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Crônica #4 — Fantasma no meu armário

Foto: Marcelo Gonçalves/FFC

PV Vasconcellos · 2024-03-01 18:54 · 0 claps · 1.9 min read
#fluminense #ldu #recopa #fantasma #armário
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Crônica #4 — Fantasma no meu armário

Foto: Marcelo Gonçalves/FFC

Foto: Marcelo Gonçalves/FFC

Cresci com um fantasma no meu armário. Sempre que o abria, lá estava ele, olhando para mim.

Me traumatizou em todos os momentos da infância e adolescência, até o início da fase adulta. Mesmo em momentos felizes, de pura celebração, como em 2010 e 2012, por exemplo.

Aprendi, com o tempo, a conviver com ele, que não me deixava esquecer que ainda havia uma ferida não cicatrizada que doía lá no fundo da alma. Uma ferida que, a princípio, jamais seria curada. Foi o que eu pensei durante muitos anos.

Veio o ano de 2023 para me desmentir. A Glória Eterna. No mesmo palco do fatídico 2 de julho de 2008. Momento único. Catártico. Que sonhei por quinze longos anos.

Corri para abrir o armário e dar adeus ao fantasma, mas, para minha surpresa, ele continuava ali. Enfraquecido, é verdade, mas ainda resistindo.

“Diabos! O que eu faço para te tirar daqui? Não tem como ser melhor do que isso, tem?”

Corta para 29 de fevereiro de 2024, quando o destino embrulhou para presente a história de redenção mais fantástica de todos os tempos para os tricolores do céu e da terra.

Fluminense e LDU é uma daquelas histórias que o universo traça e que são difíceis de explicar com palavras. Dois clubes destinados a se encontrar, mesmo em países separados por uma Colômbia e um Peru que formam um escudo e não os deixam se tocarem.

Coincidência ou não, o herói da noite vem justamente da Colômbia. Coincidência uma ova. Não acredito nisso. É o destino. Mais uma vez em ação.

Se em duas oportunidades, 2008 e 2009, o fantasma da sigla nos machucou e nos fez chorar, dessa vez tinha que ser diferente. Não havia outra maneira. A cura completa só viria dessa forma.

Precisou de longos 75 minutos de angústia e aflição para que Jhon Arias o olhasse nos olhos e dissesse: “Hoje não!”. Testada perfeita, longe do alcance do goleiro, para fazer vir abaixo um Maracanã em agonia.

Ainda não era o bastante. O fantasma lutava para seguir nos assombrando. A possibilidade de prorrogação e pênaltis crescia a cada minuto. Eu disse pênalti?

Foi assim que se iniciou toda essa cruzada. Era assim que tinha que terminar. No mesmo lugar. Do mesmo jeito. Na mesma trave. No mesmo canto. Dessa vez alto, indefensável, vingando um Coração Valente morto em batalha há quinze anos.

No apito final, um completo êxtase. O grito de alívio. O urro que fez desentalar três letrinhas da garganta que não desciam por nada.

Acabou. O último exorcismo que faltava.

Respirei fundo e abri os olhos.

Meu armário está em silêncio depois de 15 anos.

Esse fantasma não nos assombra mais.


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