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O entre-lugar como operador simbólico na fala de Michel Onfray

Mediação, angústia e regimes de visibilidade — uma leitura psicanalítica do acesso ao real a partir do retorno do evolucionismo político

Sara Wagner York · 2026-04-07 19:35 · 1 claps · 6.7 min read
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O entre-lugar como operador simbólico na fala de Michel Onfray

Mediação, angústia e regimes de visibilidade — uma leitura psicanalítica do acesso ao real a partir do retorno do evolucionismo político

Por Sara Wagner York

UNESP/FAPESP

A experiência subjetiva do mundo não se organiza por acesso direto à realidade, mas por meio de mediações simbólicas que estruturam o campo do visível e do nomeável. Esse enunciado, que poderia soar como proposição abstrata, encontrou recentemente uma prova concreta e perturbadora no espaço público europeu: a eleição de um homem negro para o comando de uma cidade francesa foi respondida, por um intelectual de circulação ampla, com o repertório discursivo das tribos primitivas e do macho dominante descrito por Darwin.

O episódio não é apenas um escândalo pontual, é um sintoma e é precisamente como sintoma — no sentido psicanalítico do termo — que este ensaio desenrola: como retorno, no campo simbólico contemporâneo, de um conteúdo que se supunha arquivado, mas que nunca foi elaborado.

Proponho nessa -sempre- conversa articular dois movimentos analíticos complementares, um primeiro, que é examinar o entre-lugar como operador simbólico responsável por regular o acesso ao conflito, à diferença e ao sofrimento social; segundo, demonstrar como o discurso evolucionista mobilizado por Michel Onfray diante da liderança negra revela os limites e as perversões desse operador quando colonizado pelo arquivo colonial.

I · A proteção psíquica do real e seus custos

Freud formulou que “a angústia é um sinal diante de um perigo”, indicando que o aparelho psíquico constrói mecanismos de antecipação e defesa frente ao excesso de excitação. A mediação simbólica aparece, nesse quadro, como condição de suporte da experiência: sem ela, não há clareza — há desorganização.

A experiência subjetiva não ocorre em contato direto com o real, mas através de sistemas simbólicos que permitem sua tradução parcial. Jacques Lacan precisou esse ponto ao afirmar que o real é aquilo que retorna sempre ao mesmo lugar: o que é excluído do campo simbólico não desaparece, mas retorna sob forma sintomática.

Como já advertia Freud, “o ego não é senhor em sua própria casa” — há processos inconscientes que escapam ao controle consciente do sujeito e que estruturam, por baixo da superfície, os modos pelos quais a experiência pode ser suportada.

O entre-lugar pode ser compreendido, portanto, como a instância intermediária entre o sujeito e o excesso do real. Longe de representar um obstáculo inerte entre sujeitos ou eventos, trata-se de uma estrutura ativa que regula o acesso ao conflito, à diferença e ao sofrimento social. Essa regulação tem um custo: ao mesmo tempo em que protege o sujeito do excesso de realidade, pode restringir sua capacidade de leitura do mundo. A mediação simbólica é, simultaneamente, condição de possibilidade e limite do conhecimento.

II · Quem decide o que pode ser visto

A mediação simbólica não constitui apenas uma operação intrapsíquica. Ela também se organiza socialmente. Foucault argumentou que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada e redistribuída. Essa seleção incide diretamente sobre aquilo que pode ser percebido como realidade legítima: o acesso ao mundo não é apenas perceptivo — é discursivo.

Nesse sentido, o entre-lugar funciona como tecnologia de visibilidade. Ele organiza hierarquias de saber, define regimes de interpretação, regula aquilo que pode ser dito. A mediação simbólica passa então a operar simultaneamente como proteção e como controle.

É exatamente esse mecanismo que se revela no episódio Onfray. A eleição de um homem negro para um cargo de comando republicano deveria ser lida como acontecimento ordinário dentro do horizonte democrático contemporâneo. No entanto, o filósofo reativou um regime de visibilidade alternativo — mais antigo, mais profundo — no qual a liderança negra não pode ser percebida como exercício político, mas apenas como dado biológico e tribal.

O entre-lugar aqui não protege o sujeito do excesso de realidade. Ele impede que uma realidade específica — a realidade da igualdade política — sequer seja percebida como tal.

Uma nota sobre Darwin

Charles Darwin não descreveu sociedades humanas como tribos dominadas por machos alfa no sentido mobilizado por Onfray. Essa interpretação deriva da leitura social-darwinista do final do século XIX, não da obra darwiniana propriamente dita. O chamado “macho alfa” é um mito científico: nasceu da observação artificial de lobos em cativeiro e foi depois projetado sobre sociedades humanas de forma indevida. Quando essa figura aparece no debate político, não funciona como conceito científico — opera como metáfora hierárquica.

III · O arquivo colonial como memória discursiva

Ao afirmar que não vivemos mais em “tribos primitivas”, Onfray não apenas mobilizou uma imagem anacrônica da antropologia evolucionista. Ele também ativou uma gramática colonial que associa liderança política negra a formas arcaicas de organização social.

A referência à “tribo primitiva” pertence a um arquivo intelectual que articulou ciência, raça e poder durante o século XIX e parte do século XX. Nesse arquivo, sociedades europeias foram apresentadas como ápice do desenvolvimento humano, enquanto povos africanos, indígenas e asiáticos eram posicionados em estágios anteriores da evolução social. Esse modelo não descrevia apenas o mundo — ele organizava o mundo.

