Date
Ele não prometeu nada e entregou tudo. Ou quase tudo.
Date
Ele não prometeu nada e entregou tudo. Ou quase tudo.
Não me enchia de mensagens, mas não sumia por dias. Tinha frequência e constância, algo essencial para se construir uma boa marca, por exemplo.
Ele sabia embarcar em divagações e conversas que parecem não ter sentido algum, mas servem para demonstrar como és e como vês as coisas. É como se fosse o detalhe, muitas vezes bem mais importante do que o que está de fácil acesso.
On line não fazia muitas perguntas, mas desenvolvia bem as respostas.
Foi ele a propor o primeiro encontro presencial. Não demorou muito para o fazer, mas não foi tão rápido a ponto de demonstrar não se importar com um mínimo de conexão na conversa digital entre dois estranhos. Se houvesse um ranking, ele teria ganho alguns pontos por isso.

Por ele na Beira Baixa
Ele foi compreensível com o meu motivo para negar esse primeiro date. Eu não queria sair de casa para ir até o meio do caminho e muito menos para ir até ele. Sabendo que ele mora longe de mim, achei injusto propor que ele viesse até muito perto de mim. A realidade é que eu não queria chegar até a portaria de casa. Mas para ele, o motivo foi uma certa indisposição para decidir encontrar naquele momento. Havia ali uma verdade, mas bem menor que a minha indisposição de chegar na porta de casa.
Depois me dei conta que poderia ter colocado tudo a perder na ética do jogo do match digital. Tentei uma reaproximação que foi logo bem aceita e tratada de maneira muito natural, como se nada fora do roteiro tivesse acontecido.
Mais do que justo que fosse eu a propor uma nova tentativa de date. O fiz exatamente uma semana após a primeira tentativa. Não foi premeditado, mas levei em consideração o dia que ele havia tentado. Isso já diminuiria de alguma maneira a chance de vingança.
Ele aceitou.
Permanecemos nos nossos longos silêncios, mas com algo já marcado e com a constância de uma mensagem ou outra, o que já era esperado.
No dia marcado, ele não meteu grandes conversas, mas foi exato no horário quebrado que conseguiria chegar. Pediu que eu escolhesse o lugar e já deixou claro que ele viria até mim. Nem precisei usar do meu senso de justiça de propor um lugar no meio do caminho dos dois. As coisas começavam a ficar confortáveis para o meu lado.
Uma hora antes do pré-agendamento, eu tinha na memória que aquilo estava prestes a acontecer, mas se não fosse ser ele, eu acreditaria que tinha mais chance de não rolar do que o contrario. A frequência e constância dele no nosso breve histórico online, me deixava confortável que mesmo parecendo que havia sumido, ele ia cumprir com o que havia anunciado sem grandes estardalhaços.
Cheguei antes ao café. Não havia um lugar que me deixasse acreditar que as pessoas ao redor não ouviriam a nossa conversa. Isso não deveria ser uma preocupação. Mas socialmente é pontuado na cabeça dos vizinhos quando está nítido ser um primeiro encontro na mesa ao lado. Isso me incomoda? Diria que não. Mas saber que as pessoas podem prestar atenção em um detalhe que pode ser muito importante ou um fiasco na minha vida, não me passa despercebido.
Eu tinha um livro que a cada página eu desejava que ele não chegasse para que eu pudesse terminar aquela página. Eu estava até então mal acostumado com o conforto que ele me deu de vir até bem perto de mim e queria que fosse confortável até o momento em que ele chegará, que isso não me interrompesse. Sorte que o livro é bom a ponto de não me deixar olhar para a porta a cada vez que ela se abria. Ao que parece, a ansiedade tava quietinha. Viva a cultura!
Ele chegou.

