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Fumaça e outros estados físicos

O calor tem propriedades únicas que são capazes de desencadear a insanidade, tal qual as baixas temperaturas são capazes de fazer…

anapla · 2025-03-04 03:03 · 0 claps · 3.4 min read
#crônicas #dissertação #pensamentos-aleatorios #calor #frio
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Fumaça e outros estados físicos

O calor tem propriedades únicas que são capazes de desencadear a insanidade, tal qual as baixas temperaturas são capazes de fazer. Entretanto, ao contrário da gelidez árdua do frio, que presume também a isolação do indivíduo, um outro fator desencadeante aloucura, o calor age de forma ainda mais perversa e invasiva na psique humana. Quanto mais o ambiente esquenta, afetando o corpo de forma que os poros se dilatam para abrir caminho às múltiplas gotas de suor que teimosamente insistem em sair, carregando todas as diversas toxinas acumuladas ao longo de dias, meses e anos no pútrido organismo que as hospeda, p sentimento de raiva é inevitavelmente revelado, aliado à neurótica impaciência provocada pelo bafo insuportável, tão característico dos verões tropicais. As ondas de calor, cada vez mais frequentes, e agora invariavelmente acompanhadas da palavra “extremo”, anulam qualquer chance do estado climático ser considerado minimamente aproveitável para algum tipo de passeio ou distração comunitária.

Ultimamente, o clima tem tido efeitos anteriormente impensáveis de serem associados à palavra, ora tão aconchegante, “calor”. Pelo menos não por nós, acostumados com máximas que, embora intensas, são incomparáveis a força que as mudanças atmosféricas aplacariam sobre a Terra. Uma pré-disposição meteorológica que costumamos considerar tão agradável, tão amena, a abertura natural da Terra para que todos seus filhos, inclusive o ser humano, rumem em direção às praias, aos parques, lagos, cachoeiras, rios. Busquem o lazer, parece suspirar suavemente a natureza através das brisas refrescantes que de tempos em tempos sopram, criando um farfalhar dançante nas folhas das árvores. Mas o que mais poderia o implacável poder do Rei Sol, refletido e ampliado no asfalto escaldante provocar naquele que se encontra nesse deserto urbano, se não raiva? Ira, inclusive. Um descontentamento tão profundo, que não pode ser meramente direcionado a uma única causa, o bode escapatório perfeito.

Não gosto de ser a mensageira de más notícias (minto), mas não é a prefeitura, o governador ou até mesmo o presidente. Então, o sistema. O capitalismo? Lamento (minto, novamente), tão pouco. Embora o alvo seja fácil e até certeiro, eventualmente um precisa reconhecer que o buraco é mais fundo do que a primeira vista. Os regimes comunistas não impulsionaram também a industrialização? Então, está decidido. Miremos nossas armas em direção à sociedade em geral, aniquilemos a civilização! Está aí o grande culpado. Nós mesmos. Tornemo-nos eremitas? Cópias contemporâneas menos gênias de um Ted Krasinski, protótipos conscientes do fracasso de nosso antecessor? Esse destino me parece igualmente patético, e cópias raramente (para não dizer nunca) agregam qualquer valor à narrativa onde tentam se inserir.

Assim, esse desprazer acumulado, incapaz de encontrar um escoamento útil, se dissipa pelo corpo, causando mal-estares, tremores, náusea e antipatia. O indivíduo se torna, cada vez mais, aquela grande barata do romance pouco romântico do mestre Kafka, desta vez desprovida da capacidade de compreender e se empatizar com a situação daqueles seres amados que a cercam. Sendo assim, apenas enoja-te, é uma criatura sequer digna de piedade. Simplesmente, nojenta.

O calor é, científica e socialmente, um fator que impulsiona a reprodução, de outras formas, imagino que incentive a aglomeração. Enquanto o frio nos direciona a solidão, o calor quer que estejamos juntos. Mas e quando essa força térmica é tamanha que a companhia alheia soa como apenas mais graus de agravamento ao desconforto? Então, em uma edição tórrida do clássico de Steven King, estamos todos reunidos em um Overlook Hotel, presos no terror físico da externalidade extenuante, enquanto em nossa mente ferve um caldeirão de impulsos psicóticos e antissociais que jamais poderão ser plenamente realizados (agradeçamos por isso, mesmo que de forma penosa).

Gostaria de ter alguma conclusão útil, ou ao menos coerente, para finalizar essa série de pensamentos que não são nada mais do que uma denúncia daquilo que as minhas sinapses cerebrais atualmente sintetizam através desse código. Quando sentei e falei “hoje vou escrever”, não faltavam palavras a surgir como ervas daninha em minha cabeça, pensamentos que brotam e tão rapidamente quanto vieram à tona, voltam a desaparecer em névoas de incompreensíveis. Como sempre, no momento em que finalmente me proponho a empenhar, factualmente, não apenas em uma aspiração imaginária, as palavras se dissipam ainda mais, como se algum dia sequer tivessem existido.

Contento-me em agradecer de sequer ter sido capaz de organizar algo que se assemelhe, mesmo que porcamente, a uma dissertação coerente. O que eu realmente quero dizer, se perdeu em uma mistura hormonal, incendiada pelas realidades materiais e pelo meu cérebro viajante, que encontra pequenos pontos de luz, mas ao contrário da mosca, aproxima-se apenas o suficiente para reconhecer sua existência, prosseguindo imediatamente para o próximo alvo, seja ele digno ou não de sua atenção.

Conforme tento, creio que inutilmente, retornar até alguma linha de pensamento que me guie através destas densas nuvens, interrompidas em pontos por esparsos vãos através de onde uma pálida luz outra atravessar, me encanto com a visão que reside no meio desse reino cinzento. Por Deus, que venha a chuva!


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