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A criança que sobreviveu

a criança que sobreviveu nasceu em um dia quente, sete meses depois de a mãe considerar o aborto. na família da criança, as outras crianças…

marimari · 2026-06-24 04:27 · 1 claps · 6.9 min read
#escrita-criativa #autobiografia #prosa-poetica #contos-breves #memoria
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A criança que sobreviveu

a criança que sobreviveu nasceu em um dia quente, sete meses depois de a mãe considerar o aborto. na família da criança, as outras crianças já haviam se acostumado com pão e margarina durante a semana, queijo e mortadela no final.

a criança que sobreviveu veio com o pão debaixo do braço. ela trouxe um bom emprego para o pai e mais sossego para a mãe, que conseguiu concluir os estudos. e garantiu a carne para o churrasco de domingo.

a criança que sobreviveu foi recebida com muitos abraços, trocas de fralda e papinha. nessa época ela não precisava implorar por afeto. o fósforo estava ainda a algumas tentativas de ser aceso.

a criança que sobreviveu quis ser estrela, quis ser tudo que as irmãs não foram. elas romperam, não ouviram, saíram. ela ficou e prometeu dar tudo que não recebeu.

a criança que sobreviveu aprendeu cedo a sofrer, embora essa palavra fosse estrangeira. o almoço vinha com culpa e a promessa de ser melhor. a janta era servida fria — e comida com ansiedade.

a criança que sobreviveu já não tinha mais pele, paredes, segredos. todos conseguiam ver suas intenções de malícia, e a malícia de suas línguas não era poupada.

mas a criança que sobreviveu esquecia, assim que chegava a sobremesa com um abraço, um cheiro e um parabéns por sua última conquista.

até que, no fim, a criança que sobreviveu não conseguia mais conquistar. a força vital lhe falhou. o almoço e a janta estavam envenenados. sem conquistas, o suprimento de água e comida foi cortado. ela não percebeu o incêndio que se aproximava, até ser tarde demais.

a criança

estava rígida, pálida, oca. ao seu redor, o mundo continuava girando. os que juravam amá-la não pareciam ter percebido o quão perto ela estava do fim.

a criança

só não foi abandonada pelo coração que insistia em bater, e que começou a buscar forças no sol, na lua e na grama.

a criança

sentiu muitas coisas morrerem. o que estava vivo era estranho e se tornou irreconhecível. era outra.

a criança sobreviveu, renasceu em um outro corpo. se expressava com outras palavras, existia em um novo universo, falando uma nova língua, dançando uma nova dança.

a criança que sobreviveu ficou perdida na floresta entre fadas, feras e luzes. buscava o clarão do céu, mas se encontrava no conforto das trevas. onde o fogo havia queimado, reinava o vazio.

a criança que sobreviveu revivia todos os dias a agonia de sua própria morte, tentando entender como o punhal foi parar no coração se ela, sozinha, não tinha forças para erguê-lo.

a criança já não esperava mais salvação. havia aceitado a sina implacável, presa na casca de quem um dia fora. a visão turva e o corpo alquebrado não permitiam outra esperança.

veio o príncipe, o soldado, o sol e o coração; trouxeram água, energia, cores e calor, e esperaram até o raiar da manhã pela criança que sobreviveu.

a criança que sobreviveu acordou do pesadelo. com olhos abertos ela ainda via os demônios que envenenaram sua vida e a ceifaram tão jovem. o restante era envolto em sombra, em vapor, em nada.

depois de duas ou três vidas apoiadas sobre a energia dos sentinelas, a criança que sobreviveu conseguiu nomear os espíritos maus de sua origem e dentre os vilões, encontrou vestígios do bem que amara.

e foi durante essa nova e refrescante vida, que a Mulher, também fada, fera e luz, visitou a nossa criança que sobreviveu.

nos primeiros encontros não havia palavras. a criança que sobreviveu bem que tentou, mas em seu estômago ainda queimava o fogo que esvaziou a floresta, e ele consumia as palavras como as folhas secas caídas no chão.

a Mulher aprendeu a ficar, a chorar, a olhar. a criança que sobreviveu nunca se percebeu vista daquela forma. como se fosse uma Pessoa.

nas vidas intermediárias aquele pensamento havia surgido, ocasionalmente, quando sobrava energia para sonhar. e era como se olhando através de um espelho ela pudesse ver a vida possível. a vida onde ela seria uma Pessoa Completa, não mais a sombra ferida de uma criança que sobreviveu.

na vida da Pessoa Completa, a vida superava a sobrevivência.

na vida da Pessoa Completa, a dor não era uma sentença de morte.

na vida da Pessoa Completa, a escuridão era só a passagem entre a luz e a luz.

a criança que sobreviveu contemplava essa realidade como o espelho d’água encara o céu estrelado. bela, desejável, inatingível, mas não parecia inatingível aos olhos da Mulher.

sem necessidade de fome, almoço e janta já não traziam a ânsia dos oráculos, e a criança esperava na janela pela sobremesa que a Mulher prometera.

ela trazia aos poucos, com receio de ser pega pela Descrença ou pelo Destino — eles costumavam observar aquelas partes do mundo em busca de uma certa criança que sobreviveu.

e a nossa criança, sempre ingênua refém da esperança imorrível, alimentou-se do oferecido. a ambrosia tinha um sabor familiar, como algo vindo do sonho de um sonho. ela havia visto outras crianças receberem a sobremesa da mãe e do pai naquela primeira, distante vida. elas não precisaram sobreviver.

