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Volta

Achei que neste último dia do ano seria uma boa falar sobre a volta do Pic-Nic, a banda da qual faço parte, nascida em 2001. A banda voltou…

Guidi Vieira · 2025-12-31 23:26 · 0 claps · 5.0 min read
#picnic #rj #indie-rock #rock-alternativo #rio-de-janeiro
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Volta

Achei que neste último dia do ano seria uma boa falar sobre a volta do Pic-Nic, a banda da qual faço parte, nascida em 2001. A banda voltou em 2021; já se passaram quatro anos, voando, desde o nosso retorno. Acho que já não preciso mais pensar duas vezes antes de falar sobre — a volta foi e está sendo para valer.

O Pic-Nic acabou em 2007, depois de seis anos e meio de existência. Foi algo inevitável. Se continuássemos, é claro, teríamos feito muito mais músicas, teríamos espalhado mais o que a gente faz por aí, alcançaríamos mais pessoas. Viveríamos muitas coisas boas, juntos. Mas esses quatorze anos separados nos deram a oportunidade de adquirir outras experiências. A musicalidade de todo mundo se expandiu, e até nos aventuramos por outras expressões artísticas. Foi algo necessário, talvez, mas bom, mesmo, não me arrisco a dizer tenha sido. Afinal, era um sonho tornado realidade, e desde quando é legal aniquilar um sonho?

Voltar com a banda foi como abrir velhas feridas. Foi viver de novo a criação coletiva, além de um baita reencontro, e ao mesmo tempo lamentar um pouco o fato de termos desperdiçado tanto tempo distantes uns dos outros. E vejo, hoje, as consequências deste rompimento. Uma delas, engraçada, é que fiquei quatorze anos sem ouvir rock. Eu aumento, mas não invento: parar para ouvir, mesmo? Não lembro de ter feito isso durante todo esse tempo. Sei que, aos poucos, fui recordando com um pouco mais de carinho sobre o universo no qual eu havia ficado mergulhada dos 16 — quando comecei a cantar na minha primeira banda — aos 23 — quando o Pic-Nic levantou a toalha xadrez. Apenas no meio de 2021 eu voltei a ouvir bandas e artistas de rock, quando, já vacinada no quase pós-pandemia, fui receber um amigo e quis faxinar a casa ouvindo playlists de alternativo e indie. Só aí é que notei que esse tempo todo sem me interessar pelo estilo devia ser uma forma de não voltar para aquele mesmo ambiente que eu havia abandonado. Era um mundo ao qual eu não pertencia mais, de certa forma. Não dá para falar em trauma, seria um exagero, mas talvez dê para falar em desgosto.

Curioso é que quando a banda acabou, não fiquei triste. Já estávamos lidando com tantos problemas, tanto desgaste que o fim de uma situação tensa me veio como um alívio.

Continuei fazendo outras coisas em arte, especialmente em teatro. Foi uma época boa. Eu sempre tinha admirado as artes cênicas, e nunca havia colocado esse meu lado em prática. Se tem arte em sua vida, geralmente você consegue se manter bem (já reparou?). Mas era inegável que um projeto muito querido (o meu maior sonho, essa é a verdade) tinha virado pó. Isso significa alguma coisa — bastante coisa — , mesmo que lidemos bem com a decepção do fim.

Mas o curioso é que no início de 2021, mesmo ano em que voltei a ouvir rock, eu me peguei pensando e comentando: “Eu voltaria a fazer música com o pessoal do Pic-Nic, porque a gente fazia música com facilidade. Mas isso não é uma coisa que vai acontecer”. Eu lembrei de nosso bom entendimento quando criávamos juntos, mas descartei na hora a viabilidade dessa ideia. Mas, mal sabia eu, todos tinham sentido basicamente a mesma coisa. Ao mesmo tempo, praticamente. Porque nesta mesma época o Chokk (baixista) comentou algo como “se algum dia voltarmos” e, dada minha incredulidade, afirmou: “enquanto estivermos vivos, isso é possível”. Semanas depois, Miguel (guitarrista) me procura pra falar sobre lançarmos o CD parado desde 2007, que pedia apenas alguns poucos detalhes para ficar pronto. Estávamos bem sintonizados, concluí. Mesmo que Miguel tenha dito “isso não é uma volta, é só para lançarmos o disco que ficou parado”, acabamos voltando, naturalmente, quase que sem falar nisso.

