Porque Eu Sou Ateu
E você também é
Porque Eu Sou Ateu
Este texto reflete a minha opinião, a maneira como eu enxergo o mundo e, por consequência, como vivo a minha vida. Por isso, muitos aspectos trazidos aqui terão como base o Cristianismo, tendo em vista que esta é a religião predominante no Brasil (e no mundo), o que faz com que eu seja exposto a ela frequentemente.
Além disso, citando o brilhante Leandro Karnal, eu odeio toda forma de catecismo, seja ele religioso, secular, astrológico, vegano ou do crossfit. Meu intuito aqui não é converter ninguém. Este texto apenas descreve os pensamentos que são coerentes com a minha maneira de pensar.

Nuvens e raios de sol — Gabriel Lamza on Unsplash
A Liberdade Religiosa
O artigo 18 da Declaração dos Direitos Humanos defende que todos têm "direito à liberdade […] de religião, assim como direito de manifestar religião ou convicção".
Partindo desde princípio, eu posso dizer que tive a sorte de nascer em um lar onde tal liberdade pôde, de fato, ser exercida. Desde criança, meus pais não me impuseram uma prática religiosa e me deram liberdade para desenvolver minha própria capacidade de entender o mundo ao meu redor.
Explico tal decisão desta maneira pois, ao meu ver, a religião (e todas as crenças supersticiosas, em geral) é como uma lente sobreposta aos nossos olhos: é através dela que enxergamos e interpretamos o mundo. Dependendo de qual crença faz sentido para você, um mesmo fato objetivo observado no mundo material pode ter as mais diversas interpretações.
Ao tomar essa premissa como verdadeira, chegamos à conclusão de que a verdadeira liberdade religiosa se torna impossível ao passo que uma pessoa é doutrinada a acreditar em algo imutável e inquestionável. Principalmente, quando isso é feito a uma criança, sendo alguém com pouca ou nenhuma capacidade de contestação, questionamento ou independência em si. Neste ponto, o Cristianismo é especialmente corruptivo, já que as possibilidades de contestação ou adoção de diferentes crenças, são passíveis de punição eterna — gerando forte sentimento de culpa em vida.
A Religião Como Expressão Cultural
Mas então, por que a maioria esmagadora das famílias escolhe inserir seus filhos em sua religião de preferência? Enxergo duas razões principais:
- Em linha com o mencionado acima, a maioria das religiões monoteístas, assim como o Cristianismo, consideram-se verdades absolutas. Além disso, consideram a crença e adoção de práticas provenientes de diferentes religiões como pecado fundamental, assim, passível de punição eterna. Logo, é natural entender a razão pelo qual um cristão catequiza seus filhos, já que encara a prática como salvação da sua alma.
- Em segundo, o ponto que eu quero ressaltar aqui: a religião, não importa qual, é majoritariamente, uma expressão cultural. Para explicar isso, primeiro, precisamos esclarecer o que é cultura: sua origem vem do Latim "colere", verbo que significa “ação de tratar”, “cultivar” ou “cultivar a mente e os conhecimentos”. Por isso, nota-se também o seu emprego no contexto do cultivo de vegetais, no sentido de ser necessário cultivá-los através de práticas para que o mesmo sobreviva e se desenvolva. A mesma lógica aplica-se a cultura como cultivo de idéias, conhecimento e práticas de um povo.
Apesar de vivermos em um mundo altamente globalizado, a cultura de um povo é fortemente influenciada por sua geografia: a língua, os costumes, a arte e também, a religião, são altamente dependentes de onde o povo se origina.
- A probabilidade de você nascer em Israel e ser judeu, é de 80%
- Se nascer no Irã, em mais de 90% dos casos será muçulmano xiita
- Já no Brasil, a chance de seguir alguma forma do Cristianismo é por volta de 83%
E por que isso é relevante? Porque verdades absolutas (e que se opoem) não podem ser dependentes do local onde são contadas. Por isso, o componente não questionador da religião exerce um papel importantíssimo: a verdade que se conta é absoluta, independente de outras verdades ditas absolutas também existirem em outros lugares.
