Por que pensar as organizações a partir do Pacto da Branquitude, de Cida Bento
Ler Cida Bento é aprender a prestar atenção ao que costuma se esconder justamente por parecer normal: os pactos silenciosos, as…
Por que pensar as organizações a partir do Pacto da Branquitude, de Cida Bento

Ler Cida Bento é aprender a prestar atenção ao que costuma se esconder justamente por parecer normal: os pactos silenciosos, as cumplicidades institucionais e os modos pelos quais privilégios raciais são preservados por omissões, conveniências e escolhas aparentemente neutras.
O trabalho de Cida Bento tem enorme importância para quem atua em organizações, políticas públicas, filantropia, educação, avaliação e desenvolvimento institucional. Em O Pacto da Branquitude, a autora nos oferece uma importante chave para compreender como o racismo se reproduz nas instituições brasileiras, não apenas pela exclusão direta de pessoas negras, mas também pela autopreservação de grupos brancos, que tendem a proteger entre si lugares de poder, prestígio, confiança e decisão.
Li o livro, gostei muito e tenho utilizado suas contribuições em diferentes ações institucionais e de consultoria. Sua força está em mostrar que a branquitude não é apenas uma identidade racial, mas uma posição histórica produzida e reproduzida social e institucionalmente. Uma posição que organiza acessos, distribui oportunidades, naturaliza ausências e, muitas vezes, transforma desigualdades profundas em supostas diferenças de mérito, preparo ou adequação.
Uma das contribuições centrais de Cida Bento está em nomear o pacto narcísico da branquitude: esse acordo não escrito, às vezes inconsciente, pelo qual pessoas brancas se reconhecem, se protegem e se legitimam mutuamente, evitando confrontar os benefícios que recebem de uma estrutura racial desigual. Para a autora, o pacto é narcísico porque preserva uma imagem positiva das pessoas brancas como éticas, competentes, precisas, equilibradas e seguras, enquanto desloca para fora e para os outros a responsabilidade pelo racismo.
Outra contribuição decisiva de Cida Bento está em mostrar que as organizações não são espaços neutros. Critérios de seleção, promoção, liderança e do “perfil adequado” frequentemente carregam marcas raciais profundas, mesmo quando não nomeadas como tal. Por isso, enfrentar o racismo exige mais do que diversidade numérica. Exige um giro racial que reconstrua padrões de poder, de escuta, de reconhecimento e de autoridade.
Em tempos nos quais tantas organizações afirmam compromisso com equidade racial, o livro de Cida Bento é leitura indispensável. Ele nos lembra que é importante declarar valores, mas que é preciso examinar os pactos que sustentam nossas práticas e transformá-las. Não basta incluir pessoas negras em espaços desenhados para mantê-las à margem. É preciso transformar as próprias regras de pertencimento, legitimidade e decisão.
Talvez esta seja uma das maiores forças do livro: ele desloca a pergunta. Em vez de perguntar por que pessoas negras foram historicamente excluídas, Cida Bento nos ensina a perguntar como pessoas brancas foram historicamente protegidas, como continuam a ser protegidas. E essa pergunta, quando levada a sério, pode abrir caminhos muito mais honestos para transformar instituições, políticas e práticas sociais.
A imagem é de Fabrizio Conti na Unsplash.
메타데이터
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