Doces e rabiscos
Doces e rabiscos
Entre uma panela e outra de doce feito no fogo brando as mãos se revezam afim de que o doce chegue ao ponto sem erro, no intervalo acendo o toco de um cigarro de cravo molhado por ter sido deixado fora da casa, na escada para que o cheiro não contaminasse nada além do interior do meu próprio corpo.
Soltei a fumaça tentando ritmar respiração e pensamento, são tantos esses últimos.
Acabado o toco, me enojo do cheiro e gosto, e corro pra pia pra lavar a louça e tirar o asco dos dedos.
Dedos com os quais escrevo, me masturbo, faço doces… não condiz segurar um veneno e leva-lo a boca, não condiz, mas…
Quebro a única taça que tenho, durou duas semana essa ultima, quebrou agora, ali na pia. Amanhã devo ir a casa chinesa buscar outra, já que não posso hoje. É noite.
Não gosto de imaginar a falta de uma taça, um gole, um trago, um vinho, um torpor…
Calculo os doces que farei, a cada hora me aperfeiçoo, e aos poucos fico mais habilidosa em saber fazer o doce, em repetir o gosto bom do doce, em gostar de fazer o doce.
Preciso agora saber vender o doce, é indispensável que eu venda o doce. Saiba vender pra todos até pra quem não gosta de doces, eu não gosto de doces! Eu faço doces, bons doces, doces que eu compraria quando necessitasse de um doce.
Ouço Valéria falar da sua familia de escritores e me pergunto: e a minha?
De tanto pensar, lavar e fazer doces sentei com meu copo de qualquer coisa alcóolica de péssimo gosto que lembra medicamento e que comprei, paguei porque tenho necessidade de qualquer alcool a me afogar os pensamentos…e afogam.
Sentada vejo minha imagem refletida no vidro da janela que fora lavado com a chuva dos últimos dias. Me vejo, uma mulher sentada, a escrever. Numa mesa pequena, cheia de canetas, acompanhada de um livro à direito, e uma balança a esquerda e um copo a sua frente.
Essa mulher escreve há tempos, mas nem sempre. hoje ela sentou para escrever, hoje ela pensou no que escrever depois de fazer doces. No intervalo entre preparar e enrolar os doces. Essa mulher leva os cabelos presos, leva uma dor que incomoda o seu pé esquerdo, pés que sustentam ela durante o tempo a mexer o doce, sem parar.
Agora com uma mão ela escreve, com a outra segura a cabeça que descansa apoiada na mão, punho, braço e cotovelo, sobre a mesa.
Ela tá arcada, essa mulher trata de ajeitar a postura quando lembra. essa mulher lembra-se que precisa escrever algo importante, algo que dizem que é necessário. Precisa escrever muito em pouco tempo, isso consome essa mulher, que tem dificuldades para escrever, que não aprendeu a escrever, que só o fez porque precisou. — ela não veio de uma familia de escritores Valéria!
Agora ela precisa tambem, ela quer, mas algo esta impossibilitando isso. E ela não sabe se é o copo alcoólico a sua frente, se é os doces que precisa mexer, enrolar pra depois vender, ou se é a balança que quer pôr peso em tudo isso que ela carrega.
Essa mulher gosta de escrever. Aprendeu a fazer doce sem gostar, essa mulher deve vender o que produz. Ela sabe que esse é o peso que lhe conduz.

메타데이터
- post_id
- fe6c44154d2a
- slug
- doces-e-rabiscos-fe6c44154d2a
- url
- https://medium.com/@nkaueny/doces-e-rabiscos-fe6c44154d2a
- canonical_url
- https://medium.com/@nkaueny/doces-e-rabiscos-fe6c44154d2a
- author_url
- https://medium.com/@nkaueny
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-25 09:32:35