Elle e o manifesto feminista das capas de dezembro
As capas da edição de Dezembro de 2015 da Elle e o tributo ao Feminismo, que fortaleceu o papel da mulher na moda.
Elle e o manifesto feminista das capas de dezembro
As capas da edição de Dezembro de 2015 da Elle e o tributo ao Feminismo, que fortaleceu o papel da mulher na moda.

A moda, para além de servir como expressão estética, pode também conjugar ferramentas de comunicação e transformação social, juntamente de revoluções culturais e políticas. Nestes parâmetros, é sugerida a revista Elle, fundada por Hélène Gordon-Lazareff em 1945, acompanhada de centenas de publicações anuais, transcendendo limitações sociais e manifestando-se em prol do empoderamento feminino.
Desde a sua criação, a Elle mostrou-se corajosa na sua visão de não apenas vestir mulheres, mas também de as empoderar, oferecendo uma plataforma vasta com grande liberdade, na qual temas como moda, expressividade, questões sociais e comportamento se interligam.
Ao longo das suas edições comprometeu-se com o objetivo de dar voz às mulheres, ligando a elegância ao propósito, e fortalecendo os assuntos mais polémicos da sociedade — liberdade, igualdade e independência.
Na sua longa jornada, a revista pretendeu mergulhar dentro dos manifestos feministas e promover os seus valores, elevando a diversidade do poder feminino. Desta forma, a Elle mais do que uma revista mundialmente conhecida, representa um símbolo da evolução feminina que inspira gerações ao longo do mapa.
Um exemplo disso são as quatro edições de capas de dezembro de 2015, um manifesto escrito pelas jornalistas Juliana de Faria, Sofia Soter e Helena Dias, pela escritora Clara Averbuck e pela filósofa Djamila Ribeiro, para o qual, individualmente, sugeriram temas como os ideais de beleza, a mulher padronizada, a insegurança e o assédio sentido diariamente pelo sexo feminino. Estas quatro capas, cujas frases são: “Vestida ou pelada, quero ser respeitada”, “Meu corpo, minhas regras”, “Meu decote não dá direitos” e “Minha roupa não é um convite” permitiram uma abrangência temática, onde várias mulheres no mundo sentiram-se representadas, fortalecendo o significado corrente da revista.

Edições especiais das capas de dezembro de 2015 da revista Elle
Semiótica Peirceana
A semiótica proposta pelo filósofo Charles Sanders Peirce, é uma teoria que investiga os signos e a forma como se relacionam com o conhecimento, oferecendo uma proposta de compreensão acerca de questões sobre a realidade e a verdade. Esta teoria foi desenvolvida no século XIX e visa entender como são feitas as conexões de algo através da sua representação, isto é, como é que tal se concebe como signo num processo comunicativo e interpretativo.
A sua teoria baseia-se numa estrutura triádica, composta por três fatores essenciais:
- O representamen — refere-se à forma física apresentada pelo signo; a forma como algo é representado.
- O interpretante — refere-se ao sentido atribuído ao signo.
- O objeto — aquilo a que o signo se refere.