Com todas as nossas diferenças de personalidade e até de gosto musical, nos entendemos bem. Percebemos, nesse retorno, que o entrosamento que tínhamos estava aparentemente intacto — só era preciso voltar a colocá-lo em prática, e aos poucos a coisa foi engrenando. Mas, como mencionei, ao voltar a mexer em um assunto tão caro a todos nós, há algo agridoce que vem no pacote: a ciência de que poderíamos ter feito muito mais nesse período afastados. E também a ciência de que muita coisa mudou de lá para cá, sendo a maior destas a nossa falta de tempo. Estamos todos muito mais atarefados, e isso faz uma grande diferença. Antes, podíamos ensaiar à tarde, dias de semana, vivíamos para a banda, quase. Hoje, suamos para conseguir ensaiar: tentamos de tudo, fazemos das tripas, coração, e mesmo assim às vezes ensaiamos sem todos os cinco presentes. Mas a vantagem de hoje é que valorizamos mil vezes mais aquilo que fazemos. E sabemos o que essa banda significa para cada um de nós. Não brincamos mais com fogo: não se desperdiça uma chance duas vezes. Vantagens e desvantagens do passar do tempo...

Mas, se o futuro é uma mentira — e eu de verdade acho isso —, o passado não é editável. Adianta ficar olhando para trás, pensando “e se”? A resposta é óbvia. Então resta ser constante agora, não permitir espaçamentos à toa, não ser econômico na hora de fazer arte. Pouca música para quê? Se utilizarmos a falta de tempo (que é real, muito real) como justificativa para fazermos pouco, a frustração é certa. Meu lema tem sido, nos últimos anos, forçar a barra. Nem sempre consigo entrar nesse modo, mas quando o faço, é muito recompensador, e sempre dá resultado. Arrancar tempo a fórceps para fazer o que realmente importa nessa vida é fundamental.

Tive vontade de escrever este texto para trabalhar um pouco em mim tudo o que o Pic-Nic significou e continua significando dentro da minha vida. É algo muito pessoal, e ao mesmo tempo é algo compartilhado — não só com quem está comigo nessa banda, mas com todos que vivem para a música e para a arte. Tive vontade de falar, também, porque neste fim de ano nós fizemos um show onde abrimos para uma banda que amamos, o Ira!. Foi um dia muito especial, até mesmo porque viajamos juntos, e há tempos não fazíamos isso. A conclusão óbvia é que o Pic-Nic continua me proporcionando coisas muito bonitas, experiências marcantes. Tenho ainda que escrever um texto sobre os perrengues e as roubadas, mas, sinceramente, ficaria grande demais e não sei se estou querendo reviver as humilhações vividas por todo artista independente que (não) se preze. Pronto, um pouco de bom humor neste momento quase piegas!

Às vezes acho que a ficha ainda não caiu, por isso a demora em querer escrever sobre o assunto. Mas é isso, estou aqui me convencendo de que de fato voltamos. Não sei por quanto tempo, a vida tem suas dinâmicas próprias, mas eu diria que, no que depender de cada um de nós, seguiremos adiante. Comparo a relação dos cinco a uma relação de irmãos, na falta de analogia melhor: às vezes conhecemos demais as manias uns dos outros; mas, como irmãos, também temos um laço bem forte. E temos bem mais convicção de que vale a pena fazer o que fazemos. Ah, sim, e já sabemos o custo emocional de não ter essa banda…

(Um adendo: acredito que só o respeito já opera maravilhas, mas com certeza o tal do afeto ajuda bastante.)

Agora os amigos que leem isso aqui sabem o que sinto e como foi essa volta da banda. O que o Pic-Nic tem feito comigo, e como tem me dado bons momentos. Aos 38 anos, em 2021, exatamente 20 anos após o nascimento da banda, ganhei esse presente que se havia perdido por aí, nas confusões da vida adulta, mas que voltou assim, de surpresa, como um brinde, mas com o valor de um presente muito raro.


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