Chá de Hortelã-Pimenta
Pigarreou. Deu uma leve batidinha na madeira da porta que separava a cozinha do refeitório para me chamar atenção quando percebeu que eu…
Chá de Hortelã-Pimenta
Pigarreou. Deu uma leve batidinha na madeira da porta que separava a cozinha do refeitório para me chamar atenção quando percebeu que eu estava distraída limpando o forno do fogão.
Levantei a cabeça e vi Padre Gusmão com sua delicadeza e ao mesmo tempo timidez me pedindo para fazer um chá. Vinha com as folhas de hortelã-pimenta nas mãos. Colocou o maço em cima da bancada e ingenuamente contou que D. Adelaide tinha trazido da sua própria horta. Contou que era uma planta poderosa que aliviava dores de estômago e acalmava os nervos. Explicou que ultimamente estava atacado da gastrite e com a mente cansada.
Deixei o pano que limpava o forno em cima do fogão e atendi seu pedido observando seu semblante sério, com ar de estar sentindo realmente muito incomodo.
Em cinco minutos estará pronto. Deve ser o cansaço de conversar com tantos casais por horas seguidas, disse a ele.
Deu um minúsculo sorriso e negou que a dor teria como causa o curso de casal que ministrava na casa paroquial naquela tarde. Era um prazer falar para jovens sobre um relacionamento baseado nas leis de Deus. Eu nem sabia o que era ministrar. Agora fui eu quem sorriu pela metade.
Vá lá conversar com D. Adelaide. Parece que ela também precisa que o senhor diga algumas palavras com ela. Parece que está afobada. Assim que terminar o chá eu levo.
O Padre voltou às costas a caminho da gentil senhora. Observei por uns segundos o olhar de devoção que aquela beata punha no Pároco. Seria uma centelha de paixão? Deixei de lado a ideia ao lembrar que ela era casada com o Sr. Ernesto.
Afastei os pensamentos maldosos. Desfolhei uma a uma as folhas da hortelã. Gostava do cheiro. Lembrava o quintal da casa da minha vó onde plantava um pouco de tudo. Uma mão de fadas, ou seria de bruxas? Escolhia ervas de diversos canteiros, misturava e fazia ora um tempero que dava um sabor especial aos pratos e outros momentos uns chás calmantes, curativos. O que precisasse.
Seguindo os ensinamentos de Vó Geralda cortei uma laranja. Espremi o sumo e acrescentei à agua do chá, que fervi na pequena caçarola como ela fazia. Dizia que a acidez da fruta acabava com as infecções.
Do fundo ouvia Padre Gusmão falando baixinho com D. Adelaide. Ao contrário da tarde anterior, ele vociferava em bom tom sobre o casamento para os pombinhos que eram obrigados a fazer o encontro de casal para que a cerimônia religiosa acontecesse.
De dentro da cozinha tinha ouvido cada palavra do curso, enquanto amassava um pão de queijo na gamela de plástico daquela cozinha. Lá não era minha casa, ficava confusa em meio a quantidade de frigideiras e poucas panelas.
Era a primeira vez que tinha sido contratada na organização do lanche da casa paroquial. Teria que fazer os quitutes, passar o café, ferver o leite e servir na hora determinada pelas coordenadoras. D. Sofia e D. Abigail.
Serviço fácil. Estava acostumada a abrir porco, fazer linguiça, assar o pernil, rechear lombo. Esse lanchinho era uma cosquinha.
Tão fácil que fiquei ouvindo as palavras que o Padre dizia seriamente. Nem sei porque era ele quem MI NIS TRA VA o curso. Achei tão bonito como disse que dava a aula que repeti. E esquisito. Como um padre que nunca se casou vai ensinar o que não viu na prática? Queria entender a lógica.
Como era de se esperar, deu conselhos de um homem solteiro. Alguns faziam sentindo. Lembrou que os maridos precisavam dar atenção as suas esposas que passavam o dia a cuidar da casa, de filhos, das roupas. Ele tinha razão.
Pediu que as mulheres não contassem seus problemas domésticos assim que os amados pisassem os pés em casa. Ri sozinha lembrando da Dona Marilda, onde trabalhei por anos. Era só o marido pôr o nariz em casa que ela falava das brigas do Toninho com o Juninho; da falta d’agua na casa, que a luz queimou, ou que o gás acabou bem na hora que estava fritando o bife. Não deixava o coitado do Adamastor respirar.
O Padre, na maioria do tempo ficou falando que Jesus tudo salvava. Que devíamos ser dementes a Deus e aceitar as atribulações. Em nenhum momento mostrou como fazer isso na prática. Não disse a nenhuma das mulheres que deveriam rezar quando o marido chegasse bêbado em casa para que ele não as tocasse ou batesse nela e nos próprios filhos.
Enfatizou que a traição era o maior dos males do amor. Deveríamos conter os desejos da carne e rezar. Não deu uma explicação sequer de como fazer quando descobrisse que eles tinham outra. Que saiam com a vizinha, ou com a sirigaita da prima. E que frequentavam bordeis. Não explicou se transar com as prostitutas era pecado. O casamento era para sempre, então teríamos que aquentar caladas?
Nada foi dito a respeito.
Limpei as mãos no pano de prato que já tinha pendurado na porta da mini geladeira. Coloquei o chá na Xicara e levaria ao atormentado sacerdote e para D. Adelaide quando olhei pela janelinha e, sem querer vi o que não devia. A beata e o não tão inocente sacerdote aos beijos.
O chá tinha feito efeito. Afrodisíaco. Ele parecia flutuar, e não vi nenhum resquício da dor que o adormentava a pouco.
Deixei as frigideiras caírem propositalmente ao chão e os vi separarem assustado. Esperei um pouco e levei o chá ao casal.
Com ar de que nada presenciei, entreguei o liquido dizendo que coloquei um toque de laranja como minha avó ensinara para afugentar a acidez e os pecados.
Agora gostaria de ser novamente chamada para o próximo curso. O que ele falaria sobre a traição?
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