Tríade de Peirce
Dentro dos signos, Peirce diferenciou três elementos principais:
- Ícones — um parâmetro com relação de semelhança com o objeto.
- Índices — um parâmetro de relação de causa que indica o seu significado.
- Símbolos — que dependem de convenções sociais ou do seu uso estabelecido.
Para além disso, o filósofo sugere três categorias que permitem responder às outras relações. São estas a primeiridade (aspeto qualitativo-icónico); a secundidade (aspeto singular-indicativo); a terceiridade (aspeto convencional-icónico).
- Primeiridade — as qualidades realmente existentes de um signo.
- Secundidade — as qualidades de um signo por semelhança/referência.
- Terceiridade — uma possível análise do que representa e valores agregados pelo intérprete.
Até a atualidade é uma teoria bastante recorrente que ajuda a compreender os significados por detrás de um produto mediático, através do uso da sua análise estruturada.
Análise específica das edições especiais de dezembro da revista Elle
Desta forma, é possível analisar através da semiótica Peirciana as quatro campanhas apresentadas acima, e atribuir-lhes significado coerente na forma como o manifesto feminista é apresentado e defendido.
A escolha das imagens a preto e branco transportam um significado dramático com o contraste das poses das modelos e das cores, bem como as palavras a vermelho “Regras”, “Direitos”, “Convite” que chamam a atenção do leitor. Deste modo, nas capas de dezembro de 2015 da revista Elle, os signos são as imagens das modelos, acompanhadas pelas frases destacadas como “Vestida ou pelada quero ser respeitada”, pois representa o fundamento das capas para o observador. O objeto — as ideias e as questões sociais e culturais sugeridas pelo signo, engloba temas como os direitos da mulher, a liberdade de escolha, a emancipação feminina e o combate à objetificação. Já o interpretante, que depende do contexto social do público-alvo, pode ser um reconhecimento de que o julgamento da mulher baseia-se nas suas escolhas de vestuário, e que essas escolhas não devem ser generalizadas, nem iniciar qualquer tipo de violência.
Estas edições especiais abordam, principalmente, questões globais focadas na igualdade dos direitos entre géneros e no empoderamento feminino. Refletem a necessidade de promoção da alteração no pensamento comum, bem como nas estruturas de poder que ainda adquirem esse pensamento longe de igualdade. Essa mesma campanha expõe a luta do sexo feminino, como também a abertura para que estas mulheres possam ser quem são sem julgamentos. Está representado como principal foco a luta contínua, de modo a que as gerações seguintes não sintam tanto na pele como as mulheres atuais têm vindo a sentir.
Agora, especificando a tríade de Peirce, ou seja, os três elementos que compõem o signo, é possível identificar o seguinte:
- Ícone: cor vermelha (sensualidade); modelos (representam figuras humanas e são uma imitação visual da realidade) — corpo feminino e o seu caráter sensacionalista.
- Índice: frases como “Meu corpo, minhas regras” (indicam um problema social — julgamento do corpo feminino); palavras como “RESPEITADA” (sugerem respeito, igualdade e reflexão); a pose das modelos (indicam poder e autonomia) — é referido um modo de tratamento das mulheres na realidade, que a publicidade tenta questionar e reverter.
- Símbolos: uso recorrente da frase “Manifesto feminista” na parte inferior das imagens (representa a luta diária das mulheres associada a um movimento social) — pretende atribuir poder às mulheres.
Assim, os três tipos de signos trabalham entre si, de modo a construírem uma mensagem que vai além do simples significado da moda, englobando tópicos sensíveis e polémicos sobre a mulher e o seu lugar no mundo.
Considerações finais
A análise das edições especiais da revista Elle com base na semiótica de Peirce mostra-nos com evidência o feminismo nas suas publicidades através dos aspetos visuais, textuais e simbólicos.
A marca distingue-se por permitir conjugar a moda com questões relevantes, e por manter uma identidade única e sólida, sem nunca se rebaixar no mercado atual.
Assim, as revistas mostram como utilizam os signos para partilharem significados, sugerindo a comunicação na promoção da transformação social necessária no mundo.
Referências
Ferreira, S. (2015). Moda e Semiótica: Análise das Capas de Dez/2015 da revista Elle. Obtido de Conexões expandidas: https://sorayaferreiraufjf.wixsite.com/conexoes/single-post/2016/08/16/moda-e-semi%C3%B3tica-an%C3%A1lise-das-capas-de-dez2015-da-revista-elle
Santaella, L. (s.d.). Semiótica Aplicada. Brasil: Eugênia Pressotti.
Stefanelo, Marquetti, C., & Mestranda. (s.d.). A REVISTA ELLE EM SUA VERSÃO IMPRESSA E ON-LINE. p. 12.
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