Considerações sobre a Greve Geral de 1917.
1 — A Greve Geral de 1917 foi o evento mais marcante da história da esquerda brasileira.
Considerações sobre a Greve Geral de 1917.
1 — A Greve Geral de 1917 foi o evento mais marcante da história da esquerda brasileira.
Esta afirmação não é feita com base em meu julgamento ou em uma análise histórica, mas com base na forma como a Greve Geral é universalmente reconhecida, inclusive pelos setores contrários ao anarquismo da nossa esquerda, que fazem questão de citar a mesma enquanto tentam esconder o protagonismo ideológico do anarquismo no movimento.
2 — A Greve Geral, sendo tão marcante e uma demonstração concreta do potencial da luta dos trabalhadores no país, sedimentou de forma permanente na sociedade brasileira a importância dos sindicatos.
Mesmo numa época em que a organização sindical está em baixa histórica, e mesmo com o boicote da esquerda (tanto a centro-esquerda com um peleguismo explícito, quanto a “radical” com um peleguismo implícito, disfarçado de “crítica”), as greves continuam tendo uma grande importância na luta do povo, a exemplo das greves praticamente cíclicas realizadas pelas categorias dos professores e nas universidades federais, além de outros setores.
É impossível separar a permanência das greves no Brasil do contexto histórico e cultural advindo da Greve Geral.
3 — A Greve Geral demonstrou o poder absoluto e crescente da luta econômica no contexto maior da luta de classes no Brasil.
Só foi possível evitar uma revolução devido a dois momentos de domesticação do movimento dos trabalhadores no Brasil.
O primeiro que vamos abordar foi a imposição de inúmeras exigências legais aos sindicatos, mais notoriamente a unicidade sindical, que serviu para subjulgar sindicatos à legalidade capitalista e à conciliação de classes.
Este movimento foi cortesia das leis “trabalhistas” de Getúlio Vargas, inspiradas nas da Itália fascista (Carta del Lavoro) e com o objetivo de cooptar e neutralizar o crescente movimento anarco-sindicalista.
E o segundo que vamos abordar foi a sujeição da luta sindical efetivada diretamente por trabalhadores à luta política de partidos, que foi por extensão uma sujeição também à legalidade capitalista devido à introdução da necessidade de se conciliar mais e mais para “disputar espaços”.
Este último foi cortesia da fundação original do PCB e é continuado como projeto até hoje, mesmo que nunca tenha conduzido a algo que sequer chegue perto da Greve Geral.
4 — A Greve Geral, assim como todas as maiores conquistas do trabalho organizado, constituem momentos onde o proletariado está no controle de seu destino, tanto na prática quanto no campo ideal.
Camaradas mais preocupados com discussões abstratas sobre “a cultura” e “a disputa do imaginário coletivo” falham ao não descer de suas torres de marfim e notar que grandes momentos de luta como este são por si só momentos de disputa cultural que atuam deixando marcas permanentes na cultura e na história.
Assim como a luta dos direitos civis, de grandes figuras como Martin Luther King, Malcolm X, Rosa Parks e etc., deixou uma marca permanente e muito positiva na cultura americana, de caráter anti-racista, assim como os protestos contra o assassinato de George Floyd deixaram uma marca permanente no mundo de caráter tanto anti-racista quanto de ceticismo quanto ao papel da polícia, a Greve Geral constituiu uma marca histórica na disputa do imaginário coletivo brasileiro de caráter proletário e pró-sindical.
A Greve Geral é mais um evento que comprova que o meio concreto para a libertação das classes, povos e identidades oprimidas deste mundo não está em debates e teorizações sem objetivos e sem fim, mas na literal luta destes grupos. Debates e teorização podem ser bons? Sem dúvidas, afinal é o que estamos fazendo aqui, mas debate e teoria só podem ser uma coisa positiva quando sujeitos a uma boa finalidade, e esta finalidade são as lutas práticas.
5 — A Greve Geral demonstra como toda luta tem o potencial para assumir um caráter interseccional.
Tomemos por exemplo o momento em que os grevistas atacaram Higienópolis. Tal ataque era de pouco ou nenhum valor prático para a greve e mesmo assim foi executado, porquê?
Porque uma vez numa situação de rompimento com a legalidade e protagonismo da classe operária, outros desejos dela passaram a se manifestar por meio de ação também, no caso a necessidade dela por uma luta antirracista realizada de forma concreta ao atacar o projeto higienista deste bairro em particular.
Precisamos ter em mente: uma concepção de luta de classes que não fosse explicitamente anti-racista poderia atingir este tipo de resultado? Certamente que não, assim como uma concepção de luta de classes que seja esse comprometimento como “uma questão para depois” ou que se veja em primeiro lugar em comparação com o combate ao racismo não tem o potencial para ser de facto uma luta emancipatória.
Sintetizando estes dois fatos com o viés de achar uma aplicação prática dos nossos princípios, podemos notar que embora a luta trabalhista de forma isolada possa até afetar positivamente outras, mas não necessariamente vai, ela trás a elas oportunidades e momentos históricos onde podem se manifestar.
O contrário também é verdade, isto pode ser comprovado, por exemplo, durante os protestos de George Floyd, onde os “protestos noturnos” que tinham um caráter mais explicitamente anti-capitalista e onde famosamente envolviam expropriações e que constituíram um momento de divulgação e crescimento do anarquismo nos Estados Unidos similar ao que foram as Jornadas de Julho em 2013, recebiam amplo apoio popular, inclusive dos setores que não participavam deles.
6 — A Greve Geral esmaga a já frágil necessidade de divisão entre organização formal ou fixa e organização informal ou rizomática.
Os grevistas organizaram, de forma espontânea, em apenas três dias, um Comitê de Defesa Proletária de caráter oficial e com porta-vozes definidos (como Edgard Leuenroth) que se propôs a apresentar uma lista oficial de demandas do movimento.
Chega a ser hilário como o parágrafo anterior parece ter sido feito com a intenção de induzir um AVC tanto nos críticos quanto nos partidários da organização rigidamente instituída, mas ela é assim por ser um fato histórico, coisa de que ambos os lados da discussão só falam a respeito quando é conveniente para sua narrativa.
O movimento foi organizado em grande parte devido ao movimento sindical politizado de caráter anarquista em seu meio? Certamente! E afirmamos ainda que tal coisa nunca poderia ser possível sem o mesmo, mas acontece que o anarco-sindicalismo não era muito diferente, ao não ser sujeito a nenhuma vanguarda ou minoria ativa e ao mesmo tempo ainda aceitar a organização estruturada.
Da mesma forma, o desacordo comum tanto dos defensores quanto dos críticos ferrenhos da organização com a Greve Geral deixa claro o motivo por trás dos erros em suas posições: ambos estão confortáveis em sacrificar a luta concreta dos trabalhadores com base em um futuro incerto, seja em nome das dificuldades que “com absoluta certeza” vão emergir da falta de organização ou em nome de como “a organização com certeza vai entrar em nome do socialismo”, ambas as supostas justificativas sendo, mais uma vez, uma troca do certo (tanto em termos éticos quanto probabilísticos), que é a luta dos trabalhadores no aqui e agora, pelo incerto.
메타데이터
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