O vício do reconhecimento
Quando crianças, fazíamos de tudo para sermos aceitas pelas pessoas que estavam à nossa volta. Seja pelas ameaças em não atendermos as…
O vício do reconhecimento
Photo by andré spilborghs on Unsplash
Quando crianças, fazíamos de tudo para sermos aceitas pelas pessoas que estavam à nossa volta. Seja pelas ameaças em não atendermos as expectativas que nos eram impostas ou pelo simples fato de termos medo de não nos sentirmos amadas.
Em uma dinâmica de hierarquização, fomos treinadas a nos comportarmos para servir aos interesses de quem cuidava de nós sem um espaço para compartilharmos o que sentíamos, afinal de contas, eramos pequenas demais para termos opiniões e para nomearmos o que vivíamos.
Na adolescência, nos encapsulamos em estereótipos para nos enxergarmos como parte dos grupos nos quais convivíamos. Ao nos distanciarmos dos comportamentos ditos “padrão” ou pelo fato de questionarmos as tendências, passávamos a ser marginalizados do que era reconhecido e enaltecido.
A partir de um mecanismo de sobrevivência, vivíamos sufocadas, como uma calça jeans que já não nos serve mais, mas que insistimos em vesti-la. Durante o dia, mesmo com todo o desconforto gerado por usar algo que não conversa com o nosso corpo, vestimos a calça para mostrarmos que ainda estamos atendendo a um padrão imposto. A noite, em um ambiente seguro, ao desabrocharmos a calça da cintura, voltamos a nos reconhecer e a nos achar “insuficientes”.
Já na vida adulta, nos deparamos com a dificuldade em dizermos “não”, gerando relações onde nos anulamos pela outra pessoa ou vivendo em um modo de operar que nos distancia de entendermos bem o que sentimos e o que queremos para nós.
Somos conduzidas a uma cultura que nos leva ao “sim” em troca de uma aceitação que vem representada por likes nas redes sociais, pelas etiquetas e padrões atendidos, pelas relações “estáveis”, pelo emprego bom e por uma falsa sensação de que estamos fazendo “o certo”.
O que às vezes não vem à tona é o preço e os juros cobrados por não colocarmos cor no nosso sentir e, que depois de um tempo, serão notados pelo cansaço, pelo estresse, pela depressão e por boa parte das doenças dos tempos modernos.
Ao buscarmos o reconhecimento como sendo a única moeda que qualifica o nosso valor, corremos o risco de existirmos dentro de uma superficialidade onde aquilo que não gostamos em nós ou que de alguma forma não agrada ao outro, fique escondido em uma caixa nos porões do nosso ser. Quanto mais pesada fica a caixa, menos autêntica se torna a existência.
Sentir raiva, adorar o ego, sentir inveja, discordar de alguém, pedir um momento de carinho, ter dúvidas, chorar de tristeza, admitir um erro e pedir desculpas deveriam ser vivências que são acolhidas e normalizadas para que existamos integralmente.
Quanto mais longe nos colocamos da nossa humanização, mais energia gastamos performando aquilo que as outras pessoas desejam.
Mesmo que seja atraente e tentador agradar ao outro, temos de nos lembrar que para cuidar de alguém, precisamos, primeiramente, cuidar de nós mesmos.
Que possamos nos deslocar das distrações impostas por padrões que nos vendem tudo, exceto nos amar com todas as nossas imperfeições. Assim, espero que vivamos de forma mais leve e verdadeira.
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