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Confie na Mente #014

Sóis Deuses  (sertão)   Mortais serão

Chris Calvet · 2024-01-05 16:52 · 7 claps · 3.7 min read
#music #música #spotify #tidal #playlist
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Confie na Mente #014

Sóis Deuses

(sertão) Mortais serão

Durante um ensaio fotográfico recente deu-se um rico papo sobre música. Principalmente sobre a psicodelia de Recife nos anos 70, rebocada pelo cultuado Paebirú de Lula Côrtes e Zé Ramalho — um dos maiores e mais raros tesouros da música brasileira. Desafio enorme procurar nos streamings, clássicos do vinil que estavam perdidos em MP3 por aí e pela pouca coisa que está disponível, vale uma expansão, ora por outros territórios no nordeste, ora pela congruência na psicodelia. Faixas poderosas e pouco conhecidas de artistas que se afastaram dos sóis cósmicos que banham o sertão oscilam com violas ou sítaras que seriam tocadas em qualquer deserto indiano.

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Para quem gosta de procurar o espantalho no Sertão, segue o longo texto completo:

O primeiro ato não poderia ser mais clichê: faixa de Paebirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho, arautos da psicodelia sertaneja recifense dos anos 70, que se conecta em felicidade total com um dos discos mais incríveis e obscuros da cena: *No *Sub Reino dos Metazoários, de Marconi Notaro e Robertinho. Ave Sangria entra com um Rock n’ Baião, quase um Rock n’ Coco. Quais estilos? Não importa, apenas a fusão. O Sol também ilumina a Bahia, que começa a dar as asas a uns tais Novos Baianos, ainda novíssimos, mostrando que o mundo dará ainda muitas voltas ao redor dos muitos Sóis, com incríveis riffs mutantes (com trocadilho, por favor). A mistura continua mas em um ritmo mais lento, com Paulo Diniz se dividindo entre a violada e o baião, homenageando George Harrison e Syd Barrett* como se estivessem conversando num Sertão de Canterbury*.

Uma viola cantada em ritmo de procissão, de cortejo, abre o segundo ato, com a classiquíssima Pavão Mysteriozo, de Ednardo. A surpresa é que outro dos discos mais cultuados da cena está no streaming: Flaviola e o Bando do Sol, que estava muito conectado rítmica e esteticamente com — olha ele aí de novo — Barrett mas também Nick Drake e até Tim Buckley. Sua voz rouca e doce, leve e intensa, cheia de ambiguidades, conversa com letras tão cortantes quanto a ponta de um espinho. Flaviola canta desilusões da dimensão do sertão e outros vazios que sol nenhum preenche. E se o caso é desilusão, uma das maiores bandas já feitas na história está neste disco de Dominguinhos, Oi, Lá Vou Eu, que tem arranjos de Hermeto, Donato, Tiso e Pedrinho Albuquerque, que tocam com… Jackson do Pandeiro, Mauro Senise, Toninho Horta entre outros. Mas o ritmo precisa voltar a acelerar… calmamente porque o sol derrete junto com doses cavalares de LSD. Este crescendo vem num discaço ao vivo de Alceu Valença, que como um trem do meio dia, acelera como um vento alísio.

A estação para neste terceiro ato para pegar um passageiro pouco conhecido, com gravações muito bissextas em sua carreira , Jorge Mello, mas o que pensamos nós sobre isso? Só coisas boas e leves nesse baião espacial, que se anuncia na espetacular e multifacetada, de arranjos tão complexos quanto brilhantes, criada por uma das mentes mais poderosas das artes brasileiras, Sergio Ricardo, que evoca seus gigantes mitológicos do cangaço. Praticamente nenhuma música poderia dar sequência a tamanha potência, a não ser que estivesse em um esconderijo metafísico onde o Sol se esconde a noite para voltar no dia seguinte: Uauá, de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik, que musicaram o Grupo Corpo no maior de seus musicais, Parabelo.

O último ato talvez seja o mais diverso e mais longo. Dá lugar para a máquina pop de vez, sem perder sua coragem e sua veia na fusão com os ritmos. É bonito ver o sambalanço de Odair Cabeça de Poeta fazendo uma fusão que faz jus a João Donato e Erlon Chaves, que conecta-se em seguida com arranjo funkeado e a graça potente da voz de Cátia de França, da Paraíba. Gal Costa mantém obviamente essa máquina pop viva, com a delicadeza mais tenra a ferocidade mais intensa das guitarras tropicalistas, como se fossem deuses debochando da louvação por chuva. A corrente eletrificada se mantem na louvação e no sacrifício dos irmãos de Ednardo: **Clodo, Climério e Clésio* (com Fagner e Ednardo). O paraíso ou inferno continuam eletrificados, na Dylanesca “Jardim das Acácias”, de Zé Ramalho, que brada como um hino ao um por do Sol para amanhecer Amelinha abrindo a janela e duplando com Fagner, doce e solar, como se Elis e Tom tivesse sido gravado no sertão… e a máquina mecânica, doce e repetitiva de Belchior **começa a encerrar esta que é a mais longa lista de música já feita na história destas playlists.

O epílogo fica por conta de : Mombojó. Sim… Não dá para falar desta mistura histórica sem chegar a banda de Recife que, entre altíssimos e baixíssimos talvez tenha conseguido conciliar tamanha bagagem com todas as ambiguidades que possa carregar tudo que se ouviu até então: melancolia e alegria; louvação e festa; passado e futuro; melodia e barulho; juventude e experiência; luz e sombras; Sol e Sóis. O encerramento fica por conta de um clássico também valiosíssimo em vinil, que agora está em formato digital: Satwa, de Lula Côrtes e Laílson, com “Valsa dos Cogumelos”, título do livro recente, que traça toda história da rica cena psicodélica de Recife.

Confie no sol e na expansão. Saia do Shuffle. Toque na ordem.


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