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As pessoas não sabem conversar. Será?

HeartArtFlow · 2026-06-13 13:10 · 0 claps · 3.2 min read
#desencontros #comunicação #reflexões #conversar
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As pessoas não sabem conversar. Será?

Você já teve a sensação de estar falando uma coisa e a outra pessoa responder outra completamente diferente? E depois da conversa, se pegou analisando o que aconteceu? Se poderia ter falado algo de um jeito que a pessoa entendesse melhor?

É comum ouvirmos que hoje as pessoas estão cada vez mais distraídas, superficiais e incapazes de escutar umas às outras. Como se estivéssemos cada vez mais distantes. Que antigamente as pessoas se relacionavam melhor. Talvez a tecnologia possa ter intensificado parte disso. Contudo a reflexão a que cheguei é outra, talvez nós, humanos, dificilmente escutemos de forma completamente neutra.

Quando ouvimos alguém falar não ouvimos apenas palavras. Ouvimos através das nossas lentes — compostas pelas nossas experiências, crenças, medos, valores e histórias pessoais. Nenhuma palavra vem apenas pelo que ela significa no dicionário. Muitas vezes respondemos menos ao que foi dito e mais ao significado que atribuímos ao que ouvimos.

Foi observando diversas conversas que comecei a perceber isso. Em muitos momentos, eu tentava explicar melhor, dar mais contexto ou trazer mais argumentos, acreditando que se fosse mais clara ou mais racional, a outra pessoa finalmente entenderia o que eu queria dizer. Outras vezes, tentava antecipar possíveis interpretações e já responder objeções antes mesmo que elas surgissem. Cheguei até a me perguntar se o problema estava na minha comunicação. Mas comecei a perceber que, muitas vezes, a outra pessoa já estava respondendo a uma ideia construída na própria cabeça.

Por exemplo, ao falar sobre arte eu mostrava um quadro e recebia opiniões sobre mercado. Compartilhava uma ideia e recebia conselhos sobre carreira e o que deveria ou não fazer. Falava de um processo criativo ou uma reflexão e a outra pessoa rapidamente transformava a conversa em dinheiro, viabilidade ou sucesso profissional, sendo que eu nem estava falando disso. Durante muito tempo isso me deixou frustrada, comecei a evitar falar sobre arte com muitas pessoas, até mesmo próximas. Na maioria das vezes, eu não estava procurando ajuda, eu apenas queria compartilhar algo que me animava. Apenas compartilhar.

Hoje penso que em muitos casos as pessoas nem estavam respondendo ao que eu estava compartilhando. Estavam respondendo às próprias crenças, experiências e associações sobre arte. Algumas estavam apenas tentando ajudar, mas ajudavam com aquilo que possuíam suas experiências, seus valores e suas conclusões.

É fato que existem temas que carregam narrativas muito fortes, como carreira, maternidade, dinheiro, política, religião, casamento ou família. Basta mencioná-los para que muitas pessoas acessem automaticamente suas opiniões, experiências e convicções sobre o assunto. Por isso, às vezes evitamos determinados temas, tentamos nos defender ou acabamos concluindo que ninguém nos entende ou chegando a outras conclusões fechadas demais.

Contudo, também percebi que isso não acontece apenas nesses temas. Os desencontros fazem parte das relações humanas e podem ser muito mais frequentes do que percebemos. Algumas pessoas têm mais abertura para escutar, outras menos. Algumas conseguem suspender temporariamente as próprias conclusões e apenas ouvir. Outras respondem quase imediatamente ao que acreditam. Outras precisam defender fortemente aquilo em que acreditam.

Essa percepção mudou algo importante em mim. Entendi que nem todo desencontro é um problema de comunicação a ser resolvido. Nem toda interpretação equivocada exige uma explicação mais longa. Nem sempre mais argumentos farão alguém compreender meu ponto de vista. Às vezes a questão não é falta de clareza. Às vezes a outra pessoa simplesmente está ouvindo através das próprias lentes.

Observei também que fui ficando cansada, não dos assuntos em si, mas da sensação constante de precisar me explicar, justificar ou defender posições, que eu nem estava debatendo. E esse cansaço é delicado, parece autoproteção, mas pode se transformar em afastamento e distanciamento das outras pessoas — tomemos cuidado!

Em todo esse tempo refletindo sobre tudo isso, aprendi que posso esclarecer quando achar necessário. Posso corrigir um mal-entendido evidente dizendo de forma clara: “Eu não estou falando sobre isso”. Posso tentar me expressar com mais clareza. Trazer a conversa de volta ao tema quando fizer sentido, e parar quando perceber que continuamos rodando em círculos e nos desencontrando.

Parar — porque não é preciso desmontar as crenças da outra pessoa; porque nem sempre vamos conseguir fazer o outro enxergar exatamente como enxergamos. E isso também faz parte. Não posso controlar a forma como os outros irão interpretar aquilo que digo — é preciso saber se desapegar disso!

E nem toda pessoa é interlocutora para todos os assuntos e isso não é rejeição. É apenas discernimento.

As pessoas não sabem conversar? Será? A comunicação acontece entre pessoas reais — e não entre mentes neutras, nem entre espelhos que se refletem perfeitamente.

Cada conversa é o encontro de dois mundos internos diferentes tentando se compreender por um breve espaço de tempo.

Às vezes, eles se encontram;

às vezes, não;

— E está tudo bem!

Somos seres humanos complexos e variados.

Desencontros. Fonte Acervo Pessoal.

Desencontros. Fonte Acervo Pessoal.


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