A Falácia do Individualismo Luterano: Palavra e Sacramento na Reforma — Pe. Gunnar Rosendal
Excerto extraído da obra A Renovação da Igreja (Ed. Evangélica, Trad. Victor Andrade), Cap. 2: O Aspecto Sacramental da Renovação da…
A Falácia do Individualismo Luterano: Palavra e Sacramento na Reforma — Pe. Gunnar Rosendal
Excerto extraído da obra A Renovação da Igreja (Ed. Evangélica, Trad. Victor Andrade), Cap. 2: O Aspecto Sacramental da Renovação da Igreja.
Na cura das almas, a renovação da Igreja deseja fazer uso da rica graça dos Sacramentos como consolo e ajuda nas provações e nas dúvidas — consolo e ajuda muito mais valiosos, seguros e confiáveis do que qualquer apelo às experiências ou sentimentos pessoais, que mudam e envelhecem com facilidade. Todas as emoções dependem da constituição do sistema nervoso e uma simples enfermidade pode destruir a “paz com Deus”; mas fraqueza alguma, seja do corpo ou da alma, pode invalidar nosso Batismo, assim como nenhuma tentação do diabo pode corromper o Sacramento do Altar — ele é o que é, independentemente de angústia, dúvida ou necessidade.
Ao chegarem nesse ponto, muitos leitores provavelmente irão balançar suas cabeças com preocupação ou então, sendo mais impetuosos, deixarão sua repulsa transparecer com maior veemência. Mas quer o leitor seja do tipo mais calmo e meditativo ou de temperamento colérico, poderá igualmente ter o mesmo raciocínio: “mas nessa perspectiva o indivíduo é completamente ignorado. Encaixa-se todos num esquema eclesial que sufoca qualquer forma de individualismo. A liberdade do indivíduo é algo indispensável, afinal.”
O próximo passo lógico será a afirmação de que essa liberdade do indivíduo é herança da Reforma e assim a indignação se transformará numa ira santa, enquanto a preocupação assume a forma de uma condescendência afável. Pois agora tratar-se-á de defender coisas sagradas, de proteger a essência da Reforma e de afirmar aquilo que é genuinamente luterano!
Costuma-se falar algo mais ou menos dessa forma: “o essencial da Reforma Protestante está no fato de que Lutero concedeu liberdade ao indivíduo. A Reforma Protestante e a Renascença nascem e andam juntas. São etapas no curso histórico de libertação do indivíduo. Lutero criou o espaço para o individuo ao enfatizar que a consciência é a instância suprema nas questões de fé. Assim, a Reforma Protestante fez mais pela libertação do indivíduo do que qualquer outro movimento espiritual no Ocidente.”
Estariam essas afirmações corretas? Lutero teria realmente elevado a consciência ao posto de instância decisiva nas questões de fé? De fato, a consciência individual possui capacidade suficiente para se auto orientar? As perguntas continuam se acumulando: seriam todas as consciências igualmente boas, e portanto, igualmente respeitáveis? O revolucionário bolchevique que profana o Altar, destrói a igreja e tortura o sacerdote está seguindo sua consciência. Está convencido de que o cristianismo é a ruína para a humanidade e a sua consciência o vincula a agir conforme tal convicção. Ele não poderia “fazer outra coisa.” Do ponto de vista luterano, dever-se-ia, então, respeitar a consciência e as ações do bolchevique somente porque ele “estaria seguindo sua consciência”? Ou então quando o pagão canibal, também seguindo os ditames de sua consciência, mata e devora o missionário luterano, tal vítima deveria respeitar tais atitudes porque estariam em perfeita harmonia com a consciência individual do selvagem?
Seria, então, o frade Martinho Lutero um precursor digno de Voltaire e de Frederico, o Grande? Teria ele preparado o terreno para a mais individualista de todas as máximas “cada um pode ser salvo à sua maneira”? Significaria, então, que a Reforma Protestante, após um tempo de reação obscura na Era da Ortodoxia, teria alcançado sua significação real somente com o Iluminismo no séc. XVIII? Queria a Reforma Protestante ensinar que cada um pode crer naquilo que acha mais razoável como maneira mais segura para alcançar a salvação?
Seria a consciência capaz de decidir o que é verdadeiro? Certamente a consciência é uma instância ética que pode responder à pergunta “o que é o certo?” Mas ela prontamente nos abandona se questionarmos o que é verdadeiro. Poderia a consciência nos dizer algo sobre a verdade a respeito do caminho para a salvação? Não existem respostas excessivamente diversas em diferentes consciências para que ela possa ser considerada um guia confiável nesse ponto?
