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Maré Alta: Filme protagonizado por Marco Pigossi e dirigido por seu marido, Marco Calvani, é uma…

"Maré Alta" quebra o ciclo vicioso de filmes queer com finais trágicos e pessimistas, equilibrando perfeitamente a aceitação pessoal com a…

Diogo Henriques · 2025-04-10 23:48 · 0 claps · 9.6 min read
#high-tide #marco-pigossi #movıe #queer #gay
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Maré Alta: Filme protagonizado por Marco Pigossi e dirigido por seu marido, Marco Calvani, é uma ode queer à jornada de autodescoberta do homem gay moderno.

"Maré Alta" quebra o ciclo vicioso de filmes queer com finais trágicos e pessimistas, equilibrando perfeitamente a aceitação pessoal com a intimidade compartilhada entre dois homens gays.

Divulgação: (LD Entertainment)

Divulgação: (LD Entertainment)

Aviso de conteúdo sensivel!

Em um flashforward, o filme do diretor italiano Marco Calvani começa com o personagem de Pigossi correndo pela praia em um frenesi melancólico, despindo-se e jogando-se ao mar enquanto o mesmo lê em sua língua materna, o português brasileiro, como um solilóquio shakespeariano, o poema “Canto do Regresso à pátria” de Oswald de Andrade. O poema segue:

"Minha terra tem mais rosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra

Ouro terra amor e rosas Eu quero tudo de lá Não permita Deus que eu morra Sem que volte para lá"

Em “Maré Alta” (High Tide, 2024), Lourenço — personagem de Marco Pigossi — é um imigrante brasileiro que está trabalhando como limpador de casas e faz-tudo para um gringo mala chamado Bob (Sean Mahon) na cidade de Provincetown — ou “P Town” como é referenciada pelos mais íntimos. Um ponto turístico LGBT no condado de Barnstable em Massachusetts. Já no final da temporada de verão, Lourenço é confrontado com a expiração próxima de seu visto enquanto lida com o conturbado fim de um relacionamento com seu ex-namorado, Joe.

O personagem de Pigossi mora na casa dos fundos de um americano que faz as vezes de uma figura paterna queer para Lourenço, Scott — sutilmente interpretado por Bill Irwin. Os dois são confidentes e se ajudam de forma mútua, Lourenço que precisa de uma figura de amparo pós-término e Scott, que confronta a velhice sozinho após perder o amor de sua vida para a epidemia da Aids.

No espaço em que encontra momentos para ócio, Lourenço passeia pela praia de Herring Cove e nada ao mar. Em um desses passeios, ele encontra o jovem Maurice — interpretado por James Bland com um carisma e uma profundidade genuínos — e seu grupo de amigos LGBT que estão curtindo o final da temporada em “P Town”. A conexão dos dois é instantânea e conduz a narrativa do filme até o final.

Divulgação: (LD Entertainment)

Divulgação: (LD Entertainment)

Contudo, a narrativa de “Maré Alta” se propõem a ser mais do que uma história de romance entre os personagens de Pigossi e Bland, mas um delicado e atento olhar para as nuances da vivência queer em toda a extensão de seu espectro: desde a experiência sexual, até aos cuidados médicos, amizades, amores, compreensão da limitação e da elasticidade do prazer íntimo.

O filme de Calvani conta o mundo a partir da perspectiva de Lourenço. O personagem de Pigossi é retratado com uma doçura e uma vulnerabilidade que é encantadora. Parte dessa intimidade completa e desvelada advém da própria intimidade compartilhada entre diretor e ator protagonista, tendo em vista que os dois são casados. Calvani é visível e completamente apaixonado pelo marido e faz dele sua inspiração mais poética possível, é como se pudéssemos ver, através da ótica de Calvani, Lourenço (ou Pigossi); e através da ótica de Lourenço, o mundo. É devastador e encantador, ao mesmo tempo, a beleza contida nas experiências queer adultas, sentidas e vivenciadas por um homem que está apenas tentando encontrar seu lugar no mundo.

Pigossi, mesmo nas cenas em que está completamente vestido, parece nu. E em algumas cenas, de fato, nu de corpo e alma. As cenas de nudez do filme são sempre feitas com uma intenção poética de retratar os corpos daqueles dois homens em intimidade como objetos separados que, pela magia da conexão que compartilham, se unem em um equilíbrio físico que mancha a tela como se fosse uma pintura. A nudez individual também é extremamente bem utilizada na representação do emocional cru e completamente exposto de Lourenço, ela está sempre com tudo de si para o mundo à sua volta.

