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O Amor entre a Falta e o Consumo: Uma Travessia Filosófica

Da falta estrutural ao ato de coragem: as metamorfoses do amor na história do pensamento

Tadashi Suguiura Junior · 2026-07-01 13:47 · 0 claps · 10.8 min read
#filosofia #amor #sociologia #psicanalise #psicologia
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O Amor entre a Falta e o Consumo: Uma Travessia Filosófica

Da falta estrutural ao ato de coragem: as metamorfoses do amor na história do pensamento

Les Amants de René Magritte

Les Amants de René Magritte

Amor é fogo que arde sem se ver,

É ferida que dói, e não se sente;

É um contentamento descontente,

É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Amor é fogo que arde sem se ver…

Luís de Camões

Poeta e soldado português

I. A Falta Original

O amor, sentimento tão disseminado nas falas diversas de bocas profanas desde os primórdios dos tempos, carrega em si um certo mistério. É notório, via empirismo, que todos acreditam saber o que é o amor. Contudo, apesar de falado e sentido, não se é sabido as nuances de tal sentimento enfadonho.

Estudiosos dedicaram tempo, estudo e observações a esse fenômeno quase que social, mas ao mesmo tempo biliar e bestial, grudado nas entranhas do instinto acumulado, guardado nas memórias genéticas de cada ser humano.

É interessante ver como a sociedade viu o amor no decorrer do tempo, por exemplo, partindo da filosofia ocidental, o amor fora concebido inicialmente como uma força movida pela ausência. A potência estruturalmente ligado no “falta-a-ser”, onde o belo habita na ausência, no hiato incompleto faltante.

Lateralmente a essa ideia, na obra Banquete de Platão, o amor, conceitualmente tido como Eros, não é um deus pleno, mas um daimon híbrido, filho de Pênia (a Pobreza) e Recurso (a Riqueza). É interessante essa analogia de dois conceitos antagônicos quase que dicotômicos em sua essência se fundirem em uníssono nesse sentimento tão mal interpretado que é o amor. Afinal, quem realmente conhece e enxergue uma besta metade excesso e metade falta, tais quais Pênia e Recurso.

Platão, por meio do discurso de Diotima, nos ensina que o amor

“é filho da pobreza e da riqueza: da pobreza, porque constantemente pede, e da riqueza porque constantemente se dá”.

O amor é, assim, desejo daquilo que não se tem:

“o amor é a busca do todo”.

Em outra passagem, Platão afirma que:

“o amor é uma força, uma energia, que se manifesta na alma como um sentimento de lembrança de algo que a alma já teve, mas perdeu”.

Amar é, portanto, recordar-se de uma plenitude perdida e mover-se em direção a ela.

No Fedro, essa dimensão se intensifica: o amor é apresentado como uma forma de loucura divina que arrebata a alma para além de si mesma.

Platão nos adverte, porém, sobre os perigos do amor que se fixa no corpo:

“É mau aquele amante popular, que ama o corpo mais que a alma; pois não é ele constante, por amar um objeto que também não é constante”.

O amor verdadeiro, para o filósofo grego, é aquele que ultrapassa a aparência e busca a essência, uma busca infinita pelo Belo em si.

II. O Amor como Estratagema da Espécie

Avançando um pouco mais no tempo, sendo mais exato para o século XIX, temos o autor Arthur Schopenhauer, que em sua obra O Mundo como Vontade e Representação, especificamente no capítulo conhecido como Metafísica do Amor, oferece ao grande público uma leitura radicalmente distinta, mas igualmente fundada na ideia de falta.

Para o filósofo alemão, o amor não é uma escolha livre do indivíduo, mas um ardil da Vontade da espécie. O apaixonado, segundo Schopenhauer,

“é dominado pelo espírito da espécie que o domina ao ponto de o arrancar a si próprio; os seus atos não correspondem à sua individualidade”.

O amor é, em sua essência, um mecanismo de perpetuação da vida:

“Recebeu a missão de iniciar uma série indefinida de gerações dotadas de determinadas características”.