A Religião Mais Difundida do Mundo
Confesso que já ouvi esse argumento para justificar o Cristianismo e outras superstições, como Astrologia. O apelo a maioria é uma falácia de relevância, onde busca-se justificar algo com base na adesão:
- De um grande número de pessoas (maioria)
- De um grupo considerado referência
Bom, se a maioria denota correção (a voz do povo é a voz de Deus), sorte que não vivemos mais na era da escravidão ou de regimes totalitários. Além disso, já que a religião é uma forma de expressão cultural, podemos seguir a mesma "lógica" e eleger o Mandarim, a língua mais falada do mundo, como a melhor, mais correta e a que todos devemos aprender.
Para desmistificar a segunda idéia, vamos nos debruçar em um dos pontos mais complexos da reflexão.
A Bússola Moral
Para muitos, a religião é essencial para o Homem, pois estabelece a moral absoluta sob o qual todos estamos sujeitos. Esta é uma idéia complexa e centro de discussões importantes ao longo dos séculos, tendo vários filósofos, teólogos, autores e sociólogos discorrido sobre suas diferentes visões (para quem gosta de filosofia, vale a pena buscar sobre filosofia da religião).
Para o Cristianismo, o Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Ele, encarnado na figura de Jesus, mostra ao Homem a possibilidade de salvação, ou seja, de atingir a graça divina. Deus, metaforicamente, representa um estado a ser alcançado e, a maneira para o fazê-lo, é através do seguimento de seus ensinamentos.
Porém, como explica o filósofo alemão Feuerbach, a projeção, na verdade, é do Homem sobre Deus, e não o contrário. Deus, nos diferentes contextos religiosos, é uma projeção humana, uma representação das características e desejos do Homem. Em outras palavras, Deus não é um ser independente, mas sim um reflexo da moral que o homem busca em si mesmo e que, segundo Feuerbach, acaba por exteriorizar e divinizar.
Chegando a este ponto do texto, é importante definir o que é moral. Segundo o dicionário Michaelis, ela é definida pelas “[…] regras de conduta e costumes estabelecidos e admitidos em determinada sociedade.” Atente-se a parte final, " em determinada sociedade", pois isso mostra como o código moral pode variar de acordo com contexto (histórico, temporal, social, geográfico, cultural e por aí vai).
Historicamente, é inegável a relevância dos valores cristãos na construção das sociedades ocidentais. Junto à Democracia Grega e ao Direito Romano, a moral cristã ajudou a pavimentar a idéia de que todos somos iguais e temos o direito inegociável a vida.
Porém, reconhecer a sua importância histórica não é o mesmo que defender o seu emprego nos tempos atuais. Primeiro, porque é imprescindível reconhecer o contexto histórico no qual estes valores foram passados a diante: através da conquista violenta, dominação, escravização, genocídio e catequização dos mais variados povos ao redor do mundo (você, cristão, se lembra disso quando tira foto fazendo cerimônia em Caraíva com tribos quase inteiramente dizimadas?).
Segundo, porque a moral antecede a religião e é altamente dependente do convívio social em questão. Em algumas tribos indígenas, quando gêmeos nascem, a crença diz que um deles será o salvador e que o outro trará o mal para a tribo. Como é impossível distinguir entre os dois no nascimento, é **moralmente justificável** matar os dois bebês, a fim de proteger o bem coletivo.
No Budismo, é necessário despir-se de bens materiais para que, através da meditação extensiva, atinja-se o Nirvana: um estado de espírito individual elevado. Aqui, a moral não tem como objetivo um bem estar comum social, mas individual.
