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Depois daquele tweet

Em meio ao retorno do São João e aos reencontros pós-pandemia, uma interação despretensiosa nas redes sociais virou história de amor

Reportagens Especiais in OVA UFPE · 2026-06-12 15:31 · 0 claps · 4.5 min read
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Depois daquele tweet

Em meio ao retorno do São João e aos reencontros pós-pandemia, uma interação despretensiosa nas redes sociais virou história de amor

Por: Madu Rodrigues

Design: Lívia Oliveira

Design: Lívia Oliveira

Entre bandeirinhas, forró e promessas de reencontros, a história de Ricardo Lemos, de 26 anos, e Mateus Hermínio, de 24 anos, poderia facilmente ser confundida com um roteiro típico de São João, mas começou de um jeito bem contemporâneo: no Twitter (o atual X).

Naturais de Caruaru, cidade que respira a tradição junina, os dois tiveram seus caminhos cruzados em 2022, justamente quando as festas voltaram a acontecer após o período mais intenso da pandemia de Covid-19. Enquanto a vacinação avançava e o país tentava retomar a rotina, o Brasil atravessava um dos períodos políticos mais tensionados dos últimos anos: eleições presidenciais marcadas pela polarização, debates sobre notícias falsas, disputas em torno das redes sociais e uma inflação que pesava diretamente no cotidiano da população. Em Caruaru, porém, havia também uma vontade coletiva de reencontro, como no resto do país.

Primeira foto de Mateus (à direita) e Ricardo (à esquerda) juntos. (Imagem: Arquivo Pessoal)

Primeira foto de Mateus (à direita) e Ricardo (à esquerda) juntos. (Imagem: Arquivo Pessoal)

Ricardo, social media e mestrando em Comunicação Social, havia criado durante o isolamento a Faixa 10, uma série de lives descontraídas que reúnem música, amigos e interação virtual. Com o fim do Carnaval, ele lançou no Twitter, sem grandes pretensões, a ideia de transformar o projeto em uma festa temática de São João.

Foi esse tweet, impulsionado por um amigo em comum, que chegou até Mateus, advogado, que ainda não conhecia Ricardo. A interação foi simples, quase despretensiosa: um comentário, um convite para ficarem amigos. Mas o que parecia só mais uma conexão passageira nas redes sociais, justamente em um momento em que o país discutia o impacto das plataformas digitais, da desinformação e da forma como as pessoas se relacionavam online, acabou ganhando outros contornos.

Depois da interação pública, veio a curiosidade silenciosa. Ricardo quis saber mais sobre aquele rapaz low profile que praticamente não deixava rastros nas redes. Sem coragem de chamá-lo diretamente, pediu ajuda ao amigo em comum. Mateus, por sua vez, também hesitou. “Manda meu número pra ele, porque eu tenho vergonha de chamar”, respondeu. E foi assim, entre indiretas tímidas e expectativas cruzadas, que uma conversa mirou para o WhatsApp.

O relacionamento avançou rápido. Poucos dias depois, os dois marcaram o primeiro encontro, numa terça-feira à noite, na Praça da Asces, em Caruaru. Curiosamente, ambos quase desistiram. Ricardo, atrasado e nervoso, ficou parado duas ruas antes do local pensando em inventar uma desculpa para não ir. Mateus, preso a uma aula de Direito Penal, torcia silenciosamente para que o outro cancelasse. Nenhum dos dois cancelou.

Naquela noite, conversaram por horas. Entre a timidez compartilhada e um pastel de forno memorável pelo quão ruim era, o encontro passou longe dos clichês românticos e talvez justamente por isso tenha funcionado. Quando voltou a pé para casa, Ricardo percebeu que queria continuar descobrindo aquela pessoa. Mateus sentiu o mesmo. E os dois seguiram conversando, mesmo depois da despedida.

O primeiro São João juntos veio logo em seguida, em 2022, no simbólico “São João do Reencontro”, tema escolhido por Caruaru para marcar a retomada da festa após dois anos sem celebrações presenciais. Sem São João em 2020 e 2021, a cidade parecia viver a mesma necessidade que atravessava o país naquele momento: voltar a ocupar as ruas, reconstruir vínculos e tentar reencontrar alguma normalidade depois do isolamento e das tensões acumuladas dos últimos anos.

Ainda nos primeiros meses da relação, os dois passaram a viver juntos a intensidade típica da festa: os shows lotados, as noites frias, os passeios pela Estação Ferroviária e as caminhadas entre as barracas e os palcos. Foi naquele período que eles também acompanhavam o lançamento da quarta temporada da série Stranger Things, que se tornou uma memória marcante entre o casal, enquanto o país se preparava para a Copa do Mundo FIFA 2022 e seguia entre memes, debates políticos e timelines agitadas.

Com o tempo, a Estação virou uma espécie de território emocional do casal. Comer juntos durante o São João se tornou tradição. Para Ricardo, isso ganhou um significado especial porque, antes de Mateus, ele costumava viver “amores de São João” passageiros, sempre atravessados pelos mesmos cenários e pelas mesmas pessoas ao redor. Com Mateus, pela primeira vez, o lugar permaneceu e a pessoa também. Há ainda uma pequena particularidade entre os dois: Ricardo diz que não sabe dançar forró com mais ninguém. Acostumado a dançar sozinho, no freestyle, ele conta que só consegue acompanhar o ritmo quando dança com Mateus, sem aula, sem ensaio, apenas “porque o corpo encaixa”.

Mateus e Ricardo atualmente (Imagem: Arquivo Pessoal)

Mateus e Ricardo atualmente (Imagem: Arquivo Pessoal)

Existe também uma dimensão política nessa permanência. Em uma cidade do interior ainda marcada por visões conservadoras, viver um relacionamento LGBTQIAPN+ atravessa experiências cotidianas, mesmo quando o casal escolhe tratar o amor com naturalidade.

Ricardo que relembra, em alguns trabalhos, sentiu que necessariamente esconder partes da relação, evitando fotos e publicações ao lado de Mateus para preservar a própria posição profissional. Não por conflito interno, porque ele se fortaleceu para a família há mais de dez anos, mas pelas limitações impostas pelos ambientes que frequentava. Hoje, longe desses espaços, percebe-se a importância de ocupar esse lugar com mais liberdade.

Mateus seguiu um caminho diferente: nunca fez do relacionamento um anúncio formal. Durante a faculdade de Direito, em um ambiente que descreve como conservador, passou a mencionar Ricardo naturalmente em conversas cotidianas, como qualquer outro casal faria. “Ah, meu namorado”, dizia, sem transformar aquilo em um acontecimento. E, aos poucos, a naturalidade também virou forma de afirmação.

Canceriano e virginiano, eles brincam com as diferenças, mas confirmam na leveza do início o que sustenta a relação até hoje. Quatro anos depois, o que nasceu de uma timeline compartilhada se consolidou fora das telas, com a mesma energia de um São João bem vívido: cheio de encontros inesperados, afeto e vontade de ficar.

No meio de tantas histórias que se acenderam a cada fogueira, a eles lembra que, às vezes, tudo começa com um simples gesto, ou um tweet, e termina em algo que aquece por muito mais tempo.

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