O sentimento poético e sublime que acompanha o amor não passa de uma máscara:

“o amor é um acontecimento poético, mesmo na existência do homem mais prosaico”.

A falta que move o amor, para Schopenhauer, não é individual, mas da própria espécie, que se utiliza dos indivíduos para sua continuidade.

Aqui o amor toma outra forma, ainda que ancorado na ideia posterior de ser sustentado por uma falta, observa-se aqui que aquilo que o move é na realidade algo mais instintivo do que o mero culto pelo Belo.

Tem-se aqui, portanto, uma ideia que explica o porquê fisiológico do amor, contudo carece de explicações, desdobramentos da experiência do amar como verbo de ação, como o amor subjetivo intrínseco da nossa psique.

III. O Amor como Potência de Afirmação

Ainda no mesmo século, seguindo por outra vertente temos Friedrich Nietzsche, por seu turno, subverte (como de costume do autor) essa lógica da falta. Em Assim Falou Zaratustra, o amor não é carência, mas sim um transbordamento. Nietzsche apresenta o amor como uma dádiva que se oferece ao outro, e à própria vida. Em uma das passagens mais célebres, Zaratustra diz:

“Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens”.

O amor nietzschiano é a afirmação incondicional da existência, o amor fati: o amor ao destino, a tudo o que acontece. Em A Gaia Ciência, Nietzsche nos provoca com uma pergunta desconfortável:

“O nosso ‘amor pelo próximo’ não será o desejo imperioso de uma nova propriedade? ”

O amor, para Nietzsche, corre sempre o risco de se tornar posse, mas sua verdadeira potência está em saber dizer sim à vida,

“quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!”.

O amor, assim, não é uma falta a ser preenchida, mas uma potência a ser exercida.

Assim sendo, Nietzsche fez essa ruptura do amor como falta e trouxe, detalhamentos diversos do imperialismo do amor até então, baseava-se num pilar inexistente faltante. O autor traz consigo novas perspectivas do sentimento, e o eleva a um nível mais tangente da posse colonizadora que ocorre entre os homens e ao mesmo tempo aborda uma nova visão, o amor fati, que representa mais do que uma resignação passiva e milita na aceitação radical, ao mesmo tempo entusiasta, de tudo que ocorre na vida.

IV. O Amor e o Narcisismo

Adentrando em terrenos mais sombrios da psique e do subjetivismo humano tão inexplorado até então, Sigmund Freud, nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), desloca o amor para o terreno do pulsional, mostrando como a sexualidade infantil e as vicissitudes da libido moldam a vida amorosa adulta.

Tem-se então aqui, um movimento que carecia outrora, um deslocamento interno do que diz respeito ao amor voltado para si. Percebemos então, que o que anteriormente era conceituado de modo externo, qual seja o amor como uma falta do outro, aqui tem-se o amor como uma questão interna.

Em seu texto Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914), Freud aprofunda essa reflexão ao afirmar que a escolha amorosa está sempre fundada sobre o narcisismo originário:

“Que a escolha de objeto se faça por apoio ou que ela seja narcísica, está sempre fundada sobre o narcisismo originário”.

O amor, para Freud, envolve sempre uma renúncia narcísica:

“Um indivíduo que ama priva-se, por assim dizer, de uma parte de seu narcisismo, que só pode ser substituída pelo amor de outra pessoa por ele”.

Amar é, a partir do ponto de vista do autor, um movimento que nos tira de nós mesmos, mas que também nos devolve, transformados, ao outro. Chega a ser complexo, mas pode-se dizer que o ato de amar é “mergulhar-se” para fora, a grosso modo.

V. O Amor como Falta Estrutural

Ainda na seara mais íntima, voltada pra si, temos Jacques Lacan que retoma e radicaliza essa tradição. Em O Seminário, Livro 8: A Transferência, Lacan nos mostra que o amor é essencialmente uma demanda de reconhecimento:

“Amar é querer ser amado”.

