Cause I’m Just a Girl…
Just a Girl, um dos maiores êxitos dos No Doubt na década de 90, que apela ao feminismo, continua a fazer sentido nos dias de hoje.
Cause I’m Just a Girl…
Just a Girl, um dos maiores êxitos dos No Doubt na década de 90, que apela ao feminismo, continua a fazer sentido nos dias de hoje.
Just a Girl é um dos maiores êxitos dos No Doubt e também uma das maiores músicas de empoderamento de sempre.
Esta música foi escrita por Gwen Stefani, vocalista dos No Doubt e por Tom Dumont, sendo o primeiro single da banda norte-americana.
Gwen Stefani disse que “Eu não trocaria ser uma mulher por nada”, “mas os homens não percebem o fardo que pode ser às vezes”. E sendo a única mulher na banda fez-lhe todo o sentido escrever e lançar uma canção como esta.
Os pais da cantora eram muito protetores e certa noite ela chegou tarde a casa e o seu pai chateou-se com ela o que a levou a escrever esta música.
Mais tarde, em 2017, a cantora disse que a origem da música foi ela estar a ir para casa à uma da manhã e pensar para si mesma “Wow, estou no carro agora, a conduzir para casa, é uma da manhã e se me acontecer alguma coisa eu sou vulnerável porque sou uma rapariga.”
Esta música ao ter sido lançada em 1995, e nos dias de hoje, em 2024, ainda ter tanto impacto e sucesso só mostra que desde esses tempos até hoje não houve uma grande mudança de paradigma no que toca ao feminismo. Tendo sido por isso um dos motivos que me levou a fazer uma análise filosófica da mesma, além de ser uma música de empoderamento e divertida que deixa qualquer um animado.
De início irei analisar por alto as partes da música que considero mais importantes para o feminismo. Seguidamente, vou introduzir os meus conhecimentos do estudo da filosofia no que toca ao feminismo e correlacionar com a música, tendo como base a filósofa Márcia Tiburi.
Just a Girl
Take this pink ribbon off my eyes
I’m exposed and it’s no big surprise
Don’t you think I know exactly where I stand?
This world is forcing me to hold your hand
’Cause I’m just a girl, oh, little old me
Well, don’t let me out of your sight
Oh, I’m just a girl, all pretty and petite
So don’t let me have any rights
Oh, I’ve had it up to here
The moment that I step outside
So many reasons for me to run and hide
I can’t do the little things I hold so dear
’Cause it’s all those little things that I fear
Nesta primeira parte da música, a autora começa por dizer para lhe tirarem a venda rosa que ela tem nos olhos, diz que está exposta, e que o mundo a obriga a segurar a mão de alguém que assumimos ser um homem (obrigada a casar). Continua a dizer que é só uma rapariga, bonita e petite, para não a deixarem ter direitos. No momento que ela sai à rua, diz que há imensas razões para ela correr e se esconder, e que não pode fazer as coisas que mais gosta pois tem medo das mesmas.
’Cause I’m just a girl, I’d rather not be
’Cause they won’t let me drive late at night
Oh, I’m just a girl, guess I’m some kind of freak
’Cause they all sit and stare with their eyes
Oh, I’m just a girl, take a good look at me
Just your typical prototype
Oh, I’ve had it up to here
Nesta segunda parte da música a autora inicia a dizer que é só uma rapariga e que preferia não o ser, pois não a deixar conduzir à noite, diz também que “eles” sentam-se e observam-na como se fosse uma aberração, diz também que é o protótipo típico e que está farta disso.
Oh, am I making myself clear?
I’m just a girl
I’m just a girl in the world
That’s all that you’ll let me be
Oh, I’m just a girl, living in captivity
Your rule of thumb makes me worrisome
Oh, I’m just a girl, what’s my destiny?
Na terceira parte da música começa a perguntar se se está a fazer entender, que é só uma rapariga no mundo, e é só isso que a deixam ser, só uma rapariga a viver em cativeiro e acaba por perguntar que é só uma rapariga qual será o seu destino.
What I’ve succumbed to is making me numb
Oh, I’m just a girl, my apologies
What I’ve become is so burdensome
Oh, I’m just a girl, lucky me
Twiddle-dum, there’s no comparison
Oh, I’ve had it up to
Oh, I’ve had it up to
Oh, I’ve had it up to here
A última parte da música, continua na mesma ideologia, mas mais intensa pois a cantora começa a dizer que ao ponto que ela chegou a deixa doente, mas que como é só uma rapariga pede desculpas. Continua a dizer que o que se tornou é um fardo, mas que como é só uma rapariga é sortuda e acaba a música a dizer mais uma vez que está farta.