É evidente a percepção que uma comunidade eclesial que adote tal concepção acerca da natureza e do significado da Reforma caminhe rapidamente para sua própria dissolução. Se a consciência individual é a instância decisiva, então, necessariamente, a opinião da comunidade e o entendimento do grupo que transcende o indivíduo será descartado tão logo esse indivíduo abrace uma visão divergente do grupo. E de fato, a própria história do cristianismo denominado “evangélico” desde o Iluminismo até os dias de hoje mostra quão devastadores foram os efeitos de tal individualismo. Quem se preocuparia com o que a Igreja tem a dizer se cada um pode ser salvo à sua maneira?
Não obstante, na realidade, a Reforma Protestante foi uma insurgência ardente contra o próprio individualismo e o autoritarismo arbitrário. Para Lutero, o Papa em Roma representava a forma mais escandalosa de individualismo. O Papa poderia ordenar e prescrever o que bem entendesse — e assim o fazia. Estava elevado quase ao nível de Deus. Poderia, se lhe aprouvesse, vender indulgências a título de perdão dos pecados veniais e das penas temporais. Possuía o arbítrio para definir e elevar pessoas à categoria de Santos da Igreja e era capaz de quantificar e determinar até mesmo o valor espiritual e eterno das boas obras realizadas nesse mundo. O Papa desenvolveu um sistema de regras e regulamentos, de punições e de recompensas, toda uma rede autoritária que mantinha o continente europeu cativo ao seu capricho.
“Que Deus a ninguém concede o seu Espírito ou a sua Graça senão por meio da Palavra externa. Assim nos protegemos dos Entusiastas, isto é, daqueles espíritos que se vangloriam de terem o Espírito, mas sem a Palavra que lhe é anterior; e que posteriormente julgam, interpretam e mutilam as Sagradas Escrituras ou a Palavra oral a seu bel-prazer. […] Pois também o Papado é puro entusiasmo em que o Papa em Roma se gloria que ‘todas as leis estão sob o santuário de seu coração’ e que aquilo que ele julga e ordena junto à sua igreja em Roma é Espírito de Deus e Lei de Deus, ainda que seus julgamentos estejam acima e contrários à Escritura ou à Palavra falada. Tudo isso não passa do antigo diabo, a velha serpente, que também transformou Adão e Eva em Entusiastas, afastando-os da Palavra externa de Deus em direção a uma espiritualidade de entusiastas e às suas próprias capacidades inventivas. […] O Entusiasmo é implantado e inoculado como veneno pelo antigo dragão nos descendentes de Adão, sendo a origem, a força e o poder de todas as heresias, do Papado a Maomé. Por isso, temos de perseverar na verdade de que Deus não quer tratar conosco, homens, de outra maneira que não aquela por meio de Sua Palavra externa e seus Santos Sacramentos.” — Artigos de Esmalcade, 3, VIII, 3–5, 9–10.
No séc. XVI, Lutero rasgou essa teia de arbitrariedades do Papa. Tudo não passava de invenções humanas, de caprichos de um único homem com exagerado poder e influência. E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus (S. Mat. XV:6). No lugar desse individualismo, Lutero destacou aquilo que é objetivo, elevado e soberano sobre tudo e sobre todos os homens: o Evangelho. Diante do Evangelho, tanto os Papas quanto imperadores devem curvar-se, tanto quanto igualmente deve o mais humilde dos homens. Deus não faz acepção de pessoas. Diante Dele, todos são homens e somente Ele é Deus.
O Evangelho foi-nos revelado dos céus. Foi uma revelação de Deus. O Evangelho não é desse mundo. Não era um fator dentre outros fatores terrenos. Era algo distinto, um dom dos céus, de natureza celeste, entregue a nós, homens. Deus falou da Eternidade o que se pôde ouvir na terra. A sua Palavra eterna revelou-se e teve sua completude em Jesus Cristo, sua crucificação vicária, sua ressurreição gloriosa, sua ascensão profética.