pouco a pouco, a criança foi ficando invisível à Descrença e ao Destino, a sobremesa tinha esse efeito; mas o estrago de mil vidas não se repara em um instante, basta perguntar a quem já viveu. ainda era longo o caminho a ser percorrido pela criança que sobreviveu.

a criança começou a sair de seu alento sob a montanha, encorajada pela Mulher a enfrentar a luz do novo sol e sentir a dor pungente da suave grama sob os pés.

na desesperada busca pela infante fugitiva, os dois grandes enviaram terrores: espíritos que os imitavam e assombram qualquer um que se assemelhasse à criança que para eles já estava perdida. apesar do esforço dos sentinelas que não a abandonavam, e da Mulher que trazia diariamente a ambrosia da cura, a criança que sobreviveu ainda era suscetível ao medo e pavor infligidos pelos espectros do vazio.

a maldição transmitida por seu hálito fazia parecer que as horas se tornavam em éons, e que todo o progresso feito até ali tinha sido um empreendimento em vão. a Mulher era como que um simulacro de si, e os sentinelas não passavam de uma boa memória. a realidade tangível voltava a ser a primeira vida: o choro abandonado escondida atrás da porta, as vozes ecoando dentro e fora a todo instante, a criança tremendo no chão frio, nua.

tal era o sortilégio dos espíritos maus.

contra sua própria vontade, no entanto, ela acreditava e esperava.

crer apesar da dúvida. sorrir através da dor. esperar contra toda desesperança: a criança que sobreviveu começou a observar que a sobremesa nutria um novo coração no vazio que havia em seu peito. um coração capaz de todas essas coisas.

a montanha se erguia segura sob o céu azul, mas ficar ali era manter-se refém da maldade dos espíritos. pouco a pouco a criança que sobreviveu foi se despedindo daquele lugar que fora lar e refúgio, novamente presa àquela tola teimosia alimentada pela Mulher, pelos sentinelas, e por todas as influências que as possibilidades dessa nova vida permitiam.

a criança que sobreviveu começou sua viagem sem planejamento, sem mapa, sem norte.o momento certo parecia não chegar nunca, então ela convocou seus consortes e foi. disse aos que ficaram que se o momento chegasse, ela estava logo a frente.

a criança que sobreviveu via o brilho do novo sol e sentia seu calor, embora ele turvasse a vista. quando a viagem começou, ela podia contar seus companheiros, via-os ao olhar para o lado. a certa altura percebeu que não precisava falar para ser ouvida: haviam atingido tamanha proximidade que o mero pensar era claro e muito sonoro.

as noites não seguiam a lógica da vida antes da montanha. agora elas eram menos frequentes e mais confortáveis. o vento refrescava, não entorpecia. as estrelas iluminavam em vez de cegar. as trocas eram íntimas, como conversas de amigos ao redor da fogueira. as noites haviam perdido o aspecto sombrio e anestésico de outrora. era, de fato, uma nova vida. e isso não passou despercebido à criança que sobreviveu.

depois de passar pelos cinco rios, a criança que sobreviveu deu falta do coração e do sol, mas não havia saudade. ela os reconheceu no calor que dava viço à sua pele, e nas batidas ritmadas de seu peito.

a criança que sobreviveu conversava com a Mulher sobre essa nova realidade, sobre o soldado e o príncipe, até que deles também não havia vestígio sobre as verdes planícies que enchiam os olhos.

por um momento, a criança temeu o abandono, ainda presente na memória e em alguns pesadelos nas noites mais frias. um olhar para dentro (e também para fora), porém, a lembraram de que os sentinelas eram presentes.

isso tudo a Mulher foi explicando à nossa criança que sobreviveu, singela como era. durante muito tempo as duas caminharam em direção ao sol — sempre em direção ao sol. nos sonhos da criança a Mulher nunca aparecia, mas ela era uma boa intérprete e ainda melhor ouvinte.

a criança que sobreviveu carregava em si as memórias de seu nascimento, da primeira vida, das muitas mortes. lembrava do incêndio e da fuga, sobrevivendo na floresta com as fadas, a cuidadosa vigilância dos sentinelas e o primeiro encontro com a Mulher.

a Mulher já não recordava da sua vida antes da criança. durante muito tempo, suas visitas se resumiam a olhar para ela. os olhos muito castanhos da criança pareciam famintos do olhar dela. talvez se alguém, nas vidas anteriores, tivesse realmente olhado, a Mulher não seria necessária. teria outra vida. poderia ocupar-se de seus afazeres de mulher, sem o peso de gerar e doar amor. sem o peso da criança que sobreviveu.

conforme caminhavam, a criança que sobreviveu foi ficando mais quieta. ia ouvindo o que a Mulher lhe transmitia. no silêncio, ouvia de novo as primeiras palavras trocadas, os terrores que partilhou, os conselhos que ouviu. em uma tentativa não calculada, foi capaz de olhar para si com os olhos da Mulher pela primeira vez.

acolheu de forma transformadora seu passado, seu presente e todas as possibilidades de um futuro que já não era mais um fardo. a criança que sobreviveu olhou para os lados, à procura da Mulher, sabia que ela ficaria orgulhosa desse feito. apesar de seus esforços, não a encontrou.

com a respiração acelerada, correu até a lagoa cercada por lírios e encarou seu reflexo. na água que cintilava sob a luz branca do sol, no semblante gracioso e já maduro, os olhos da Mulher contemplavam o rosto da criança que sobreviveu.


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