Análise filosófica de Márcia Tiburi
Márcia Angelita Tiburi, é uma filósofa, artista plástica, professora universitária, escritora, política brasileira e mãe, um verdadeiro exemplo de mulher.
Esta nasceu no Brasil, no Rio Grande do Sul em 1970, tendo agora 54 anos de idade. A sua primeira formatura foi em filosofia, tendo tirado o seu mestrado também na mesma área e doutoramento, sendo dos seus principais temas o feminismo, que é isso que vamos abordar nesta análise filosófica. Tendo dedicado maior parte da sua vida a escrever obras sobre o feminismo ou mulheres, tais como “As Mulheres e a Filosofia”, “Diálogo sobre o Corpo” e “A Mulher de Costas”.
Numa das suas obras “Feminismo em Comum: Para Todas, Todes e Todos” é onde vamos encontrar algumas das suas maiores reflexões filosóficas sobre o feminismo e é nisso que me vou basear para fazer este trabalho.
No segundo ponto “Pensar o Feminismo” a autora diz:
“Falo isso pensando em muitas pessoas, nas que pensam no feminismo como a grande saída para as injustiças e desigualdades sociais e naquelas que não conseguem ver nele mais do que um “ismo”, um termo carregado de ideologia e marcado por um uso apenas espontâneo.”
Reforçando que o feminismo não é só isso, mas sim uma luta constante para uma equidade e empoderamento feminino que dura há muitos anos. Vamos então explorar o que é o feminismo.
O que é feminismo?
O feminismo é um conjunto de movimentos políticos, sociais, ideologias e filosofias que têm como objetivo comum: direitos iguais e que as mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, desde igualdade política, jurídica e social, entre outras. Ou seja, uma equidade de géneros.
Continuando no “Pensar o Feminismo” a autora refere que:
“O feminismo nos leva à luta por direitos de todas, todes e todos. Todas porque quem leva essa luta adiante são as mulheres. Todes porque o feminismo liberou as pessoas de se identificarem somente como mulheres ou homens e abriu espaço para outras expressões de gênero — e de sexualidade — e isso veio interferir no todo da vida. Todos porque luta por certa ideia de humanidade (que não é um humanismo, pois o humanismo também pode ser um operador ideológico que privilegia o homem em detrimento das mulheres, dos outros gêneros e, até mesmo, das outras espécies) e, por isso mesmo, considera que aquelas pessoas definidas como homens também devem ser incluídas em um processo realmente democrático, coisa que o mundo machista — que conferiu aos homens privilégios, mas os abandonou a uma profunda miséria espiritual — nunca pretendeu realmente levar à realização.“
Tendo este sido um livro que foi publicado em 2018 e atualmente estamos em 2024 e ainda conseguirmos rever tudo o que a autora escreveu na sociedade de hoje, mostra que ainda temos que evoluir muito.
No terceiro ponto intitulado “Somos todas trabalhadoras”, do seu livro “Feminismo em Comum”, Márcia diz que:
“Não podemos pensar em feminismo sem pensar em trabalho. O trabalho é uma necessidade que a civilização nos impõe. Ele é o oposto do prazer. Ora, o prazer custa caro em uma sociedade capitalista. O capitalismo, por sua vez, é uma das condições dentro das quais o feminismo surge. Seu contexto é o da dominação e da violência, da exploração, da opressão, mas também o de muita sedução. Ora, o trabalho é o oposto do prazer, mas o prazer também depende do trabalho. No caso, o trabalho dos outros e, sobretudo, das outras.”
O trabalho é algo que devia ser imposto a todos os géneros e ser igual para todos, desde carga de trabalho a salários. Mostrando assim a igualdade para todos, sendo que os direitos das mulheres foram tardios.
No ponto cinco em “O Feminismo é o contrário da Solidão” a autora diz que:
“Não há nada mais absurdo para o patriarcado do que o direito ao corpo. Assim como é importantíssimo que as mulheres sejam donas da própria sexualidade e do todo do seu corpo, elas devem ser donas de seu corpo reprodutivo. As mulheres precisam reivindicá-lo, porque o corpo feminino, assim como o corpo marcado como negro e o corpo usado — como o do operário -, precisa ser devolvido a si mesmo.”
e
“O feminismo tende a fazer bem aos homens que desejam uma vida mais ampla e mais aberta, uma visão de mundo expandida, menos tacanha, diferente da que foi legada a ele por seus ancestrais comprometidos com a violência e o poder de destruição da vida.”
No ponto cinco a autora menciona muito a necessidade de as mulheres conhecerem-se bem a si mesmas, desde o corpo à sexualidade, e que os homens que são abertos ao feminismo tendem a ter uma visão diferente das coisas, principalmente o valor da própria mulher.
