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O aniversário

13 velinhas.

olivia larbac · 2026-07-07 20:38 · 0 claps · 1.8 min read
#contos #contos-urbanos #contos-curtos #poesia
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O aniversário

13 velinhas.

Câmera Kodak, sorrisos.

Flash, e sua priminha chora num canto.

Catarro escorrendo pelo nariz dela.

O avô passa o isqueiro, verde.

A mãe acende uma, duas, três, quatro.

Queimou os dedos, suprime um palavrão.

Mas de quem foi a ideia de escolher 13 velas? Ao invés de comprar o número 1 e o número 3.

E já são nove, dez, onze, doze.

Cera cor de rosa no glacê branco.

Estou aqui, não olhem pra mim.

Que decepção.

O bolo era de chocolate branco. Seu favorito.

Bexigas verdes, sua cor favorita.

E todos desempenham perfeitamente, ou o mais próximo disso possível, seu papel.

O desejo.

Faz um pedido.

Você tem que cortar o pedaço de bolo de baixo pra cima.

Qual era mesmo o seu sonho?

O dia que você girou o dedo dentro do apontador e saiu um montão de sangue.

Você sonhou que desenhava várias flores vermelhas com o indicador, o dedo como um pincel.

Tirava 10 e uma estrelinha.

O dia que você viu uma coisa que não deveria ter visto no computador da sala.

Naquele dia, não tinha ninguém em casa.

Que vergonha enorme seria para sua família.

No sonho, você foi expulso de casa, como um doente infeccioso.

E teve que dormir na rua, com a cabeça encostada no meio fio da avenida.

Também tinha o sonho da casa que era pequena por fora e grande por dentro.

Com um quarto subterrâneo, lá tinha um colchão infinito.

Uma cama fofinha e eterna, se estendia para todos os lados.

Se pode dormir e se pode pular, mas é muito difícil fugir, se você estiver sendo perseguido.

O dia em que caminhava com o pai na calçada e se depararam com um gatinho atropelado.

Marcas do pneu o amassaram bem no meio.

Aquela imagem nunca mais ia sair da cabeça.

E no sonho, dentro do carro, o motorista que cheirava à cigarro, da mesma marca que o avó fumava, avançava por cima de todos aqueles gatos na rua. Ignorando todos os gritos e súplicas.

Crac, crec.

Todas as vezes.

Quando acordava pensava: Passou rápido. Passou.

Nem deu tempo de doer, foi rapidinho.

Quando o tio morreu, não te queriam no enterro.

Quanto mais longe possível do caixão, melhor.

Mas é claro que ele queria ver.

Como poderia saber, se não pudesse ver?

Tinha cheiro de química.

A boca colada com super bonder.

Ali não tinha coisa alguma.

Era só matéria, diria, caso soubesse o sentido da palavra.

Está tudo bem, descansou, diziam.

É mesmo, pensou, dormiu.

Está com Deus, foi para o céu.

Foi mesmo? Teria que cavar todo o caminho até o céu.

Mas que trabalho, parecia aconchegante e silencioso, enquanto jogavam terra.

Mas não dói mais. Descansou.

Qual era mesmo seu desejo?

Tanta coisa pra fazer.

Mas era bom descansar.

Assoprou as velas.


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