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A beleza e a loucura em “Parafuso na cabeça” por Rogério Skylab

Sexta-feira, 12 de junho de 2026. Finalmente fui ver o mestre Rogério Skylab ao vivo em uma das minhas casas favoritas, o grandioso circo…

Kayo Lopes · 2026-06-16 16:01 · 2 claps · 4.3 min read
#beleza #rogerio-skylab #música #skylab #loucura
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A beleza e a loucura em “Parafuso na cabeça” por Rogério Skylab

Sexta-feira, 12 de junho de 2026. Finalmente fui ver o mestre Rogério Skylab ao vivo em uma das minhas casas favoritas, o grandioso circo voador.

Antes de emergir na loucura do Skylab, acho válido destacar o simbolismo da data. Em todos os meus anos, nunca imaginei que passaria o Dia dos Namorados com um grande amigo, que outrora fora meu calouro por um breve período na minha graduação e hoje levo para a vida, e estaríamos contemplando João Gordo tocando clássicos da MPB, mas na sua versão “Brutal Brega”, e Rogério posteriormente. Algo bem atípico e curioso para uma data dessas.

Não me recordo com exatidão de como, mas me lembro de, durante a minha graduação, conhecer o Skylab e divulgá-lo para alguns amigos. A recomendação, na época, quase sempre era num ambiente de descontração e com tom cômico, coisa que, para muitos, é uma forma de resumir a obra desse cantor. Em uma dessas tentativas em que tentei convencer um dos meus colegas, nós estávamos nesse mesmo cenário. Na ocasião, eu citei a playlist referente às 100 mais tocadas no meu Spotify em 2018, visto que lá já constavam algumas músicas dele. E, ao usar isso como um dos argumentos para fazê-los ouvir, fui questionado uma vez: “Por que você ouve isso?” Eu quase sempre dizia achar engraçado. É importante destacar que até hoje eu acho cômicas algumas construções, desconstruções e, principalmente, quebras de expectativas que ele faz muito bem nas suas produções.

No entanto, de uns anos para cá, eu tenho cada vez mais entendido o porquê de eu gostar do Skylab. Primeiro, é preciso citar a habilidade e a capacidade instrumental da sua banda; são ótimos músicos e com grande repertório, algo que eu valorizo muito e me identifico de certa forma. Saber fluir do rock, do pesado, até o samba e a bossa nova com maestria não é para qualquer um.

Além disso, eu acho louvável quando alguém abraça o chocante, o diferente, o esquisito, e utiliza isso tudo como arte. Mas não é meramente lidar com o diferente apenas, é como você faz, ou não, isso. Reforçando o que eu disse anteriormente, é transformá-lo em arte; coisa que poucos sabem. Nesse cenário, eu gosto de alguns artistas que buscam o atípico, o ser estranho, ou, por vezes, o não ser. Aquele que fala do amor, mas de um jeito nada romântico. Ainda que não o viva ou faça o que sua arte narra, o artista que, com qualidade, trabalha esses temas e gera desconforto tem minha admiração, sejam eles temas escatológicos, marginais, pitorescos, assassinos, violência, entre muitos outros. O Rogério faz isso muito bem, desde as suas músicas mais abstratas até aquelas mais diretas; suas canções exprimem experiências sociais de uma maneira não convencional.

Na apresentação no dia dos namorados, o Skylab estava comemorando o aniversário de um dos seus álbuns mais ilustres, o “Skylab IV”. Ao saber do show, retornei a ouvir sua obra com mais frequência e, claro, ouvi esse LP na íntegra. Embora eu já ouvisse algumas músicas, ainda que com bem menos frequência que antigamente, confesso que fiquei travado em algumas músicas nas quais eu nunca havia dado muita importância anteriormente. Mas nessa nova escuta elas me marcaram de uma maneira diferente. Talvez por eu ser uma pessoa diferente do que era durante a graduação? Talvez!

Uma das músicas que mais me intrigou foi “Parafuso na cabeça”. Essa música trabalha a dualidade entre loucura e beleza. Nela são falados diversos procedimentos estéticos, sendo a maioria deles completamente comuns, desde colocar aparelho nos dentes até silicone nos peitos. Procedimentos completamente cotidianos para pessoas que buscam mais autoestima e uma melhora na sua estética, ainda que isso seja muito relativo. Contudo, ele vai escalando, sugere encostar um ferro quente na pele e, repetidas vezes, diz para pôr um parafuso na cabeça.

Essa recomendação de colocar um parafuso na cabeça muito me intrigou, visto que essa metáfora é geralmente usada para pessoas que são consideradas loucas ou que estariam fora de si, alguém que “tem um parafuso a menos”. Mas, nesse caso, há uma dualidade muito interessante, tendo em vista que a música cita diversos procedimentos estéticos, mas, em contrapartida, esse em específico, se usado metaforicamente, seria como uma dica grotesca para “ficar normal”.

A loucura e o belo são coisas muito questionáveis, sobre as quais eu já escrevi anteriormente, mas focando em como a linha do genial e da loucura pode ser muito tênue. No entanto, nessa canção, é trazido um prisma físico de como as pessoas buscam se diferenciar, se destacar e se alterar em relação ao outro. Nesse contexto, o que pode ser definido como louco? Injetar silicone nos peitos? Pôr um piercing na língua? Fazer peeling? Introduzir um córneo na testa?

Acho que a usabilidade, ou aceitação, de cada uma dessas operações no nosso cotidiano é bem distinta uma da outra. Assim, o que define uma alteração no corpo como uma loucura? Não seria melhor colocar um real parafuso na cabeça? Caso não gere um dano à sua saúde mental, ao menos, seria bem diferente e destacável. Por outro lado, seria bem diferente e esquisito morrer em virtude de colocar um parafuso na cabeça. Quais dessas pessoas estão precisando colocar um parafuso na cabeça? Eu realmente não pretendo dizer.

Seja um parafuso literal ou não, algumas coisas são vistas como bonitas e nada loucas, ainda que seja um procedimento invasivo e com um risco de morte altíssimo, apenas por estética. Nesse caso, não seria melhor apenas botar um parafuso na cabeça? Em contrapartida, há procedimentos que são esquisitos quando paramos para pensar sobre, mas possuem uma enorme usabilidade, ou até necessidade, por vezes, tal como um marca-passo.

Por mais inusitadas que sejam algumas recomendações de procedimentos, eu vejo nessa música uma grande reflexão sobre como o corpo e a beleza são coisas complexas e curiosas. E o grande Skylab busca sempre o extremo para poder proporcionar algo, geralmente algum desconforto. Alguém que canta sobre isso certamente tem um parafuso a menos, é alguém que precisa pôr um parafuso na cabeça. Assim como, quem consome suas artes e, também, reconhece a beleza no esquisito, mesmo que este esteja fugindo do que é belo.

Põe um aparelho no seu dente Coloca a argola na orelha Depois põe esse piercing na tua língua Injeta silicone no teu peito

Faz uma porção de tatuagem Encosta na tua pele ferro quente Imprime no teu corpo uma palavra E põe um parafuso na cabeça

Faz uma trepanação no cérebro Puxa, corta, rasga e aperta O teu sexo, o teu sexo

Faz um peeling, põe um marca-passo Se mutila todo e fica vesgo Introduz um córneo na tua testa E põe um parafuso na cabeça

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