Os fatores externos o conduzem para que esse elemento psicológico carregado o deixe emocionalmente exposto. Seja pela iminência do fim de sua estadia nos Estados Unidos, que culminaria em seu retorno para o Brasil, ou pelas ligações incisivas de sua mãe, que não sabe que o filho é gay. Esse retorno ao berço de origem faz sua presença como um fantasma na narrativa desde o início com o poema de Oswald de Andrade. Essa ameaça é uma corda no pescoço de Lourenço, que teme ter que voltar para sua cidade natal, Itu, no estado de São Paulo. Para ele, o retorno não é ao lar, pois ele ainda persegue esse conceito em algum lugar, alguma pessoa, "algum". Ele está à procura de seu lar e sabe que não é em Itu, até porque o retorno seria marcado por aflições religiosas, levando em conta o ambiente de cidade pequena e a própria religiosidade da mãe. A volta para casa seria uma aniquilação, um anulamento do ser que custaria mais caro do que sua própria vida. Custaria a identidade de seu ser.

Para além da bagagem familiar, o término com Joe fez com que a lógica de mundo de Lourenço fosse roubada. Ele foi para Provincetown com o ex-namorado e, depois que esse partiu, o rapaz permaneceu parado no tempo, estagnado em sua rotina: trabalho e limpeza; ócio e praia. A ideia de propósito parece vagar amorfa sem se materializar, até que, claro, ele conhece Maurice.

Divulgação: (LD Entertainment)

Divulgação: (LD Entertainment)

A chegada de Maurice quebra o ciclo de dormência que afligia Lourenço. Essa letargia, não física, mas de reciprocidade emocional, onde ele parecia carente por alguém, uma contraparte, que procurasse o entender em algum grau — além do imigrante (como Bob, seu chefe, o percebe), do jovem gay a ser tutelado (como Scott o percebe) ou do objeto de satisfação sexual sem desejos próprios (como outro homem o percebe em um momento de relação sexual) — é dissipada com a chegada de Maurice.

Há até mesmo uma dicotomia abordada entre a vontade pelo sexo e o desencontrar do prazer em situações de sexo casual que podem ser consideradas de alta perigosidade. Em uma cena no início do filme, após conhecer um homem em um bar gay, Lourenço o acompanha até sua casa com a intenção de praticar sexo casual. A situação é completamente impessoal e desajeitada, como muitos encontros com a única finalidade sendo o sexo sem intimidade, geralmente os são, mas durante a penetração, o homem em questão não espera por Lourença pegar uma camisinha e o penetra sem o uso do preservativo. Lourenço objeta a decisão, mas continua a relação. O tema do abuso fica subentendido até que é concretizado no final da relação sexual, quando o homem avisa que vai gozar e Lourenço pede para que ele não o faça dentro dele. O homem continua até o final sem se preocupar com as negativas do parceiro.

O filme retrata de forma clara uma cena de abuso sexual que todo homem gay passivo ou versátil pode enfrentar em relações sexuais.

Depois disso, Lourenço conversa com seu amigo Dimo para lhe oferecer PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), medicação usada antes da relação sexual que prepara o organismo caso entre em contato com o vírus do HIV. Contudo, o próprio amigo de Lourenço o avisa que a melhor solução para seu problema seria a PEP (Profilaxia Pós-Exposição), medicação tomada após o contato sexual com potencial exposição ao vírus. Lourenço, com o visto prestes a ser expirado, não pode ir até uma clínica se consultar para pegar PEP, então aceita a PrEP mesmo sabendo que o remédio não é apropriado para seu caso.

O filme não procura julgar ou banalizar o sexo casual desprotegido, mas visa conscientizar sobre opções e precauções que podem ser tomadas, tanto antes quanto depois. Mas a narrativa também mostra que a posição de Lourenço como imigrante em um país como os Estados Unidos não é confortável. Contador de formação, lá ele apenas limpa casas. Com uma carteira do SUS, no Brasil, ele pega tanto PrEP quanto PEP sem maiores problemas — o que não acontece nos Estados Unidos.

O sexo volta como um elemento forte quando o personagem de Maurice ganha contornos mais profundos na vida de Lourenço. Diferentemente da casualidade de um encontro relâmpago, Maurice não está apenas interessado na gratificação instantânea e naquilo que pode tirar para si através do corpo de Lourenço, mas mais instigado emocionalmente pela honestidade desnuda que o personagem de Pigossi carrega por cima da pele o tempo todo.

Divulgação: (LD Entertainment)

Divulgação: (LD Entertainment)

Em uma cena noturna dos dois na praia, Calvani faz questão de enquadrar em um zoom in partes diferentes dos corpos de Lourenço e Maurice enquanto os dois conversam, causando uma inclinação ao detalhe perceptível para ambas as partes enquanto dialogam, mas exposta apenas ao espectador como um segredo do desabrochar íntimo mútuo dos dois homens.