Como observação pessoal, em quase 4 décadas de vida, eu nunca conheci um só ser humano que vive à risca todos os ensinamentos da Bíblia. E não estou falando sobre cometer pecados, erros involuntários aos quais todos estamos sucetíveis e que são passíveis de perdão. Falo sobre escolhas conscientes: minha religião defende A, porém, eu prefiro B. Para algumas vertentes do Cristianismo, a moral pode significar a cura gay. Ou o não reconhecimento da religião alheia, de práticas médicas, do comprometimento das finanças de famílias carentes. Felizmente, muitos têm a capacidade de discernimento para criticar tais práticas e escolhem, conscientemente, não segui-las.
Na prática, isso denota a existência de um código moral individual e precedente a religião — o que, no Cristianismo, é proibido. Ora, se você escolhe quais trechos dos ensinamos sagrados de cada religião seguir, sinto lhe dizer, mas você não segue religião nenhuma. Na verdade, você construiu sua própria bússola moral através do tempo, do estudo e do convívio social, e chegou à sua própria conclusão sobre como viver sua vida. Meus parabéns, você é um ser pensante!
O Deus da Lacuna e Energia
O universo observável, aquele que conseguimos dados até hoje, é tão grande, que estima-se a existência de **2 trilhões de galáxias. Dentro dele, o [número de estrelas é na casa de 10²⁴](https://www.space.com/26078-how-many-stars-are-there.html) — **o nosso cérebro não consegue nem conceber o que é tamanha imensidão.
Dito isso, é humildemente necessário reconhecer a nossa insignificância perante ao universo, tanto do ponto de vista de existência, como de conhecimento.
Como foi criado o universo? De onde vem a vida na Terra? Para onde vamos quando morremos?
Eu não sei. A ciência também não sabe (inteiramente e, talvez, nunca saiba). E tudo bem! Se eu reconheço o meu tamanho perante a infinitude, a noção de que o Universo está envolvido com o meu destino e de que o Homem conhece a origem de todas as coisas, soa como uma explicação infantilóide e narcisista de quem precisa ser o centro de tudo.
Como explica **Nietsche, a maior parte da humanidade não consegue lidar com a indiferença do universo, o que gera uma grande sensação de ressentimento **cosmológico e filosófico. Perante a isso, o ser humano usa Deus como resposta para toda pergunta ainda não respondida — onde há uma lacuna, enfia-se Deus.
Raciocínio parecido usa-se para definir Deus ou religiosidade como energia. Afinal, o que é energia? "Ela é tudo!". Bom, vamos lá. O que se define como "tudo", por fim, não é nada. A palavra “tudo” implica totalidade — o conjunto de todas as coisas. Mas se “tudo” inclui tudo, então não há nada fora dele para compará-lo. Sem um “fora”, “tudo” não tem fronteiras, nem forma, nem distinção — o que o torna, paradoxalmente, indefinível. E algo que não pode ser definido ou diferenciado… se assemelha a nada. O ser humano projeta sentido no “tudo”, mas descobre que esse “tudo” não possui propósito objetivo — e então "tudo" se torna nada, em termos de valor.
A Importância da Autoconsciência e a Alienação Religiosa
A invenção da imprensa, em 1450, foi um marco importante na disseminação de conhecimento. A produção de textos em larga escala possibilitou a Luthero a disseminação de idéias críticas a Igreja Católica. A imprensa não apenas facilitou a produção em massa de livros e panfletos, mas também encorajou o pensamento independente em temas anteriormente controlados pela elite letrada. Assim, desempenhou um papel fundamental na transformação religiosa e cultural da Europa durante o período da Reforma Protestante.
Trazendo a régua do tempo para a atualidade: o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), avalia o progresso dos países em termos de saúde, educação e renda. De acordo com os dados mais recentes, países como Noruega (IDH 0,970), Suíça (IDH 0,970), Irlanda (IDH 0,949), Alemanha (IDH 0,959) e Suécia (IDH 0,959) estão entre os mais desenvolvidos do mundo . Esses países também são conhecidos por suas sociedades altamente seculares, onde a religião exerce pouca influência nas políticas públicas e na vida cotidiana.