O amor, para Lacan, é uma paixão ignorante do desejo, uma tentativa de suturar a falta que, no entanto, nunca se fecha. No Seminário, Livro 20: Mais, ainda, Lacan explora o amor como suplência à inexistência da relação sexual: o amor é o que tenta dar consistência ao que é, por estrutura, inconsistente. O amor, nessa perspectiva, é uma resposta à falta radical que habita o sujeito uma falta que não pode ser preenchida, apenas contornada, nesse contexto em O Seminário, Livro 8: A Transferência ele diz:

“Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer.”

Nesse momento histórico-psicanalítico retornamos no conceito do amor como falta, retornamos aos célebres filósofos gregos clássicos, que muito penaram por conceituar os mais diversos temas, entre eles o amor. Lacan nesse modo diz que que

“não existe relação sexual”

conotando que não há uma harmonia perfeita ou um encaixe exato entre dois seres Homem e mulher (ou quaisquer duas partes) falam línguas desejantes diferentes; o abismo entre os corpos e as mentes é intransponível.

É aí que, para o autor, entra o amor. O amor funciona como uma espécie de “fita adesiva psicológica”, ele vem para mascarar esse vazio, criando a ilusão de que “dois se tornam um”. O amor faz a mediação entre o nosso isolamento (falta) e o outro.

VI. A Mercantilização da Falta

Nesse momento compreendemos que o amor, por muitos dos célebres pensadores que ditam o rumo do pensamento crítico ocidental ligaram o sentimento amor a uma falta, correto? E é precisamente nesse ponto, na impossibilidade de preencher a falta, que a sociedade contemporânea começa a intervir.

Se o amor sempre foi, em alguma medida, uma resposta à falta, o que os pensadores atuais nos mostram é que o capitalismo tardio, ou também mais especificamente o Capitalismo Pulsional (ALEMAN), transformou essa falta em uma mercadoria.

Assim sendo, hodiernamente falando, em matéria de amor em uma abordagem sociológica, não podemos deixar de citar Zygmunt Bauman, que conhecidamente em sua obra Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos (2003), descreve um mundo em que os vínculos afetivos se tornaram tão descartáveis quanto objetos de consumo. Bauman afirma que, na modernidade líquida,

“até mesmo a afinidade está se tornando algo pouco comum em uma sociedade de extrema descartabilidade”.

O amor, antes uma construção de longo prazo, torna-se uma experiência de curta duração, sujeita à lógica do “use e descarte”. Pode-se observar tal fato, ao lembrarmo-nos que até poucas décadas atrás em diversas sociedades, o casamento era uma união cívico-religiosa, unindo Deus (a igreja) ao Estado para criar um contrato (daí a necessidade de testemunhas) indissolúvel. Hoje o casamento não tem o peso categórico de uma

Ainda na seara sociológica, aprofundando um pouco o olhar nessa vertente hipermoderna do amor e seus atributos, a professora e socióloga Eva Illouz, em O Consumo da Utopia Romântica e Por que o amor dói, aprofunda essa análise ao mostrar como o amor foi capturado pelas lógicas do mercado. Para Illouz,

“a densidade do amor começa a dissolver-se no ar do consumo, do ócio e do prazer”.

O amor torna-se um bem a ser consumido, e a escolha amorosa, um cálculo racional de custo-benefício. O outro deixa de ser um mistério a ser descoberto e torna-se um objeto a ser avaliado, comparado e, eventualmente, substituído. Nesse sentido, surgem termos como “relação de baixa manutenção” uma jogada da linguagem, que demonstra bem o local onde as relações estão sendo colocadas no dia de hoje.

Finalizando a sessão de autores contemporâneos, agora trazendo uma visão filosófica, temos o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, que em sua obra Agonia do Eros (2012), oferece a crítica mais contundente: o amor verdadeiro exige a experiência da alteridade radical, do outro como outro, mas a sociedade contemporânea, marcada pelo narcisismo generalizado, elimina essa alteridade.

