burguesa à conclusão como ninguém havia feito antes.

Estamos avançando rumo à revolução socialista, consciente, deliberada e firmemente, sabendo que nenhuma muralha da China a separa da revolução democrático-burguesa…

Mas… resolvemos os problemas da revolução democrático-burguesa de passagem, como um ‘subproduto’ do principal e verdadeiro trabalho proletário-revolucionário socialista.”

(V. I. Lenin: “O Quarto Aniversário da Revolução de Outubro”, em: “Obras Escolhidas”, Volume 6; Londres; 1946; p. 500, 501, 503).

“A Revolução de Outubro derrubou a burguesia e transferiu o poder ao proletariado, mas não levou imediatamente:

à conclusão da revolução burguesa em geral;

e ao isolamento dos kulaks no campo em particular.

Essas tarefas se espalharam por certo período de tempo, mas isso não significa que nossa palavra de ordem fundamental na segunda etapa da revolução, ‘junto com o campesinato pobre, contra o capitalismo na cidade e no campo, neutralizando o campesinato médio, pelo poder do proletariado’, estivesse errada…

As palavras de ordem estratégicas do Partido só podem ser avaliadas do ponto de vista de uma análise marxista das forças de classe e da correta disposição das forças revolucionárias…

É possível que a derrubada do poder da burguesia e o estabelecimento da ditadura do proletariado sejam efetuados dentro do quadro da revolução burguesa?…

Como se pode afirmar que os kulaks, que naturalmente também são camponeses, poderiam apoiar a derrubada da burguesia e a transferência do poder ao proletariado?…

Uma das principais tarefas da Revolução de Outubro foi completar a revolução burguesa… e, uma vez que a Revolução de Outubro completou a revolução burguesa, ela estava destinada a encontrar a simpatia de todos os camponeses… Mas pode-se afirmar, com base nisso, que a conclusão da revolução burguesa não foi um fenômeno derivado no curso da Revolução de Outubro, mas sua essência ou seu objetivo principal?…

E, se o tema principal de uma palavra de ordem estratégica é a questão da transferência do poder de uma classe a outra, não está claro, a partir disso, que a questão da conclusão da revolução burguesa pelo poder proletário não deve ser confundida com a questão da derrubada da burguesia e da conquista desse poder proletário, isto é, com a questão que constitui o tema principal da segunda etapa da revolução?

Para completar a revolução burguesa, foi necessário em Outubro:

primeiro, derrubar o poder da burguesia e estabelecer o poder do proletariado, pois somente tal poder é capaz de completar a revolução burguesa. Mas, para estabelecer o poder do proletariado em Outubro, era essencial preparar e organizar para Outubro o exército político apropriado, um exército capaz de derrubar a burguesia e estabelecer o poder do proletariado, e não há necessidade de provar que tal exército político só poderia ser preparado e organizado por nós sob a palavra de ordem:

Aliança do proletariado com o campesinato pobre contra a burguesia, pela ditadura do proletariado.”

(J. V. Stalin: “As Três Palavras de Ordem Fundamentais do Partido sobre a Questão Camponesa”, em: “Obras”; Volume 9; Moscou; 1954; p. 208–209, 210, 211–212).

No outono de 1918, porém, a revolução contínua desenvolveu-se ininterruptamente em uma revolução proletário-socialista em seu conteúdo econômico.

“Até a organização dos Comitês de Camponeses Pobres, isto é, até o verão e mesmo o outono de 1918, nossa revolução foi em grande medida uma revolução burguesa… Mas, a partir do momento em que os Comitês de Camponeses Pobres começaram a ser organizados, nossa revolução tornou-se uma revolução proletária… Foi somente quando a revolução de Outubro no campo começou e se realizou no verão de 1918 que encontramos nossa verdadeira base proletária; foi somente então que nossa revolução se tornou uma revolução proletária de fato, e não apenas em virtude de proclamações, promessas e declarações.”

(V. I. Lenin: Relatório do Comitê Central do Partido Comunista Russo [Bolchevique] ao Oitavo Congresso do Partido, em: “Obras Escolhidas”, Volume 3; Londres; 1943; p. 37, 38).

“Em novembro de 1917, tomamos o poder junto com o campesinato como um todo. Esta foi uma revolução burguesa na medida em que a guerra de classes nos distritos rurais ainda não havia se desenvolvido.”

(V. I. Lenin: “Trabalho nos Distritos Rurais”, em: ibid.; p. 171).

Conclusão

Desde a fundação do Partido Operário Social-Democrata Russo até novembro de 1917, os esforços dos revisionistas na Rússia dirigiram-se a impedir que a revolução socialista ocorresse, utilizando principalmente a oposição política aberta, formulada em fraseologia pseudo-marxista, seja contra a própria revolução, seja contra as políticas necessárias para realizá-la. Esses esforços dos revisionistas, tratados neste relatório, fracassaram. A revolução socialista ocorreu em novembro de 1917.

Da revolução socialista de novembro de 1917 até o verão de 1932, os esforços dos revisionistas na Rússia soviética dirigiram-se a impedir que a construção do socialismo fosse realizada, utilizando principalmente a oposição política aberta, formulada em fraseologia pseudo-marxista-leninista, seja contra a própria construção do socialismo, seja contra as políticas necessárias para realizá-la. Esses esforços dos revisionistas, a serem tratados em um relatório posterior, fracassaram.

Uma sociedade socialista foi construída completamente, embora não de modo completamente seguro para sempre, na União Soviética.

No período do verão de 1932 até meados da década de 1960, os esforços dos revisionistas na União Soviética dirigiram-se à restauração de uma sociedade capitalista, utilizando principalmente métodos conspirativos de oposição política. Esses esforços dos revisionistas, a serem tratados em um relatório posterior, tiveram êxito. Hoje, na União Soviética, a ditadura da classe trabalhadora foi liquidada, e todos os elementos essenciais de um sistema econômico capitalista de Estado, baseado no lucro como motivo da produção e na exploração da classe trabalhadora soviética pela nova classe de capitalistas de Estado, foram estabelecidos.

A União Soviética tornou-se um Estado neoimperialista, perseguindo objetivos essencialmente semelhantes aos dos Estados imperialistas mais antigos, e o Partido Comunista da União Soviética foi transformado por seus dirigentes revisionistas, de partido de vanguarda da classe trabalhadora soviética, em instrumento político de tipo fascista dos neoimperialistas soviéticos.

Uma análise da maneira pela qual os revisionistas conseguiram dominar e provocar a degeneração do movimento comunista internacional é essencial para a tarefa de construir uma Internacional Marxista-Leninista livre de todas as tendências revisionistas. A série de relatórios sobre “As Origens do Revisionismo”, da qual o relatório precedente constitui uma parte, é uma tentativa de realizar tal análise.


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