Fabulando um contraste urbano quilombola
A luta pela água no Mangueiras é a materialização direta da crítica de Roberto Luís Monte-Mór ao planejamento urbano.
Fabulando um contraste urbano quilombola

Colagem produzida para fins acadêmicos, no contexto de disciplina da UFMG. Aline Morales, 2025. Uso não comercial.
Quilombo de Mangueiras: território, memória e água
O Quilombo de Mangueiras originou-se há cerca de 170 anos, a partir da ocupação das terras, localizadas hoje no bairro Novo Aarão Reis, pela matriarca Maria Bárbara de Azevedo, nascida no município de Santa Luzia. Deu início ao processo de autodeclaração quilombola a partir de 2005, tendo sua certificação realizada em 2006. O Quilombo foi também reconhecido e tombado como patrimônio histórico e imaterial da cidade de Belo Horizonte. Hoje, ele enfrenta diversos embates, sendo um deles a despoluição do Córrego do Lajinha, tradicionalmente utilizado para banhos e atividades comuns às religiões de matriz africana, essenciais aos costumes do Quilombo, como afirma a atual líder, Dona Ione: “Para a nossa matriz africana a água é o elemento mais importante. Nos preocupamos com os cuidados com a água e estamos lutando pela despoluição das águas em torno do quilombo” (IONE apud CBH VELHAS, 2024).
Urbanização extensiva e a produção do “lugar fora das ideias”
A luta pela água no Mangueiras é a materialização direta da crítica de Roberto Luís Monte-Mór ao planejamento urbano. O Quilombo, ao ser cercado pela expansão metropolitana, foi condenado a ser um “lugar fora das ideias” (Monte-Mór, 2006), vítima da Urbanização Extensiva, imposta pelo capital. Essa lógica trata a natureza como insumo, perpetuando o antropocentrismo e o vício espacialista (a crença de que a forma espacial determina o processo social) no espaço.
Entretanto, a fala da matriarca Dona Ione, que estabelece a água como o “elemento mais importante” para sua cosmovisão, aponta para a utopia do Urbano Natural que o autor propõe. Essa resistência não é passiva; ela nasce da dialética, do confronto entre as regras impostas pelo capitalismo e pelo que a comunidade faz para sobreviver. Deste modo, o Quilombo pratica a Naturalização Extensiva em ação, conquistando sua soberania territorial e resistindo ativamente à hegemonia do modelo urbano-industrial.
Fabulação crítica como método
Para dialogar com o conceito de fabulação crítica desenvolvido pela pesquisadora Saidya Hartman, buscou-se elaborar uma colagem que sintetizasse alguns dos aspectos estudados a respeito do Quilombo Mangueiras. Para orientar e dar início ao processo, foi feito um apanhado de frases e palavras, são elas:
- Ser semente;
- Aquilombar,
- Natureza: luta, casa, saber, conexão e cura;
- Ser semente: luta, casa, saber, conexão e cura;
- A natureza dá, a natureza quer;
- A despeito da opressão, ser semente;
- Estar protegido pela floresta.
Colagem
Na colagem, o Quilombo Mangueiras é apresentado como um espaço de resistência, movimento que pode ser compreendido como aquilombamento. Essa representação também dialoga com a noção de paz quilombola, formulada por Beatriz Nascimento, para quem a paz se constrói ativamente, garantindo a organização e a soberania dos indivíduos sobre seu espaço de vida.
Os elementos em preto e branco à esquerda, buscam fazer menção ao “des-envolvimento”, partindo do pensamento do Nego Bispo, onde o autor faz uma crítica ao desenvolvimento moderno colonial, brincando com a grafia da própria palavra, na qual “des” representa uma negação ao que é entendido como desenvolvido.
Na lateral direita, foi representada a contraposição da maneira de viver e fazer cidade convencional, o que resulta num aquilombamento (resistência) do grupo diante da opressão, a partir da separação entre o que seria a área quilombola e o que estaria fora dela, delimitada pela cerca de madeira e pela vegetação.
Também ilustrou-se a representação do conceito de paz quilombola já mencionada anteriormente, a partir das luzes que saem da mangueira. A flor no centro dela é inserida na imagem como uma representação do laço que existe hoje amarrado na própria mangueira, buscando representar o matriarcado dentro do quilombo e como as relações no espaço se dão considerando, respeitando e valorizando as mulheres, sobretudo as mais velhas.
Os elementos de fauna e flora presentes na imagem enfatizam a biodiversidade do lugar a partir de algumas espécies que vivem no quilombo, conforme listagem apresentada no Parecer Técnico nº 0562/23 (Belo Horizonte, 20 mar. 2023).

GIF do processo de construção da colagem
O texto integra o Dossiê Urbano-Quilombola: Quilombo de Mangueiras, elaborado na disciplina Oficina de Planejamento Urbano: Problemas de Planejamento Local, com a participação do Quilombo de Mangueiras, ministrada por Cynthia Braulio Alvim Bustamante, no segundo semestre de 2025, na Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFMG.
메타데이터
- post_id
- fb6901bd25f2
- slug
- fabulando-um-contraste-urbano-quilombola-fb6901bd25f2
- url
- https://medium.com/@amoralesaline/fabulando-um-contraste-urbano-quilombola-fb6901bd25f2
- canonical_url
- https://medium.com/@amoralesaline/fabulando-um-contraste-urbano-quilombola-fb6901bd25f2
- author_url
- https://medium.com/@amoralesaline
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-08-18 07:58:06