Assisti ao filme “O Exorcista” (1973), de William Friedkin, mais uma vez nesta semana.
Li em algum lugar que na época em que o filme foi lançado, as pessoas recebiam sacos de vômito na entrada dos cinemas, caso precisassem… Se…

Assisti ao filme “O Exorcista” (1973), de William Friedkin, mais uma vez nesta semana. Lembro que a primeira vez que o vi foi quando tinha uns sete anos de idade, meio escondida com as primas, na casa da minha avó. Me arrependi amargamente de ter embarcado nessa “aventura” madrugada adentro, porque aquele filme me deixou realmente apavorada. Com sete anos eu não entendia a dimensão daquelas cenas e falas blasfemas, das imagens chocantes de levitação, da cama balançando e da pobre Reagan se debatendo de um lado para o outro. Aquilo me parecia tão real e tão chocante, porém, que passei o restante da noite em claro, em choque, grudada na cama com a minha avó, e continuei a lembrar -com medo- de várias cenas do filme por muito tempo.
Li em algum lugar que na época em que o filme foi lançado, as pessoas recebiam sacos de vômito na entrada dos cinemas, caso precisassem… Se hoje, quase 50 anos após a estreia, “O Exorcista” continua sendo um filme apavorante, imagine naquela época. Assistindo novamente agora, entendi alguns pontos que o fazem, para mim, ser um dos melhores filmes de terror de todos os tempos.
Muitos filmes de terror hoje em dia apelam apenas para o susto para causar medo no espectador. Muita gente pensa que um filme de terror só é bom quando te dá sustos, quando faz o seu coração disparar no exato momento em que um monstro, um demônio ou um espírito desfigurado aparece na tela de repente. Com “O Exorcista” não é bem assim. Há momentos de susto, sim, mas esse não é o único recurso usado para causar medo. O choque, o nojo, a surpresa, a dúvida, o desprezo, a blasfêmia pesada. Tudo isso está ali presente, te dando muito medo, e ganha forma na aparência feia e repulsiva de Reagan possuída pelo demônio.
Os efeitos da possessão são gradativos e levam não só a pobre jovem a se deteriorar física, mental e espiritualmente, como também todas as pessoas à sua volta, principalmente a sua mãe. Chris procura todos os médicos e psiquiatras possíveis pensando ser o caso de uma doença neurológica ou qualquer outro distúrbio mental. Vendo que a situação da filha piora a cada dia, a última alternativa que sobra é chamar um padre exorcista. O padre Damien Karras, que também é psiquiatra, enfrenta problemas pessoais com a mãe e se mostra bastante cético no início, dialoga com Reagan possessa e não tem medo de enfrentá-la, justamente porque não crê que esteja conversando com um demônio.
O ponto é que, nesse filme, seja o espectador o melhor cinéfilo e crítico de cinema do mundo ou apenas um leigo que só está ali pela diversão e pelos calafrios, todos entendem que a coisa vai se tornando cada vez pior, mais grave e mais assustadora, até o ponto de ninguém mais negar que esse seja mesmo o caso de uma possessão demoníaca. Ainda assim, não é isso o que causa mais medo.
O mais perturbador de toda a história é que podemos encontrar um pouco (ou muito) da ação demoníaca de Reagan no mundo real. Não que vejamos alguém possesso todos os dias. Mas, é verdade que aquelas cenas de blasfêmia e sacrilégio explícitos chocam do mais fiel ao mais ateu, justamente porque representam com realismo o Mal, aquele que sente prazer em debochar, cuspir, mentir ou relativizar, em vulgarizar e perverter (no sentido sexual mesmo da palavra) não somente os símbolos religiosos, mas todos os outros símbolos, palavras e atos naturalmente bons. O Mal gosta de desfigurar os homens em todos os aspectos e, por fim, gosta de afastá-los de Deus.
Depois de “O Exorcista”, enfim, poucos filmes abordaram o tema da possessão demoníaca de forma tão inteligente e apavorante. Para os católicos, ao meu ver, esse filme mais nos aproxima do que nos afasta da fé. Apesar da repulsa e do medo, o filme nos abre para a possibilidade do sobrenatural — sendo católicos ou não -, nos torna sensíveis para o sofrimento de uma alma e, de certa forma, nos afasta do verdadeiro Mal, porque vemos quão repugnante ele pode ser.
“O Exorcista” é baseado no caso real de um menino de 14 anos, chamado Roland Doe. Vários padres participaram dos exorcismos do menino, nos anos 1940, e foram necessárias muitas sessões para que ele fosse finalmente liberto.
메타데이터
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- 2026-07-20 20:37:08