Experiência Comum: Como os bens se tornam fontes de frustração em meio a uma realidade fragmentada?
O constante sentimento de frustração que permeia nossa existência, especialmente quando analisamos nossas interações com o consumo, será o…
Experiência Comum: Como os bens se tornam fontes de frustração em meio a uma realidade fragmentada?
O constante sentimento de frustração que permeia nossa existência, especialmente quando analisamos nossas interações com o consumo, será o cerne deste texto. Essa frustração não se restringe meramente a questões financeiras; ela se estende para além, abraçando laços familiares, afetivos e, sobretudo, corporativos. O consumo, ao flexibilizar as relações afetivas, tem se transformado progressivamente em um símbolo de individualismo, fortalecendo predominantemente a conexão entre consumidor e produto. Para embasar essa discussão, recorro ao ensaio “Consumo, logo existo”, de Frei Betto, que aborda a noção de culto ao supérfluo, e aos pensamentos de Richard Sennett e Mary Douglas, que enfatizam como as transformações do sistema capitalista têm contribuído para a criação de laços sociais mais frágeis e centrados no consumo.
A análise de William Nozak em “A satisfação e a frustração na sociedade do consumo” lança luz sobre as transformações das relações individuais com o consumo à medida que o sistema capitalista se reconfigura. Nozak destaca que, no século XX, as relações baseadas no consumo de massa permitiram uma experiência compartilhada, favorecendo uma dinâmica social que valorizava bens públicos e direitos como fundamentais para um pacto social mais amplo. Contudo, no século XXI, essas relações sofrem alterações devido às mudanças na base do sistema. No entanto, o autor não argumenta em favor de uma relação melhor ou pior com o consumo dentro de um modelo capitalista específico. Em vez disso, ele evidencia as frustrações individuais decorrentes do afastamento de noções coletivas, conforme delineado por Sennett, em um sistema que ele descreve como Capitalismo Flexível.
O consumo por demanda, ou consumo customizado, surge como uma modalidade que promove uma experiência individualizada com os produtos consumidos. A possibilidade de escolha personalizada, em contraposição à noção de consumo em massa, pode inicialmente parecer uma característica flexível do novo sistema. No entanto, uma análise cuidadosa revela os efeitos adversos dessa abordagem, munindo uma sociedade patologicamente suscetível a um conjunto de doenças psíquicas, insatisfações crônicas e distúrbios decorrentes das novas concepções de consumo. A construção do desejo inalcançável, a busca pela coisa nova e a constante percepção de falta são noções que ultrapassaram o consumo como algo básico, se sustentaram no supérfluo e vivifica uma sociedade frustrada, que distanciada de sua classe, por ter se tornado um ser individual e independente, alimenta o ciclo da exploração capitalista. Como o Frei Betto abre no seu ensaio, “O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade”. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável”.
Mary Douglas amplia a compreensão do consumo através da lente antropológica, explorando as práticas consumistas dentro das relações afetivas. Dentro da lógica capitalista, o consumo é percebido como um ritual que não apenas reflete, mas também molda laços de integração social, status e hierarquia. A frustração experimentada pelo indivíduo é um reflexo de sua percepção de que sua entrada nos círculos sociais e sua posição neles dependem da prática do consumo. Como observou Marx em seus “Manuscritos econômicos e filosóficos” (1844), “o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós”. Com o avanço da tecnologia, torna-se ainda mais evidente a criação de “necessidades” através do consumo, como uma forma de preencher um vazio constante, ampliando assim as lacunas sociais ao apresentar a compra como uma solução. No entanto, é um equívoco pensar que o consumidor é meramente uma vítima passiva das estratégias publicitárias. Com o progresso tecnológico, o consumidor começa a desenvolver um mínimo de consciência, mesmo que não seja necessariamente crítica, em relação às suas práticas de consumo.
De forma equivalente, temos as análises de Richard Sennett sobre as novas configurações do capital, que permitem refletir como as práticas imediatistas reverberam, principalmente, nas relações corporativas e corroboram para a infelicidade do indivíduo em outras áreas. Sennett lança luz de um novo modelo de sistema, que vai chamar de “Capitalismo Flexível” e nessa configuração, as críticas são direcionadas à rígida burocracia que “dificulta” a vida do trabalhador. Defendendo a ideia de que o sistema burocrático contribui para inibição do potencial do indivíduo, há uma crescente demanda por maior agilidade e produtividade de forma individual, distanciando o trabalhador das legislações e procedimentos formais que o protegem como membro de uma classe operária, por exemplo. Neste sistema imediatista, a concepção de “a longo prazo” foi descartada, e a ideia de planejamento de carreira raramente é mencionada sem a ênfase em “assumir riscos” e estar disposto a mudanças a curto prazo. É comum encontrar, até mesmo em requisitos para vagas em determinadas áreas, a frase “estar aberto à mudança de localidade”, o que evidencia a necessidade crescente de os trabalhadores abraçarem a ilusão de inovação e flexibilidade, embora na verdade isso represente uma armadilha de conexões superficiais.
A pergunta de Sennett, “Como decidimos o que tem valor duradouro em nós numa sociedade impaciente, que se concentra no momento imediato?”, é uma provocação relevante para examinar a dinâmica do sistema capitalista contemporâneo. Em “A corrosão do caráter”, Sennett narra a história de um indivíduo que, devido a escolhas em sua carreira, se vê obrigado a mudar de residência várias vezes. Um aspecto interessante a se considerar é a reclamação desse indivíduo ao conhecer novos vizinhos, revelando um fenômeno de apagamento do passado em prol do novo. É neste contexto que surge a questão: “Como pode um ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de episódios e fragmentos?”. As diversas interrogações que Sennett apresenta ao longo de seu livro são análises que nos permitem compreender que o sistema não se resume a um plano corporativo, mas sim a práticas de produção e consumo que tendem a reduzir o indivíduo a padrões sistemáticos, minando suas relações com o mundo ao seu redor.
A substituição progressiva da noção de “direito” pela relação de consumo evidencia um deslocamento dos indivíduos em relação à construção do bem comum ou público, à medida que enxergam sua experiência pessoal como algo único e singular. Assim como aponta Nozac, as possibilidades de partilha de uma experiência coletiva comum vão sendo sistematicamente transformadas em desejo, construção de experiências pessoais singulares, corroborando então para uma sociedade cada vez mais frustrada, na qual os indivíduos lutam para adquirir bens, sem perceberem que, podem ter lançado mão da cultura de consumo em massa para se distanciar e criarem identidades próprias, mas compartilham, em massa, o mesmo desejo secreto: preencher o barulhento vazio que é superficialmente coberto por laços frágeis em meio às práticas de consumo.
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