Um café com Marguerite
Passado certo tempo que não nos víamos, ao que consternamos a rotina. Naquele período — me contaria em futuro — estava a escrever um novo…
Um café com Marguerite
Passado certo tempo que não nos víamos, ao que consternamos a rotina. Naquele período — me contaria em futuro — estava a escrever um novo roteiro, adaptação de um de seus livros, não me recordaria qual, registro eu sem a obrigação temporal e do flerte que hoje faço com a memória. Estivera por demasiado presa ao primeiro capítulo — projeto, comprometido pelo tempo, editores e suas vaidades. À época, estava ocupado entre o ofício público e a rotina escolar. E um livro também inacabado no gabinete de estudos. Parafraseando meu querido amigo, dos poucos que assim podemos chamar, Bernardo S., sobrevivendo entre a fisiologia e o escritório. Até hoje me questiono como nunca se encontraram pessoalmente! A mim, pelas delícias e privilégios, revelados nos desafetos divinos e nos cabelo branco, tempo, à conviver com ambos. Restava-lhe ouvir minhas histórias e livros que a indicava e por muito a presenteava. Hoje, flerto com a ironia de quando poderia ela ter todos os textos de Fernando e seus heterônimos. Sim, poderia tê-los todos de uma única vez, mas sempre esperava que eu os levasse por correspondências. Ao certo que todas as versões eram rascunhos e anotações que fazíamos para futuras edições — em ocasião como editor, quando retorna as minhas cartas, se esboça alguma sugestão, por um riso leve, não saberia dizer até hoje, se dos textos dele, ou das minhas anotações. Nunca questionou o porque não havia sido seu editor entre livros e peças, mas sempre volto às dedicatórias que fazia, ou nos fragmentos que deixa esparços entre suar crônicas e ensaios, dizia, autógrafos são para os outros. Não a refutei, quando me perguntou, quanto do tempo que não nos víamos. A encontrei sentada nas primeiras fileiras de algum concerto, distante a minha poltrona, olhei-a indisponível, em contemplação. Também não soube de quando, em sua segunda estreia, convidou alguns poucos de seu círculo íntimo, para configurar lugar de honra, nas primeiras fileiras — alguns conhecidos em comum. Disse, no convite pessoal, dar cabo a saudades e prestígio, certo é que, sentando em algum lugar disperso e de pouca iluminação, aceitará o convite, mas flertava com a ideia de não abarcar, outrora eu, aquele lugar. Desejava ao certo de poucos, impressões, antes das críticas das bancas de jornal. Admirando como suspeito e cumplíce cada detalhe de suas obras, e o quanto de nossas correspondências trocadas e fragmento de olhares, ali continha. Nunca a desmenti. Revisitei a alguns dias o convite, daquela ocasião, conservado dentro de algum livro de Clarice, com quem dividi anos em matrimônio. Os projetos de ambos estavam findados àquele presente, quiçá vindouros, aclamados pela fortuna literária. O café, costume nosso, um longo abraço, sentamo-nos, do que dissemos, sibilar do silêncio.
José S., Lisboa, 1936, o ano da morte de R. R.
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