A feiticeira e seu manto
A feiticeira e seu manto
A feiticeira e seu manto
A feiticeira e seu manto
PARTE I — O VILAREJO
Há muito tempo atrás, em uma terra muito distante e carente de amparo espiritual, vivia uma experiente feiticeira chamada Lisístrata, dotada de maravilhosos dons mágicos. Ela era uma das únicas naquela região que conseguia se conectar com facilidade à magia antiga e ancestral.
A função principal de Lisístrata era simplesmente ajudar as pessoas daquele vilarejo e aqueles que viajavam de longe para alcançá-la. Graças à sua bondade em forma de magia antiga, a vida ali para os camponeses sem magia era simples, mas abundante: sempre chovia quando necessário e sempre havia belos raios de sol com as cores completas do arco-íris, representando esperança e amor. Nunca faltava pão nas mesas. Os doentes podiam acessar poções e chás naturais para a cura, e os que viajavam de longe aceitavam os cuidados da bela feiticeira, que ficava grata apenas em poder ajudar com seus conhecimentos.
Em uma noite mais escura que o normal, Lisístrata conseguiu sentir a chegada inesperada de algo que a desafiaria de tal forma que ela nunca imaginara. Bateram forte em sua porta de madeira na torre, pedindo ajuda. Ela foi até a entrada e, quando abriu, deparou-se com o guarda noturno carregando em seu cavalo um homem de capa de viagem surrada, que parecia desmaiado.
— Foi encontrado caído na estrada, na entrada do vilarejo.
— Quem é? — ela perguntou, intrigada com a situação.
— Não sabemos, senhora. Ele já estava desmaiado quando o encontramos. Com ele, havia apenas uma sacola com migalhas velhas de pão e um mapa muito antigo para cá. Minha senhora — disse o guarda, muito sério — , ele parece estar precisando muito de seus cuidados.
A feiticeira deixou o guarda noturno entrar em sua torre, carregando o estranho e misterioso enfermo até o seu leito.
— Se precisar, pode chamar a guarda, senhora — ele fez uma reverência comum de guarda e voltou ao seu posto.
A gratidão de todo o povo do vilarejo pela boa feiticeira sempre ficou muito clara. Como Lisístrata nunca cobrava nada por seu apoio mágico, sempre a presenteavam com favores e boas colheitas, mesmo que às vezes não fossem tão necessários para ela. A feiticeira nunca recusou nenhum dos presentes, já que há uma boa energia em pequenas ações com pureza de intenção.
CONTINUA
PARTE II — A ENTREGA
A feiticeira, em seu maior momento de empenho, fez tudo o que pôde para curá-lo. Tudo o que fez, no entanto, levou apenas a uma cura superficial e demorada. Sentia-se a própria figura do Sete de Ouros: a avaliação e a paciência a levariam à sua colheita.
Todas as manhãs, após longas noites de processo de cura, o paciente acordava cheio de energia e conversava com Lisístrata. Ao longo do dia, sua energia e ânimo iam caindo — era perceptível — , mas as noites de cura recarregavam sua energia. Mesmo assim, a feiticeira sentia que era algo paliativo; precisaria de algo mais potente.
Teve a ideia, impulsionada pelo sentimento de apego àquele moço, de criar um objeto sagrado onde colocaria toda a sua energia interna para curá-lo, como um talismã especial contendo toda a sua alma e essência. Seria apenas a intenção pura de Lisístrata de salvar, amparar e amar o próximo com sua bondade. O resultado disso foi um manto. Escolheu esse objeto pois simboliza uma cobertura, um abraço acolhedor e aconchegante, relativo à casa e à colheita de alguém que parecia necessitar de todo esse sentimento. O manto o cobriria de amor, o amor que já brotava em seu peito — um sentimento tão poderoso que poderia bater de frente com a escuridão atual do viajante.
A entrega de Lisístrata precisou ser praticamente inteira. Não se importou se sua magia e energia vital iriam se esgotar nesse processo; ela estava focada em ajudar aquele moço. “Que rosto meigo, que olhar sincero… suas palavras parecem ser apenas uma verdade abafada pela falta de oportunidade de ser ouvida”, era assim que a feiticeira pensava a todo momento em que trabalhava na cura do rapaz. No final do processo, já estava esgotada ao ponto de não conseguir executar suas magias principais. O vilarejo sentiu essa falta, mas a abundância corriqueira era tamanha que não chegou a prejudicar ninguém de fato, além dela mesma.
PARTE III — FINAL
No último dia do processo de cura, Lisístrata cobriu o viajante com o manto mágico. Ele abriu os olhos; nunca havia presenciado uma magia acolhedora de amor tão rara e pura diante de si.
— Me sinto vivo mais uma vez — disse ele, aparentando estar totalmente curado.
Lisístrata caiu de joelhos diante dele e de suas palavras; estava tão esgotada que não conseguiria se manter de pé.
— Levante-se, querida cuidadora, e ouça minha história, que agora consigo lembrar graças à sua cura.
Os dois trocaram de lugar: ela, deitada e enferma pelo esgotamento; ele, renovado e acolhido pelo manto da feiticeira.
— Lembro-me agora que passei pela maior dor da minha vida. Minha amada me traiu com meu melhor amigo por dinheiro. A pessoa que mais amei era apenas revestida de ganância, e eu, ingênuo, não consegui enxergar. O amor que devotei não foi suficiente para ela. Fui tomado por uma transformação: o amor virou escuridão dentro de mim e adoeci. Nada do que eu fazia resolvia de fato a dor tamanha que estava se enraizando dentro de mim. Resolvi, então, buscar a sua cura aqui, nesse vilarejo tão almejado, e consegui — disse ele, sorrindo. — Pude ver cada esforço, cada passo, cada palavra mágica que esboçou para que eu pudesse ser curado, e vejo também o quanto isso te prejudicou.
O viajante aproximou-se do leito da feiticeira, encarou-a muito sério e disse:
— A sua magia pura e a sua entrega me curaram. Muita boba você em ter se perdido tanto nesse processo. Lhe agradeço, e parto imediatamente para cuidar do que deixei para trás. Forte como é, certamente fará algo para se reerguer.
Dito isso, partiu porta a fora, levando o manto da feiticeira ainda em suas costas, aproveitando cada gota mágica que ela lhe proporcionara.
메타데이터
- post_id
- f9d376bce4a2
- slug
- a-feiticeira-e-seu-manto-f9d376bce4a2
- url
- https://medium.com/@oliveira.giselly.vitoria/a-feiticeira-e-seu-manto-f9d376bce4a2
- canonical_url
- https://medium.com/@oliveira.giselly.vitoria/a-feiticeira-e-seu-manto-f9d376bce4a2
- author_url
- https://medium.com/@oliveira.giselly.vitoria
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-26 03:39:16