Foucault já demonstrava que discursos não desaparecem: eles circulam, reaparecem, transformam-se e persistem. A colonialidade não depende apenas de instituições. Ela depende de linguagem, de metáforas, de arquivos invisíveis que continuam operando dentro do pensamento europeu contemporâneo.

Quando um intelectual associa liderança negra a imagens tribais, ele reinscreve uma hierarquia antiga sob uma forma aparentemente casual. Essa reinscrição não precisa ser intencional para produzir efeitos. Ela atua como memória discursiva. E memórias discursivas estruturam imaginários sociais. O que está em jogo não é a intenção do enunciador, mas a estrutura do enunciado — e os efeitos de sentido que esse enunciado produz ao circular.

IV · A mediação habitada e as condições do reconhecimento

A experiência do entre-lugar não se limita às instituições. Michel de Certeau observou que os sujeitos produzem trajetórias próprias dentro das estruturas que os organizam, reinventando os sistemas simbólicos disponíveis. A mediação não é apenas imposta — ela é habitada, reinterpretada, negociada. O entre-lugar constitui espaço de invenção cotidiana da experiência.

Judith Butler acrescenta uma dimensão decisiva: o reconhecimento social depende da inserção do sujeito em quadros normativos de inteligibilidade. O que não pode ser reconhecido não pode ser plenamente vivido como experiência social legítima. A mediação simbólica torna-se, portanto, condição de inteligibilidade — e sua organização decide quais vidas aparecem como reconhecíveis.

É aqui que o discurso evolucionista produz seu efeito mais perverso. Ao deslocar o acontecimento democrático para um campo simbólico anterior à política moderna, ele não apenas insulta o eleito — retira da própria eleição sua condição de legibilidade política. A eleição deixa de ser exercício de cidadania e passa a ser interpretada como regressão civilizacional.

Esse mecanismo é o que a análise crítica do discurso nomeia como naturalização da diferença política: em vez de discutir projetos de governo, desloca-se o debate para características corporais e raciais. O corpo passa a falar antes da política. O que nos leva ao próximo ponto.

V · Razão universal e exclusão estrutural

Há um paradoxo que atravessa todo esse campo. O filósofo em questão costuma se apresentar como herdeiro do Iluminismo. No entanto, parte significativa do pensamento iluminista europeu também participou da construção de classificações raciais hierarquizadas que sustentaram projetos coloniais. A defesa da razão universal conviveu historicamente com a exclusão de muitos sujeitos da categoria de humanidade plena.

Esse paradoxo ainda não foi resolvido. Ele continua atravessando a modernidade política ocidental como uma ferida não cicatrizada — que retorna, sintomaticamente, cada vez que um corpo não esperado ocupa uma posição de poder.

A pergunta que emerge é simples e inquietante: como um evento democrático contemporâneo pode ser interpretado a partir de categorias pré-antropológicas do século XIX? A resposta exige reconhecer que a colonialidade não pertence apenas ao passado. Ela continua organizando percepções, afetos e interpretações no presente.

VI · O empobrecimento do campo simbólico como produção de mal-estar

A retirada sistemática de determinados conteúdos do campo simbólico não elimina seus efeitos subjetivos. Ao contrário, produz formas difusas de angústia decorrentes da impossibilidade de nomeação da experiência. Quando o conflito social é retirado da cena simbólica — quando a violência racial não pode ser nomeada como tal, quando a desigualdade é naturalizada, quando a liderança negra é lida como regressão — ele retorna sob forma de mal-estar não interpretado.

A angústia torna-se efeito da ausência de linguagem disponível para nomear o real.

Esse empobrecimento do campo simbólico não afeta apenas as vítimas dos discursos hierarquizantes. Ele afeta o próprio espaço público, que perde sua capacidade de elaborar o conflito e passa a apenas reproduzi-lo sob formas cada vez mais arcaicas. Um intelectual que recorre ao vocabulário das tribos primitivas para interpretar uma eleição democrática não está apenas cometendo um equívoco factual — está sintomaticamente revelando os limites do campo simbólico em que opera.

Considerações (sem) finais

O entre-lugar constitui uma instância estruturante da experiência psíquica e social. Longe de representar apenas um obstáculo entre sujeitos e acontecimentos, ele organiza a forma como o real pode ser percebido, interpretado e suportado. A mediação simbólica protege o sujeito do excesso de realidade — mas também pode restringir seu acesso aos instrumentos de leitura do mundo.

O episódio analisado neste ensaio demonstra que o entre-lugar pode ser colonizado por arquivos discursivos que o transformam de proteção em prisão simbólica. Quando o campo do visível é organizado por um imaginário evolucionista e colonial, a mediação não serve ao sujeito — serve à reprodução de hierarquias que impedem o contato com o real político contemporâneo.

Pensar psicanaliticamente o entre-lugar significa, portanto, analisar as condições simbólicas que tornam possível — ou impossível — ver, nomear e sustentar a experiência contemporânea do real. Significa perguntar: quais arquivos organizam o nosso campo de visibilidade? Quais conteúdos foram excluídos do simbólico e continuam retornando como sintoma?

Talvez seja exatamente por isso que uma eleição municipal ainda possa ser lida como retorno à “tribo” em pleno século XXI. O problema não está na eleição. Está no campo simbólico que não consegue inscrevê-la como acontecimento político ordinário — porque o real da igualdade ainda produz, em determinados espaços, o efeito do inquietante.

E o inquietante, como já nos ensinou Freud, é sempre o sinal de algo que deveria ter permanecido oculto — e que, apesar de tudo, retornou.


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