Não é preciso cair em um abismo para ser engolido por ele
Basta apenas olhar demais.
Não é preciso cair em um abismo para ser engolido por ele
Basta apenas olhar demais.

Estava assistindo à série The Sinner e, em certo episódio, uma frase atribuída a Friedrich Nietzsche atravessou a tela e se fixou na minha retina e mente:
Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.
Mas o que essa frase realmente quer dizer? Por que ela ficou tão famosa? Sinceramente, não sei e você não vai encontrar essas respostas aqui.
O que sei é que vou falar sobre ela. Ah, se vou! Só que antes:
Sou um estudioso profundo de Nietzsche? Não. Conheço bem sua ideologia? Não. É meu lugar de fala? Não.
No entanto, tenho algo a dizer. E aí, você vai ler? Sim.
PARTE 1: o abismo não se move, nós que vamos até ele
Ao contrário do que muitos pensam, o abismo não é um monstro que nos engole de uma vez. Não.
O abismo é paciente. Ele não grita nos chamando. Ele fica ali quieto, quase respeitoso. Ele sabe esperar.
Porque a maior armadilha do abismo é parecer calmo e familiar. Afinal, não encaramos e nem nos aproximamos de mares revoltos. Nós fugimos.
A gente encara e se aproxima de mares calmos. Assim é o abismo. Ele não precisa me puxar e nem me acorrentar. Apenas fica me observando observar.

Eu, voluntariamente, vou até ele, encosto na beirada, solto um suspiro e olho pra baixo para encará-lo achando que poderei entendê-lo.
Com isso, viro prisioneiro dele sem nem sequer cair. Posso até me afastar depois e o abismo ainda estará ali. Quer dizer, aqui.
Mas por qual motivo, razão ou circunstância?
PARTE 2: um abismo aqui, outro ali, outro acolá
A frase que guia este texto não diz sobre olhar para “o” abismo, mas para “um” abismo. Sim. Há diversos abismos.
Por ser assim, ao longo da vida (ou até no dia a dia), encaramos muitos abismos, e que inúmeras vezes nem sequer percebemos.
Sabe aquele erro que não paro de remoer? Pois é, estou encarando, e ele olha de volta, devolvendo como sentimento de culpa.
E o que faço? Absorvo e me torno parte disso. Esse erro, de tanto encará-lo, vira um reflexo. Uma casa. Um lar. Uma morada.
Assim, o que era uma tentativa de me iludir com pretexto de “reparação” vira fixação, que ganha CEP, tapete de boas-vindas, sofá e cházinho servido com biscoitos (ou bolacha?).
Com isso, não paro de encarar este abismo e isso se repete. E re-repete. E re-re-repete.
Até que… começa a fazer parte de mim.
Porque, ao me forçar reviver o que fiz, o que não fiz, o que deveria ter dito, o que não deveria ter dito, o abismo olha de volta e se incorpora à minha imagem. Como se eu mesmo estivesse tentando decorar um script para atuar em uma peça que está no passado.
Uma espécie de ensaio eterno para algo que nunca vai estrear, pois obviamente já passou. Já foi vivido.
Mas estou ali, insistindo. Encarando. Como se o sofrimento desse erro passado pudesse ser resolvido com insistência.

