Meu tio e a música
Eu já falei aqui sobre o impacto da Dave Matthews Band na minha vida, principalmente durante um dos períodos mais difíceis dela. Já escrevi…
Meu tio e a música
Eu já falei aqui sobre o impacto da Dave Matthews Band na minha vida, principalmente durante um dos períodos mais difíceis dela. Já escrevi sobre os Beatles e sobre como eles representam a ligação que eu tenho com meu pai.
Mas existe um personagem que já apareceu algumas vezes nestes textos e que talvez seja um dos maiores responsáveis pela minha formação musical.
Meu tio Roberto.
Meu tio é músico.
E não daqueles músicos que apenas tocam. Ele vive música. Respira música. É um cara extremamente criativo, um excelente guitarrista, compositor, apaixonado por blues e que, depois da aposentadoria, resolveu mergulhar de vez naquilo que sempre amou.
Apesar do corintianismo existir muito forte dentro dele, a grande paixão da vida dele sempre foi a música.
E foi ele quem me mostrou que música não era apenas um estilo.
Era um universo inteiro.
Meu tio foi a primeira pessoa que abriu para mim aquilo que eu costumo chamar de “as portas da percepção musical”.
Foi ele quem me deu minha primeira fita.
Sim, jovens, voltamos às fitas cassete.
E não foi qualquer fita.
Foi Appetite for Destruction, do Guns N’ Roses.

Eu lembro da sensação de ouvir aquilo pela primeira vez.
Parecia que o som me empurrava.
Existia uma sujeira, uma agressividade, uma energia quase descontrolada que me fascinava. Hoje talvez aquilo soe até leve perto de bandas mais extremas que vieram depois, mas naquele momento era algo gigantesco.
“My Michelle”, “Mr. Brownstone”, “Rocket Queen” aquilo tudo parecia perigoso.
Até “Sweet Child O’ Mine”, que era a mais acessível do disco, carregava um peso enorme.
E foi ali que tudo começou.
Do Guns N’ Roses eu fui para o Metallica.
Do Metallica eu fui para o Iron Maiden.
Do Iron Maiden eu voltei no tempo e encontrei o Black Sabbath.
E o mais interessante é que meu tio nunca apenas me entregava um disco.
Ele contextualizava.
Ele explicava.
Ele abria caminhos.
Quando me mostrou Black Sabbath, ele não falou apenas sobre riffs pesados. Falou sobre blues. Sobre como aquela música vinha de outro lugar. Sobre raízes.
Era como se ele estivesse abrindo uma trilha no meio do mato com um facão e dizendo:
“Vem por aqui.”
E eu fui.
Do Sabbath eu cheguei ao Judas Priest.
Do Judas Priest eu comecei a ouvir coisas mais extremas.
E sem perceber, eu estava completamente apaixonado por música.
Mas talvez o mais importante seja que meu tio nunca limitou meu ouvido ao rock pesado.
Muito pelo contrário.
Foi ele quem me mostrou que música pop podia ser arte.
Ele começou a me apresentar Lulu Santos de uma forma completamente diferente da que eu conhecia no rádio. O Lulu deixava de ser apenas “Tempos Modernos” ou “Toda Forma de Amor”.
Ele passava a ser um compositor.
Um artista.
Depois vieram bandas como Tears for Fears.

E eu comecei a entender que música pop não precisava ser descartável.
“Shout”, “Woman in Chains”, “Advice for the Young at Heart”, “Everybody Wants to Rule the World”… aquelas músicas tinham profundidade. Tinham construção. Tinham emoção.
Elas duravam.
Meu tio também me apresentou ao blues de verdade.
E, a partir dali, Eric Clapton virou apenas uma porta de entrada para outros mundos.
Vieram B.B. King, Muddy Waters(meu favorito até hoje) e Robert Johnson.
Depois veio Steve Ray Vaughn que meu tio conseguia não só tocar, mas fazer até as caretas dele!
E depois veio Pink Floyd.
Mas não apenas o Pink Floyd dos solos do David Gilmour ou do gigantismo de The Wall.
Ele me apresentou a banda como uma experiência completa.
A música.
A letra.
O conceito.
O visual.
A produção.
Eu comecei a entender que um disco podia ser muito maior do que apenas um conjunto de músicas.
E talvez um dos momentos mais especiais que vivi com ele tenha sido assistindo Roger Waters ao vivo.
Nós ouvimos “Us and Them” juntos.
Nós vimos aquele show juntos.
E naquele instante eu entendi uma coisa muito importante:
Existem relações familiares que são construídas através da música.
A nossa foi e sempre será.
Mas talvez nenhum artista represente tanto isso quanto Prince.
Foi meu tio quem me mostrou Prince de verdade.

Não apenas o cara dos hits.
Mas o multi-instrumentista genial.
O guitarrista absurdo.
O baixista incrível.
O compositor gigantesco.
O artista completo.
E, através de Prince, eu fui descobrindo Marvin Gaye, soul music, funk, jazz e tantos outros caminhos que continuam entrando na minha vida até hoje.
Tudo isso começou porque um dia meu tio resolveu me entregar uma fita do Guns N’ Roses.
E, sem perceber, ele estava me entregando uma chave.
A chave para um mundo inteiro.
Hoje a relação mudou um pouco.
Virou troca.
Eu levo músicas para ele.
Ele leva músicas para mim.
Mas a essência continua igual.
Ele ainda é aquele cara abrindo caminhos.
E eu continuo sendo aquele garoto querendo descobrir novos sons.
Então, se eu puder deixar uma mensagem depois deste texto, ela é simples:
Pergunte para os seus tios o que eles ouviam.
Pergunte para aquela pessoa da família que ama música quais discos mudaram a vida dela.
Deixe essas pessoas abrirem portas para você.
Porque às vezes uma fita cassete, um CD emprestado ou uma música tocando no carro acabam mudando completamente quem nós somos.
메타데이터
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