No ponto sete “O Feminismo e o Feminino” a autora realça que:
“O machismo se sustentou no mando, na autoridade e no autoritarismo. Vimos que a misoginia é uma espécie de ódio histórico às mulheres, que aparece no mundo patriarcal em momentos diferentes da história. Ele está fundamentado nos textos e nas práticas. Sustenta toda a linguagem conhecida e, muitas vezes, até mesmo as feministas que são muito atentas são capazes de falar reproduzindo algum aspecto misógino.”
e
“Tudo o que sabemos sobre as mulheres primeiro foi contado pelos homens.”
e
“Demorou para que as mulheres conquistassem o seu lugar de fala, o seu direito de dizer o que aconteceu, o seu direito de pesquisa e de memória. O feminismo se construiu a partir dessa conquista da liberdade de expressão.”
e
“A docilização e submissão das mulheres tem tudo a ver com isso. Todas as vezes que as mulheres se tornaram indesejáveis ou inúteis, perigosas ou desobedientes, elas foram perseguidas e mortas. E toda essa perseguição e violência foi sustentada pelo discurso misógino.”
Márcia no ponto “O Feminismo e o Feminino” diz que tudo o que sabemos das mulheres hoje em dia foi primeiro contado pelos homens, e todos os direitos que temos, foram também negados às mulheres durante muito tempo, e todas as que se opunham a esses pensamentos, eram exiladas da sociedade ou muito mal vistas porque nessa altura as mulheres não tinham direito de pensar de outra forma.
Isto são algumas das reflexões filosóficas da autora Márcia Tiburi que me vão ajudar a fazer a análise filosófica.
Análise filosófica Just a Girl
Para realizar a análise filosófica da música Just a Girl dos No Doubt, vou usar alguns dos excertos que mais me chamaram a atenção e conectá-los às reflexões da filósofa Márcia Tiburi.
This world is forcing me to hold your hand
Neste primeiro verso, vemos a obrigação de as mulheres naquela época serem obrigadas pelo mundo/sociedade a terem um parceiro, porque se não o fizessem era estranho, pois antigamente a vida era feita em casal e posteriormente família para o homem ir trabalhar e a mulher ficar em casa a cuidar da mesma e dos filhos e quem não tivesse essa base não era bem visto pela sociedade, mostrando que não eram livres de fazer o que quisessem, nem homens nem mulheres, pois eram todos obrigados a ter esta vida, tal como refere Márcia no ponto cinco.
Oh, I’m just a girl, all pretty and petite
So don’t let me have any rights
Aqui conseguimos ver que a cantora diz que é só uma rapariga, bonita e pequena, portanto, não deveria ter direitos. Relacionando isto com o verso anterior onde as mulheres demoraram até conseguirem se revolucionar e ter algum tipo de direitos, tal como a filósofa refere no ponto sete, tudo o que sabemos hoje em dia sobre as mulheres foi primeiro contado pelos homens.
Cause I’m just a girl, I’d rather not be
’Cause they won’t let me drive late at night
Oh, I’m just a girl, guess I’m some kind of freak
’Cause they all sit and stare with their eyes
Oh, I’m just a girl, take a good look at me
Just your typical prototype
Nesta estrofe a cantora diz que é só uma rapariga e preferia não o ser, pois não a deixam fazer algo tão básico como conduzir à noite, e que está constantemente a ser olhada e sexualizada como se fosse um troféu ou aberração e que é o protótipo típico de mulher, ou seja, no seu canto. A filósofa fala disso no seu livro no ponto cinco e sete.
Oh, I’m just a girl, living in captivity
Your rule of thumb makes me worrisome
Oh, I’m just a girl, what’s my destiny?
What I’ve succumbed to is making me numb
Nesta última estrofe a cantora diz que é só uma rapariga, que vive em cativeiro, e que as regras que são impostas a preocupam e pergunta-se se é uma rapariga qual é que será o seu destino, pois ao estado a que ela chegou deixa-a dormente. A filósofa retrata todos estes pontos ao longo do livro mas especialmente no ponto dois “Pensar o Feminismo”.
Considerações finais
Posso concluir que toda esta música passa uma mensagem de empoderamento às mulheres e que estas devem e podem fazer aquilo que quiserem e bem lhes apetecer, sem medo de serem julgadas apesar de a cantora não o poder fazer. Percebi também que ainda há muito que fazer para haver uma equidade de géneros e que sem o esforço de uma grande parte da população feminina/masculina e não-binária não o vamos conseguir.
Referências
https://www.letras.mus.br/no-doubt/35950/
https://americansongwriter.com/im-just-a-girl-no-doubt-behind-lyrics-meaning/
Márica Tiburi. (2018) Feminismo em comum: Para todas, todes e todos. Rosa dos Tempos.
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- 2026-07-23 04:50:05