Olhando para estes dois exemplos, separados por quase 600 anos de história, seria leviano apontar uma relação causal exclusiva entre secularidade e desenvolvimento social. Porém, é possível traçar uma correlação baseada em diversos pontos:
Educação mais crítica e inclusiva: Sociedades seculares tendem a promover educação baseada em ciência e razão, o que fortalece a capacidade de pensamento crítico e inovação.
Estado laico = políticas públicas mais universais: A separação entre religião e Estado favorece leis mais neutras e inclusivas, beneficiando mais grupos da população.
Direitos individuais fortalecidos: Direitos das mulheres, LGBTI+, minorias étnicas e liberdade de expressão costumam ser mais respeitados em sociedades seculares.
Redução de conflitos religiosos e dogmáticos: Menor influência religiosa pode significar menos conflitos sociais ou políticos baseados em crenças exclusivistas.
Citando Feuerbach, mais uma vez, é preferível a autoconsciência humana em detrimento à alienação religiosa, pois, só assim o Homem pode alcaçar a sua plena realização. Segundo ele, a religião é uma forma de alienação, onde o homem, ao não reconhecer sua própria essência e poder, projeta-os em um ser externo, como Deus. Essa projeção leva à perda da consciência da própria humanidade e à submissão a uma força superior, o que impede o homem de se libertar e de alcançar sua plena realização.
Quando eu tinha por volta de 10 anos de idade, meu pai me disse que era importante acreditar em algo, pois isso nos dá força em momentos de necessidade. Eu respondi afirmativamente e disse que acreditava em tudo que eu precisava: eu mim mesmo e nas minhas capacidades de vencer adversidades. Sem saber, eu estava quase parafraseando **Freud. **Para o pai da psicanálise, a crença religiosa é uma "regressão psicológica", pois mimetiza o comportamento infantil.
Para uma criança, é necessário muito tempo para o desenvolvimento e compreensão da idéia do "eu" como ser independente, pensante e responsável pelas próprias decisões. Durante boa parte da nossa vida, estas decisões são terceirizadas para os pais, pois, como sociedade, acreditamos que o ser humano só é capaz de ser responsável pelos próprios atos a partir de uma certa idade e grau de independência intelectual (daí vem o conceito da maioridade penal). Sendo assim, para Freud, em resposta ao desamparo da vida, o adulto religioso reproduz a solução infantil de acreditar que existem seres que o protegem. Porém, a criança realmente tem seres que a protegem (pais, familiares, a sociedade de modo geral), já o adulto, em contrapartida, recorre a seres imaginários criados por ele mesmo.
Todo Mundo É, de Certa Forma, Ateu
Por fim, a explicação ao sub-título do texto. De novo, vamos recorrer a definição da palavra para alinharmos as premissas. "Ateu" vem do Latim theos, que significa deus. Já o prefixo "a", denota negação. Sendo assim, ateu é aquele que nega deus. Além disso, a maioria dos dicionários, como o Cambridge, estendem um pouco a definição como a "negação, ou não crença, em Deus e em outras divindades".
E é justamente daí que vem o meu argumento: se você acredita em alguma religião, seja ela mono ou politeísta, você, de alguma forma, também é ateu. Isso se dá pelo fato de que qualquer religião parte do pressuposto de que seus dogmas são verdades absolutas, e que o que é descrito em outros textos sagrados é falso e herege.
Para mim, é absolutamente ilógico ter que negar a existência de algo que não faz parte do universo onde eu habito. Além disso, sou socialmente forçado a me denominar algo que, em essência, não diz nada, tendo em vista todos não acreditam em alguma forma de idéia teológica, fazendo com que todos nós sejamos iguais do ponto de vista de negação (apenas com alvos diferentes).
Então, sim. Eu sou ateu e, você, também é.
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- 2026-06-25 16:53:31