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Capítulo 2: Aquilo que não devia ser visto (Tripofobia)

Em uma tarde, ela percebeu um buraco, pequeno, do tamanho de uma moeda na parede do quarto, achou que poderia ter sido algum bicho ou algo…

Maria · 2026-02-07 16:43 · 0 claps · 3.1 min read
#conto-terror #horror-psicológico #fobias #escrita-criativa
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Capítulo 2: Aquilo que não devia ser visto (Tripofobia)

Em uma tarde, ela percebeu um buraco, pequeno, do tamanho de uma moeda na parede do quarto, achou que poderia ter sido algum bicho ou algo que bateu ali sem querer e que ela não se lembrava. Uma semana depois, notou mais três buracos, alinhados, perfeitos, sentiu uma sensação estranha ao ver aqueles buracos, mas mais uma vez tentou ignorar.

Passou-se um mês, a parede estava infestada de buracos, ela já não conseguia mais dormir ou até mesmo entrar em seu próprio quarto, dormia na sala assistindo tv e evitava olhar as paredes próximas do quarto.

Ela sempre teve isso, uma repulsa contra esses padrões, desde a infância, não conseguia ficar encarando colmeias, semente de lótus, esponjas, isso causava enjoo, tremores, deixava seu coração acelerado, mas não de um jeito bom.

No mês seguinte, ela notou buracos na parede da cozinha, perto da geladeira, buracos profundos, maiores do que os do quarto, cada um úmido, escuro, com bordas levemente inchadas. ela sentiu a garganta fechar. A visão provocava uma coceira insuportável sob a própria pele, como se algo quisesse sair de dentro dela também.

Ela cobriu os buracos com fita adesiva branca.

A noite do mesmo dia, sonhou que seu corpo era liso, perfeito, até que pequenos poros se abriam, e abriam demais, respiravam ofegantes, parecia que algo queria sair de dentro deles, de dentro dela.

Acordou em um pulo de susto, se sentou na cama ofegante, olhou para seus braços, estavam normais como sempre, mas suas mãos tremiam, seu coração parecia que ia sair pela boca. Correu até o banheiro para olhar o resto do corpo, se olhando no espelho ela levantou a blusa, nada na parte da frente, soltou um suspiro aliviado, mas quando se virou de costas, se apavorou novamente, arranhões em formatos circulares, tão perfeitos para ela ter feito inconscientemente enquanto dormia.

Durante o dia, parecia que o apartamento mudava a cada instante, a pia, o sofá, o fogão, as janelas. Tudo ganhava padrões, repetições. Círculos pequenos demais para conter algo, mas profundos demais para estarem vazios.

Ela parou de comer, olhar para a comida por muito tempo deixava ela enjoada, ela via pontos que não deviam estar ali, talvez a mente dela estivesse a enganando. Olhando para uma das paredes infestadas de buraquinhos profundos, raspou com uma faca.

Nada saiu, mas algo reagiu.

Minutos se passaram e ela se aproximou mais para tentar ver, até que um líquido escuro começou a escorrer de dentro do buraco, espesso demais para ser água. Largou a faca e se afastou, tropeçando nos próprios pés e caindo no chão, seu corpo inteiro arrepiado, tremendo, seu coração acelerado junto a sua respiração, virou seu corpo e vomitou no chão, quase nada já que não comia a dias, talvez semanas. Entre espasmos, percebeu algo pior. O líquido começou a sair de todos os buracos, que antes estavam vazios, agora estavam preenchidos, se levantou rapidamente e correu para o quarto de hóspedes, trancando a porta.

Seu corpo tremia, ela se sentou no chão tentando se recuperar do que tinha acabado de ver, sentia sua pele formigar, repuxar, como se estivesse sendo preparada, como no seu sonho.

Foi quando percebeu. O problema nunca foi os buracos, mas sim o que eles prometiam. Espaço.

Espaço para algo viver. Para algo sair. Para algo crescer.

Seu corpo começou a se contorcer, a doer. Suas pernas, seus braços, olhou seu corpo com medo. Pequenos furos surgiam em sua pele, simétricos, perfeitos. Cada um latejando devagar, uma visão perturbadora para quem tem tripofobia.

Ela gritou até perder a voz, arranhou seu corpo inteiro na intenção de tirar aquilo, mas agora, era permanente, o líquido preto saia dos seus furos, dos seus buracos que nunca conseguiram ser preenchidos, mas agora estavam, mas não do jeito que desejou.

Alguém bateu na porta, e de fora, não se ouvia nada, ele entrou com a chave reserva, seu namorado, com uma sacola cheia de doces e um buquê, chamando ela baixinho e cantando “Parabéns pra você.”, era seu aniversário. Estranhando a casa estar tão quieta para alguém que amava comemorações, ele deixou o buquê na mesa da cozinha e a sacola, andou por todo apartamento, a chamando, as paredes lisas, observou um líquido estranho no chão, preto e viscoso, bateu na porta do quarto de hóspedes, sua última opção de onde ela poderia estar.

Quando abriu a porta, sua namorada estava deitada na cama, seu rosto pálido, molhado em lágrimas, olhos fechados, mas seu corpo parecia diferente, ele deu um passo para trás com os olhos arregalados.

A pele não estava ferida, estava organizada.

Coberta por pequenos buracos vazios, como se algo tivesse acabado de sair.

E então ele sentiu, pequenos poros se abrindo em suas mãos em formatos simétricos, tão perfeitos.

Talvez fosse isso que ela queria me mostrar.

Talvez eu nunca estivesse pronto para ver.

Ele pensou.


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