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Os comentários

Minhas primeiras linhas na internet datam de 2002. Já contei algumas vezes a história: meu primeiro blog era uma página HTML que eu…

Marcelo Spacachieri Masili · 2018-03-15 22:19 · 55 claps · 3.3 min read
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Os comentários

Minhas primeiras linhas na internet datam de 2002. Já contei algumas vezes a história: meu primeiro blog era uma página HTML que eu atualizava e subia via FTP. Atualizava a página e acumulava os textos. Interação zero, só eu falava e não havia espaço pra comentários. Nenhum egoísmo. Os blogs ainda engatinhavam e eu não sabia como incluir aquele popup com formulário que me permitiria saber quem lia (se é que alguém lia) as besteiras que eu escrevia, e mais ainda: o que achavam daquilo. Não demorou para que eu pedisse a amigos que me ajudassem a incluir a tal ferramenta naquela página. Consequência: descobri a amplitude da rede, fiz amigos em outras cidades, estados e lembro até de uma amiga que morava nos Estados Unidos.

Sem exageros: minha vida mudou.

Pois sair da bolha é se permitir conhecer gente que nunca esteve ali contigo. Que viveu coisas que em nada se assemelham ao seu quintal. Era incrível, e cada comentário era celebrado, respondido e por muitas vezes gerava e-mails e chats que faziam um assunto render por dias.

Bem, estamos em 2018 e sabemos o que aconteceu com tudo isso.

Aquela sensação de que o mundo era capaz de me ouvir hoje é lugar comum pra qualquer pessoa. Não existiam smartphones, e nós que capinamos esse deserto que era a internet hoje fazemos parte de uma multidão que, quando do contato com essa amplitude — já num contexto muito diferente daquela então “época romântica” — encontrou novas e diversas formas de se fazer ouvir.

A analogia é tão óbvia quanto triste: numa sala com dois amigos a conversa flui em volume, tom e espaços aceitáveis. Dura horas. Permeia cerveja, salgadinhos e referências. No meio de uma galera gigante dessas, muitos pensam que gritar, bater ou empurrar seja a melhor forma de se fazer notar. E quando um grita, outro grita de volta. Se incomodar, alguém te dá um soco. Você cospe de volta. E quando a gente vê a barbárie está instaurada.

A culpa não é da tecnologia. E a culpa não é do populismo. A culpa — se é que ela existe — é da nossa essência. O ser humano precisa do caos. Precisa ser primitivo. Precisa odiar.

Eu não sei explicar essa necessidade, muito menos esse encantamento, que por tanto tempo também me alimentou. Sim, porque longe de ser esse ser erudito, eu ainda me divirto ofendendo este ou aquele, dependendo do dia. Com violência, ironia, sadismo ou crueldade, cultivamos nossa raíz da forma que nos convém.

O problema é achar que fazer isso de um palanque é algo bonito. Aparecer pra causar, assumir a burrice, exaltar a ignorância e a intolerância, bater palmas pra imbecil. E dada essa volta, chegamos aos tais comentários que nos cercam desde aquele longínquo ano de 2002.

Essa confusão mental em meio ao caos nos fez perder completamente a noção de limites e respeito. Somos bombardeados com a falta de critério de gente que não conhecemos e nem queremos. Mas aquela via única chamada blog virou esse congestionamento que conhecemos como social media. Fechamos os vidros, mudamos de faixa, mas os comentários, os textos malditos, as imagens apelativas e o ódio em forma de (péssimo) humor vez ou outra entram pelos dutos de ar que nunca chega limpo, por mais que a gente tente.

O dia de hoje, após uma execução covarde de alguém que notoriamente lutava por dias mais humanos e pessoas sem voz deu margem a piadas e celebrações covardes. Um dia como o de hoje explicita uma involução da nossa humanidade, onde temos que gritar como os que gritam todo dia, pela necessidade de rebater a desumanidade de quem canaliza o ódio na forma de agressão e antipatia. Desejamos a cegueira e a surdez, que nos livrariam desses comentários, feitos em letras pesadas e vozes ardidas. Amaldiçoamos a falta de fronteiras, e buscamos novamente a chave pra nossa bolha não ser violada por esse tipo de atitude injustificável.

E por tudo isso não podemos dar a essas pessoas o palanque que elas buscam. O microfone precisa ser desligado, para que seu raio de ação seja o menor possível. Aquele mesmo instinto que nos faz precisar do ódio é o que preserva somente o amor em nossas memórias com o passar do tempo. Sim, dizemos que o tempo cura, mas a verdade é que a vida só é possível num contexto de felicidade. E por isso nossas memórias esfriam as dores e preservam o que é bom (pode parecer um papo meio haribô, mas quantos não são os ditados populares que afirmam isso?). Exatamente por isso deixar os odiosos na solidão é a maneira mais eficaz de baixar o volume dessa gritaria imbecil.

Não por acaso esse pensamento é um texto, e não um post. Esqueçam os comentários de ódio. Vamos buscar uma real discussão em nossa própria reflexão. Vamos conversar com quem é de conversa. Vamos baixar os dedos que de tão em riste já enrijeceram e são apontados pra este ou aquele lado. Vamos tentar nos humanizar de novo. Com calma, em migalhas. Porque a vida é sim feita de ciclos, e atualmente a roda está afundada em merda.

Existem lugares, pessoas e sentimentos melhores que merda.


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