A revelação da Palavra de Deus — o “sim” de Deus aos homens desde a Eternidade — , isso o frade Martinho Lutero encontrou nas Sagradas Escrituras. Qualquer noção espiritualista de separação entre Palavra e Escrituras era algo absolutamente estranho a esse homem de Deus, dotado do bom senso camponês, que sempre optava por pensar o Evangelho em categorias concretas. Por outro lado, porém, a Palavra de Deus não era o mesmo que uma palavra simplesmente lida ou ouvida. Era uma realidade viva e operante, cheia de graça e abundância. No Evangelho da Palavra, Lutero encontrou o Salvador vivo, que Ele mesmo era o Verbo de Deus que se fez carne. No Evangelho, Lutero encontrou os santos sacramentos que, em nossos tempos profanos, convém enfatizar que o próprio Lutero viveu toda sua vida de forma profundamente marcada pelo Sacramento, de forma que ele teria se voltado com grande e justa fúria e violenta indignação contra todos os protestantes que buscam exaltar a Palavra em detrimento dos sacramentos. Pois para o frade Martinho, a Palavra de Deus não era de modo algum apenas a palavra lida nas Escrituras ou ouvida na pregação do púlpito; era, sim, o conteúdo de toda aquela riqueza inestimável que flui das Sagradas Escrituras: Evangelho, Sacramento, Oração.
Isso significa que se há algo que é verdadeiro é que a consciência de Martinho Lutero não era livre, mas completa e absolutamente cativa à Palavra. Provavelmente ele teria desejado ser livre, de início. Seu cativeiro monástico lhe era muito penoso. Mas a Palavra forçou o insignificante monge a sair de sua enxuta e acolhedora cela monástica para tratar do Evangelho diante de prelados do Papa e Imperadores. Não é correto dizer que suas palavras na Dieta de Worms tenham tremido apenas por êxtase de triunfo. Também vibraram pela angústia de uma consciência cativa, constrangida, cingida pelo Altíssimo, conduzida para halls e salões onde ele, o frade Martinho, jamais temeria ir. É certo que Lutero não se apresentou diante dessas audiências destacadas para expor-lhes uma opinião pessoal. A Palavra de Deus havia lhe colocado a seus serviços. Ele não poderia fazer outra coisa que não aquilo que a Palavra o comandava a fazer. Ele se apresentava aos ouvintes como um dos profetas do Antigo Testamento, impulsionado por Deus e não pelos seus próprios desejos, opiniões, vontades. Sua consciência, de fato, nos conquista uma reverência; não porque fosse livre, mas porque era cativa à Palavra de Deus.
Luther at the Diet of Worms, 1521, (1936). ‘Luther Auf Dem Reichstag Zu Worms, 1521’.
Sob essas considerações, dificilmente se pode afirmar que Lutero foi um porta-voz do individualismo da consciência. Mas Lutero sempre teve que se conformar com o retrato que seus adversários ou que seus “herdeiros” quiseram retratá-lo. Durante a Era do Pietismo, consideravam que Lutero havia enfatizado, principalmente, a conversão. Na Era do Iluminismo, foi transformado num cavaleiro da Era das Luzes, um Mestre Alemão zeloso pela alfabetização e educação popular, um demolidor da velha dogmática medieval e porta-voz da libertação individual — como um São Jorge em batalha contra o dragão da Babilônia-Roma e da opressão medieval da liberdade e consciência do humanismo Iluminista.
Esse último retrato se manteve nos últimos tempos ainda que pese as últimas pesquisas luteranas tenham, em grande parte, modificado o retrato “tradicional” de Lutero — embora aguardemos ainda um pesquisador que esclareça sua vida sacramental a fim de que saibamos com que frequência Lutero se confessava e comungava o Santo Sacramento.
É certo, então, que toda tentativa de retratar Lutero como um individualista espiritualista anti-sacramental está fadada ao fracasso. Isso representaria uma completa remodelação da imagem do Reformador conforme a visão predominante em nosso tempo. A marca sacramental que caracteriza a Renovação da Igreja é plenamente evangélica e mais fiel às próprias intenções de Lutero do que a falta de compreensão sobre os Sacramentos tenha conferido à Igreja da Suécia aquela feição racionalista que, em tão alto grau, tem se distinguido nas últimas décadas.
메타데이터
- post_id
- fce55650f2dd
- slug
- a-falácia-do-individualismo-luterano-palavra-e-sacramento-na-reforma-pe-gunnar-rosendal-fce55650f2dd
- url
- https://medium.com/@matheus.arj07/a-fal%C3%A1cia-do-individualismo-luterano-palavra-e-sacramento-na-reforma-pe-gunnar-rosendal-fce55650f2dd
- canonical_url
- https://medium.com/@matheus.arj07/a-fal%C3%A1cia-do-individualismo-luterano-palavra-e-sacramento-na-reforma-pe-gunnar-rosendal-fce55650f2dd
- author_url
- https://medium.com/@matheus.arj07
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-07 16:23:37