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Crocodilo : um conto

Minha mãe criava crocodilos em casa, quando eu era criança. Isso é um segredo de família, um tanto delicado de expor. O fato é que eu…

Daniela Rezende · 2026-06-15 01:05 · 130 claps · 4.1 min read
#contos #mulher #mulheres-que-escrevem
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Crocodilo : um conto

Imagem: Leonora Carrington, "Personagens fantásticos", 2011.

Imagem: Leonora Carrington, "Personagens fantásticos", 2011.

Minha mãe criava crocodilos em casa, quando eu era criança. Isso é um segredo de família, um tanto delicado de expor. O fato é que eu morria de medo daqueles bichos — que ela chamava de “crocodilhos” e que, só depois de adolescente, descobri serem chamados de jacarés. “Crocodilo só existe no Nilo”, riu de mim um namoradinho da escola, quando ousei contar a ele o segredo de mamãe. “Que ideia a sua!” Mas era verdade: mamãe criava os tais crocodilos, e os criava com amor, até. Eu tinha ciúmes, acho, e vergonha daqueles bichos. E nojo: eu tinha um nojo danado deles. Eram em número de quatro e viviam em um laguinho improvisado no quintal dos fundos de nossa casa. Um quintal que era fechado por grades e trancado à chave, que só minha mãe possuía.

Eles não eram grandes, nem pequenos — isso se for considerado o tamanho colossal que os crocodilos verdadeiros podem atingir, como descobri depois que aquele namoradinho ridículo zombou de mim. Sentindo-me insultada, fui até a biblioteca e fiz uma longa pesquisa: consultei todos os livros, todos os volumes, que falavam de bichos selvagens. Eu sabia que não era normal que mamãe criasse aqueles bichos; eles pertenciam à natureza, ao pantanal, às savanas africanas ou algo assim, e não eram comuns na casa das pessoas. Definitivamente. Em todo o caso, qual não foi o meu espanto quando li, em um dos livros da biblioteca, que os tais crocodilos podem atingir até seis ou sete metros de comprimento — como é, por exemplo, o caso do “crocodilo-de-água-salgada” que vive na Austrália. Também fiquei assustadíssima quando li, logo em seguida, que eles eram animais carnívoros, predadores do topo da cadeia alimentar. Como minha mãe se atrevia a cuidar daqueles animais?

Aquela informação, porém, explicava as quantidades monumentais de carne que comprávamos no açougue. O Paulo, um dos açougueiros que sempre dava em cima de mamãe, brincava todas as vezes em que aparecíamos, perguntando quando é que seria o churrasco. E, de fato, ele tinha razão: em geral, nós levávamos quilos e mais quilos de carne em uns sacos brancos — os quais, de vez em quando, eu via minha mãe carregando para o tal quintal dos fundos. Às brincadeiras do Paulo, mamãe, muito fria, respondia que, quando precisasse de um homem que lhe ajudasse a acender o “fogo”, ele seria o primeiro a saber. E o Paulo ria e ria, debochado, e olhava malandro para o decote da blusa dela. Eu detestava o Paulo. Achava ele tão repugnante quanto os malditos crocodilos. Raramente tocávamos no assunto, minha mãe e eu, mas eu não tinha ideia de onde estava meu pai. Nas poucas vezes em que tive coragem de perguntar o que teria ocorrido, minha mãe havia respondido, certeira e ríspida: “Aquele imprestável! A carne dele não serviria nem para alimentar cães vadios”. E havia parado aí.

Uma noite — era sempre de noite que mamãe cuidava dos bichos dela — saí da cama e fui sorrateira olhar os tais crocodilos. Naquele momento, eles comiam a carne que minha mãe havia acabado de trazer. Seus olhos, mesmo na penumbra, brilhavam vermelhos — e eu podia ver, mesmo sem ver, o sangue que pingava das bocas cheias de dentes e baba. Outra coisa que aprendi na biblioteca é que os crocodilos não mastigam a carne que comem: eles estraçalham e engolem. Estraçalham e engolem. Isso era o que eles faziam, naquele exato instante, enquanto eu assistia à cena em completo horror.

Depois de algumas horas, voltei para a cama. Eu estava aterrorizada demais para conseguir dormir. Ficava imaginando aqueles bichos pré-históricos, antigos parentes de dinossauros, estraçalhando a carne de papai. Meu triste pai que havia sumido. Ou, então, imaginava os bichos devorando Pedro, meu namorado que não me levava a sério. Ou o Paulo, o açougueiro debochado. O que seria de nós, de mamãe e de mim, quando não houvesse mais dinheiro para comprar a carne que alimentava a criação do quintal dos fundos? Nós deixaríamos os bichos morrerem de fome ou os soltaríamos na natureza, para que vivessem como bem quisessem e comessem os pássaros, os macacos e o que mais desejassem em seu habitat natural? Comecei a imaginar se, quem sabe, não seriam eles que, muito mais ágeis que nós, se libertariam daquelas grades trancadas à chave e sairiam disparados pela casa, onde só morávamos nós duas, com os olhos brilhando como dois faróis no escuro, e farejando uma carne muito mais fresca, muito mais doce, muito mais frágil que a do açougue: a nossa carne! Eles matariam mamãe primeiro, conclui insone, pelo simples fato de ela ser a dona deles. Em uma espécie de vingança faminta, estraçalhariam seu corpo e a engoliriam viva. Mas depois — depois? — eles viriam até o meu quarto. Sem dúvida, viriam. E o que eu poderia fazer para impedir a violência que estava fadada a acontecer?

Aquele seria o preço a ser pago por se alimentar o perigo?

Naquela mesma noite, sem conseguir dormir um segundo, julguei ter ouvido um barulho repentino na casa. Já passava das quatro horas da manhã. Apurei o ouvido e percebi que a movimentação parecia vir do quarto ao lado. Do quarto de minha mãe. Era um sussurro, talvez; um ruído abafado. Em pânico, levantei no susto e corri para a porta: se fossem os crocodilos, que eu morresse lutando! Na calada da noite, porém, vi que era uma figura humana, um homem, que se esgueirava pela soleira do quarto de mamãe, que se movia rápido no escuro. Um homem faminto, sem dúvida.

Quando, por fim, o homem gemeu alguma obscenidade em voz baixa, eu o reconheci. Era Paulo, o açougueiro. Aquele seria, então, o preço a ser pago para se alimentar o perigo?

Conto publicado, inicialmente, na Revista Felisberta #6, março 2021, disponível em: https://felisbertazine.wordpress.com/wp-content/uploads/2021/03/felisberta-6-2.pdf.

Depois, o conto integrou a antologia Cartografias — vol. 1: contos de autoras brasileiras (Primata, 2022), disponível no site da editora: https://www.editoraprimata.com/cartografias---vol-1-contos-de-autoras-brasileiras-org-carina-carvalho-caroline-rodrigues-joao-andreucci-macaio-poetonio/p.


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