Mas não é assim que funciona, sabia?
Olhar demais para o erro é, no fundo, errar de novo. É amar tanto o arrependimento e mentir chamando-o de disciplina.
É viver voltando à cena do erro como quem faz turismo pelo inferno pessoal e alegar que se trata de coragem. Mas não é. Às vezes é só apego à culpa.
Então, quanto mais se repete, insiste, menos se aprende.
Assim sendo, aquilo que passou e que deveria ser referência vira residência. Porque, de fato, o erro só ensina quando paramos de revivê-lo como punição.
Contudo, parece impossível não revivermos sob esse viés. Vivemos em uma sociedade punitiva, e não preventiva ou educativa. Esse abismo da punição já é encarado há milênios e está incorporado em nós, na nossa essência.
Isso não é apenas crítica social. É constatação sobre punição social, pessoal, mental, emocional, espiritual. E mais “als”, afinal.
E no final, tem como mudar isso?
PARTE 3: o eco que amplifica e distorce o abismo da rotina
No fim, não acho que tenha como mudar, pois é de lá (os abismos auto punitivos) que ouvimos o eco. Pois é! Além do olho grande pra encarar o abismo, a boca também cresce e começamos a falar.
A partir disso vem o eco.
E o problema do eco-ôôô-ôô-ô… é que ele não apenas repete aquilo que digo, mas também distorce e amplifica.
Assim, com a repetição advinda do eco, começo a achar que o abismo está falando a minha língua. Que aprendeu meu tom de voz e está me entendendo, sendo que é a escuridão do eco dele que reflete de volta.
Mas ainda assim penso que esse buraco que agora me abraça é menos perigoso do que o mundo que exige movimento.
Quando menos percebo estou dizendo e fazendo coisas como:
“É assim mesmo pra mim”. “Aquilo que aconteceu me justifica e mereço”. “Menos expectativa, menos decepção. Aqui eu sei o que esperar”. “É desse jeito que funciona”.
Sem perceber, viro refém daquilo que foi refletido em minha própria casa. E aqui reside um dos piores abismos. Porque ele se disfarça de rotina.
É mais perigoso porque ele se disfarça sem precisar se esconder, como dito.

Ele é silencioso e se parece com descanso e calmaria. É aquele acordar no mesmo horário, é o comer o mesmo pão, é o abrir o mesmo app, é o reclamar do mesmo cansaço.
É o “tá tudo bem” dito por hábito, não por verdade. É a aceitação do “é isso mesmo”, do “melhor do que nada”, do “não preciso de muito”, do “pelo menos”, do “tanto faz”, do “deixa pra lá”.
Parece normal, mas vira um loop destrutivo.
Um loop onde viver se torna sobreviver e funcionar. Onde estagnação é confundida com paz, sendo que paz não é ausência de movimento, mas sim leveza enquanto se move.
Então, até nos darmos conta, já estamos tempo demais na borda do abismo olhando para ele e absorvendo a escuridão refletida em nós. Nesta hora, o tédio vira norma e a vida parece ter perdido o som e sabor.
Mas não é a vida que perdeu o som e o sabor. Foi a gente que parou de ouvi-la e de tempera-la. É, definitivamente, aquilo que foi projetado no abismo ao encará-lo sendo refletido, amplificado e distorcido. Negativa-mente.
A normalidade dos abismos invisíveis internalizados
Tudo isso atual na mente. Sorrateiramente.
Sem berros. Com cochichos. Sussuros. Que diz:
“Não tenta, você vai falhar.” “É melhor do que se arriscar”. “Já viu no que deu da última vez”. “Você não tem o que é preciso”. “É tarde demais pra mudar”. “Você está cansado demais pra tentar”.
E vai repetindo, baixinho, com os abismos invisíveis se disfarçando de autoaceitação, sendo que é só medo de sair do lugar.
Isso paraliza. Causa a sensação de que tudo está seguindo da forma como deve ser, e já não dá mais para saber se o abismo está lá fora ou se se mudou pra dentro.
Portanto, Nietzsche estava certo:
Olhar demais para um abismo nos torna parte dele.
À vista disso, é um erro acreditar que é possível encarar a escuridão de um abismo para dominá-lo.
Ele não pode ser domidado ou entendido, mas apenas identificado para se aprender a conviver, e não como ponto de observação e convivência constante.
Por isso, talvez, o gesto mais corajoso não esteja em enfrentar o abismo de frente, mas em saber quando parar de encará-lo e desviar o olhar.
Não como quem foge, mas como quem escolhe mudar o ponto de vista. Não digo para olhar somente para o céu ou horizonte. Seria fuga da realidade.
Apenas saiba que os abismos estão aí e que cabe a você entender que não é preciso cair em nenhum deles para ser engolido, mas tão somente encará-los por muito tempo.
Portanto, um abismo olha de volta, sim, e ele nunca quis que você pulasse nele. Um abismo quer que você se torne parte dele apenas olhando. Afinal, quando olhamos constantemente pra baixo a tendência é… cair.

Por Mateus Reis
메타데이터
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