Han argumenta que:

“é difícil renunciar ao cálculo, ao narcisismo”,

e que o eros, a força que nos arranca de nós mesmos em direção ao outro, agoniza numa cultura que só reconhece o mesmo. O amor, na sociedade do desempenho, torna-se mais uma técnica de auto aperfeiçoamento do que uma experiência de abertura ao outro.

Finalizando toda essa parte conceitual, o que esses três autores nos mostram, em conjunto, é que a sociedade contemporânea não apenas reconhece a falta, ela também a explora. A falta é transformada em desejo de consumo, e o amor, em mais um produto a ser adquirido. O outro é reduzido a um espelho de nós mesmos, e a alteridade, condição de possibilidade do amor verdadeiro, é aniquilada.

VII. O Amor como Ato de Coragem

Mas para todo esse desespero mercantil amoroso há uma saída. Bell Hooks, em Tudo sobre o amor: novas perspectivas (2000), nos convida a resgatar o amor como prática cotidiana, como escolha e como ato de coragem. Para Hooks, o amor não é um sentimento passivo, mas uma ação deliberada:

“O amor é uma combinação de cuidado, compromisso, conhecimento, responsabilidade, respeito e confiança”.

Uma definição que exige de nós muito mais do que o mero consumo ou a contemplação. O amor, para Bell Hooks, é uma prática de libertação, tanto individual quanto coletiva. Ela nos lembra que o amor verdadeiro é sempre político: ele nos arranca do isolamento narcísico e nos conecta ao outro em sua humanidade plena.

Alain Badiou, por sua vez, em Elogio ao amor, propõe que o amor é uma aventura do pensamento, uma experiência que nos força a sair da mesmice do “um” e a entrar na complexidade do “dois”. Para Badiou:

“o amor exige um tipo de confiança absoluta no outro; uma vez que vamos aceitar que esse outro esteja totalmente presente em nossa própria vida”.

O amor não é um contrato de consumo, ou um contrato de adesão onde ao se cadastrar em uma plataforma você simplesmente “aceita os termos de uso” e começa a usar, mas sim um evento que transforma radicalmente nossa existência.

“Para que o amor dure, é preciso se reinventar”.

E essa reinvenção é, em si mesma, um ato político, uma recusa à lógica da repetição e do descartável. Uma revolução moderna a finitude da superficialidade

Der Kuss — Gustav Klimt

Der Kuss — Gustav Klimt

Agora em minhas palavras, arrematando tudo o que vimos aqui, sintetizo dizendo que o amor, não é nem o simples preenchimento de uma falta, nem a pura afirmação narcísica de si. Ele é, antes de tudo, um campo de batalha, onde trava-se uma batalha entre a vontade de posse e a coragem da entrega, entre o consumo e a construção, entre o eu e o outro.

A tradição filosófica nos mostrou a falta como motor; os contemporâneos nos alertaram para os riscos de sua mercantilização; e autores como Bell Hooks e Badiou nos apontaram um possível caminho: o amor como ato de coragem, como prática política, como afirmação da vida em comum.

Amar, no fim das contas, não é encontrar alguém que preencha o que nos falta. É escolher, dia após dia, construir com o outro um mundo que não existiria sem os dois.

Referências

ALÉMAN, Jorge. Neoliberalismo y subjetividad: el dispositivo del capitalismo. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2016.

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

FREUD, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905). In: Obras completas, volume 6. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914).

HAN, Byung-Chul. Agonia do Eros. Petrópolis: Vozes, 2017.

HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2021.

ILLOUZ, Eva. O Consumo da Utopia Romântica: O amor e as contradições culturais do capitalismo. São Paulo: Unesp, 2009.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 8: A Transferência. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

PLATÃO. O Banquete (ou Do Amor). São Paulo: Penguin/Companhia, 2012.

PLATÃO. Fedro. São Paulo: Penguin/Companhia, 2011.

SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e como Representação. São Paulo: Editora Unesp, 2005.


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