A sutileza com que o relacionamento dos dois é conduzida — desde o momento em que se conhecem na praia, até o primeiro encontro em um restaurante, ou a primeira interação sexual em que Maurice percebe que Lourenço não está confortável com a ideia de penetração e muda a dinâmica para que os dois se sintam confortáveis — é reconfortante.

A câmera parece se aproximar dos dois com tamanha delicadeza, como se os dois merecessem privacidade em meio à própria troca.

O roteiro de Calvani também está preocupado em outras perspectivas dentro do espectro multifacetado dos relacionamentos queer. Um bom exemplo disso é a personagem de Marisa Tomei, Miriam, a ex-esposa de Bob. Ela se divorcia de Bob para seguir sua vida com outra mulher. Bob a ressente e parece amargurado com si e com a própria vida. O despertar da sexualidade ou o seu desdobramento tardio parece pesar com uma diferença geracional, mas também de encadeamento por conta da tomada de decisões.

Há a preocupação da identidade para além da sexualidade. Maurice é um homem preto gay. E com isso há outras questões de identidade atreladas à complexidade de seu personagem, como, por exemplo, a expectativa de uma determinada performance de masculinidade e sexualidade. O diálogo proposto por Calvani entre os personagens é sutil, mas conscientizador e respeitoso ao debater sobre racismo.

Lourenço não é o único em busca de identidade. Maurice possui diversas cenas no filme que ilustram o racismo estrutural como um problema que não é anulado em um ambiente queer seguro. A opressão está em detalhes pontuados pelo mesmo, como na quantidade de pessoas pretas em um restaurante ou até mesmo na cidade, ou de forma mais latente, como quando, ao retornar para buscar sua carteira na casa de Lourenço, é encurralado por Scott empunhando um alicate de jardineiro.

A jornada proposta por Calvani é de uma análise implosiva, de fora para dentro. A partir das influências externas, nossas decisões pessoais são tomadas e como consequência nossas personalidades são moldadas. O questionamento trazido é: onde se encontra o equilíbrio entre essas forças?

A trilha sonora é belíssima e se faz extremamente presente, assinada por Sebastian Plano e eventualmente lembrando alguns dos trabalhos de Max Richter, em específico a faixa “On the Nature of Daylight”.

A fotografia é assinada por Oscar Ignacio Jiménez que faz um trabalho contido e sucinto, mas que embeleza o filme com tons de cores suntuosas que remetem à ideia de mar. A montagem de Anisha Acharya também funciona muito bem ao equilibrar o roteiro e a direção de Calvani.

O diretor parece deslizar com a câmera, completamente hipnotizado com a beleza de Lourenço, captando cada pequeno detalhe, cada nuance, mas respeitando a integridade do personagem através da escolha precisa de planos. Em alguns momentos o isolamento requer um take mais amplo e afastado, outras vezes a pessoalidade clama por atenção aos detalhes do corpo, e a intimidade é sugerida primeiro com a câmera parada e depois que permitida e iniciada, Calvani aproxima o olhar do espectador para perto de forma que o consentimento dos personagens é metalinguístico.

Marco Pigossi entrega uma interpretação radiante, seu carisma preenche a tela com uma doçura que contagia o espectador a se afeiçoar pelo drama de Lourenço em uma entrega empática completa. O trabalho dele é difícil, mas a confiança mútua entre ele e o marido fica clara em tela quando Pigossi dá vida a um homem gay vulnerável em sua busca por identidade e um lugar para chamar de lar.

O tormento religioso pincela a bagagem emocional do personagem, mas não o define. A crise de fé aqui não é de proporções bíblicas, mas psicológicas. O que de verdade está em risco é o crer ou não que há uma vida que valha à pena ser vivida em algum lugar? Talvez em Provincetown? Talvez na Angola, para onde Maurice está de partida em poucos dias? Talvez no homem por quem se apaixonara?

A ideia do pertencimento a partir do reconhecimento de si é o fantasma que perpassa a trama inteira sempre que os violinos da trilha de Sebastian Plano entram em jogo para adensar a melancolia criada na areia e na água salgada de Herring Cove Beach. Afinal, Lourenço nada para fugir de algo ou em direção aos tubarões em alto mar?

Após o ciclo do filme se completar e chegarmos ao ponto do flashforward, o pior que poderia acontecer se dá de forma controlada. Calvani não abre espaço para o melodrama barato; ele está interessado em concluir essa história de forma justa com o personagem ao qual escolheu seu marido para dar vida. E o fim não poderia ser mais digno. Não só porque faz com que a existência do homem gay moderno soe realista com tons de otimismo para as possibilidades boas advindas das escolhas certas, mas porque no íntimo de Calvani, ele vê na gentileza adocicada de Lourenço, seu marido; e nele, acredito eu, ele veja que após toda tempestade, há a bonança da mudança da maré em favor daqueles que vagueiam à procura de seu lar.

Divulgação: (LD Entertainment)

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