Outra dele. em Marselha. Sou dos que deixa rastros e evidências.
Já foi me cumprimentando de longe, falou alto e apressado. Um aperto de mão? Um breve abraço? Um forte abraço? Já nem me lembro. Logo me deu as costas enquanto perguntava se eu tinha fome e se direcionava para o balcão. Achei caótico e quase retirei os pontos do ranking que ele havia subido no inicio dessa historia. Mas percebi que ele estava nervoso. Achei fofo.
Respirou e reclamou de ter jogado a mochila longe dos olhos. Eu lhe disse que não havia motivos para se preocupar, dos riscos aquele era o menor possível. Ele disse que o risco era se esquecer. Me passou a sensação de ser uma pessoa que se conhece. Antes mesmo que eu sugerisse que uma boa ideia é manter tudo sempre no mesmo lugar, com aquele ar de quem passa pelo mesmo problema e já arranjou uma solução e pode divulgar a coisa mais clichê que há, eu me permiti não dizer nada.
Ele se antecipou e disse para a menina do café que a conta era separada. Me mantive no conforto. Ainda estava vantajoso pra mim.
Pedimos o mesmo e pelo mesmo motivo. Ninguém queria cafeina às 18:47 da noite. Bom descobrir mais detalhes em comum.
Discorreu longamente sobre a sua sensação com as cores e a importância que dava para a reutilização das roupas. Demonstrou ser desapegado, mas bastante cuidadoso com as suas escolhas. Inicialmente pensei que esse tópico se estendia por ele já saber que sou da area do marketing e para quem é de fora, falar de roupas, marcas e tudo que parece de alguma maneira ser fútil, parece estar dentro do tema. Depois percebi que uma das suas importantes experiencias profissionais foi com a H&M. Então tudo estava justificado.
Há uma maneira de estar que percebo ser comum entre muitos portugueses. Eles não são de fazer muitas perguntas. Não falo apenas desses exemplares participantes dos meus dates, mas no geral mesmo. Te dão espaço para o que quiseres falar e ouvem com educação que lhes é característico, no entanto, não demonstram curiosidade, excitação em saber mais profundamente o que achas e o que pensas. Eu já sei disso e já tenho esses primeiros contatos com baixa expectativa sobre essa questão da demonstração de interesse. Só tomo cuidado para isso não me irritar mais do que meu nível de aceitação do que é diferente de mim.
Já tinha me feito o desafio de não ser eu o condutor da conversa e me deixar mais ser levado e aceitar as proposições. No entanto, isso não me deixa totalmente confortável. Não sou eu. Ele também não facilitou essa estratégia passiva da minha parte, pois era extremamente claro e encantador na sua maneira de organizar os pensamentos. Escolhia bem as palavras. As vezes demonstrava não saber as expressões em portugues, mas isso não soava esnobe. Era natural.
Nada tirava a atenção dele de mim. Ou no que ele estava pensando para poder me responder. Como ele sempre se demonstrou interessante, durante a conversa as minhas perguntas acabavam por também ser. Muitas delas eu gostaria de responder, mas de maneira muito sutil ele tomava todo o espaço e mudava de temas antes mesmo de saber o que eu pensava sobre o que estávamos falando. Ou melhor, sobre o assunto que ele acabou de responder. Não nego que me irritou comprovar mais uma vez a demonstração da falta de empolgação e interesse. Já quis me culpar por isso muitas vezes. Já pensei que talvez eu não saiba entrar na conversa, exemplificar, me posicionar. Mas aceito que para mim é difícil se a pessoa não pergunta “e tu, o que achas?”, “já te aconteceu algo parecido?” ou simplesmente perguntar diretamente qualquer coisa como “preferes assim ou assado?”. Olha, parece um detalhe meio maluco, e me sinto até sem argumentos para explicar. Mas é uma sensação estranha a de ser ouvido mas parecer que não estão querendo me escutar.
O que me encantou e não me deixou entregar os pontos, foi a clareza em saber o que lhe satisfaz. O prazer que ele tem em descobrir o que gosta e está promovendo a coragem de mudar de área. Acho isso bonito. Essa objetividade de entender que queria mais ser antropólogo do que atuar no meio da antropologia pela disputa de poder que há nessa área, o que é comum em quase 100% das areas que exigem mercado. Isso criou empatia. A excitação com a retomada de uma paixão pela fotografia como perspectiva de uma nova área de atuação profissional e o tracejar desse caminho de maneira muito consciente e que me parece sólida e não apenas falastrona, me causou admiração.

Chega dele. Vamos para a minha. Lisboa segue me inspirando.
Queria ter esse poder de descobrir algo que me causasse tamanha excitação e confiança para ter prazer na construção de uma nova carreira. O marketing, já faz algum tempo, que me causa fadiga, parece já não combinar com o que imagino ser a minha função social nesse planetinha e não vejo minhas potencialidades promovidas pela profissão que atuo e que tenho usado mais para garantir meu sustento economico do que para ser algo que me movimenta verdadeiramente. A coragem e excitação dele não me causam desconforto. Eu fico mesmo feliz de ver um exemplo positivo nesse sentido de transição profissional. Isso me lembra de investir mais tempo em mim e descobrir o que me faria ter movimentos parecidos com os dele no sentido de uma nova “profissão”. É um tema caro e pesado atualmente para mim.
Para além disso, ele demonstrou uma aceitação do homem gay e da vivência nessa comunidade, percebendo o que pode nos causar solidão e tendo subsídios para fugir disso. Isso também combinou com a minha maneira de encarar a realidade. Dos poucos momentos que pude contribuir com o meu pensamento, acho que o fiz pensar e ver o bicho com novos olhares. Isso tudo parece etéreo, mas gosto de quem percebe e assume que facilmente nossos impulsos sexuais podem se tornar maiores do que o que queremos ser. Isso é uma coisa do homem. Isso é uma coisa que o homem precisa cuidar.
Não me fez elogios, mas também não deu espaço para tê-los. Estamos no zero a zero. Realmente sinto que o interesse mais importante não recai apenas sob o físico. Claro que isso é importante e lisongeador, mas é bom entender que a conexão pode vir por outros meios pois o físico já está solucionado. Há interesse da minha parte nesse sentido porque o achei bonito e quero pensar que acontece o mesmo movimento do lado dele.
Ficou entusiasmado em saber que moro sozinho. Tomou cuidado para não transparecer que sua surpresa era do tipo “como consegue em Lisboa, sendo imigrante e brasileiro?” e que bom que teve esse cuidado. Realmente isso me brocharia no nível 100. Mas ele já tendo passado pela necessidade de emigrar, sabe compreender o que não se deve dizer. E falo da necessidade emocional e de horizonte, afinal nem ele e nem eu estivemos em guerras ou algo do tipo em nossos países que nos obrigasse a sair.
Soube obedecer sinais de quero que vá ou que fique. Tentou um beijo desastrado na despedida. Foi sutil e educado. Aceitou bem a negativa. Não sou de fazer cu doce, mas não senti ser o momento. A conversa não seguia nessa direção e não quero fazer só porque sim. Naquele momento, que queria que fosse numa situação que tivesse a ver. Mas quero.
Deixei claro que quero um segundo encontro. Ele foi embora e olhou para trás, como que quisesse alongar mais o tempo que estou dentro dos seus olhos. Isso lhe rende pontos. A ele ou a mim por encarar esse ato assim, romantizando a coisa toda.
메타데이터
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- 2026-06-24 04:09:36